Presságio (Knowing)
por Ana Al Izdihar – Presságio: uma nova perspectiva da ficção científica para os antigos mitos da Arca de Noé, Apocalipse, Gênesis, anjos e deuses. Um filme à primeira vista bem pop. Porém, como quase toda estória que se apresenta como popular, ela está recheada de símbolos da coletividade.
O trabalho do diretor Alex Proyas, que estreou nos cinemas brasileiros dia 10 de abril, contem uma estória contada a partir de personagens americanos. Mas você me perguntaria: por que os EUA são (sempre) o país “escolhido” como centro da renovação de mitos em filmes como esse? Esses mitos também existem em outras culturas sob outras roupagens (vide Jung e Joseph Campbell). É verdade, porém não podemos esquecer que (quer concordemos ou não) os EUA são o império do momento (ok, tá tombando, eu sei…) e continua a divulgar os ideais baseados nos princípios judaico-cristãos. E a ciência? Ora, os grandes investimentos e pesquisas da ciência também estão lá e por que não renovar os mitos unindo as ferramentas que nos impulsionam a evoluir? Natural que a busca para nossas maiores questões através da fé e/ou da ciência seja representada pelo país que toma a frente desse debate.
Vemos então nessa trama aquilo que está arraigado no inconsciente coletivo americano: a fixação pela catástrofe derradeira. O medo do julgamento final é tema recorrente no cinema americano convencional e ele nos remete aos tormentos dos primeiros puritanos que colonizaram o país. Ao fazermos uma retrospectiva histórica lembramos que os primeiros moradores dos EUA eram governados por rígidos princípios religiosos e isso parece ter marcado a alma americana de um modo ou de outro. Como a sobrevivência era prioridade, os fiéis eram bombardeados com sermões a favor da dignidade advinda do trabalho árduo, do desprezo à futilidade das artes e do medo do julgamento final. E por mais que tenham saído desses enlaces mais primitivos, esse algo que restou em seu inconsciente tenta ser curado através das novas versões dos mitos acima mencionados, especialmente através de estórias de cunho apocalíptico. E mais, podemos ver o uso da ficção científica como uma tentativa de encontrar uma nova ferramenta para interpretar o sentido da vida.
Logo após o final da Segunda Guerra Mundial, momento em que os EUA partiram para uma guinada industrial (incluindo a de pesquisas astronômicas) que transformaram o país na potência que é hoje, os americanos se tornaram obcecados por estórias de ficção científica: discos voadores, extra terrestres, viagens no espaço e invasões vindas de outras dimensões. Durante a década de 50, quadrinhos, seriados de TV e filmes de Hollywood foram bombardeados por elas.
E é justamente nessa década que começa o enredo de Presságio. No final dos anos 50 uma escola pede aos seus alunos que façam um desenho do que eles acham que estará acontecendo dali a 50 anos. Somente uma garota não fizera um desenho, mas sim uma seqüência intrigante de números. No momento atual, na mesma escola, na mesma comunidade, as crianças do presente recebem as cartas do passado e a carta com os números vai parar na mão de um garotinho, Caleb Koestler, extremamente maduro e especial, filho de um professor de ciências, um astrônomo.
Nicholas Cage, interpretando o professor John Koestler, representa a ciência e seu eterno e mais comentado impasse: a vida e tudo o mais é fruto do acaso caótico ou de um sistema complexo e determinado? Ele “resolveu” acreditar que a vida era caótica e que a ligação entre as pessoas era também aleatória por ficar traumatizado pela morte da esposa – mesmo tendo que dizer para seu filho que a mãe está “bem” e num “lugar bonito” com um olhar de dúvida e não de quem está mentindo. Então, vemos que sua vida pessoal reflete o próprio questionamento da ciência. Os propósitos individuais e coletivos se encontram mais uma vez numa estória de cunho bastante popular.
John fica rapidamente intrigado pela cartinha com os números e começa a estudá-los para ver se fazem algum sentido… E o encontra! Parece que os números foram a única forma que a Existência encontrou para chamar a atenção de John para as mensagens significativas em sua vida. Mas a Existência deu-lhe vários sinais o tempo todo antes! A morte da esposa, o filho tão maduro que escutava barulhos estranhos, o pai que era pastor e profetizara durante toda sua vida exatamente o que a ciência iria dizer depois. Parece que quando se está cético ou “de mal” com a Existência é que se está na iminência de descobrir aquilo que o indivíduo renega. Ele não viu que tudo em sua vida já era um sinal do porvir. E por isso, paradoxalmente, ficou exposto ao questionamento. E nós espectadores descobrimos isso junto com ele, sendo assim a tentativa do enredo de nos colocar mais próximo da experiência do personagem.
