In Nação: Dia do Índio
por Suelen Viana * – Dizem por aí, as famintas e curiosas línguas ávidas de saber, que nação é uma palavra derivada do latim natio, de natus (nascido). Muito bem, o que quero dizer hoje está (pelo menos desta vez) ao alcance da língua que por ventura aprendi a falar e tomar como minha: a tal língua luso-brasileira. Nascer no Brasil é tornar-se imediatamente um brasileiro.
O nascido no Brasil se torna natu-brasileiro e mergulha num rio de possibilidades nacionais predeterminadas, primárias, “prinatas”. Este é o nosso primeiro mergulho nas águas turbulentas do poder que emana da natureza humana. A força da natureza humana é uma migalha da força da mãe natureza. A natureza humana não tem o poder natural de mover montanhas, causar tsunamis ou erodir furacões. A força da natureza humana se revela notavelmente no exercício do poder subjetivo e abstrato, para a geração de consequências visíveis e concretas.
A força da natureza humana se exerce no seio da comunidade das gentes. É aí que entra a polêmica discussão acerca do índio no Brasil, das legítimas nações indígenas que aqui estavam antes das caravelas portuguesas lideradas por Pedro Álvares Cabral fincarem em “suas costas”, em 22 de abril de 1500, as suas bandeiras cristãs e logicamente (estavam em páscoa) rezarem sua primeira missa, a 26 de abril do mesmo ano.
Quando nasceu o Brasil? O Brasil nasceu quando a soberania indígena por aqui morreu. Nasceu em 22 de abril de 1500. Nasceu aí a nação brasileira que de Ilha de Vera Cruz, mudou para Terra de Santa Cruz, que finalmente se assumiu como Brasil – o país continente. De pequeno ficou grande, espaçoso e imponente.
E as nações indígenas? Nasceram por aqui, já tinham seu recorte no tempo e no espaço, já eram nação antes mesmo de se conceberem como tal. Eram donas “inatas” destes lugares, tinham suas próprias políticas, seus próprios domínios e conceitos de paz e guerra. As nações indígenas não foram inventadas pelos brasileiros, elas antecederam os brasileiros. Portanto, como podem ter sido assim engolidas pelo recém nascido e monstruoso Brasil? Responda a estas perguntas quem puder em poucas palavras explicar a natureza da nossa humana força bruta.
As nações indígenas em território brasileiro hoje são por força política e econômica parte inalienável da Nação brasileira. Nasce-se índio, mas acima disto está o chão que você pisa e este chão te batiza como brasileiro. Na mesma condição estão os milhares de brasileiros que aqui nascem todos os dias e que são descendentes de outras “etnias”.
Diante disto, como fazer para exercer uma política nacional e soberana cujo poder não massacrará nem alienará o direito ao culto e liberdade de cada um que nasce neste berço esplêndido? Como fazer para promover o crescimento e ao mesmo tempo evitar que nações se sobreponham e guerrilhem com a “sua” nacionalidade? Como fazer, por exemplo, com que uma Raposa Serra do Sol ou uma Reserva Parabitana Cuécué se conserve e preserve o direito que tem os que ali nasceram, sem ao mesmo tempo alienar o direito que tem aqueles que ali escolheram viver por também serem brasileiros?
O Brasil é hoje um país soberano. Os brasileiros constituem uma nação que, respeitadas todas as diferenças, devem satisfação e subordinação a uma tal Constituição que atende (ou pelo menos deve atender) aos direitos e deveres de todo cidadão brasileiro (sem entrar no mérito de cidadania, por enquanto).
Não me parece justo condenar os povos indígenas à marginalidade, à mediocridade, ao preconceito, à falta de estrutura e de condições mínimas de educação e saúde. Não me parece justo deixar que estrangeiros se apoderem de nosso capital e riqueza humana e façam disto um exército de reserva pronto para lutar a favor de seus interesses. Assim como fizeram os portugueses no Brasil de 1500, fazem os estrangeiros no Brasil do século 21. Não se propaga a fé e o império sem qualquer interesse de dominação!
