Um governo mais para a classe média

-- Dilma com neta de Tarsila do Amaral, em abertura da exposição em Brasília --

por André Egg

É o que me parece que aponta o governo Dilma, na comparação com o governo Lula.

O que não chega a ser uma surpresa. Lula nasceu no sertão de Pernambuco, veio para São Paulo no pau-de-arara, trabalhou como metalúrgico e torce para o Corinthians. Entrou para a política como sindicalista, não exatamente preocupado em combater o Regime Militar por convicções filosófico-doutrinárias: o que pegava mesmo era o arrocho salarial e a carestia dos anos 1970. Foi pela mão desses neo-sindicalistas que o Regime Militar caiu.

Dilma já veio de uma outra escola política. Classe média, nascida em Belo Horizonte, era estudante secundarista quando o Regime Militar eclodiu. Teria uma carreira profissional como tantos de seu grupo social, não fosse pelo idealismo político que levava o movimento estudantil a arremeter contra os moinhos de vento dos governos militares, entrando na luta armada e sofrendo uma fragorosa derrota política.

Na esteira do surgimento do PT, aquela classe média esquerdista dos anos 1950-60 se reencontrou com os operários e os movimentos populares dos anos 1970-80. Juntos arremeteram contra a transição controlada que os militares faziam, foram pedra no sapato durante a constituinte “cidadã”, espernearam contra o desmonte da estrutura industrial do país nos anos Collor-FHC.

Quando chegou ao poder federal pela primeira vez, com Lula, o governo do PT foi um governo para os pobres. Como já tinha sido, de outra maneira, o governo FHC. No período 1995-2002, pela primeira vez em décadas o Brasil experimentou um ensaio de estabilidade de preços, simultânea a uma inédita estabilidade institucional. Na década de 1990 os pacotaços e as viradas de mesa ficaram apenas nos campeonatos de futebol – as instituições públicas entravam numa nova fase.

O governo Lula deu continuidade à dupla estabilidade, macro-econômica e institucional, mas turbinou as políticas sociais de transferência de renda e combate à pobreza. Fosse pela recuperação do investimento público e dos serviços oferecidos ao cidadão, fosse pelas políticas eficientes de aumento do emprego, elevação do salário mínimo, aumento do crédito, o retorno do financiamento imobiliário (“Minha casa, minha vida”). Some-se a isso o aumento das vagas nas universidades públicas, preferencialmente nas licenciaturas e nos cursos noturnos (REUNI), o programa de bolsas e crédito educativo para as faculdades privadas (PROUNI), a expensão da pós-graduação, entre outras políticas.

O período 2003-2010 foi de avanço social e combate à pobreza. É um tema que ainda está em debate, mas algumas estatísticas já apontam para um país majoritariamente de classe média: especificamente no quesito renda familiar, a Classe C já é mais numerosa que os setores pobres, das Classes D e E – fator absolutamente inédito no Brasil. (O uso exclusivo do critério renda é questionado pelo sociólogo Jessé de Souza, como se pode ver nesta ótima entrevista.)

Mas pode-se dizer que a classe média andou meio abandonada nos anos de estabilização FHC-Lula. Sim, a classe média tinha renda antes da abertura promovida por Collor. Reserva de mercado, indústria nacional, engenheiros e administradores. Recursos públicos em programas subsidiados, tudo financiado ad infinitum pelo tal “imposto inflacionário”, do qual a classe média estava resguardada pela correção monetária – indisponível aos pobres e sem conta bancária.

Esse tipo de distorção foi superada nos anos FHC-Lula, período durante o qual a redução da inflação e os programas sociais acentuaram o processo de ascensão econômica dos mais pobres. Ao mesmo tempo, os mais ricos seguiram desfrutando do conforto dos rendimentos financeiros pagos pelo tesouro e mantidos estáveis no patamar de juros mais alto do planeta.

Os mais pobres e os mais ricos não tinham do que reclamar nos últimos anos. Quem andava espremido era a classe média.

