Moral da história: entrevista com Luiz Biajoni
17–04–2009 --- Envie para um amigo --- Tuitar
a Juliana Dacoregio – Luiz Biajoni é comunicador por natureza e escritor por vocação. Só pode. Trabalhar em assessoria de imprensa, TV, rádio, ministrar aulas e palestras, escrever blogs e para blogs (como o Amálgama), prestar consultoria e ainda arrumar tempo para escrever e lançar livros é coisa pra quem tem muito amor à arte. Arte de contar histórias, de ensinar, de dividir com os outros, de forma despretensiosa e acessível, aquilo que imagina, vê e percebe. Ao lermos seus livros e nos depararmos com aquilo que tantos falam sobre ele e suas obras, percebemos que se trata de um dos melhores da nova geração de escritores brasileiros (ou não tão nova, diria ele). Sabe ser simples sem cair no banal, sabe tratar de sexo sem derrapar no pornô barato. Nesta entrevista, ele fala de suas inspirações, revela o propósito de sua obra e divide com os leitores o que se pode esperar do novo livro: Buceta – Uma novela cor de rosa.
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Amálgama – Por que você escreve?
Luiz Biajoni – Porque vejo muita coisa interessante e reparo e acho incrível e fico fazendo historinhas com essas historinhas cruzadas na minha cabeça e também porque acho fácil escrever e contar essas coisas. Aí invento um pouco em cima e sempre acho que fica bom. Como algumas pessoas também acham, escrevo.
Chegou a enviar originais para grandes editoras e passar por aquele processo de sofrer esperando uma resposta e encarando negativas ou partiu direto para a edição independente?
Mandei meu primeiro livro, Sexo anal, para 16 editoras, nenhuma quis publicar. Recebi umas cartinhas padrão, mas desconfio que ninguém leu. Na verdade, acho que alguém da Conrad e também da Azougue leu. Mas ninguém se interessou em publicar esse título chocante. (E eu juro que queria ter outro título para o livro, mas “Sexo anal” era meeesmo o título mais apropriado). Aí conheci o maluco do Branco Leone, da OsViraLata, me apaixonei, ele virou meu editor.
Por mais que um aspirante a escritor – ou um escritor ainda não publicado – saiba o quanto é ilusória a idéia de “viver de literatura” no Brasil, você tem, ou já teve, essa pretensão?
Nunca. Nunquinha. Ao mesmo tempo, acho que só quem faz algum tipo de arte com verdade, sem esse tipo de pretensão, pode acabar conseguindo viver dela. De certa forma, vivo da minha escrita, fazendo textos e mais textos, assessoria de imprensa, escrevendo coisas para terceiros… Mas a minha literatura, faço por prazer e por achar – ou saber – que ela significa alguma coisa nos dias de hoje. Como dizem no mundo corporativo, ela “tem um diferencial”, hehehe.
Julio Daio Borges tem dois artigos publicados no Digestivo Cultural que defendem, com veemência, que publicar em papel é “uma tremenda fria” e que muito da realização pessoal que se espera conseguir com a publicação de um livro, a internet já oferece de graça, dando a possibilidade de escrever e ser lido. Muitos outros jornalistas, autores e blogueiros afirmam o mesmo. Você concorda com isso? Acha que publicar em papel é mais um questão de “vaidade” do que qualquer outra coisa?
Antes de publicar no papel, botei Sexo anal para download. O livro foi baixado mais de 10 mil vezes, ainda mais depois de uma crítica elogiosa n’O Globo… Mas isso foi há cinco anos, na pré-história da internet (na verdade, na mezzo-história, né?). Acho que muita gente leu Sexo anal, e os que não leram me conhecem de blogs e comentários e daqui e dali na rede. Meu segundo livro, Virgínia Berlim, é uma experiência que precisa de algo além do livro, precisa da trilha-sonora que acompanha o livro; então saiu no papel, com o CD. Com esse novo livro, pretendo colocar para download gratuito assim que acabe a primeira edição. Acho justo que as pessoas que gostem do livro físico tenham a oportunidade de tê-lo.
Aconselharia a um escritor iniciante que bancasse uma edição de autor ou que tentasse a sorte primeiro em editoras?
