Literatura africana

-- Mia Couto --
por Maria Ivonilda
Sempre tive dificuldade em pensar a filosofia sem vitalidade, sem atualização, ou seja, como algo estanque ao qual temos acesso em qualquer hora, de qualquer forma. Hegel bem disse que a filosofia – ao contrário de outras formas de saber – não pode e não deve ser vista apenas como um campo formado por imagens. A filosofia, segundo Hegel, deve ser tomada como uma ciência de conceitos, isto é, construção de conceitos – o que em última instância significa atividade.
Mas é interessante também perceber que a vida não é feita apenas de atividade no sentido formal ou científico: isto é, quando falamos de regras, noções gerais para o funcionamento de algo. É por isso que é importante entrar em contato com alguns autores – tais como Epicuro e Aristóteles – que ressaltaram o valor do prazer na vida humana e deixaram claro que este não deve ser visto desvinculado da atividade.
Não sei precisar o motivo, como e quando começou, mas ultimamente estava lendo literatura de forma automática. Às vezes até com a plena convicção de que eu havia me identificado de verdade com o autor, com a forma de escrever dele, com as suas peculiaridades – e isso pode até ser verdadeiro -, mas não havia aquele prazer genuíno, o que estava ali não me tocava muito. Então eu percebi que o problema deve ter a ver com a forma com que eu passei a ler literatura: como qualquer outro campo teórico através do qual se obtém conhecimento a partir da via intelectual. Em suma, não estava lendo literatura como uma arte, arte na qual elementos como imagens, símbolos, inventividade, dentre outros, são fatores muito mais relevantes do que exatidão, métodos, dados e resultados, por exemplo.
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E aí veio Mia Couto. Sim, o famoso Mia Couto, mas até então um autor que eu havia deixado passar. O livro que me conquistou chama-se Vozes Anoitecidas e consiste em doze contos independentes, mas que têm em comum o retrato de Moçambique a partir de histórias particulares. A literatura de Mia Couto é permeada pelo fantástico – volto a falar disso mais a frente -, mas também é marcada por um realismo poético, que dificilmente nos deixa indiferente:
Desculpa: mais peregrino que o rio não conheço. As ondas vão, vão nessa ida sem fim. Há quanto tempo a água tem esse serviço? Sozinho sobre a velha canoa, Ernesto Timba media a sua vida. Aos doze anos começara a escola de tirar peixe da água. Sempre no comboio da corrente, a sua sombra havia mostrado, durante trinta anos, a lei do homem sobre o rio. E tudo era para quê? A seca esgotara a terra, as sementeiras não cumpriam promessa. Quando regressava da pescaria, não tinha defesa para os olhos da mulher e dos filhos que se espetavam nele. Pareciam olhos de cachorro, custava admitir, mas a verdade é que a fome iguala os homens aos animais. (COUTO, 1992, p. 28)
Todavia, da mesma forma que nos apresenta as especificidades que nos aproxima, por uma identificação instantânea com um modo de vida, Mia Couto mostra também que a boa literatura é universalizante, que problematiza não apenas aquilo que se limita a um contexto histórico, mas também o que se apresenta aos povos desde os mais remotos tempos. Como quando são narradas a tristeza e a formação de identidade no conto “Afinal, Carlota Gentina não chegou de voar?”
Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não das raças, mas de existências. A minha mulher matei, dizem. Na vida real, matei uma que não existia. Era um pássaro. Soltei-lhe quando vi que ela não tinha voz, morria sem queixar. Que bicho saiu dela, mudo, através do intervalo do corpo? (Ibidem, p. 42)
Outro elemento recorrente nas obras de Mia Couto é a lembrança. Lembrança dos tempos de guerra, das pessoas queridas. A ferramenta usada por Mia Couto para trazer à tona esses personagens é a imaginação, pois para o autor, ela é uma forma de resistência, assim como também representa um meio para a libertação. Alguns intérpretes defendem que o recurso da imaginação faz com que Mia Couto nos apresente um novo olhar para a realidade do seu país. Mas essa imaginação não pode ser pensada desconectada da linguagem. E esse com certeza é um dos pontos mais geniais de Mia Couto. Tenha em mente a célebre afirmação de Wittgenstein de que os limites da linguagem de um sujeito significam os limites do seu mundo. Agora imagine que essa limitação pode ser entendida como, na verdade, uma “determinação”, isto é, uma afirmação de uma linguagem própria, de um mundo próprio, etc. O próprio Mia Couto, numa entrevista realizada em 2003 por Vera Maquêa, afirma que é cedo para se falar de uma identidade moçambicana, mas isso não quer dizer que ela não exista ou que ao menos não possa existir. Nas palavras de Mia Couto:
A chamada “identidade moçambicana” só existe na sua própria construção. Ela nasce de entrosamento, de trocas e destrocas. No caso da literatura é o cruzamento entre a escrita e a oralidade. Mas para ganhar existência na atualidade, no terreno da modernidade, Moçambique deve caminhar pela via da escrita. Estamos no mundo pela porta da escrita, de uma escrita contaminada (ou melhor fertilizada) pela oralidade. Nós não podemos ir pela porta de trás, pela via do exótico terceiro-mundista. (…) No fundo, o meu próprio trabalho literário é um bocadinho esse resgate daquilo que se pode perder, não porque seja frágil mas porque é desvalorizado num mundo de trocas culturais que se processam de forma desigual. Temos aqui um país que está a viver basicamente na oralidade. Noventa por cento existem na oralidade, moram na oralidade, pensam e amam nesse universo. Aí eu funciono muito como tradutor. Tradutor não de línguas, mas desses universos. (MACEDO e MAQUÊA, 2007, p. 196).
