Shutter Island: Ilha do Medo
por Ana Al Izdihar – Há um mood retrô em Shutter Island: Ilha do Medo, de Martin Scorsese, que dá charme e arrepia a espinha. Se você parou no tempo e ainda acha que os filmes de Scorsese só falam de violência e dos mafiosos de Nova York que povoaram a infância do diretor, vá se informar!
Só para refrescar a memória, ele já conduziu narrativas muito diferentes entre si, como A última tentação de Cristo e Kundun, ambas com inovações de técnicas para gama de cores em lentes, além de fugir de Nova York e da máfia. Você sabia que Martin Scorsese dirigiu o documentário de uma turnê de Peter Gabriel (na mesma época, eles decidiram que Gabriel faria a trilha sonora da Última tentação…) e do clip “Bad” de Michael Jackson?
Tá certo que ele tem uma predileção por cenas violentas e fortes, dando closes e câmeras lentas nesses quadros. Mas é seu estilo, e se você já o conhece por isso, vai saber apreciar Shutter Island também por seus outros aspectos.
Fotografia de tirar o fôlego acompanhada de figurino e maquiagem impecáveis, recriando os anos 50 de modo até assustador. Tudo isso contribui harmoniosamente para o clima de medo e desespero da estória do detetive Teddy que, se você observar bem e lembrar de fatos históricos, tem tudo a ver com a paranóia e os traumas da comunidade americana após a Segunda Guerra. Há ali uma infinidade de imagens (desde quadros na parede, vitrais do manicômio presidiário, até os sonhos de Teddy) que simbolizam parte da história americana e consequentemente do mundo ocidental.
Porém, acima de tudo, este filme é uma homenagem aos fãs de cinema, já que Scorsese deixa claro referências aos filmes noir, ao mestre Hitchcock, e até uma pitada de Cidadão Kane pode ser sentida ali. E como sou cinéfila e um tanto purista em certos aspectos, por tudo já dito é um filme para ser visto em tela grande, no escuro do cinema, com uma aparelhagem de som boa. Aliás, a trilha sonora é extremamente dramática e marcante, lembrando a maneira antiga de se fazer cinema; inclusive a marca registrada de Scorsese (a música diegética – ou seja, a música da trilha aparece tocando em algum lugar na cena com os personagens) está lá e reforça esse clima sombrio, quase gótico.
Acho que algumas pessoas que desdenham as grandes produções americanas com aquele ranço de pseudo-cult-petista-barbudo-da-época-da-ditadura, dizendo que as narrativas hollywoodianas são mastigadas demais e são feitas somente para “vender”, terão trabalho em explicar a complexidade de Shutter Island. Se você achou a narrativa de Avatar tolinha, pop e descartável, vá ver Ilha do medo. Ela é daquelas que há tempos eu não via: dá trabalho para o espectador, você vai ter de fazer algumas conexões extras de neurônios e ela vai te prender até o final. O suspense é inebriante. E não saia do cinema enquanto não vir os créditos subindo.
E por isso mesmo, por não ser um filme muito fácil, talvez não seja um sucesso de bilheteria. Em minha opinião é uma obra de arte, principalmente para quem entende de cinema. Mas se você não se liga muito em aspectos específicos da linguagem cinematográfica, poderá achá-lo um filme entre “pesado” e “ok… diferente”. Se você não gosta de cenas fortes de suspense, não vá. Se gosta, é diversão garantida. E tenho de acrescentar que venho curtindo muito as rugas faciais e de amadurecimento de Leonardo DiCaprio.

















Ana , my dear, é sempre um prazer te ler. Demais!!
Sue
Oi, Su!
Obrigada por ler. Mas você viu o filme ou vai ver (interrogação).
Apareça mais!
Maravilha de resenha Ana, como sempre adoreeeei!
Nem vou ler, pq vou assistir hoje. Depois venho ler e dar minha opinião.
Pingback: Juliana Dacoregio
Eu já estava com grandes expectativas com relação ao filme, mas elas foram superadas. Gostei muito. E você tem razão, Ana, é preciso pôr os neurônios para trabalhar ao assistir Ilha do Medo. Adorei a resenha e assino embaixo de suas observações sobre a fotografia, a pegada noir do filme e o fato de que é um filme para assistir em tela grande, no escurão do cinema.
Pingback: Juliana Dacoregio
Esse filme, ao menos dentre os livros e filmes que ja tive contato, foi a maneira mais eficaz de “explicar” ou “entender” o suposto comportamento esquizofrênico.
Nossa sua crítica foi super bem feita ein! adorei!!! concordo com vários aspectos !! E realmente nao fez TANTO sucesso quanto merecia ne!? Mas é o público que não esta mais acostumado a pensar, e ai já viu, aceitaaaa tudo que vem… MASTIGADO e batido no liquidificador, passado no photoshop, e bonitinho de se ver ! kkkkkkk
abração continue assim!