Momentos definidores das nossas vidas
por Camila Pavanelli – Para quem ainda não sabe, a vida é sonho, desespero e desilusão. Eis um breve inventário de momentos definidores do progressivo desencantamento com o mundo que se vai instalando num ser humano em vias de tornar-se um adulto plenamente constituído:
Quando deixamos de acreditar em Papai Noel: quando o Papai Noel contratado pela família está meio bêbado e deixa entrever seus cabelos perfeitamente pretos por debaixo da peruca branca.
Quando deixamos de acreditar em Coelhinho da Páscoa e, de quebra, na nossa própria inteligência: quando nossa mãe ri ao nos ouvir dizer que o Coelhinho, na verdade, é apenas um homem com máscara de coelho contratado para distribuir chocolate pelo mundo. Nessa hora morremos de vergonha – menos por perceber que o Coelhinho é nossa própria mãe que pela constatação de que nem tudo na vida se resolve por raciocínio analógico. Se Papai Noel é um profissional liberal, isso não quer dizer que o Coelho também deva sê-lo. O fato de Papai Noel ser um profissional liberal indica, simplesmente, que Papai Noel é um profissional liberal.
Quando deixamos de acreditar no Jornal Nacional: quando William & Fátima passam o programa inteiro chamando a atenção do espectador para a sensacional reportagem a ser exibida no final do programa, e a reportagem mostra um ursinho panda chupando picolé no Alasca.
Quando deixamos de acreditar na revista Veja: quando colocam na capa uma caricatura do Marx como o próprio demo (preguiça infinita).
Quando deixamos de acreditar no grande jornalismo cultural brasileiro: quando o repórter que cobre o show do João Gilberto não apenas não reconhece a canção Lígia (até aí, tudo bem, afinal o nome é repetido na música só umas vinte e cinco vezes) como escreve que João tocou uma música inédita dedicada à sua amada Gilda.
Quando passamos a rir do grande jornalismo cultural brasileiro: quando sai no jornal que Joe Zawinul entrou para o Pat Metheny Group para tocar percussão (seguimos no aguardo do dia em que irão noticiar a entrada de Chico Buarque na banda do Caetano Veloso para tocar apito).
Quando deixamos de acreditar no grande jornalismo brasileiro como um todo: quando reabilitamos o raciocínio analógico descartado em nossa infância para notar que, se sobre o assunto que entendemos um pouco somos capazes de encontrar tão divertidas afirmações em nossa gloriosa imprensa, quantas outras não devem abundar nas seções do jornal dedicadas aos temas sobre os quais efetivamente boiamos (isto é, todos os outros).
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[...] here, you might want to subscribe to the RSS feed for updates on this topic.Powered by WP Greet BoxVão lá e descubram como o cinismo se apoderou de minhalma. E pensar que tudo aquilo foi antes de eu viciar [...]
Seu artigo é muito interessante e pontua bem algumas situações a que estamos sujeitos neste mundo doido e despreparado de hoje. A questão do papai noel ou do coelhinho da páscoa não me preocupa muito. Agora, é triste ver jornalistas tão ineficientes tratarem de assuntos que não têm o mínimo conhecimento. Da revista Veja já me libertei há muito, não há como levar a sério. É tão tendenciosa que enoja. Já o JornalNacional é mais perigoso porque atinge milhões de brasileiros todas as noites e é formador de opinião. Que tristeza!!! Não sei quando isso vai mudar, mas um dia espero que mude. Talvez meus netos possam usufruir de um jornalismo mais digno e edificante. I hope so!!
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Bastante interessante sua lista de momentos em que perdemos a esperança com determinadas questões de nossas vidas. Passei por muitas delas, e outras tantas.
Não só o jornalismo está envolvido nisso como também outras áreas do conhecimento. Quer dizer, conhecer implica desiludir um pouco. Não sei até que ponto uma desilusão nos faz perder a esperança, é questão para reflexão.
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Como dizem, a mídia não informa, ela disforma.
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Pois é, confundir Lygia com Gilda é o fim, mas o pior é o jornalista inventar que João Gilberto tocou “Gilda” em homenagem à sua amada?!?!… E aí não tem jeito: quando o profissional começa a inventar, a encher linguiça porque tem que completar uma lauda, só pode acabar passando ridículo. E na verdade, eu mesmo não sei se entre as amadas de sua vida João Gilberto teve alguma chamada Gilda, mas definitivamente sei que ele jamais tocaria alguma música em um show como “homenagem” a uma amada (ainda por cima com o nome trocado), porque ele jamais declararia isso: a presunção é toda do repórter. E que repórter!…
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camila:
gostei dos desencantos.um desencanto forte que eu tive foi quando soube que o daniel aqui do amálgama não é adepto de poesias.
romério
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É para a felicidade geral dos poetas, Romério :-p
Quanto aos desencantos da vida, o meu maior foi quando vi o Papai Noel levando uma queda e xingando. Com a imprenÇa eu nunca me desencantei porque nunca tive tempo de me encantar mesmo.
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A globo é nosso “grande irmão”. Mas temos um inimigo bem mais letal: a “justiça” com os seus Gilmares.
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Tb. acho Camila, a vida é sonho, desespero e desilusão, mas, por tudo isso e algo mais tb. é amor, por isso como disse alguém aí no Amálgama: Por isso eu vou amar até surtar.
bjo. pra todos os sonhadores, desesperados, desiludidos e os felizes amantes.
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