O que as mulheres não querem?
por Viviane Moreira

-- Peças de cerâmica da artista plástica Paula Souza Dias (MG). Foto de Miguel Aun --
Freud, diante do enigma do desejo feminino, formulou a pergunta: “Afinal, o que quer a mulher?” A histeria feminina foi acolhida pela escuta de Freud, que deu às histéricas o poder da palavra. E charme. Bastante charme.
“Impressionado com o relato do médico Josef Breuer sobre o tratamento de Anna O., que permitiu a Breuer inventar o método da catarse de rememoração sob hipnose, a cura pela palavra, Freud despertou para esta possibilidade. No final do século XIX, então estagiário no Serviço do Professor Charcot em Paris, Freud, desperto com o caso de Anna O., deparou com a histeria feminina ainda associada à feitiçaria e à possessão demoníaca. O neurologista Jean Martin Charcot estava interessado em descobrir uma base orgânica para a histeria e Freud e Breuer um sentido psíquico – Anna O. havia adoecido da doença mortal de seu pai, por amor a este.” (Malvine Zalcberg em Amor paixão feminina.)
De acordo com Malvine:
Freud, de volta a Viena, associou-se a Breuer e desta parceria resultaram os Estudos sobre a Histeria; o marco inaugural da psicanálise. Anna O. tornou-se a primeira histérica na história da psicanálise que reservou para a mulher um lugar privilegiado. Ela, Anna O., conduziu Freud e Breuer à descoberta de que o consciente não constitui o todo do psiquismo – nele há um aspecto inconsciente. Assim, a feminilidade e o inconsciente entrelaçaram-se na criação da psicanálise que, de certa forma, satisfaz uma das principais solicitações histéricas que é a de um saber sobre o sexo. Freud foi além de Breuer e Charcot reconhecendo, nos aspectos recalcados de Anna O., um componente sexual; descoberta que elucida a perspectiva psicanalítica de que a sexualidade transborda a relação sexual, alojando-se no campo do sintoma.
Outros tempos, outros sintomas, outras manifestações sintomáticas, “embora permaneça verdadeiro”, como diz Malvine, “que o que a histérica não consegue sustentar em sua existência, seu corpo o expressa.”
Nessa época dos estudos de Freud, as mulheres ainda tinham um único e imutável papel na sociedade. Em Moral Sexual “Civilizada” (1908), Freud critica a moral sexual repressora para as mulheres e “dupla” para os homens. As mulheres eram educadas de acordo com uma moral sexual baseada na “retardação artificial das funções eróticas” – fonte de sofrimento psíquico para elas. O desejo feminino não era bem-vindo. A “castidade feminina” que recompensava socialmente as mulheres com o lugar de esposas comprometia seu desenvolvimento psíquico, pois elas tinham que assumir o papel de esposa e a função de mãe, sem terem sequer se deslocado da posição de filha para a de mulher.
As filhas que se tornavam esposas também eram educadas por seus maridos. Eles – o pai e o marido – detinham o saber. A sexualidade feminina se constituía toda no discurso do outro: pai, marido, religião. E “toda” inserida no discurso do outro do patriarcalismo, ficava à margem da educação, cultura, linguagem, do saber permitido às mulheres. Supostamente, desejar um discurso próprio sobre a sua sexualidade era uma transgressão para a qual elas não estavam preparadas – podemos imaginar quantas mulheres sucumbiram na impossibilidade de falar da própria sexualidade.
Nossa sociedade é outra, diferente. Vivemos a liberdade sexual sem as restrições da moral sexual da época de Freud. As mulheres hoje têm múltiplos papéis; psiquicamente, não carregam mais o peso da armadura de um único papel, embora a sexualidade feminina siga o discurso de um outro que diz às mulheres em todos os lugares e a qualquer hora do dia, da noite, o que vestir, o que comer, aonde ir, com quem ir e até como “se dar bem”. A sexualidade feminina no século XXI é tão influenciada por padrões de beleza, saúde e sucesso que fica difícil de identificar os significados de cada um. Saúde, beleza e sucesso entrelaçam-se de tal maneira que se confundem, pois o que é saudável é belo e faz sucesso.
Deborah L. Rhode (autora de The Beauty Bias, 2010), no artigo “A injustiça da aparência” (The injustice of appearance, Stanford Law Review, 2009), aponta a aparência como um problema sério para as mulheres na contemporaneidade. Os investimentos na aparência somam bilhões por ano e homens e mulheres, mais as mulheres, evidentemente, investem tempo e dinheiro no que as deixa atraentes – impressionam as despesas (em bilhões) com cuidados e tratamentos para cabelo, pele, cirurgias estéticas, cosméticos, perfume; denominadas por Rhode “os custos da nossa preocupação cultural com a aparência”.
De acordo com Deborah Rhode, a aparência influencia na avaliação sobre competência e profissionalismo, sendo, portanto, associada a ambos. (Estudo da socióloga Catherine Hakim – Erotic Capital – confirma que pessoas com capital erótico, um conjunto de habilidades e atributos que as torna mais atraentes física e socialmente, têm mais oportunidades e ganham mais.) Rhode indaga sobre o que é ser atraente, esclarecendo que hoje este conceito provém de padrões predeterminados: a globalização dos meios de comunicação em massa e da informação tecnológica incrementou a cultura da aparência com padrões que definem o que é ser atraente.
