“127 horas”

-- James Franco (indicado ao Oscar) em cena --
por Ana Al Izdihar
Depois de muitas dificuldades particulares, consegui ver o mais novo desafio de Danny Boyle, 127 horas [em cartaz]. Acontece que apenas dessa vez tive o insight: todo filme de Boyle é um desafio ao espectador. Acho que os obstáculos que tive para vê-lo foram como um aviso para que eu comentasse isso com vocês aqui.
Quer sejam feitos de enredos mais complexos e que não foram hit – Cova rasa ou Alien love triangle (sem tradução no Brasil) – ou feitos de enredos mais simples e de apelo popular, nenhum filme de Boyle é “pague e leve”. Tudo o que ele faz parece ser propositalmente desafiador para quem assiste, nem que seja pelo aspecto técnico. E pense bem, prender o público durante uma hora e meia ou mais com a estória de um rapaz entalado numa pedra é um desafio para o cineasta, portanto, o filme tem de ser bom.
Já comentei aqui no Amálgama, na resenha de Quem quer ser um milionário?, sobre sua desenvoltura com os efeitos da câmera kinetic, e se focássemos somente este aspecto, já seria suficiente para alardear o impacto que o diretor causa em nós. Porém, Boyle não se contenta somente com isso; ele mesmo diz que gosta de fazer filmes que sejam “vívidos”. A fotografia é sempre impecável, paisagens estonteantes, música eletrônica de trilha sonora. Aliás, mais uma vez se une ao excelente A. H. Rahaman e a coisa fluiu maravilhosamente! Rahman nasceu para fazer trilhas sonoras.
Boyle também abusa dos ângulos e focos que lembram o estilo Orson Wells ou Terry Gilliam. E se o enredo parece-nos simples, no sentido em que segue o estilo clássico, o jogo narrativo que ele faz é que se nos mostra fascinante: aquele limite entre o real e o fictício que, emprestando um termo da literatura, a verossimilhança, nas mãos de Boyle, torna-se aquela realidade sacudida, mesmo metaforizada. Uma ficção nos dando o tal choque de realidade.
Por exemplo, para os cinéfilos, em 127 horas vemos uma referência a Brian de Palma: uma cena é cortada ao meio ou em três partes e podemos ver outras cenas num mesmo fragmento, em que os elementos são independentes, mas o todo é significativo. Lembro que alguns espectadores me disseram que chegam a ter náuseas com esse tipo de recurso. E percebi que neste filme talvez isto tenha sido de propósito: acostumar o público ao estilo de vida agitado de Aron Ralston e preparar o estômago para o que viria a seguir. Aliás, se você é uma pessoa muito sensível, não veja 127 horas, pois além de três cenas ao mesmo tempo, a realidade nua e crua das cenas pode fazer com que você sinta muito mais do que mareos.
Esta insistência de Boyle com a “vivacidade” das cenas é uma constante e é marcante. Relembre Trainspotting – Sem limites, A praia ou Quem quer ser um milionário?. Cada movimento de câmera tem um propósito para o enredo e compromisso com a tal verossimilhança. Algumas cenas do início de 127 horas não mostram o rosto de Aron Ralston (James Franco, brilhante!), mas mostram suas mãos ágeis e firmes.
Segue que Boyle e Franco foram até Ralston pedir-lhe permissão para ver suas gravações pessoais durante o que aconteceu com ele em Cannyonlands. E no que Boyle transforma isso tudo? Em várias cenas em que você vê a câmera indo na direção de algo ou alguém como se fosse Ralston, ou seja, mostrando a perspectiva do aventureiro e desvendando um pouco mais sobre sua personalidade. A estranha e a fascinante vida de Ralston refletida nas intrincadas curvas e labirintos de rochas. A grandeza desmedida da natureza que o traz para mais próximo de si mesmo e das pequenas coisas importantes de uma existência: como um raio de sol, um pássaro, um silêncio quase mortal.
Aliadas as cenas de multidões às pinturas rupestres, a aventura de Ralston nos leva àquela reflexão muito simples, às vezes considerada piegas por aqueles que gostam de complicar a vida, mas que tem seu valor, principalmente nesses momentos trágicos: de o quanto nos afastamos de nós mesmos no dia a dia. E que muitas vezes temos que tomar um tranco parecido com o de Ralston para perceber isso. Perceber que escolhemos tudo o que acontece conosco, o tempo todo, conscientes ou não disso. E que esta escolha nos aproxima uns dos outros e nos torna mais seguros e responsáveis por nós mesmos e por todos. E que reconfortante é saber que temos o privilégio de tomar esta consciência simplesmente acompanhando este episódio na vida de Aron Ralston.
Assista ao filme e tire suas conclusões. Como todo filme de Danny Boyle, este é moderno, chique, sofisticado, emocionante sem ser piegas e, como disse o próprio Aron Ralston em lágrimas após ver a premiére: “É real sem deixar de ser ficção”.
[trailer]

apesar do SPLIT SCREEN ter sido popularizado pelo de palma, ele existe desde o início do cinema. no caso de 127 horas creio que o recurso tenha sido utilizado para diversificar os planos, já que 60% do filme é na mesma locação. é interessante, não acho boyle tão bom diretor, mas acho seus filmes melhores que os de nolan, por exemplo (embora ache nolan melhor diretor). ser um bom diretor, criativo, interessante, nem sempre quer dizer BONS FILMES. veja o dario argento.
;>)
Olá, Biajoni
nossa! Que aula de SPLIT SCREEN! Obrigada!
Eu não disse que De Palma criou a coisa, só quis dar uma referência mais atual.
Mas acho que cada recurso usado não é apenas para diversificar cenas. Neste filme eu percebo que as cenas das multidões, que reaparecem no final quando Aron fala sobre as escolhas, tem a ver com o todo do enredo, sim.
O resto é gosto… E sempre digo aqui que quando chega nesse ponto, eu não me meto mais… Mas
só pra constar:
1. acho Christopher Nolan um bom diretor, mas não gosto da “mão” dele, acho “pesada”.
2. Quanto ao “pai do terror moderno”, eu já vi sim. Meu mestrado foi sobre filmes de horror e fui obrigada a vê-lo. Respeito a impontância dele, mas acho Dario Argento, no geral, sacal!
Obrigada pela prestigiada participação!