Quem sou eu para aconselhar, já que vejo tantos iniciantes com livros pela Cia das Letras… Não tem regras: tem a sorte, tem o caminho e a literatura que você escolhe, tem o tempo de maturação teu e do teu público para você sair e ser lido. Se eu escrevesse algo cabeça, um desses livros que saem na Bravo, ou algum auto-ajuda que aparece na revista Vida Simples, talvez conseguisse uma grande editora.
Você afirma no blog de divulgação de Sexo Anal que alguns personagens coadjuvantes foram inspirados em conhecidos seus e que fatos narrados lá realmente aconteceram. Você poderia dizer o mesmo de Uma novela cor-de-rosa?
Sim. Meus livros são roman-à-clef, têm sempre um substrato de realidade, personagens que realmente existem ou existiram. Acrescento uma coisa ou outra de ficção – para não deixar a realidade muito incrível. Aí me chamam de exagerado.
O sexo é um elemento primordial nos seus livros. A Novela cor-de-rosa continua o mesmo estilo despudorado? Por que falar tanto sobre sexo?
Eu não falo de sexo, isso é uma chatice. Tem a Toni Bentley, que fez um livro inteiro falando de sexo anal. Nos meus livros, os personagens fazem sexo. Nas novelas da Globo os casais normais deitam na cama e há um corte e eles aparecem tomando café no dia seguinte. As novelas globais são campeãs em café-da-manhã. Nos meus livros, nessa elipse televisiva existe o sexo, pois os casais fazem sexo. Quer dizer, alguns. E também fazem em escadas de serviço e elevadores e terrenos baldios. Fazem quando estão loucos de pó e quando estão querendo companhia. Fazem com parceiros ou com amantes, com pessoas do mesmo sexo ou com animais. Sexo, já disse aquele vetusto, é uma mijada, uma necessidade fisiológica que some nas novelas. Nas minhas, ele ta lá – mas não é o protagonista.
Você já comentou no Twitter que sua mãe perguntou quando você vai escrever um livro com título decente. Não tem medo de chocar demais família, amigos e colegas de trabalho?
Tenho. Eu sou um cara normal, com família e duas filhas. Quando alguém me olha por cima dos óculos e diz: pô, precisava de um título assim? Eu respondo: amigo, leia o livro e vê se você acha um título melhor! Pergunto a você, Ju, que leu Sexo anal: o título é ou não perfeito para o livro?
Não, não tem título melhor – pela forma como foi usado e pela qualidade da história, o título até perde a agressividade e torna-se cult e divertido. Mas por que preferir títulos beirando o chulo? Afinal, a associação que se faz entre “anal e marrom” não é das melhores e “buceta” é considerado um palavrão, “dirty talk”, um termo que não se usa em qualquer situação.
Com Sexo anal eu tinha uma ambição: levar para o romance contemporâneo o conceito de jornalismo marrom. É por isso que o título tem esse subtítulo, embora a associação com merda também seja interessante, nesse caso. Buceta, o nome real do livro novo, que está sendo apaziguado até mesmo nesta entrevista, é, na verdade, um tabu. Quer dizer, podemos encontrar em qualquer prateleira “Os cus de Judas” ou vários títulos que brincam ou fazem aliterações ou sublimam o sexo e seus órgãos, mas escrever diretamente o nome do órgão feminino na versão coloquial, de rua, torna-o “chulo”. Para mim, seria um acinte chamar esse livro de “Vagina”. Se quisesse chamar a atenção, chamava o livro de “A política do buraco” – e vendia como um livro pornô. Me ofende quem acha que eu sou burro ou que quero fazer marketing em cima do nome: o livro tem esse título porque é o melhor. Faço o desafio: leia e ache um nome melhor – e eu mudo.
Alex Castro rasga elogios pra você e diz que “Sexo anal tem uma força e uma vitalidade, uma conexão com aquela massa primordial da vida, que a literatura hoje em dia simplesmente perdeu”. Foram publicadas mais de 50 resenhas na internet exaltando Sexo anal. Quando você está escrevendo, você percebe que está tecendo uma prosa tão interessante, fluida e impactante? Consegue ter o distanciamento necessário para avaliar o que você mesmo escreve?