A preocupação com a aparência começa cedo. As crianças vêm sendo ordenadas na cultura da aparência “naturalmente”, e as que não correspondem aos padrões de atratividade – crianças acima do peso ideal, por exemplo – têm apresentado dificuldades e problemas psicológicos. O estigma da obesidade persiste na fase adulta e mulheres acima do peso ideal são mais discriminadas que homens na mesma situação. Segundo Rhode, para muitas pessoas, a discriminação baseada na aparência parece justificável porque profissionalmente a aparência é relevante. E uma das formas mais comuns desse tipo de discriminação envolve o peso.
A advogada e professora da Stanford Law School defende uma proteção legal ou uma outra forma de reação social para a discriminação baseada na aparência por ela ser uma forma significativa de injustiça e por ofender os princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana. Para Rhode, tal discriminação não deve ser tolerada. Ao contrário, deve haver um remédio legal para esta discriminação, pois quem possui características físicas imutáveis e impossíveis de se ajustarem aos referidos padrões ainda não pode contar com a proteção da lei. Rhode argumenta que quem fica fora dos padrões de beleza e atratividade, em geral associados a status, autoestima, competência, profissionalismo paga caro financeira e psicologicamente e quem investe tempo e dinheiro para obter os ganhos de uma aparência moldada por tais padrões também paga caro. Adverte: a sexualização da mulher valoriza o look em detrimento do mérito.
No teatro, a personagem Nora de Casa de Bonecas (1879), do norueguês Henrik Ibsen, ilustra o drama da mulher de sua época e também o da mulher de hoje. Nora se inquieta com o papel de boneca que lhe fora dado primeiro por seu pai e depois pelo marido. Ao lado de Helmer, Nora permanecia a mesma: boneca. Esposa, mãe e boneca. Sem direito a outro lugar no seu casamento, Nora parte em busca do seu desejo: tornar-se um ser humano; uma mulher. Ou mais de uma. Talvez muitas… Ou tão somente outra, tendo como ponto de partida o que ela não queria. Saber o que não se quer pode vir a ser o despertar para uma promessa – por vezes chegamos ao que queremos pelo o que não queremos. Contudo, entre a heroína Nora e a mulher de hoje há muitas calorias a mais no processo de subjetivação.
Tanto a mulher da época de Freud quanto a mulher de hoje precisam do olhar, da palavra do outro, sobretudo “das palavras de amor de um homem na constituição da sua subjetividade”, segundo a psicanalista Malvine Zalcberg. É preocupante que a sexualidade feminina – “uma construção complexa que envolve amor, desejo e gozo, a partir da falta” – sofra tanta influência desse outro da contemporaneidade que joga pra não perder. Mas as mulheres costumam ser astutas, com photoshop ou sem photoshop…
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O mergulho é seu convite.E onde fica o alimento para a alma que insiste em olhar todas as mulheres pelo espelho?
Maravilhoso.Só podia ser seu.
Oi, Nana, querida!
Pois é! E onde está?
Em se tratando de mulheres, não é – e só no nosso caso – o “alimento” está para cada uma pq “cada mulher é uma”. Somos muito, muito CHICS! (rs) O espelho não é universal.
No texto, uma das questões está relacionada com o ser dona do próprio “espelho”. Legal sua observação que abre uma reflexão que tem a ver com a padronização – sendo cada mulher UMA, não é curioso que estejamos vivendo um momento de padronização excessiva?
Bjosss.
Uai sô..me permite dois comentarios pra lá de machistas?
pela foto vc, pessoalmente, nao tem com o que se preocupar não é?
e, supreendentemente, escreve muito bem, apesar de ser bonita e..advogada.
to bobo…
UAI, até 3, SÔ! (rs)
Os seus comentários são bem-vindos – pra mim não são machistas! Inclusive, vc podia ter posto o seu nome tbm; podia ter assinado o que vc escreveu… Ou seja, vc poderia ter se identificado com o seu nome pq pra mim não haveria qualquer problema – fica pra próxima então… (rs)
Todos gostamos da beleza – quem não gosta, sinceramente? Mas o que a Rhode expõe no trabalho dela, um trabalho realmente dedicado de pesquisa, com estatísticas que impressionam e com casos de pessoas que sofreram ou sofrem esse tipo de discriminação, então, um dos argumentos dela – e confesso a vc que os argumentos são muito bem fundamentados – é que a beleza e a atratividade, na contemporaneidade, escapam da esfera da autonomia do sujeito. Claro que é algo que levanta polêmica, mas a argumentação dela tem fundamento. E tbm pra quem, digamos assim, não tem “problema” com a falta de beleza e atratividade, ela diz que há preconceito tbm. Há casos de mulheres mais sexy que são preteridas em cargos de chefia, por exemplo.