Muitos afirmam de imediato a semelhança de Mia Couto com um dos grandes nomes da literatura brasileira, Guimarães Rosa. Em uma resenha publicada no jornal Rascunho, Mariana Ianelli esclarece:
Dessa partilha que transcende a dimensão da língua e toca o fundo de um parentesco mágico, deriva o encontro de alma especialíssimo de Mia Couto com Guimarães Rosa. Em um sertão que desemboca em savana, levanta-se agora, mais uma vez, a flor mestiça, re-encantada em cores de beleza universal. Tudo o que Mia Couto reconhece marcar a experiência de recriação da escrita em Guimarães, podemos também reconhecer em seu trabalho, bem entranhado nos sais da terra moçambicana: o uso de “neologismos, da desarticulação da frase feita, da reinvenção dos provérbios, do resgatar dos materiais da oralidade”. Poetas por excelência, ambos são feiticeiros da linguagem, desbravadores de uma pátria mítica em que nos descobrimos antes unidos por um sonho que separados por diferenças de raça.
Há uma obra que resume brilhantemente o universo criativo de Mia Couto, esse contador de histórias. É ela Terra Sonâmbula. Resumidamente falando, Terra Sonâmbula é um romance que tem como plano de fundo a guerra civil moçambicana e como principais personagens o pequeno Muidinga e velho Tuahir. Muidinga, o pequeno órfão ou perdido da família, foi encontrado pelo velho Tuahir, a quem chama de “tio”, e por mais que o “tio” seja a pessoa a quem Muidinga devesse se apegar pelos cuidados com que ele podia ter com o menino, ambos passam a se apoiar um no outro, a cuidar um do outro, pois assim encontram forças para enfrentar, ainda que como sonâmbulos, o caminho através de estradas mortas, de lugares destruídos pela guerra. Até aqui, tudo “correto”. Mas boas histórias não são só corretas, são constituídas por inventividade, por ousar ultrapassar a barreira que separa aquilo que pode ser contado do que não pode. E é nesse momento que entram os “Cadernos de Kindzu”, que na história significa um diário que narra a vida de um personagem já morto chamado Kindzu que, por sua vez, só podemos visualizá-lo porque Muidinga, que encontrou o diário, passa a lê-lo para nós, o que acaba permitindo com que tenhamos acesso a duas histórias paralelas, mas que passam a se intercalar.
Vale a pena reiterar a força com que Mia Couto afirma a memória aos mortos como possibilidade de o povo construir ou mesmo apropriar-se da sua própria história, como constatamos em um diálogo no décimo caderno de Kindzu:
- O que andas a fazer com um caderno, escreves o quê?
- Nem sei, pai. Escrevo conforme vou sonhando.
- E alguém vai ler isso?
- Talvez.
- É bom assim: ensinar alguém a sonhar.
(COUTO, 1996, p. 144)
Mas o romance é muito mais que isso, não é simplesmente um reducionismo que se pauta na afirmação da nossa visão de um ocidente colonizador, mas é recriação de uma história a partir de um registro de uma época feito por parte dos reais interessados. Interessados que desta vez são colocados ainda como vítimas, mas não apenas como vítimas. Pois não é bem a intenção de Mia Couto panfletar, viver de um passado que é só é possível devido a um sectarismo, um maniqueísmo pobre. No caso de Terra Sonâmbula: “o escrito deixa de ser o passado – pelos registros da memória de Kindzu e ambas as narrativas se confluem no leito do mesmo rio e deitam juntas suas raízes, fundando uma história que mostra existir antes da Europa inventar uma história para a África.” (MACEDO e MAQUÊA, 2007, p. 61)
Ainda como forma de afirmar a transposição da fronteira do “dizível”, temos a inserção do fantástico na obra em questão. A lógica cede vez ao “fantástico” para que a comunicação entre as diversas histórias que vão se apresentando e as duas narrativas seja possível. É que o autor não se contenta com a idéia de contar duas histórias paralelas e passa a construir uma teia de histórias que supera as duas histórias individuais.
Não está mais em jogo apenas o destino dos dois caminhantes refugiados, mas também a história de um povo, que nutre esperança, que sonha com um outro futuro. E foi essa a forma que Mia Couto usou para nos contar a história desse povo, foi através da inserção do fantástico em Terra Sonâmbula – lançando mão do sonho, da imaginação, da mudança de paisagens de acordo com o “estado de espírito” de personagens, e, da entrada de personagens enigmáticos nas narrativas – que Mia Couto resolveu nos mostrar a incerteza dos tempos à qual nenhuma civilização jamais pode-se dizer imune a ela. Aliás, a própria vida é incerta – a incerteza não é um atributo que podemos conferir apenas à história. O poeta português Fernando Pessoa, uma dessas figuras de lucidez assombrosa, uma vez disparou: “Navegar é preciso; viver não é preciso“. É, meus caros Fernando Pessoa e Mia Couto, viver não é mesmo uma coisa que podemos chamar de “exata”, “precisa”.
