Compreender bem demais provoca desespero, disse Miller

por Vanessa Souza – Lacan não é para ser lido ao pé da letra, e sim nas entrelinhas, ressalta sempre Selene Kepler, uma das maiores psicanalistas lacanianas que eu conheço. Talvez por isso, seja tão complexo. Jacques-Alain Miller, genro e intérprete da obra do psicanalista controvertido Jacques-Marie Émile Lacan, arrisca-se na tarefa de tornar o texto lacaniano mais assimilável.

Perspectivas do Seminário 23 de Lacan: O Sinthoma é uma compilação de doze lições ministradas por Miller, entre novembro de 2006 e maio de 2007, no Departamento de Psicanálise da Universidade de Paris 8, do qual é diretor. “O Sinthoma”, seminário de Lacan concluído em maio de 1978, trata da intratável obra de James Joyce. Lacan era inesgotável.

Para os que pouco conhecem Lacan – e, nesse caso, esta não é uma leitura recomendada, já que o livro é puro psicanalês – vale ressaltar que o psicanalista bebeu em muitas fontes para construir – e tantas vezes (re)construir – suas teorias: Freud, linguística, matemática, filosofia, cibernética (assim informa Miller, dessa eu não sabia) e estruturalismo. Esqueci de alguma?

“Avanço aos trancos e barrancos, sem rede, mas enfim, quando se é professor, nunca se cai – assim espero”, diz Miller na página 57. Faço o mesmo aqui, sem poder falar de Lacan usando seus matemas – e os matemas se aprendem como a matemática ou uma nova língua. Escrevo sem rede. Matemas, em grego, significa o que ensina. Para não arriscar tanto, pulo alguns capítulos e concentro-me no sintoma e em James Joyce.

Importante lembrar aqui que James Joyce teve uma filha esquizofrênica, Lucia. O escritor relutou muito em aceitar a doença dela. Por isso, a hipótese de que a “loucura” estivesse, com o perdão do trocadilho, ao lado de Joyce. Somos sujeitos porque nos constituímos no lugar do Outro, premissa máxima lacaniana, a grosso modo. Para Miller, é necessário que este Outro responda de alguma forma. É neste sentido que Lacan afirma que a singularidade do sinthoma de Joyce está no fato de não “enganchar” nada no inconsciente do Outro.

Aliás, segundo ele, é o que faz do sintoma de Joyce o sintoma por excelência, em suas palavras: o aparelho, a abstração, a essência do sintoma. Quer dizer que em Joyce há verdadeiramente… a negação da resposta do Outro. Não imaginaríamos perguntar a Joyce o que ele quis dizer aqui ou ali. (p. 80)

Miller afirma que Joyce trouxe um enorme traumatismo para a língua inglesa, pois se tenta transformar o discurso de Joyce em saber. No entanto, o discurso dele não é interpretável. Lacan disse que Joyce foi o forçamento de uma nova escrita. Forçamento, explica Miller, não é uma dedução, nem uma proposição. Joyce transformou seu sintoma em literatura. Ele recusou a análise. No último capítulo do Seminário sobre o sinthoma, Lacan diz que o que seria a falha estrutural presente em Joyce, aquilo que necessitaria de uma correção, é o seu próprio sintoma e passa pela escrita.

A definição do sinthoma é importante. Para Lacan, ele tem uma relação com o inconsciente muito mais complexa do que ser uma mera formação dele. O sintoma, diz ele, é o que há de mais singular em cada indivíduo.

O sintoma conserva sempre (…) alguma coisa que é levada ao ápice no que chamamos, e com o qual penamos: o diagnóstico. (…) O sintoma se oporia como singular a tudo o que o sintoma, em sua primeira acepção, comporta de generalidade. (…) O inconsciente não é o que há de singular em cada indivíduo.  (p. 136)

O sinthoma é o singular do indivíduo. Ele não desaparece, nem quando é interpretado. Em um de seus seminários, Lacan diz que o final da análise é sair de braços dados com seu sinthoma. Há que se viver com ele, sem padecer tanto.

Quase no final da obra, Miller afirma que quando procuramos compreender bem demais, isso provoca desespero. Termino a leitura de Perspectivas sem desespero. Apenas com uma certa tensão. Não compreendi em demasia. Lerei novamente para desesperar-me.

