A arte salva, a fama condena

Se por um lado a presença da fama é capaz de gerar uma tragédia, em certos casos a sua ausência pode ser ainda pior.

- Ace Frehley -

– Ace Frehley -

Conheci a história do virtuose Wladyslaw Szpilman através do filme O Pianista, de Roman Polanski. Escondido como um rato entre os escombros da Segunda Guerra, o músico polonês sobrevive como pode. Judeu, Szpilman passa por maus bocados e está à beira da morte quando, finalmente, é encontrado por um capitão nazista. A lógica dos fatos apontaria para o fim do pobre homem, sendo mandado de volta a algum campo de concentração, ou, pior, tendo os miolos estourados com uma bala na cabeça no mesmo instante. Mas a vida reserva surpresas. Graças ao seu talento musical, Szpilman acaba cativando o carrasco, ao dedilhar, no piano da mansão em ruínas onde estão, uma balada de Chopin. O alemão, Wilm Hosenfeld era seu nome, não apenas poupa sua presa como lhe dá comida e um casaco, garantindo a sobrevivência de Szpilman.

Alguns anos se passaram e um novo tipo de música surgiu. Era o rock’n’roll, matéria feita de menos lirismo e mais picardia, eletricidade e um cantor com brilhantina no cabelo animando adolescentes histéricas. Mais tarde, na década de setenta, vieram as bandas, tocando alto e pesado. Seus integrantes eram geralmente cabeludos branquelas, como Paul “Ace” Frehley, um rapaz normal de Nova Iorque, que tinha na guitarra sua fiel companheira. No desolado bairro do Bronx, Ace, que não era muito afeito aos estudos, em um determinado momento acabou adernando para a marginalidade. Membro de uma gangue, sem muita perspectiva de um futuro sólido, seu destino era incerto. Entretanto, prevaleceu o amor pela música e o ritmo frenético do rock. Em suas reminiscências, Ace, que depois faria sucesso junto com o grupo Kiss, confessa que o fato de tocar guitarra abriu novas portas para ele, impedindo que o caminho do crime o levasse a um triste final.

Se pararmos para pensar, veremos que a arte pode salvar a vida de uma pessoa. E ela não precisa dominar algum instrumento para tanto. Qualquer um que assista a um bom filme, peça de teatro, escute uma música ou leia um livro, poderá encontrar nessa atividade um poderoso lenitivo, e, até mesmo, um novo sentido na vida. Curiosamente, a arte possui uma parente chamada fama. Com suas carícias de popularidade e poder, a fama transforma o ser humano para o bem e o mal. Mas também é uma armadilha, onde muitas celebridades involuntariamente acabam caindo.

Ace Frehley, na sua juventude, era fã da banda inglesa Rolling Stones. Porém, foi sobre um dos “quatro garotos de Liverpool”, rivais dos Stones, que a fama aplicou a sua peça mais dantesca. John Lennon, grande mentor intelectual dos Beatles, foi atacado por um louco, sendo morto a tiros com apenas 40 anos de idade. É claro que o ato do assassino foi um caso isolado, fruto de uma demência extrema. Mas não deixa de ser um indício de que a fama pode trazer consequências terríveis. Lennon era um sujeito pacato, vejam só. Não se perdeu na noite, na boemia ou no trago, tinha a “cabeça feita”. Nunca procurou o perigo, como James Dean ou Jim Morrison. A sua arte lhe rendeu fama, mas foi só a fama a causadora da sua morte.

Se por um lado a presença da fama é capaz de gerar uma tragédia, em certos casos a sua ausência pode ser ainda pior. Como na realidade do artista que acaba se frustrando por não obter sucesso com o seu trabalho, por exemplo. Quando o pintor Van Gogh morreu, um dos seus problemas era a depressão. Uma doença que pode ter sido provocada pela falta de reconhecimento de suas obras junto ao público. Se tivesse tido um pingo de fama, talvez a história de Van Gogh acabasse de outro modo.

Mais do que um alento para o cidadão comum, a arte é ainda uma forma de inclusão social (basta lembrarmos do maestro Dudamel com suas orquestras para jovens), além de uma ideia e um sonho bom a ser perseguido. E, o mais importante, não precisa da fama para existir. Esta, na maioria das vezes cresce no vácuo de circunstâncias que pouco tem a ver com a arte, em ambientes de larga difusão e superficialidade, sendo resultado de uma máquina promocional, passageira e artificial. Mas é inegável que tanto a arte como a fama vivem no mesmo mundo, como duas vizinhas rabugentas, envolvendo os reles mortais ora com a suavidade de uma clave de sol, ora com a violência de um punho de ferro.

----- Consulte os arquivos do Amálgama ||| Publique ||| Contato ||| Para reproduzir nossos textos -----