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Apesar de tudo o que foi colocado até agora, ainda não disse o que mais me importa nas obras que tenho lido de Mia Couto e de outros autores africanos – autores que não comentei por pensar que o texto iria ficar muito extenso, mas farei isso em outra oportunidade. Pois bem, o que mais importa para mim nessas obras é que elas parecem me transportar para outro tempo. Encontro detalhes nessas obras que me remetem à minha infância, à minha família, especialmente à minha avó materna, ao modo de vida que sempre levamos – eu e meus familiares -, mas que está cada vez menos evidente. Tenho a impressão de que quando eu leio essas obras, eu passo a resgatar um pouco desse tempo: que talvez tivesse até menos recursos – desses que as pessoas valorizam atualmente -, mas mais riqueza de espírito e beleza, mais intensidade e mais verdade, mais alegrias e mais prazeres. É, não encontro uma palavra melhor do que resgate. Descoberta seria até uma palavra boa se não expressasse o conhecimento de algo completamente novo – o que não é verdade -, portanto, resgate expressa melhor essa idéia de reconhecimento, de conhecer novamente, em suma, de resgatar da memória essas lembranças. O interessante é que Mia Couto fala a mesmíssima coisa sobre outros autores que exerceram influência sobre ele, como quando ele cede uma entrevista à Vera Maquêa – à qual já fiz referência anteriormente:
É uma confissão que eu raramente faço, mas eu adoro livros que eu não consigo ler desse ponto de vista de que aquilo que estou a fazer não é ler, é uma outra coisa, tem que se inventar um verbo para isso. Porque acontece quando estou a ler o Guimarães Rosa ou a Adélia Prado, certos textos me atiram para fora da página, eu tenho que parar porque eu começo escutando vozes que disputam o que está fora do registro gráfico, está para além da página. (…) Isso transporta para a infância, para encantamentos e instantes de fantasia que vivi na minha vida, e que ainda hoje são meu chão. (MACEDO e MAQUÊA, 2007, p. 205)
Por outro lado, deve ser digna de reprovação a idéia de que alguém passe a ler autores como Mia Couto, José Luandino, Juvenal Bucuane, Ondjaki, Pepetela, Coetzee etc. apenas para afirmar em uma conversa qualquer que já leu um autor africano. Mas não podemos ignorar que, independente de prazer, afinidade e identificação com o que está escrito, há a questão do conhecimento. Não é porque eu tentei afirmar no texto a outra face da história, isto é, a sensibilidade como fator determinante na experiência estético-literária que o conhecimento, tal qual o tomamos mediante a via puramente intelectual, seja deixado de lado.
Uma amiga, por exemplo, ao me presentear com dois livros de autores africanos, me escreveu dizendo: “A gente vive criticando os que não sabem que Buenos Aires não é a capital do Brasil, mas nos esquecemos que a maioria dos brasileiros tampouco sabe sobre Maputo.” O exemplo dela foi formidável, mas mais interessante é ainda é a idéia acompanhada de uma explicação detalhada sobre esse nosso estado de desconhecimento que, por muitas vezes, pode ser perigoso quando se torna a única opinião aceita. Portanto, como estou em vias de encerrar o texto, deixo como indicação uma pequena conferência no TED com uma autora nigeriana chamada Chimamanda Adichie. O título da conferência é “O perigo da história única” e ela pode ser vista aqui.
O que eu tomo como conclusão dessa situação toda é que talvez o equilíbrio entre o “teórico-intelectual” ou o “prático-político” não possa ser encontrado, pois uma vez que o sujeito toma uma posição, ela vai acabar gerando uma influência bastante expressiva na maneira que ele passa a ver o mundo. Mas ler literatura, entrar em contato com a história dos personagens e ter acesso a diferentes culturas faz com que, de certa forma, passemos a superar essa discussão entre teórico e prático – o que não deixa de ser uma forma de encontrar esse tal equilíbrio. Na verdade, lendo autores africanos, eu passei a perceber que através da literatura – mesmo quando ela parte de histórias particulares e culturas específicas – eu posso ir de encontro à humanidade. Lendo literatura africana, eu descobri que a literatura é capaz de nos tornar mais humanos.
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Referências:
– Literaturas de Língua Portuguesa: marcos e marcas – Moçambique, Tânia Macedo e Vera Maquêa. Arte & Ciência, 2007.
– Terra Sonâmbula, Mia Couto. Lisboa, Editorial Caminho, 2ª edição, 1996.
– Vozes Anoitecidas, Mia Couto. Lisboa, Editoral Caminho, 2ª edição, 1992.
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Muito bem! O melhor mesmo na literatura é andarmos juntos, vivos entre vivos.
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