::: Perspectivas do Seminário 23 de Lacan: O Sinthoma ::: Jacques-Alain Miller :::
::: Jorge Zahar, 2009, 200 páginas ::: compre no Submarino ou na Livraria Cultura :::

  • http://www.arguta.blogspot.com Flavio Ferrari

    Vanessa,
    Muito bem escrito, mas um tanto caótico. Parece Jung tentando explicar Lacan.
    Uma mistura de crítica, resenha e projeção. Deve ter sido influência do Joyce.
    Mas também há que se considerar que apenas 2 dos meus 5 neurônios estão despertos a essa hora …
    Bj

    • http://www.amalgama.blog.br Vanessa Souza

      Flavio,
      Tente ler o livro e verás o quão “caótico” ele é.
      Já leste Joyce?
      Jung não explicaria Lacan, eles não eram amigos.
      Projeção? Bem, não concordo.
      Abraço e passe sempre por aqui ;)

  • Ana

    Gostaria de deixar um comentário não sobre o texto… Quero dizer a Vc Vanessa que tenho lido seu blog e estou apaixonada por ele…. não tenho blog e achei o seu por acaso… tenho aprendido tantas coisas com vc atrávez do seu blog… Parabéns…. Ele é maravilhoso….. e várias amigas ficaram interessadas e acabaram lendo ele também…. ele está salvo na barra dos favoritos…. sempre leio pela manhã….. Estou viciada….Rs…… Beijos!!!!

    • http://www.amalgama.blog.br Vanessa Souza

      Olá, Ana,
      Fico super feliz com comentários assim.
      Atualizo o blog sempre ao acordar, pode continuar a ler todas as manhãs :)
      Beijo.

  • http://www.umrealdeironia.blogspot.com Gabriela

    “O sinthoma é o singular do indivíduo.” (Beleza, concordo)
    Ele não desaparece, nem quando é interpretado. (Tudo bem)
    Em um de seus seminários, Lacan diz que o final da análise é sair de braços dados com seu sinthoma. (Tá)
    Há que se viver com ele, sem padecer tanto. (Hum)

    Vamos ao exemplo:

    “Tenho problemas em me relacionar com homens porque sempre procuro meu pai neles e nunca dá certo o namoro. E eu não tenho um bom relacionamento com o meu pai e me relacionar com homens assim seria uma forma de “reviver meu Édipo” que nunca voltará. Sei que isso advém do meu Édipo mal elaborado. Mas e daí? Evoquei o trauma Ics, elaborei a questão, mas continuo me relacionando mal com meu pai, e procurando homens com o seu perfil.”

    Dessa suposição, lanço a pergunta:

    Mesmo com o “casamento” com o sinthoma, o que fazer com a “demanda” do paciente? Ou para Lacan, o encontro com o sintoma já seria resolver a demanda?

    (Se não resolver é pq não encontrou o sintoma?)

    • http://www.amalgama.blog.br Vanessa Souza

      A demanda é transformada em outra coisa quando o analisante transforma a “queixa” – ou demanda – em questão. Quando se responsabiliza pelo seu dito e não dito.

      A psicanálise não funciona com exemplos fictícios, não é relativista. Cada pessoa é um universo, cada um responde de uma maneira à sua análise – ou não responde.

  • http://www.umrealdeironia.blogspot.com Gabriela

    Não é fictício, é um relato de uma paciente da minha orientadora. Isto de fato aconteceu.

    Então o que seria o “transformar em outra coisa”? Ainda sou apenas das leituras freudianas. Não compreendo Freud o suficiente para chegar em Lacan, por isso, a curiosidade. Essa “coisa” seria outro sinthoma?

    O psicanalês e sua extrema subjetividade… rs.

    • http://www.amalgama.blog.br Vanessa Souza

      Gabriela,
      Não vou me estender muito por aqui.
      Mande-me um e-mail com a questão:
      vanessa.sza@bol.com.br
      Devias ter feito exatas se querias objetividade, rs.
      Abraço.

  • http://www.umrealdeironia.blogspot.com Gabriela

    Não precisa mais. Vamos buscar a resposta no interdito, rsrsrs.