Escorchados por uma carga tributária insana, com serviços públicos de qualidade abaixo da esperada, e sem os equipamentos culturais e a infra-estrutura capaz de garantir o tipo de conforto e o padrão de consumo que caracterizam as classes médias do Ocidente, o desconforto político da classe média aumentava à medida que se via o setor rentista indo de vento em popa, e a pressão da comparação com o momento ascendente dos mais pobres, cuja superioridade inquestionável na comparação sempre tinha sido o grande trunfo das classes médias no Brasil. Pra dizer de maneira bem grossa, não era tão ruim perceber que estávamos a anos-luz das classes médias européia, norte-americana ou japonesa – bastava que pudéssemos ser, no Brasil, os poucos que andávamos de carro, tínhamos plano de saúde, casa própria e empregadas e babás para limparem a nossa sujeira.

Esse tipo de classe média urbana, criada a muito custo no Brasil no período 1930-1980, sobre o substrato cultural da escravidão e do atraso no campo, entrou em colapso no governo Lula. A classe média agora não é mais, e não vai voltar a ser nunca, uma minoria esnobe no Brasil. Nas próximas décadas teremos de nos acostumar a ser um país majoritariamente classe média.

Nesse sentido, o próprio sucesso do governo Lula criou a sua maior ameaça: o modelo de atenção total à melhoria de vida dos mais pobres, muito bem analisado neste texto já clássico de Diego Viana, esgota-se em si mesmo pelo motivo exato de sua eficiência: quando termina de transformar os pobres em classe média, não faz mais sentido um governo voltado para os pobres.

Essa situação explica em grande parte porque um presidente tão popular como Lula transferiu tão poucos votos para a candidata por ele apoiada. O desconforto da classe média explica quase totalmente a votação impressionante tida por um político tão apagado quanto José Serra – era o voto de protesto, o voto que dizia com orgulho: “Somos de classe média e queremos de novo o governo para nós”.

Sou capaz de dizer que Dilma é tão grande estrategista política quanto foi Lula. Ele foi o paladino dos pobres, ela já sabe que terá de dar mais atenção à classe média.

Isso explica certa inflexão, por exemplo, na política externa: posar ao lado de Chavez, Fidel, Kadafi ou Ahmadinejad pode ser considerado positivo por certo esquerdismo dos tempos da Guerra Fria, mas não faz o menor sentido para o público de classe média que lê jornais e revistas no Brasil. Se Lula ainda foi capaz de mobilizar certo anti-americanismo meio infantil e fazer todo empenho de imagem numa política sul-sul, Dilma me parece bem mais cuidadosa em relação a estas coisas.

Outra coisa que pode se observar é a inflexão da política de Dilma para os aeroportos – um novo órgão de controle da Aviação Civil está sendo criado, e os investimentos privados serão bem vindos no setor. Necessidade urgente para um país que vai sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Mas, muito mais do que isso, necessidade básica num país onde o número de viagens aéreas está aumentando exponencialmente, não sem causar um latente conflito social entre os freqüentadores mais antigos de aeroporto e aqueles que têm acesso a esse tipo de conforto pela primeira vez.

Nas disputas políticas surgidas por conta da votação do Salário Mínimo, o governo Dilma defendeu uma postura mais austera (a classe média não ganha salário mínimo mesmo), segurando o gasto público agora. Mas endossou uma continuidade da política de aumento IPCA+PIB para os próximos anos, suscitando a grita dos especialistas em economia da imprensa classe média. Neste entrevista, Dilma respondeu cabalmente à questão: o salário mínimo no Brasil ainda é baixo, tem muito o que aumentar. A política de aumento real não terminou. Entretanto, há uma sinalização para a cada vez mais importante e numerosa classe média, uma vez que a correção da tabela do IR entrou na negociação com os sindicatos, e também há uma proposta de ajuste anual dos valores. Pagar menos IR significa aumento direto na renda da classe média, e é bom que o governo faça isso.

Outro fator que aponta para esse lado é a insistência em duas reformas chave nas quais o governo Dilma está se engajando. A reforma tributária precisa urgentemente reduzir a tributação sobre produtos básicos de consumo, bem como combustíveis, energia elétrica e telecomunicações. Precisa também desonerar a poupança e o investimento, bem como a folha de pagamento das empresas. Tudo isso está no discurso do governo. Além disso, o Brasil precisa ainda superar o modelo de Imposto de Renda a pesar quase que exclusivamente sobre a classe média assalariada. A solução é aumentar a tributação sobre imóveis (urbanos e principalmente rurais), heranças, grandes fortunas e artigos de luxo. Ou seja, traduzindo politicamente: é preciso jogar os interesses da classe média contra os mais ricos, não contra os mais pobres como está o quadro atual.