*
A minha opinião é que, hoje, o Brasil deve assumir a sua cara e dar continuidade à colonização que começou quando do seu nascimento, sem aqueles exageros grotescos, é claro. Não estou dizendo que devemos sair por aí dizimando índios. Estou dizendo que devemos tomá-los como patrimônio nosso. Hoje nós aprendemos que os índios são parte nossa assim como somos parte deles. Se queremos que eles defendam uma soberania brasileira, que se sintam brasileiros, é o Brasil que tem que dar a eles este sentimento de nacionalidade. Quando o Brasil permite que estrangeiros façam aqui o que ele deveria estar fazendo, acabamos por entregar ouro ao bandido. A colonização de hoje tem que acontecer nos moldes de hoje. Humanitariamente. Trazer para a gente o que já é nosso e não tirar da gente para dar aos outros. É isso. Infelizmente é isso. Eu poderia pensar de forma romântica e defender aqui uma soberania indígena onde índio faz o que quer com as terras que “diacronicamente” lhes pertence; mas eu sei da fragilidade do índio e sei do poder da força humana que se transforma diante de qualquer oportunidade mínima de poder. É só ler A revolução dos bichos, de George Orwell, ou Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.
Acredito que índio tem que ter os mesmos direitos que tem ou deveriam ter todos os cidadãos brasileiros. Índio não merece ser tratado de forma diferente. Isto implica em direitos e deveres. Índio tem direito a terra, a saúde, escola, estruturas básicas, direito de preservação de culto, de cultura. Assim considerado, o Brasil não tem direito à inação no que tange às causas indígenas, porque elas são legítimas. O Brasil não tem direito de virar as costas a estes brasileiros. O Brasil não pode deixar que outros cuidem de suas feridas com interesses escusos. Em contrapartida, o Brasil não tem direito de humilhar e expulsar de suas terras os brasileiros que não nasceram índios mas que vivem em terras hoje consideradas legalmente indígenas. Estes também tem direito sobre estas terras. Visite a Raposa Serra do Sol e converse com os não-indígenas que estão sendo expulsos de lá. Não estou falando dos rizicultores. Estou falando de gente simples e humilde que vive (vivia) na área.
O Brasil que dê ao índio o que lhe é de direito, mas que não tome erroneamente no seio desta medida a decisão de aprovar a segregação entre “nações” brasileiras. Apesar de belo, o índio no Brasil não é só índio, é também brasileiro. De novo: isto é um exercício de poder necessário, dada a imensa inclinação humana para a subjugação e alienação do outro, do semelhante. Em terra sem lei, quem tem uma bala na agulha é rei. Ou você tira a munição de todo mundo ou você dá bala e revolver para todos.
Complicado? Eu sei que é.
* Suelen Viana nasceu na ilha Tupinambarana (hoje Parintins) e mora em Manaus. Mestre em Linguística, tradutora, professora de inglês e português para estrangeiros.
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Muito legal prôfi! Parabéns!
Transitando por distintas regiões do Brasil, foi possível perceber que o se fazer BRASILeir@, depende, não da história unificada de nossa nação, mas sim, de peculiaridades situacionais de cada lugarejo.
De norte à sul surgem dicotômicos conceitos para se conceber certa “brasileiridade”. É fácil de se identifcar os descendentes dos povos ditos nórdigos que aqui foram acolhidos no momento em que foram ‘expurgados’ de seus países de origem. Fixaram-se na região mais ao sul do nosso país e ali foram significando e relacionando tal local com o trabalho e prosperidade.
Em contrapartida, aqueles que mais ao norte buscaram genuinamente manter tradições, foram concebidos como preguiçosos e subalternos. Divide-se o BRASIL!!!! Revoluciona-se o BRASIL!!!! Farrapos não nos deixa esquecer!!! Mais recentemente, o sistema de COTAS, que supostamente objetiva uma maior equidade social, traz consigo díspares discussões no que tange os ditos direitos universais.
Somos humanos, nascemos livres e iguais em dignidade e direitos. Temos direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. Índios, negros, descendentes de europeus, asiáticos, norte-americanos e/ou outros, precisamos legitimar a nossa brasileiridade e respeitar as distintas etnias que nos constituem como Brasileiros.
Cabe refletir:
Quando a última árvore tiver caído,
…quando o último rio tiver secado,
…quando o último peixe for pescado,
…vocês vão entender que dinheiro não se come.
Provérbio Indígena
Oi Suelen
Você fala com bastante propriedade sobre a situação geral do índio brasileiro e de sua saga. Afinal de contas eles são os verdadeiros herdeiros dessa terra que os emigrantes de certa forma tomaram para si.