    Não vou levar em consideração a sugestão de mudança de área, até pq, por você não ter graduação em Psicologia e sim curso em/de Psicanálise, acredite mesmo que tudo na área seja subjetividade. Não é.

    É por isso que sempre escuto da minha orientadora de pesquisa (psicóloga e psicanalista lacaniana: Devemos aprender a nadar no raso para depois ir fundo)

    • http://www.amalgama.blog.br Vanessa Souza

      Nem Freud, nem Lacan fizeram psicologia. Eu acredito no inconsciente e na ética do desejo.
      Encerrada a discussão?
      Grande abraço e bom fim de semana.

      • Alessandra

        Vanessa, achei bem deselegante o seu “encerrada a discussao?” Foi um cala-boca meio desinteligente… artificio usado por pessoas que nao suportam a critica (no sentido justamente de discussao, argumentacao, troca de ideias) e soh ficam felizes quando todos concordam com o que dizem.

        Nao concordo com tudo que a Gabriela diz, mas ela levanta pontos relevantes, a meu ver, p.ex. quando diz que ‘nem tudo’ eh subjetividade. A seu ver, pode existir, vc concebe a possibilidade de, no cerebro ou no aparato psiquico existir alguma coisa, qualquer coisinha de objetividade ?
        Soh para constar: embora nao fossem psicologos, ambos Freud e Lacan eram medicos. E acho que esse era o ponto que Gabriela levantava.

        Bom, dito isso gostei muito do seu texto, incrivel mesmo, gostei do blog tambem vc escreve muito bem. O texto eh facetado, rico, muito legal, tanto que fui comprar o livro.

        Espero que nao se ofendas com minha critica ao seu jeito de responder os comentarios, minha intencao nao eh ofender, eh apenas agregar mais um ponto de vista.
        A nao ser claro, que seu blog tenha o objetivo exclusivo de conter seus textos, e nao seja um local apropriado para debates.

        um abraco e parabens pelos textos.

        • http://www.amalgama.blog.br Vanessa Souza

          Agradeço, Alessandra.

  • Ana Cecília

    Vanessa,

    Confesso que assustei-me quando havia me antecipado o tema desta resenha. Realmente há um senso comum (justificável, nesse caso) que defende que escritos psicanalíticos restrinjam-se aos profissionais da área, ou aos apaixonados não amadores. A despeito da difícil empreitada, foi com louvor que conseguiste o intento.

    Corajosa sua proposta de decifrar o “lacanês”. Para mim, completamente leiga no universo lacaniano, os conceitos e temas abordados na obra em questão ficaram bastante claros.

    Nunca espere unanimidade nos comentários, Vanessa. Ventos rodrigueanos já asseguravam que ela é burra. Pior quando o único argumento que resta para quem nos critica é a desclassificação, o demérito, pq é duro admitir nossas limitações cognitivas quando deparamo-nos com alguém intelectualmente superior a nós.

    Sua resenha está irretocável. Parabéns por ter conseguido ser tão clara e objetiva, apesar da complexidade do tema.

    • http://www.amalgama.blog.br Vanessa Souza

      Cecília,

      Lacan dizia que não escrevia para idiotas, rs. Boa frase.

      Obrigada. É sempre um prazer ler-te por aqui.

  • Pedro Gabriel

    Vanessa, bom ver Psicanálise por aqui. Em alguma das muitas curvas de sua obra Lacan diz que ler não nos obriga em nenhuma medida a compreender. Talvez tentar sistematizar ou esgotar seja a pior vereda lacaniana. Viva Lacan, Joyce, viva Guimarães Rosa, viva o Zen Budismo. Viva as epifanias carentes de sentido. Um abraço.

    • Vanessa Souza

      Viva, Pedro Gabriel :)
      Abraço,
      Vanessa

  • gilmar freitas carvalho

    sou doutor em teologia e doutorando em psicanalise
    acho que levantar debates sejam na área metafísica
    ,na área psicanalítica e outras provocam nossos aprendizados
    mas já és uma guerreira pós-freudiana
    num mundo de pluralismo de ideias e mensagens que também carecem de resenhas descritiva, crítica e temática

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