Arte e ideologia formam uma aliança desconfortável
O que chamávamos correção política hoje em dia afeta mais a direita do que a esquerda.

À medida que a crise amplia as divisões ideológicas, como você está reagindo? Você está tentando julgar argumentos por seus méritos, tanto quanto possível? Ou agora você tem a alma de um agente policial secreto? Você automaticamente elogia romances e peças que confirmam suas opiniões e amaldiçoa tudo que se desvia da linha do partido?
Eu pergunto porque acabei de dar duro nas páginas de Uncommon Enemy, de Alan Judd, como um caminhante que se arrasta por um pântano varrido pela chuva. Enquanto mistério, o livro sofre a desvantagem de você poder supor a identidade do vilão logo após 50 páginas, e ter certeza com 100 páginas. Ele está à beira de se tornar chefe de um MI6 ficcional. O herói, um ex-espião, sabe que certa vez ele entregou segredos britânicos para os eurófilos franceses. O vilão sabe que ele sabe. Ele decide destruir o herói antes que o herói destrua sua carreira.
Judd nos entrega um thriller sem thrills, na prosa afetada da classe média inglesa sulista. O vilão consegue que o herói seja preso sob a falsa acusação de vazar segredos oficiais. “Você conhece Rebecca Ashdown”, pergunta o detetive, “com quem passou a noite em Durham, quando vocês serviam juntos no antigo MI6, onde ela era uma secretária?” Judd escreve “whom”, mas eu nunca escutei um oficial de polícia usar “whom” ao invés de “who”, ou alinhar cláusulas em uma sentença como se estivesse colocando no lugar os vagões de um trem.
Se eu estivesse resenhando Uncommon Enemy, teria mais a dizer. Mas aceitaria que muitos leitores gostarão. De Agatha Christie a P. D. James e à telessérie Midsomer Murders, a ficção detetivesca britânica mais popular está entupida de delicadezas. O livro de Judd pode vir a ser um sucesso. Uma parte de mim deseja que isso ocorra. Não lhe quero mal.
Charles Moore é outra conversa. Ele parece um cara amável e civilizado, e, ao contrário da maior parte dos comentaristas de direita – e dos de esquerda também, a propósito –, você não sabe de antemão o que ele dirá sobre um certo assunto. Ele recomendou Judd. “É justo”, pensei. “Vou comprar uma cópia.” Apenas quando meus cansados olhos chegaram ao final foi que descobri que Moore havia dado ao livro uma retumbante resenha porque ele via o vilão como um “eurofanático” – um representante da “capitulação das elites britânicas às demandas da União Europeia”.
De fato, o vilão é motivado tanto por inveja sexual do herói quanto por um desejo traiçoeiro de construir um superestado europeu. Judd parece endossar o euroceticismo em umas poucas passagens e, para Moore, isso foi o bastante para tornar seu romance um bom livro. Se o vilão de Judd fosse um eurocético, então isso teria tornado seu livro ruim. Isso é tudo que Moore sabe e precisa saber.
Não acho que alguém possa admirar uma obra de arte que seja dedicada à promover uma causa que ele ache repelente. Mas o agente policial secreto não se contenta em condenar a propaganda aberta vinda do outro lado. Ele fareja o ar como um furão em busca de coelhos, suas narinas prontas para captar o mais leve cheiro de causa política.
Já não é sem tempo de aceitarmos que o que chamávamos correção política hoje em dia afeta mais a direita do que a esquerda. O impulso para censurar não está morto entre os “liberais” britânicos, infelizmente. A Radio 4 a as artes subsidiadas ainda operam efetivas listas negras. Como disse um comediante sobre a recusa da Radio 4 em transmitir um comediante de direita sequer: “A BBC acredita em equilíbrio. Ela equilibra os comediantes de extrema-esquerda com os comediantes da centro-esquerda.” Mas nos Estados Unidos, antes lar do caça-às-bruxas esquerdista, agora são os republicanos que têm os olhos inquisitoriais e lábios franzidos que antes desfiguravam os rostos de seus inimigos.
O partido de Lincoln não nomeará candidatos que não acreditem que as seguintes verdades sejam evidentes: que a crise financeira foi causada por um estado prepotente forçando banqueiros a emprestar dinheiro para os pobres; que o aborto deveria ser ilegal em quaisquer circunstâncias; que o aquecimento global é a invenção de uma vasta conspiração de cientistas esquerdistas; que Barack Obama é um tipo de socialista, e provavelmente queniano; que todos os mexicanos ilegalmente nos EUA devem ser empurrados de volta pela fronteira; e que os americanos não têm ninguém para culpar, a não ser a si mesmos, se caírem doentes e não puderem arcar com um tratamento.
A direita americana lembra a velha esquerda liberal, na insistência em que não se pode dispensar algumas de suas crenças, mas deve-se abraçá-las todas, no atacado. Ela também não consegue se acalmar, inquietamente adicionando mais não-se-deves aos mandamentos já existentes. Até agora, por exemplo, quem teria imaginado que um partido político numa democracia madura travaria uma eleição em pleno século 21 com uma plataforma anti-camisinha? No entanto, no debate republicano de semanas atrás, ficou claro que a contracepção é a nova inimiga da direita.
Mitt Romney disse que os planos de Obama para exigir que empregadores religiosos incluam controle de natalidade nos pacotes de seguro saúde de seus empregados eram um ataque à liberdade religiosa. Rick Santorum alertou para os “perigos da contracepção”. Enquanto isso, Ron Paul, herói da direita isolacionista e da esquerda desinformada, improvisou no tema republicano de que “armas não matam, criminosos matal”. A bem da coerência, ele disse que a direita não deveria culpar a pílula, a borracha ou o dispositivo intrauterino, mas as putas que os utilizam (“As pílulas não podem ser culpadas pela imoralidade de nossa sociedade… a imoralidade cria o problema”).
Assim como a pobreza, o dogmatismo sempre está à nossa volta. Longe de nos libertar do peso de sua mão, como prometeram os apologistas, a web encoraja o conformismo. Os aflitos navegam da velha mídia doutrinária (imprensa politizada na Grã-Bretanha, transmissão politizada do tipo Fox News/Rush Limbaugh/Jon Stewart nos Estados Unidos) para websites que pregam para os convertidos. Eles são pegos à força e escutam pontos de vista diferentes apenas quando seus propagandistas os submetem ao ridículo.
Para ajudá-lo a escapar da correção política em todos os seus disfarces, aqui vão minhas duas regras para se navegar pela nova mídia.
Se um artigo, post ou transmissão só te diz o que você quer ouvir e reforça suas posições assegurando que seus oponentes não apenas estão equivocados, mas na verdade são perversos, então, caro leitor, você está diante de uma mentira.
Se um crítico julga qualquer obra de arte que esteja além do nível de agitprop levando em conta apenas sua posição política, ele não está te dizendo nada sobre a obra e tudo sobre si mesmo.
* original no Observer
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