Os assassinatos no Paquistão não têm nada a ver com blasfêmia

-- Shahbaz Bhatti, o único ministro cristão no governo paquistanês, foi assassinado no último dia 2 --

por Nick Cohen

Após Salman Rushdie publicar Os versos satânicos, “estudiosos” da religião ficaram em dúvida se o aiatolá Khomeini tinha o direito de ordenar seu assassinato. Eles não tinham aflições liberais sobre a execução de um escritor que submeteu a religião ao escrutínio da imaginação. Acreditavam que blasfemos e apostatas deviam morrer conforme insistia sua religião. Mas apenas se fossem cidadãos de um estado islâmico. Como Rushdie vivia em Londres em 1989, um homem livre em um país livre, os clérigos concluíram que a lei religiosa não se aplicava a ele.

A controvérsia em torno de Rushdie foi o caso Dreyfus do final do século 20. Ele estabeleceu as linhas divisórias da atualidade, entre o secular e o autoritário, entre aqueles dispostos a defender a liberdade de pensamento e indagação e aqueles que queriam censurar e se auto-censurar a fim de manter os fanáticos satisfeitos. Podemos medir o quanto já pioramos se lembrarmos que no começo da batalha, 23 anos atrás, havia uma minúscula preocupação pelas formas de legalidade, mesmo entre aqueles que estavam de outra forma felizes em condenar livres pensadores à morte. Por mais brutal que fossem, eles respeitavam sua versão do devido processo.

Os islamistas assassinos, primeiro de Salmaan Taseer e depois de Shahbaz Bhatti, mostram que os minúsculos escrúpulos que os sanguinários podiam possuir já desaparecerem há muito. A melhor forma de descrever o terror que está reduzindo os liberais paquistaneses ao silêncio é listar o que os assassinos não alegaram. Eles não disseram que Tasser e Bhatti deviam morrer porque eram apostatas – ou, para colocar esse “crime” em linguagem clara, porque eles eram adultos que decidiram que não acreditavam mais no deus muçulmano. Taseer não havia renunciado ao islã. Bhatti não tinha como renunciar, porque já era o mais corajoso cristão do país, fazendo campanha por direitos iguais para as minorias perseguidas com a dignidade e a coragem física de um Martin Luther King moderno.

Seus assassinos também não alegaram que seus alvos haviam cometido o crime capital da blasfêmia. Taseer e Bhatti não haviam dito que o Alcorão, assim como o Talmude e o Novo Testamento, era obra de homens e não de Deus. Eles não denunciaram a moral de Maomé ou ofereceram uma crítica de sua vida e ensinamentos. Se você quisesse reduzir a estonteante e brilhante narrativa dos Versos satânicos de Rushdie a uma única sentença, poderia dizer que ela era em parte um relato “blasfemo” da história inicial do Islã. Taseer e Bhatti não tentaram nada tão bravo. Eles se limitaram a fazer o modesto argumento de que a pena de morte por blasfêmia no Paquistão era um excesso e uma barbaridade, e isso bastou para que fossem condenados. Seus assassinos os mataram pelo crime até então desconhecido de defender a reforma penal – os liquidaram pela nova ofensa de blasfemar contra a blasfêmia.

Um jornalista paquistanês com quem falei descreveu seus amigos liberais como membros de uma minoria perseguida, que agora sabem que, se falarem, virarão alvos. A filha de Salmaan Taseer, Shehrbano, escreveu um dilacerante artigo para o Guardian, em que se desespera com o fato de uma “fraca” elite paquistanesa estar assustada demais para tecer qualquer elogio a seu pai ou condenar seus assassinos.

Em um mundo conectado em rede, diz-se que a censura por parte de um estado autoritário ou clérigos paramilitares tem menor importância. Entusiastas da tecnologia apontam as revoluções via Twitter como prova de como ideias democráticas emancipatórias infiltram-se em sociedades aparentemente fechadas. Mas as ideias que os paquistaneses precisam dos EUA, da Europa ou do “ocidente” para lutarem contra a teocracia armada não estão ao alcance de seus internautas.