John se sente ridículo por não conseguir explicar porque os números fazem um sentido! Mas na sua busca por essa mensagem secreta ele sai de seu casulo psicológico e o que passa o leva a decifrar os números e a vida como um todo.
Seu amigo cientista, cético e brincalhão, chega a dizer-lhe que, por estar triste pela morte da esposa, ele quer ver algum sentido nos números e por fim faz a ligação com os acontecimentos… Quando os números começam a fazer sentido, o mesmo amigo, Phil Beckman, fala em sincronicidade e desiste: “Eu, como cientista, não tenho mais nada a dizer. É melhor você deixar tudo isso pra lá”. Contudo, parafraseando Jung, “o que a ciência determinista parece se esquecer é da alma”, ou seja, o impulso vital, o “comichão” inerente ao ser humano pelo sentido das coisas. A capacidade de encontrar significados no caminho da evolução é que nos faz crescer; no final, o significado literal nem tem tanta importância. Como diria Buda: “O importante não é o destino da viagem, e sim a jornada”.
A sincronicidade não existe sem a interação com a alma do indivíduo e sua inserção no coletivo. Ela existe e acontece o tempo todo, até que num momento o indivíduo tem um insight ou ouve o chamado e percebe a ligação… Aliás, quer ver um filme que explora muito bem o processo de individuação, insights e principalmente sincronicidade, veja então Magnólia.
O determinismo científico vem nos paralisando e nos deixando escravos de conceitos estáticos, cegos, surdos ao significado maior. A verdadeira ciência não separaria experiência individual da coletiva, e sem a vontade de transcendência e de ver além, não há evolução, nem científica, nem da fé (não religiosa), nem da própria vida. O que John experimenta derradeiramente é o insight (despertar) sobre a seqüência lógica da vida, representada pela seqüência dos números e a montagem do grande quebra-cabeça da sua existência e da de todos. Tudo passa a ter sentido.
John não ouviu o chamado após a morte da esposa… E por isso não é o escolhido. Porém, seu filho sim, sempre ouviu e era desde sempre um dos escolhidos.
*
Há uma série de outros símbolos ao longo da narrativa que complementam a grande metáfora – o título resume a busca e o encontro do significado pelo nome em inglês Knowing, que é simplesmente saber; explicações literais não confortam, quando você descobre algo, você simplesmente sabe. As duas janelas em forma de mandalas na casa de John são significativas. A da sala de John é apagada e inerte (ele não vê os sinais!), enquanto que no quarto de Caleb se consegue ver paisagem e outras “coisas”. Ao estudar as mandalas, Jung percebeu que é o desenho mais antigo que nós seres humanos usamos para representar o total significado de nossas vidas.
As previsões podem significar estar mais perto de todos, da comunidade, da humanidade. No momento dos acidentes todos estão vestindo o mesmo tom de roupas (preto, branco, cinza). Aliás, o figurino é escuro, talvez indicando que numa busca de sentindo para a vida e no momento de grandes perdas, todos são iguais. Há um momento em que vemos um par de animais e a árvore da vida e percebemos a alusão aos mitos antigos conhecidos. Várias cápsulas de naves indicam que outros foram levados e os seres que os levam tem uma aura bem expandida como asas de anjos…
Bem, não é possível citar todos os símbolos que percebi, porém vou terminar com uma lista intrigante do significado dos nomes dos personagens. Serão propositais ou estou lendo demais? Vocês decidem. Vão ter de ver o filme para saber…
* Lucinda Embry = Lucinda (aquela que carrega uma luz) Embry (brasa que se apaga).
* John Koestler = John (João, o arauto do Apocalipse) e Koestler (provedor, nome judeu antigo).
* Caleb Koestler = Caleb (chefe escolhido por Moisés para vigiar a terra prometida) e Koestler (filho, sucessor provedor).
* Diana Wayland = Diana (a deusa arqueira, caçadora, luz da Lua) e Wayland (caminho para a terra (prometida?).
* Abby Wayland = Abigail (antigo nome judeu significando a alegria do Pai, e era a 3ª esposa de Davi, ou seja a 3ª da geração que era a escolhida) e Wayland (caminho para a terra).
* Phillip Beckham = Phillip (que ama cavalos) e Beckham (enraizado na terra onde cultiva). Um cara terreno, sem devaneios, literal.