A outra questão é a reforma política. É fato que a classe média é a que mais tem propensão a se escandalizar com a imoralidade política. Digamos que isso é um luxo de quem não tem que se preocupar com o que por na mesa na hora da janta – convenhamos uma preocupação bem mais crucial do que saber o que está fazendo o deputado A ou B. Mas um país mais de classe média é um país mais escolarizado e mais informado. E isso gera uma tendência de demanda por uma mudança na cultura política brasileira tradicional, que leva à necessidade de reformulação razoavelmente profunda de nosso sistema de representação política, e de nossa legislação referente a partidos políticos, eleições e financiamento de campanha. Nesse caso, a classe média já me parece bastante favorável ao exercício de uma saudável pressão contra os interesses corporativos dos deputados eleitos por esse modelo viciado. Isso ficou bem demonstrado na mobilização em torno do projeto do Ficha Limpa, todavia uma vontade popular tolhida nas chicanas de um sistema jurídico tão esclerosado (senão mais) que a nossa representação política.

Uma última coisa, para a qual já aponta o rumo do governo Dilma: a reestruturação do nosso ambiente urbano, locus da classe média – por definição. A criação do PAC da Mobilidade Urbana, com o empenho de um orçamento nada desprezível para investir em canaletas exclusivas para ônibus, trens urbanos, VLT e metrô aponta para uma outra questão chave para a classe média: o trânsito e a qualidade dos nossos espaços de convivência urbana. O crescimento rápido que o Brasil experimentou no governo Lula, e que dá mostra de continuar firme nos próximos anos, irá levar cada vez mais ao colapso das nossas cidades, que terão de ser reinventadas.

Se for capaz de dar bom termo a essas iniciativas, o governo Dilma irá cativar politicamente a classe média, e garantir uma sobrevivência política ao PT no pós-Lula. Para isso correr a contento, Dilma terá de, ao contrário da sua estratégia para ganhar as eleições ano passado, demonstrar cada vez mais que é diferente de Lula, que o lulismo está superado. Esse conjunto de movimentos políticos irá continuar redesenhando o Brasil, talvez agora com mudanças ainda mais significativas do que as ocorridas em todo nosso passado.

Eu aposto nisso.

5 comentários | Dê sua opinião

  1. Daniel Romão 29/03/2011 em 6:04 pm

    Muito Bom!!!!

    Se realmente a Dilma fizer isto ela precisará dos oito anos e com certeza ficará. Tem tudo para conseguir, maioria no congresso, apoio da sociedade e muita competencia. Não gosto do PT, mas se as eleições fossem hoje eu votaria nela, não no PT. Isto pode ser um problema para a continuidade do governo, pois parece que ela está se tornando maior que o PT e que o Lula e isto pode provocar sentimentos e ações contrárias.

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  2. Tiago Aguiar 29/03/2011 em 6:55 pm

    É muito difícil discordar do texto, realmente a classe média será o fiel da balança em uma era em que a estratificação social se assemelha a um losango. Mas existe um aspecto importante e peculiar que há de ser ressaltado.

    Não se pode falar simplesmente em “classe média”, uma vez que dentro deste universo temos sub-camadas com histórias, substancias e anseios completamente distintos. Não se deve comparar as tradicionais famílias de classe “b”, que estudaram a vida inteira em colégios particulares, que tem plano de saúde privado desde a infância, que sempre viajaram de avião, com os milhões que emergiram socialmente nos oito anos do governo petista, a chamada classe “c”.

    Neste particular, é no estrato da classe “b” que pode ser visualizada a classe média que se sente abandonada. Ocorre que em verdade esta ameaça é muito menos por se sentir desprivilegiada pelo governo, e muito mais por sentir o status quo ameaçado. É desta camada de renda que se percebe a gritaria contra os aeroportos lotados, contra a dificuldade de conseguir uma empregada doméstica, a gritaria contra o fato de qualquer pessoa hoje em dia ter acesso a um carro. É a turma que não tem mais conta no Orkut e que diz que a inclusão digital é um mal, pois pobre não tem gostos refinados e não sabe o que fazer com uma câmera digital. Foi a turma que votou no José Serra, e isto pode ser confirmado com um simples passar de vista nas pesquisas de intenção de voto para o último pleito presidencial.

