Sobre o Irã, Obama deveria dar ouvidos aos israelenses, não ao Likud

Comparado aos candidatos republicanos, Obama tem a preferência dos judeus israelenses, a maioria dos quais não acha que Israel deveria atacar o Irã sem o apoio dos Estados Unidos.

Em sociedades democráticas, frequentemente ocorre de uma população racional sofrer o estorvo de governos extremistas. No momento, Israel está nessa situação.

Shibley Telhami, da Universidade de Maryland, divulgou uma pesquisa de opinião entre israelenses concernente à possibilidade de um ataque às instalações civis iranianas de enriquecimento nuclear [acesse em pdf]. O professor Telhami discute aqui a pesquisa.

Para tornar os resultados mais claros, eu os retrabalhei como respostas a perguntas de Sim ou Não e amalgamei os posicionamentos em um lado ou outro, me concentrando no posicionamento dos israelenses judeus (20% dos israelenses são palestinos e, embora nesse assunto suas opiniões divirjam apenas ligeiramente das de seus compatriotas judeus, aqui eu estou interessado apenas no último grupo). Deve-se ressaltar que esta é uma amostra cuidadosamente ponderada de 500 pessoas, então a margem de erro para mais ou menos pode ser tão alta quanto 4 pontos; mas nem isso mudaria os impressionantes resultados. Aqui estão eles:

 

A pesquisa mostra que uma vasta maioria dos israelenses não acha que seu governo deveria atacar o Irã sem o apoio dos Estados Unidos. Mostra ainda que apenas cerca de metade dos israelenses pensa que tal ataque resultaria num atraso de mais de dois anos no programa nuclear iraniano, e 12% acredita que ele aceleraria o programa. Um quinto pensa que ele não teria qualquer efeito.

Os judeus israelenses estão em sua maior parte convencidos de que, se o primeiro ministro Benjamin Netanyahu e seu ministro da Defesa Ehud Barak lançarem um ataque aéreo contra o Irã, eles não contarão com qualquer ajuda militar efetiva dos EUA (apenas cerca de um quarto acredita que Washington, por assim dizer, enviaria a cavalaria para dar uma ajuda).

Além disso, metade dos judeus israelenses pesquisados disse que temia que um ataque desencadearia um conflito de longo prazo com duração de meses ou (21%) mesmo anos! E eles não têm ilusões de que o Hezbollah ficaria assistindo sentado no Líbano.

Não surpreende que eles não queiram entrar nessa sozinhos, já que têm medo de que tal ataque geraria um conflito regional que durará por um tempo muito longo, e que não poderiam contar com apoio militar direto dos EUA se desafiassem Washington quanto ao não aconselhamento da ação.

Eles estavam também divididos sobre se um ataque israelense poderia na verdade fortalecer o estado iraniano, ou pelo menos deixá-lo com a mesma força de hoje. Um número pouco maior pensava que o ataque enfraqueceria o Irã, mas a diferença não era tão grande.

Em relação à preferência dos entrevistados por um presidente americano, Barack Obama tem uma ligeira vantagem sobre Mitt Romney e Newt Gingrich, e uma grande vantagem sobre Rick Santorum e Ron Paul. Dado que todos os candidatos republicanos virtualmente uniram-se ao Partido Likud e cometeram genocídio verbal contra os palestinos, é extraordinário o quão pouco perturbados os judeus israelenses ficaram com essas posições extravagantes. Obama permanece relativamente popular entre os judeus israelenses, não apesar de seu comprometimento com um processo de paz rejeitado pelo governo do Likud, mas por causa dele.

Netanyahu está vindo a Washington para ser aplaudido na conferência do America Israel Public Affairs Committee, que está entre os lobbies mais bem sucedidos de Washington. Ele se encontrará com o presidente Obama e o pressionará a apoiar uma ação militar contra as instalações de enriquecimento nuclear de Natanz, próximo a Isfahan.

Obama e seu pessoal da área de segurança já deixaram abundantemente claro que o governo se opõe a uma ação militar contra o Irã, e acredita que sanções econômicas e financeiras estão atingindo o regime tão duramente que provavelmente levarão Teerã de volta à mesa de barganha.

Obama deveria depreender desta pesquisa que ele está em uma posição firme para dizer “não” a Netanyahu. Os israelenses estão temerosos de que um ataque possa resultar em uma longa guerra e trazer para o turbilhão atores regionais como o Hezbollah. Obama tem um bocado de apoio em Israel e deveria se dirigir diretamente ao povo israelense, explicando-lhes sua política e por que a considera melhor para Israel do que outra guerra. Já que Netanyahu despudoradamente faz propaganda junto ao público americano, um pagamento na mesma moeda seria justo.

O Likud na verdade conseguiu menos cadeiras parlamentares do que seu principal rival, o partido de centro-direita Kadima, e só está no poder porque conseguiu costurar uma coalizão com outros partidos mais facilmente do que o Kadima.

Obama deveria ignorar o governo mais direitista da história de Israel, e ao invés disso ouvir o público israelense.

* original no Informed Comment

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