Realmente precisamos de raízes?

-- Indígenas isolados na Amazônia (foto: Gleison Miranda/FUNAI) --
por Carlos Orsi
A noção de “origens” ou “raízes” — culturais, sociais, genéticas, etc. — é um fetiche caro tanto ao discurso de esquerda quanto ao de direita, ainda que cada um dos lados do espectro político seja bastante seletivo quanto ao tipo de “raiz” que deve ser valorizada (as tradições dos “povos oprimidos” num caso, as “raízes cristãs da Europa” no outro, por exemplo).
O apelo às raízes tem um poder retórico e emocional tão forte que muitas vezes surgem disputas sobre qual a “verdadeira raiz” disso ou daquilo: afinal, quem estava primeiro na Palestina, árabes ou judeus? A civilização evoluiu a partir de uma organização matriarcal ou patriarcal? O cinema (a literatura, a música, o teatro) que Fulano ou Beltrano faz é “nacional” ou “colonizado”? A figura do herói que “reencontra suas raízes” e, por meio delas, triunfa, é um dos clichês mais cansados de toda a ficção.
Há alguns anos, quando foi levantada a hipótese de que os índios da América do Norte teriam sido os autores do genocídio de uma população ainda mais antiga de habitantes do continente, a disputa deixou rapidamente as publicações sobre arqueologia e antropologia e virou um cavalo de batalha político.
Sem negar que o poder que a ideia de “raízes” tem de emocionar, motivar e mobilizar, eu me pergunto até que ponto ela realmente faz sentido — e até que ponto ela não passa de apenas mais um fator de manipulação dos afetos, uma bandeira vazia de conteúdo e que pode servir tanto para mobilizar belas revoluções quanto verdadeiros pesadelos (todo o discurso de Hitler, afinal, nascia do mito das “raízes arianas” do povo alemão).
Resumindo: é honesto invocar o conceito de raízes, ou ele não passa de mais uma falácia, como o ad hominem — o que Fulano diz não deve ser levado a sério porque ele é homossexual/negro/branco/hererossexual, etc.?
O apelo à tradição é uma falácia conhecida: aceitar que X, Y ou Z é verdadeiro ou correto porque era nisso que nossos antepassados acreditavam equivale a validar o geocentrismo, o sacrifício humano e a escravidão. Esse é o ponto em que o caráter falacioso das “raízes” fica evidente: ele exige o corte — arbitrário — de um ponto da história a partir do qual nossos ancestrais estavam errados.
Mas se eles estavam errados quando diziam que era certo ter escravos, porque não estariam errados também quando diziam que era preciso ir à missa? Imagino que as mesmas pessoas que hoje gritam em defesa das “tradições cristãs da Europa”, contra os avanços do islã e do secularismo, teriam gritado pelas “tradições pagãs do Império” diante do avanço do cristianismo, uns 1.500 anos atrás.
Tanto o apelo à tradição quanto o apelo às raízes se valem da noção de identidade de grupo para obter boa parte de sua força. É o apego a certas tradições e a posse de raízes (reais ou míticas) que permitem que uma pessoa se sinta e se declare um brasileiro, argentino, cristão, muçulmano, judeu.
Também são tradições e raízes que permitem que alguns códigos de comportamento bastante úteis à vida em sociedade (respeito aos mais velhos, às senhoras, modos à mesa, etc.) continuem existindo sem que seja preciso criar leis para impô-los.
Não estou, no entanto, convencido de que “identidade de grupo” seja algo tão valioso assim. Olhar para o outro como “um argentino”, “um negro”, “um burguês”, “um americano” é algo que desumaniza. Considerar-se membro de um grupo à parte do restante da espécie, por sua vez, desumaniza os que estão fora desse círculo.
Uma crítica, que me parece muito pertinente, ao programa de “preservação de culturas locais” é a de que ele reduz populações humanas a exibições de zoológico: vamos deixar aqueles primitivos ali isolados, com dentes podres, morrendo de tétano aos 15 anos de idade e sem a menor noção de tudo o que a humanidade criou e tem a oferecer, enquanto estudamos de longe seus maravilhosos costumes.
Me parece óbvio que culturas e modos de vida não devem ser impostos à força a ninguém, mas um corolário disso é o de que as pessoas devem ter o direito de escolher livremente um modo de vida alternativo ao que lhes foi legado pelo acidente do nascimento. Se as escolhas dos nativos de uma determinada cultura levarem à extinção dessa cultura, e daí? Pessoas são seres concretos, dotados de direitos. Culturas são abstrações, sem direito a nada.
A questão dos códigos de comportamento me parece ter mais mérito. Sou um apreciador das boas maneiras, mas certamente não gostaria de ver a polícia impondo-as a golpes de cassetete. Mas é falsa a dicotomia entre Estado ou tradição — a ideia de que, sem um ou outro, a convivência social torna-se insuportável.
Códigos de conduta e contratos informais de reciprocidade — as bases do comportamento social — surgem e evoluem a partir da interação entre seres racionais, e não há motivo para imaginar que venham a desaparecer um dia, mesmo se o arcabouço mitológico que sustenta algumas formas já testadas e aprovadas vier a ruir.

A raíz é valorizada dessa forma (e transvestida em instrumento dessa forma) pelo simples fato de que é “raíz”; ignora-se o resto da árvore, o caminho traçado pela sociedade. Embora esse posicionamento seja um equívoco(as fundações de um prédio seguram-no; o mesmo serve para uma sociedade inteira?), não é um dos mais feiosos: desiste-se de um ponto de vista em virtude de outro, da grandiosa e poética imagem daqueles que foram os primeiros, daqueles muito mais do que tataratataratatara…vós de todos nós.
É uma imagem bonita, mas só isso.
As raízes do que veio a se chamar Brasil, por exemplo, não são nem os índios, nem os europeus ou os africanos: foi, sim algo entre eles, algo incrustado nas suas relações intersociais. Vago demais? Tem que ser: lembremos que a raíz é algo enfiado na terra, longe do alcance humano.
Não acredito que a ideia de “origem” deva estar tão encravada na questão indigenista brasileira. No mínimo, para mim, as sociedades indígenas deveriam ser consideradas à parte da nossa (não falando de isolamento, mas de tratamento diferenciado, cauteloso), mas parte do território nacional e, portanto, sob proteção do Estado. Qualquer coisa abaixo disso, é claro, não concordo até os ossos. É a palavra “proteção” que dificulta tudo, pois deve significar uma análise desses povos a partir de um ponto de vista diferente do nosso. Se Saúde, pra quem mora no Maranhão, é outra coisa se comparada à Saúde pra quem mora em São Paulo, imagine a diferença entre os da selva de pedra e os da selva de verdade.
Ótimo post e ótimo blog!
Triste texto. Confunde mais do que esclarece porque o autor claramente não domina o tema.
parabéns, xará, pelo post.
esclarecedor e instigante. mais claro do que isso, só dois “issos”.
abçs
“Códigos de conduta e contratos informais de reciprocidade — as bases do comportamento social — surgem e evoluem a partir da interação entre seres racionais.”
O que seriam “seres racionais”?
Oi, Paulo! Seres dotados de interesses e capazes de agir de forma coerente para realizá-los.