Não, não acho nada disso. Eu gosto de contar histórias, quando tenho uma história realmente interessante quero sentar e ficar horas digitando e costurando tudo, meio artesanalmente, e espero sempre me divertir pra cacete nisso – senão vou pro buteco, jogo bilhar, truco, brinco com Lia, cozinho pros amigos, vou namorar minha mulher… Escrever tem que valer a pena pra mim, pra quem vai ler… Eu realmente acho meus livros legais e me assustei com a repercussão de mais de 50 resenhas na rede falando bem de Sexo anal… O Alex é grande amigo, um dos grandes escritores-pensadores que temos hoje na rede, um dos que me deram força para continuar escrevendo. Ofereceria Buceta a ele, se eu fosse viadinho.
Você faz algum tipo de pesquisa para escrever seus livros?
Alguma. Pouca. Trabalho na imprensa de cidade pequena há muito tempo, conheço algumas mumunhas. Buceta tem uma trama que tem a ver com desmanches de veículos e peças usadas que acabam em concessionárias autorizadas, uma prática que está na mira da Polícia Federal. Pesquisei um pouco sobre isso para o novo livro.
Quem já leu suas duas obras, pode esperar o que de Buceta, em termos de semelhanças e diferenças narrativas e de personagens?
A idéia era fazer uma continuação de Sexo anal, mas achei que não ia dar certo. Usei alguns personagens e criei uma trama independente. Tentei entrar no tom narrativo, mas fiz alguns desvios experimentais. O livro tem 25% menos páginas e metade do número de personagens. Em Sexo anal a trama se desenvolve por cerca de um mês, em Buceta tudo acontece em praticamente três dias. Mais enxuto, mais nervoso, mais direto, mais vibrante. Essa era a idéia.
Houve alguma fonte de inspiração especial para a produção de Buceta? Livros, autores, filmes?
No blog do meu primeiro livro falo sobre as referências para ele, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca, etc… Para Buceta tentei buscar certa originalidade, joguei fora as referências.
Fala um pouco sobre a personagem central de Buceta.
Não há um personagem central, mas dá para falar sobre essa mulher, dona de uma grande concessionária de veículos, linda, loira, casada com um homem impotente, que manda na cidade, paga a publicidade dos jornais, compra juízes, a polícia, os vereadores e é cobiçada por todos os homens. É a “Dona Buceta”. (Mas não se engane, não é por causa dela que o livro tem esse nome.)
Usaria ou já usou aspectos de sua própria personalidade para dar vida aos personagens?
Sim, alguns personagens têm traços da minha vida e da minha personalidade.
Se seus livros fossem filmes, quais seriam os diretores?
Para Sexo anal, Marcelo Laffitte. Para Virgínia Berlim, Pedro Novaes. Para Buceta, Carlos Reichenbach.
Já tem outros projetos de romances fervilhando no mundo das idéias?
Em outubro espero lançar “Elvis e Madona – Uma história de amor”, durante o festival de cinema de Brasília, quando será lançado o filme de mesmo nome de Marcelo Laffitte. Espero que tudo dê certo, que dê tempo de finalizar o livro, que fique legal e que todos gostem. Tenho também um projeto para 2010 de um livro chamado “Dois caninos” e um livro pronto, não sei o que faço com ele, chamado “Rogério – Porteiro de zona evangélico”.
E, enfim, prefere Sexo Anal ou Buceta?
Sexo anal sempre será meu primeiro livro, aquele que consegui realizar e finalizar… Buceta é o trabalho que está fervilhando nesse momento e sobre o qual quero falar. Mas, em se tratando de sexo, vale tudo!
[leia um trecho de Buceta, aqui mesmo no Amálgama]
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5 comentários:



O mais interessante é que o Biajoni tem cara de escritor russo do século 19. E é porque na foto do post ele não tá de óculos…
onde vc arrumou essa foto?
:>)
Perfeito!!
Sue
Du caralho!!!
[...] que não poderia mudar é o título. Não poderia mesmo ser outro, como o próprio autor afirmou em entrevista aqui no [...]