    Em outro porto sai o barco que leva a classe “c”. Esta materializa sonhos representados, por exemplo, na produção de automóveis do Brasil ser maior que a dos Estados Unidos. É esta que entope os aviões, que viaja para a Argentina pela primeira vez (ou para o nordeste), e com orgulho; que faz ProUni, e que quando estourou a crise mundial ouviu o Presidente Lula e foi às compras.

    Quando o governo Lula se iniciou, houve histérica gritaria por parte do PSTU. O governo fez uma reforma da previdência mais ortodoxa do que conseguira seu antecessor. E pouco depois a DS (tendência interna do PT) rachou e se formou o PSOL, extraindo assim de dentro do PT o que a revista Veja e todo o mainstream costumava chamar de “os radicais do PT”. Falta uma compreensão básica a muitos, e não somente ao PSTU e o PSOL (vamos incluir o PSDB e o DEM, e até mesmo algumas parcelas/tendências do PT na historíola), do modus operandi básico na arte do governo em nosso sistema político.

    Da mesma maneira que Lula, os dois primeiros anos de governo são os quais se deve cortar na própria carne, tomar as medidas mais impopulares e odiosas entre os seus apoiadores. Aquelas medidas que a oposição simpatiza. É imperioso fazer jus ao apoio de seus eleitores, ainda fresco como gotas de orvalho, e impedir que a oposição tenha instrumentos para fazer o governo sangrar.

    O fim do segundo, o terceiro e, o quarto e último anos de governo são marcados pelo pé no acelerador, pela velocidade de cruzeiro e por saltos no hiper-espaço. Não é crível, não há como se fazer previsões com segurança a esta altura do campeonato. É muito preliminar tomar sinais amarelos como vinte e um pontos na carteira, após ultrapassar o sinal fechado, embriagado e capotar o veículo.

    Mesmo no governo Lula se observa com facilidade que as chamadas PPP´s foram usadas e abusadas, antes em estradas, e com Dilma em aeroportos. A questão de política externa no texto em comento tem um quê de oráculo. Comparar uma abstenção no Conselho de Segurança com um voto de vistoria de condições humanitárias no Conselho de Direitos Humanos é um erro crasso. São órgãos diferentes, com competências, atribuições e poderes completamente distintos. A investigação pode, por exemplo, não condenar o Irã, retirar os argumentos das potencias imperialistas.

    Um aspecto sempre abordado pela Presidenta Dilma, e que vem reforçar a pequena discordância entre o comentador e o autor, está na questão dos serviços básicos de estado, a saúde e a educação. São políticas para a classe “c”, o verdadeiro alvo e foco do governo. A unificação dos hospitais universitários em uma empresa, medida tomada por Lula ao apagar das luzes dá conta disso. É o início de uma política de saúde nacional, através dos órgãos de excelência em saúde. Para o PSTU e para o PSOL isso é “privatização”. Para o PT é uma política de pesquisa nacionalizada, utilizar os hospitais universitários como instrumento de gestão. Deve-se observar o fortalecimento da educação através da rede de creches cegonhas, essencial para a classe “c” que não tem plano de saúde e que nunca teve empregadas domésticas. Enfim, o foco do governo federal não é a classe média. É a classe “C”. A bem da verdade, à classe “B” nada precisa ser feito. Eles já estão encantados pelo estilo da nova Presidenta, e entorpecidos pelo suposto desaparecimento do sapo barbudo.

    Este que comenta aposta da mesma forma que o autor do texto em tela, apenas se deve ressaltar estas pequenas discordâncias com a intenção de fortalecer o debate.

    Saudações fraternas!

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  3. Bruno Cava 30/03/2011 em 8:11 am

    Excepcional artigo, empapuçado de insights.

    O caso do governo Lula foi começar a constituir mil classes-médias, o que aterroriza a Classe-Média (i.e., as elites brancas urbanas diplomadas liberais).