[veja o trailer]
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![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)








Uuhh…Ana….veja…é só um filme, sacou?
Just a f$#%ing movie! Nothing else.
Alguém aí já assistiu Sinais, com Mel Gibson? Talvez esse seja mais “profundo”, mas a sacada é bem parecida. Aliás, muitas vezes essas coisas é que dão graça a um filme.
O ponto negativo são pessoas que levam os filmes mais a sério do que merecem. Geralmente, ao aparecerem os créditos finais, ficam se perguntando: Será?
parabens pela opiniao, para mim um dos melhores filmes q já vi, a musica do filme é incrivel, dando tons como o iluminado, ritcok sei la como se escreve.
a parte da aura espandida como asas de anjo tb vi.
Se vc definir deus, tradizindo do grosso modo é algo ou alguem mais evoluido ou energia e pq naum alienigenas?
Olá Henrique,
Realmente é um filme, digamos, bem dirigido e a produção é acurada. Não foi um dos melhores filmes que já vi, mas a estória é popular e está muito em voga. Misture isso com a boa produção e ele causa um impacto mediano.
Não entendi se sua última frase foi uma pergunta direta ou somente retórica… Mas vou tentar de responder: eu procuro não definir deus e não acho que estamos sozinhos no universo.
Que bom que você participou do Amálgama! Venha sempre!
Somos cúmplices, Ana.
eu gostei do teu nome, depois vi que gostamos do mesmo filme e fizemos uma leitura parecida.
adoro anas.
minha filha se chama uma
karenina
vc é Al Izdihar
que deve significar alguma coisa em iídiche (rsrs).
nao achei cafona os ets levantando as asas no final
acho que tem coisas no ar
e nao sao apenas papagaios
JORGE
Sabia que Ana é o nome de mulher mais antigo do mundo e existe em quase todas as línguas, pelo menos uma variante? Al Izdihar é árabe e significa “a próspera”. Bem, fico contente que tenha participado do Amálgama e compartilhado sua leitura.
Aos outros participantes aos quais não tive chance de responder, aí vai:
ENERALDO
Essa é a maneira que escolhi para analisar filmes através de vários anos de estudo acadêmico, acompanhando alguns mestres meus. Não estou aqui para impor minha leitura a ninguém.
Se você acha realmente que é só um filme (me recuso a repetir o palavrão em inglês que você tentou omitir) por que lê artigos críticos? Você tem todo direito de discordar da minha leitura, though!
MAROK
Não entendi suas colocações… “talvez esse seja mais profundo…” Qual é mais profundo? Preságio ou Sinais? Quais “coisas” que exatamente dão graça a um filme?
O ponto negativo de quem? Das pessoas que vão assistir a um filme e acham que a ficção é verdade? Do filme em si? De quem escreve um artigo?
Bem, eu não subestimo espectador nenhum! Acho que o século XIX, em que os espectadores saíam correndo da tenda do cinema por pensar que o trem do filme iria passar por cima deles, já passou. Estamos no século XXI e já temos um público muito bem alerta pra saber a diferença entre ficção e realidade.
O que fica é: “gostei do filme” ou “não gostei do filme”, “achei isso” ou “não achei isso”.
Obrigada pela participação de todos e pelo sempre bem-vindo “feedback”
FANTÁSTICO O SEU TEXTO SOBRE O FILME PRESSAGIO.
TAMBÉM ACREDITO QUE É MUITO EGOÍSMO ACHARMOS QUE ESTAMOS SOZINHOS NO UNIVERSO. O NOSSO PLANETA É APENAS UM CISCO!
TAMBÉM ACREDITO NUMA FORÇA SUPREMA QUE NOS SUGERE O QUE FAZER O TEMPO TODO, NOS GUIANDO POR CAMINHOS A, B OU C.
MAS, POR QUÊ SOMENTE ALGUMAS PESSOAS TEM ESTE INSIGHT? PORQUE EXISTEM PESSOAS QUE SÓ CONSEGUEM VER NESTE FILME APENAS UM CONTO DE FICÇÃO-CIENTÍFICA?
POR QUE O NICOLAS CAGE, TOM CRUISE, BRAD PITT, BRUCE WILLIS, TOM HANKS E WILL SMITH SEMPRE FAZEM FILMES ASSIM? SERIAM ELES ESCOLHIDOS PARA NOS MOSTRAR O QUE OS NOSSOS PEQUENOS OLHOS NÃO VEEM?