O medo tem seu papel em manter a opinião ocidental igualmente comedida. É duro reconhecer, mas a sociedade liberal respondeu bem à ameaça a Rushdie em 1989. A editora Penguin recusou-se a recolher os Versos satânicos. Livreiros ignoraram ameaças e bombas e continuaram vendendo. Mas assim que a onda global de terror arrefeceu, ninguém quis se colocar em situação parecida com a que Rushdie e a Penguin passaram, e o silêncio se impôs. Mesmo os supostamente militantes “novos ateus”, que distintos comentaristas condenam por sua vulgaridade, mantém distância de religiões que possam matá-los. Leitores atentos de Richard Dawkins verão que quase todos seus exemplos de loucura clerical são tomados da igreja católica e de igrejas evangélicas estadunidenses, cujas congregações são mais improváveis de explodirem seus editores.

O medo ainda está presente. Mês passado, quatro homens foram condenados por talharem o rosto e fraturarem o crânio de Gary Smith, um professor londrino que cometeu o erro de levar a sério os empolados pronunciamentos oficiais sobre “promoção da diversidade” e passou a ensinar alunas muçulmanas sobre cristianismo, judaísmo e hinduísmo. A violência política vem do British National Party, da English Defense League e de vários fragmentos do IRA, bem como de islamistas, e isso tudo antes de você levantar a vista e examinar os agrupamentos de malucos armados que habitam as franjas da política estadunidense. A diferença entre o islamismo e o resto é que os liberais estão dispostos a denunciarem extremistas brancos, enquanto acobertam o Islã militante com a manta do politicamente correto. Eles não se limitam a dizer que, claro, as sociedades devem proteger as pessoas de serem mortas devido à sua religião, como Slobodan Milosevic assassinou os muçulmanos bósnios, e punir patrões que recusam-se a empregar membros de credos que desgostam, como os protestantes fizeram na Irlanda do Norte quando recusavam-se a empregar católicos. Eles mantém que é ilícito criticar ideias religiosas. Assim, junto com o reconhecido medo da violência, escritores ocidentais que queiram fornecer argumentos contra a misoginia, homofobia, racismo e a censura religiosas, devem viver também com o temor de seus contemporâneos os acusarem de orientalismo ou islamofobia.

O mundo ainda pode pagar um alto preço pelo erro monumental de tratar ideologias religiosas – crenças que homens e mulheres devem ser livres para aceitar ou rejeitar – como se fossem etnias, que nenhum homem ou mulher pode trocar. Umas das razões pela qual a revolução árabe é um evento otimista é que a Al-Qaeda e a Irmandade Muçulmana ficaram como pasmos espectadores. Seu isolamento pode não durar muito. Mais cedo ou mais tarde, se os estados árabes tomarem o rumo da democracia, haverá uma confrontação com o Islã político. Liberais árabes, como os liberais paquistaneses, buscarão alguma orientação na rede. E descobrirão que, longe de oferecer estratégias que possam ajudar, intelectuais ocidentais medrosos se convenceram de que é “racista” criticar fanáticos ferozes que nem mesmo se preocupam mais em fingir que são algo além de inimigos mortais do liberalismo.

2 comentários | Dê sua opinião

  1. Pingback: A leniência com os fascistas muçulmanos | ESTADO ANARQUISTA

  2. Ferreira josé da silva 30/04/2011 em 8:03 pm

    OLÁ AMIGO NICK, LI SEU ARTIGO SOBRE OS ASSASSINATOS DO PAQUISTÃO, CONFESSO QUE GOSTEI MUITO DA CLAREZA COM QUE VOCÊ TRATA DO ASSUNTO . O FANATISMO RELIGIOSO É DE FATO A PIOR DESGRAÇA DO MUNDO DES- DE: OS TEMPOS ANTIGOS, ATÉ OS DIAS DE HOJE. AS IDEOLOGIS FANÁTICO-RELIGIOSAS TEM MATADO + PESSOAS NO MUNDO QUE TODAS AS DOENÇAS INFÉCTO-CONTAGIÓSAS JUNTAS (INCLUSIVE O HIV) DEVO CONFESSAR QUE NÃO SOU ATEU MAS; ABOMINO VEEMENTEMENTE TODA E QUALQUER FORMA DE RELIGIÃO.( SÓ CREIO EM DEUS)

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