A contra-ofensiva de Kadafi

-- Kadafi discursando hoje em Trípoli --

por Daniel Lopes

Começou pra valer hoje. Parece cada vez mais difícil que o ditador seja derrubado apenas pelas mãos dos rebeldes líbios. As cidades de Gharyan e Sabratha, que estavam sob controle da oposição, foram retomadas pelo governo, que também luta para retomar Brega, 200 km ao sudoeste de Benghazi, a maior fortaleza dos manifestantes.

Kadafi falou hoje a partidários. Disse que há uma “verdadeira democracia” em seu país e que o sistema líbio “não é compreendido pelo mundo”. Enquanto isso, continua usando ataques aéreos contra civis. Um jornalista do Guardian que está em Brega informou via Twitter que “Large smoke plume billows from rebel position just bombed by ghaddafi jet.

Ontem, o primeiro-ministro britânico David Cameron, sugeriu a imposição de no-fly zones na Líbia, além do envio de armamentos aos rebeldes, mas Sarkozy e Obama ficaram com dois pés atrás. Será que chegaremos à situação dos anos 90, em que a Grã-Bretanha foi a principal responsável pela insistência na derrubada do carniceiro Milošević?

Líderes oposicionistas em Benghazi aparentemente não querem intervenção dos EUA ou da OTAN, mas pedem que a ONU bombardeie forças de Kadafi. No entanto, Rússia e China bloquearão qualquer resolução nesse sentido no Conselho de Segurança. A propósito: uma organização que fiscaliza a movimentação de armas informou que no dia 15 de fevereiro, pouco antes do embargo de armas da ONU a Kadafi, ele recebeu um avião carregado de equipamento militar vindo da Bielorrússia. Agora, quem acha que a Bielorrússia paga um gari sem a autorização da Rússia, levanta o braço.

E a Liga Árabe? A Liga Árabe rechaçou quaisquer planos de intervenção estrangeira na Líbia. Mas o que ela se propõe fazer além disso, para parar a matança? Ela mesmo montará uma força conjunta para apressar a derrubada do ditador? Improvável. Ela conseguirá convencer Kadafi a abandonar o poder e ajudará na transição para a democracia? Quem dera.

A Líbia não é o Egito, cujas forças armadas foram apoiadas por décadas pelos EUA, relação que provavelmente foi fundamental para que em 2011 não se derramasse sangue em proporções líbias no Egito. O exército líbio já não era da confiança sequer do próprio Kadafi, que já há algum tempo confia mais em mercenários do que nas forças regulares.

Uma coisa é clara: Kadafi não pode ter sucesso. Se começar a retomar cidades por cima de cadáveres, terá que ser derrubado por algum país ou organização; não é possível que se ache uma intervenção para liquidar bandos de mercenários que só são corajosos contra civis a pior coisa do mundo. Se Kadafi for bem-sucedido e a comunidade internacional simplesmente disser amém, estará dado o roteiro do sucesso para os outros tiranos da região permanecerem em seus tronos.


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7 comentários | Dê sua opinião

  1. Luis Henrique 02/03/2011 em 11:52 pm

    Daniel, você sofre de amnésia (*coff* *coff* Iraque *coff* *coff*) ou simplesmente engole aquela bobagem de “guerra justa” do Habermas? A qual “país ou organização” você se refere? Que “comunidade internacional” é esta?

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    • Daniel 03/03/2011 em 1:46 pm

      Você tem razão, a guerra do Iraque de 2003 foi triste. Saddam devia ter sido derrubado logo após ter sido expulso do Kuwait. Como assim, qual país ou organização? Os citados no texto. ONU, OTAN, EUA, Grã-Bretanha. Talvez França. Nenhuma delas está propondo guerra total, como no caso do Iraque. Seria mais a imposição de no-fly zones. Até nisso, a Grã-Bretanha insiste mais que os EUA. Ou seja, por enquanto os anti-imperialistas podem ficar tranquilos assistindo Kadafi esmagar a oposição.

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  2. Bruno Cava 03/03/2011 em 12:23 am

    A intervenção ocidental pode rapidamente se tornar a “pior coisa do mundo”.

    Hoje a imprensa conservadora fala em guerras tribais, “somalização”, al-Qaeda, “desastre humanitário”, — como se fossem causas de uma intervenção ocidental. Mas são seus efeitos, seus produtos mais diretos em todo o século 20.

    Existe “desastre humanitário” na Líbia, como no Bahrein, no Egito, na Tunísia, com milhares de baixas. Ditadura alguma larga o osso sem reagir e revolução não se faz com lágrimas. Mas não surgiu o mesmo tom do discurso de “intervenção humanitária”, pelo contrário, as potências ocidentais tentaram ver até onde dava pra levar os regimes que lhes eram servis.

    Os rebeldes podem ser tudo, menos coitados amedrontados. Quem tem medo é Gaddafi e seu regime. A própria al-Jazeera fez autocrítica com muita cobertura “humanitária”, porque medo é exatamente o que o tirano precisa pra governar. Quanto mais reprimiram no Egito, na Tunísia, no Bahrein, mais o ímpeto revolucionário aumentou.

    Os EUA-OTAN esboçarem intervenção na Líbia é tanta burrice que fortalecerá Gaddafi. Já está fortalecendo. Existe sentimento anti-imperialista difuso na população líbia, e também contra Israel. O melhor que Obama pode fazer, e ele sabe bem disso, é ficar quieto. Meter o bedelho nessa revolução árabe não é prudente pros EUA, por mais que estejam perdendo posições estratégicas e possam perder o controle sobre a produção e fluxos de petróleo (principalmente se a monarquia saudita for derrubada).

    Por sinal, se Gaddafi for identificado como alvo do imperialismo, aí sim, abrem-se os portões para a al-Qaeda — que, vale frisar, é produto da intervenção ocidental e vive dessa dialética com o terrorismo cristão dos neocons.

    Aliás, é sintomático: quem peticionou internamente nos EUA pela “intervenção humanitária” foi a extrema-direita, a mesma que pautou o governo Bush nas invasões “humanitárias” no Iraque. Paul Wolfowitz de volta e tudo (http://ponto.outraspalavras.net/2011/03/01/o-imperio-tenta-enquadrar-a-revolucao/) Ah, mas o Iraque hoje é um país mais democrático… mas como dizer isso pros milhares e milhares de assassinados pelas forças armadas norte-americanas (http://esquerdopata.blogspot.com/2011/02/guerra-que-voce-nao-ve.html).

    Abraços.

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  3. Eugênio 03/03/2011 em 6:05 am

    A pornografia da guerra quer voltar à Líbia

    3/3/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
    http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/MC03Ak03.html

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  4. Pingback: E a Líbia? « Amiano Marcelino

  5. Ateísta CapiXaba Netto 11/03/2011 em 1:23 pm

    Há uma Revoçlução em curso no Mundo, começou na Tunísia, fez o Egito se abrir e agora está em curso de colisão com a Líbia ditadorial que tem a Obrigação de depor o Ditador Kaddafi.
    Já passou da hora do restante do mundo auxiliar nesta queda, independente dos “interesses” em primeiro lugar há o povo líbio que quer se libertar do jugo do Ditador.
    E para os “esquerdistas chatos” porque não se mudam para a Venezuela? Porque depois que Kaddafi cair este é o Próximo!

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