Orlando,
é difícil saber por que certas pessoas têm insight e outras não… Acho que tem a ver com a motivação interna. Percebo que as pessoas mais propensas a insights são as questionadoras (óbvio).
Porém, a natureza dos insights é infinita, as pessoas não precisam andar pelos mesmos caminhos para ter insights. Até cientistas racionais e ateus têm insights.
E na minha opinião pessoal todos nós somos necessários na Existência: os que acreditam em algo mais e os que não acreditam. Os atores que você citou fazem filmes desse gênero, mas acho que todos os atores do mundo são mensageiros de “algo mais”.
Olá! Achei muito bom essa sua visão sobre o filme,logo percebo que tens uma
mente muito aberta e eloqüente.Parabéns!!
Gostei muito do seu texto me ajudou bastante em um trabalho sobre o filme …Parabens viu?! Beijos
Gostei do texto, com certeza o filme tem muitos simbolos, assim como os outros filmes de ALEX PROYAS e do proprio Nicolas cage, se voce tiver oportunidade leia V DE VINGAÇA, escrita por ALAN MOORE, realmente a uma ligaçao entre os notaveis, em V DE VINGAÇA , MOORE nos brinda com uma obra excelente, e ha uma alusao aos experimentos com LCD, e o nome ARTHUR KOESTLER, o escritor, e´ citado nos explicativos da graphic novel, assim como o de outros. Assisti ontem ao filme, e considero sem duvidas digno de discussao, e por ser um filme norte-americano, esta muito acima da media, o coelho branco ,casal, seria uma referencial a pascoa, ou , crescei sejas fecundo e multiplicai-vos. Ha muito mais no filme, assim como em Magnolia, de Paul Thomas Anderson, com suas referencias ao exodo biblico.
Exatamente perfeita a percepção sobre o filme em questão, e com você disse que pena muita gente fecha os olhos e a mente pras coisas de Deus. Os sinais estão a todo o tempo aparentes, mas o ser humano não o enxerga espera por um acontecimento cataclismico quando o pode evitar, o fim do mundo já começou a degradação da humanidade está ai o renascimento do planeta já começou, se apartir de agora não começarmos a refletir sobre nossas atitudes sobre oi que estamos fazendo pra mudar nossas vidas, nosso modo de viver, nosso planeta, estamos perdidos!!! Precisamos despertar, o INSIGHT acontece com todo mundo mas muita gente por despreparo não sente, não permite acontecer não o quer pois tem medo, o que move o ser humano principalmente é o medo de descobrir o desconhecido, mas alguma hora eu você todos nós estaremos do outro lado, estaremos em um lugar desconhecido e perdidos pos não termos nos interessado enquanto era tempo e buscar os ensinamentos do CORDEIRO, tentemos refletir, preocuparnos mais com nossas vidas com o que de bom estamos fazendo com o coração aberto, preocuparmo-nos com nossos irmãos e com nossa morada, nosso planeta e rezar a DEUS todos os dias agradecendo a oportunidade de estarmos aqui e de tudo de bom e ruim que nos acontece pois é o caminho da evolução e do aprendizado que foi escolhido por nós mesmos!!!!! Façamos hoje o que queremos pro amanhã!!!! Acredite tudo o que acontece também é de sua responsabilidade seja aqui no seu país ou em outros ou até mesmo no astral!!! Que a Luz esteja com vc!
Eu ameeei esse filme, até chorei no final porque o Caleb se separa do paai delle e a Abby perde a mãae , maaiis valeu a penaa assistir, éeh uma coisa que parece ser muuuuuuuito realista !
o pai deveria ir com o menino e a mulher não ter morrido e ir com eles também
Ana, também sou sua chará e concordo com tudo o que você disse. Realmente a única coisa que a ciência ainda não desvendou é a existência da alma. Essa a ciência terá que dar razão a religião, embora os espíritas sejam parte de uma ciência e não de uma religião guiados por Alan Kardec que era um ciêntista e não um pastor. Mas em relação ao filme, eu adorei! Para mim o diretor Alex Proyas foi muito feliz neste filme que prende a nossa atenção e nos remete a uma consciência do mundo e de nossos próprios atos, fazendo um paralelo entre ciência e religião e terminando com chave de ouro, nem preciso falar dos efeitos especiais. Respeito a opinião de todos, mas para mim esse filme ainda será o melhor, melhor ainda que 2012, não porque adoro o Nicolas Cage, ao contrário do Cuzack, mas porque gosto de filmes que retratam fatos que estão aí, mas que ainda existem pessoas que se negam a ver. A final como já dizia Shakerpeare “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”.
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