Mais e mais os brasileiros estão tomando consciência de reconhecer essa terra como nossa e protegê-la dos perigos que cercam nossas fronteiras.
Belíssimo texto. Parábens
Cláudio
Ah, Suelen
muito bacana seu artigo e alinhado com o pensamento indigena (pelo menos àqueles que tive contato). Ser índio é acima de tudo ser brasileiro.
Suas conclusões me remetem à discussão das cotas para negros. É quase essa mesma linha. Pense num artigo assim, ou passe lá no Blog da cultura para “papearmos”.
bjo grande. volto novamente!
e eu tambem gostei
Oi Sue,
Que texto!! Parabéns! Seu texto nos faz pensar que muitas vezes tratamos os índios à distância. É isso, somos favoráveis às suas causas, mas os mantemos distantes de nós. Concordo com você quando diz que o índio tem que ter os mesmos direitos de todos os cidadãos brasileiros. Não podemos tratá-los de forma diferente, afastados da “civilização”.Tuas palavras nos fazem para para pensar,e muito! Valeu! Você é talentosísssima. Um beijo.
Deixo aqui um link com uma crônica atualizadíssima sobre o tema do artigo acima: http://www.taquiprati.com.br/cronicadomes.php
Obrigada.
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Nom concordo em que um seja brasileiro ou moçambiquenho por ter nascido em Brasil ou na Angola. Isso é o conceito orgánico-historicista da naçom próprio do século XIX e do volkgeist herdiano defendido a capa e espada polos estado-naçons consolidados. Um pertence a umha ou outra naçom por vontade própria. Portanto, os brasileitos que compartilham com o galego cultura devem esforçar-se por conhecer as tradiçons e culturas dos naturais, o património que tamém e deles como brasileiros, mas tamém devem ser consciêntes dos seus “pecados” históricos e, portanto, reconhecer os direito ao divórcio a esses povos indígenas, isto é o direito de autodeterminaçom.
Reconhecer o divórcio como um direito nom significa promocioná-lo, nom. Porém essas naçons, si naçons, nom tem nada a mal reconhecê-las como tais, devem contar com umha ampla autonomia e direitos de seu, entre eles, os lingüísticos. A imersom na educaçom deve ser sempre na língua inicial e quando for posível garantir que contem com materiais audiovisuais, livros, etc. na sua própria língua à vez que irám conhecendo tamém a língua portuguesa.
A contrário os falantes de galego no Brasil deveriam ser “obrigados” a estudar as suas culturas ao longo do ensino e a iniciar-se numha língua indígena durante o liceu. Isso é solidariedade e isso é fazer um Brasil comum e de todos, tamém galego, porque no Brasil estám as esperanças de sobrevivência da Galiza.
Umha aperta irmandinha desde a periferia da Europa
Oi tia Suelen..
Seu artigoo tá muitoo bom…
peguei ele quase todo pra fazer minha redação ( Indios Brasileiros: como viver com dignidade no seculo XXI?)
Eu tô querendoo fazer Letras pra escrever bem que nem você!!!
Bjos!
Penso que em certos aspectos, senti um certo sentimentos nacionalista- integralista. O Estado Brasileiro têm uma dívida muito expressiva em relação as nações indígenas e também as nações de origem africana. É a partir desta concepção que o governo têm o dever, de criar políticas de auto-afirmação, e tentar compensar toda perversidade imposta sobre estes povos na história dessa sempre e cada vez mais desigual nação. Os povos indígenas ainda continuam a a serem perseguidos e discriminados, expulsos de suas terras, que significa suas vidas.`
O mercado perverso como é , esta à usar a concepção harmoniosa de manejo da natureza, presente em comunidades indígenas e tradicionais, para como sempre buscar mais e mais lucro.
Não somos todos brasileiros, não queremos todos ser brasileiros, isso é uma ilusão varguista, construção social.Não somos opaís do futuro, somos um país perverso, como uma desigualdade perversa, e que somente olhando para as peculiaridades culturais e regionais do país, além das formalidades constitucionais, podemos criar uma sociedade mais justa e fraterna.
Obrigado, e ta ai minha pequena constribuição.
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eu amei e muito legal ler isso para quem nao gostou retorne e leia de novo e porque vc nao leu direito ok bjs xau…