Grata pelos 2 comentários. (rs)
viiiiiiiiide!!! como vc é espetacular,priminha!!!! a cada dia vc me surpreende mais…culta,sensivel,inteligente,competente,centrada,resolvida e um show no q faz. Pa..ra..bens!!! to fansissima,linda!!!bjao f
Oi, Ieda!
Grata, querida!
Puxa, muito legal vc ter gostado e obrigada pelo seu comentário.
A propósito, tbm sou sua fã! Vejo vc no poema “O encanto da mulher do deserto”…
Uma bela semana pra vc!
Bjo.
A discriminação, como se vê, não é novata, mas continua e assim a mulher busca a perfeição dita pela “massa”.
Cada uma de nós precisamos de palavras, mas se está do jeito que está, é por que também temos culpa.
Culpa, por expor demais as “curvas” e ficar procurando, até mesmo o impossível e artificial, para ser mais.
Vivi, agora concordar com “mosca na sopa”.
Parabéns pela texto espetacular.
Xeros
Oi, querida Xeros!
Vc disse tudo!
As palavras que, segundo Malvine, constituem a subjetividade feminina – digamos saudável e felizmente – são as de amor. Talvez isso aí que vc disse possa abrir uma outra reflexão: estariam então faltando essas palavras de amor e, em contraponto à falta delas, haveria hoje o excesso de “palavras” (ou comandos) desse outro da contemporaneidade? Poderíamos fazer esta reflexão…? Quem sabe isso poderia ser uma das “explicações” para a busca da perfeição hoje…?
Acho que eu não concordei com “a mosca na sopa”… Penso que ele disse algo que expressa o que ele pensa – eu respeito – e não julgo o comentário dele machista pq não faço muito esse tipo de juízo, por assim dizer. Ele disse o que ele quis dizer e como ele quis dizer. Eu achei divertido! (rs) Uma pena, no entanto, não saber quem é “a mosca na sopa”!?
A beleza sempre encanta… E a gente gosta do que nos encanta, não é? O que a Rhode diz é que hj a beleza e a atratividade estão associadas a padrões que dizem o que é belo, o que não é; o que é ser atraente, o que não é. Padrões de beleza e atratividade são fixados e ditados – já que estamos falando do poder da palavra – por esse outro da contemporaneidade. E são mais as mulheres que correm (ou corremos) atrás dessa adequação, por assim dizer. Uma das críticas da Rhode remete à não proibição da venda de produtos para emagrecimento e rejuvenescimento – produtos que “fazem milagres”! As mulheres são as principais consumidoras desses produtos e não há qualquer proibição à venda deles.
Obrigada pelo seu comentário, minha amiga blogueira!
Bjoca.
Muito legal o seu texto. Parabéns e um beijão.
Para completar vai ai um pouco do Michel Foucault
Não se trata, claro, de negar a existência desta repressão. O problema é mostrar
que a repressão se inscreve sempre em uma estratégia política muito mais complexa, que
visa a sexualidade. Isto não é simplesmente haver repressão. Há, na sexualidade, um grande
número de prescrições imperfeitas, no interior dos quais os efeitos negativos da inibição
são contrabalançados pelos efeitos positivos da estimulação. A maneira pela qual, no séc.
XIX, a sexualidade foi certamente reprimida, mas também trazida à luz, acentuada,
analisada por através de técnicas como a psicologia e a psiquiatria mostra claramente que
não se trata de uma simples questão de repressão. Trata-se, antes, de uma mudança na
economia das condutas sexuais de nossa sociedade.
“Michel Foucault. An Interview with Stephen Riggins”, (“Une interview de Michel Foucault par
Stephen Riggins)
….
Oi, Zezito!
Puxa vida, vc sempre trazendo luzes – QUE LUZES!
É muito bom ver o texto seguindo em frente… Uma sensação muito bacana ver que o texto continua “se” escrevendo e tão maravilhosamente assim.
Ah, sim… No texto de Freud, “Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna” (1908), a palavra “civilizada” (entre aspas) remete ao controle sobre a sexualidade exercido pela sociedade – controle que varia no tempo; modifica-se cultural e politicamente. E esse controle é exercido de diversas formas em momentos vários da civilização. Numa interlocução com Foucault – por alto e muito por alto – talvez possamos articular com o controle dos micropoderes sobre o corpo, embora, claro, cada um esteja no seu quadrado, como se diz (rs) – mas ambos falam de controle.
A crítica de Freud no texto, que é de 1908, é muito interessante pq ele fala de moral sexual “dupla” para os homens e repressora para as mulheres apontando – chamando atenção – para “o que” a sociedade estabelece como moral sexual – “civilizada” – que pode vir a ser fonte de sofrimento psíquico. Nós temos a nossa moral sexual “civilizada”, não temos?
Grata, meu querido. AMEI a conversa!
Beijo.
é onde entra “OMAL ESTAR DA CIVILIZAÇÂO“ do MESTRE e pode-se arricar a afirmar que 1908 continua muito atual…
beijos,vc é brilhante!!!
Grata, Fernanda, pelo carinho.
Tbm concordo que “1908″ continua muito atual!
Bjo.