    Isso rompeu o consenso de almoço de domingo da Classe Média, e empoderou novos discursos e mídias, numa genuína revolução cultural brasileira.

    Por evidente, a luta continuará neste governo. Que é essencialmente o mesmo de Lula, um governo de centro-esquerda, com forças centrífugas e centrípetas em embate encarniçado.

    Responder
  4. Gilberto Alves 05/04/2011 em 2:33 pm

    Belo e lúcido texto!

    Responder
  5. Paulo Gouveia 12/04/2011 em 5:31 pm

    Só pra ajudar no debate:

    O salário mínimo, para ser legal, ou seja, para cumprir os parâmetros que a Constituição Federal estabelece, deveria ser de pouco mais de R$ 2.200,00, segundo pesquisa permanente do DIEESE. Digo isso não apenas para nos lembrar da flagrande ilegalidade do SM de R$ 545,00, mas para que essa discussão sobre a “nova classe média” seja feita de forma mais razoável. Como pode ser de Classe Média alguém cuja renda é inferior ao mínimo para sua mera subsistência nos termos da Constituição Federal? O debate sobre a “Nova Classe Média” esconde algumas armadilhas. Vou tentar, telegraficamente, apontar duas delas.

    Primeiro, o próprio uso do conceito de Classe Social, da forma como é usada nos jornais e por uma certa sociologia anglo-saxônica, tem um significado bastante distinto do que tradicionalmente se entende por Classe Social no pensamente crítico. Não vou discorrer muito sobre isso, apenas lembrar que este uso do termo Classe Social é recorrente nos editorias da grande mídia corporativa e nos documentos do Departamente de Estado do governo estadunidense. Mas vale a pena destacar que não se fala de classes em termos substantivos, mas apenas descritivos. Não se trata de trabalhadores ou empresários (para os que tem horror às palabras proletariado e burguesia), mas de classes A, B, C, D ou E. Ou, quando muito, de classes alta, média e baixa. Eliminam-se as diferenças qualitativas e ficam apenas as quantitavas. Além do evidente tom apologético da ordem capitalista, este uso do termo Classe Social tem outras consequências. Primeiramente, as diferenças qualitativas entre as classes até podem ser eliminadas no discurso político, mas não serão por isso eliminadas na realidade. Dito de forma mais simples, desse jeito não é possível entender nada do que se passa no mundo em que nos cabe viver. Não é possível fazer análise crítica da realidade falando em classe A, B, C, D e E. Em segundo lugar, qualquer análise mais detalhada concluirá que se toma por classes socias diferentes (B, C, D e E), distintas frações da classe trabalhadora e se agrupa na mesma classe (A) a totalidade da burguesia, da pequena-burguesia, dos latifundiários, diversos setores liberais, etc). Ou seja, ajudar a reforçar o laço de solidariedade subjetiva entre os “de cima” e a enfraquecer os vínculos subjetivos entre os “de baixo”. Ora isso não é pouco, pois dividir os trabalhadores é uma das principais formas de derrotá-los. É assim quando se discute “Reforma Trabalhista” e o argumento pra atacar direitos conquistados a dura penas é que estes beneficiam apenas os “formais” e prejudicam os “informais”. Ou a velha cantilena da necessidade de combater o suposto déficit previdenciário, que se apoia na divisão entre os trabalhadores do serviço público e da iniciativa privada. Ou seja, não se trata de uma mera discussão conceitual, dessas que grassam no meio acadêmico, estamos falando de um artifício ideológico que tem consequências práticas na vida de milhões de brasileiros, que se vêem desarmados discursivamente para resistir.
    A novidade desta década, em relação aos anos 90, não é qual classe foi beneficiada (basta analisar o orçamento geral da União). Mas sim que uma parte do que foi subtraído aos pobres foi realocado aos muito pobres. O bolsa-família é o que ligitima o bolsa-banqueiro (que é c. de 8 vezes maior). Mas isso já outra parte da mesma discussão…
    O uso de uma nomenclatura que falseia a realidade (classes A, B, C D e E), mesmo por gente realmente progressista, é um beco sem saída e favorece os mitos da “nova classe média”, além de fazer passar por “amigo dos pobres” o governo que mais transferiu recursos públicos para os rentistas e ajudou a desmotar o mais importante programa social de nossa história (a previdência).

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