O isolamento universal do erudito

por Diego VianaFicções de um gabinete ocidental é apresentado como uma coletânea de ensaios do poeta, tradutor, editor e historiador Marco Lucchesi. Essa apresentação me deixou em dúvida sobre até que ponto se pode esticar o conceito de “ensaio” para incluir entrevistas, prefácios, introduções e intervenções em colóquios. Muitos dos textos, por exemplo, têm o fito único de remeter a outra coisa (o tema de um seminário, por exemplo) e pressupõem uma audiência ao corrente, ou seja, a pares do autor, já mergulhados num universo comum de diálogo. Reunidos em livro, os textos acabam passando por apêndices flutuando entre as páginas, o que não deixa de ser um desperdício.

O leitor, alienado, talvez tenha ganas de desistir. Seria um erro, sem dúvida. Em que pese o único receptor plenamente confortável com tantos hermetismos circunstanciais ser a única pessoa que conhece cada um dos múltiplos contextos embutidos (ou seja, o próprio autor, naturalmente), os demais textos, aqueles que são, de fato, ensaios, têm muito a oferecer. Que a compilação seja indulgente; os textos são de uma solidez admirável e de uma riqueza que chega a emocionar, em nossos tempos de rarefação espiritual.

Afinal, é coisa rara um espírito que manifesta interesses tão vastos e, ao mesmo tempo, milagrosamente profundos como os de Lucchesi. Seria tolice esperar dos ensaios metafísicos, matemáticos e históricos que contivessem grandes ensinamentos nessas áreas; de fato, o que vale absorver desse gabinete ocidental é a maneira como tantas referências se articulam, chocam e fundem. Diante dos olhos do leitor, reproduz-se o processo que teve lugar no gabinete, ou, melhor dizendo, na mente do autor. Não apenas porque o poeta em questão fala de si próprio incessantemente nos ensaios e demais textos, mas porque essa abordagem “investigativa” é uma forma de iluminar seu arcabouço criativo.

Quem não tem a curiosidade de conhecer a origem das imagens que povoam a fantasia de nossos poetas de predileção? Imagino que todo leitor de poesia nutra o desejo, vez por outra, de uma compreensão tão indiscreta dos processos inconscientes de um autor. Mas é uma ambição perigosa, essa. Compreender melhor um poeta será melhor apreciá-lo? Ganha-se mais, do ponto de vista estético, quando se lê um poema ciente da curiosidade que o autor nutre pelo estatuto ontológico do apeíron (o indefinido ou infinito), ou sua paixão pelos números imaginários? Não seria esse conhecimento um bloqueio para a atividade intrínseca ao leitor, qual seja, bombardear os versos com suas próprias inquietações, até colher desse embate a poesia que lhe caiba?

Estou especulando; volto à terra e proponho ainda outra abordagem para os ensaios (e demais textos da coletânea). Recomendo a quem se aventure por esse gabinete observar como é belo, como é tocante o espírito poético com que Lucchesi (além de poeta, não vamos esquecer sua formação como historiador, provavelmente dos mais poéticos) aborda os temas pelos quais tem paixão. Sejam os idiomas orientais, os autores romenos, o marxismo heterodoxo, a metafísica idealista ou os números complexos, o tom encarna sempre uma recusa do técnico que faz uma falta danada aos sábios contemporâneos. Esses não veem como circulamos, todos nós, numa teia de existência e devir que envolve sempre, em cada detalhe, tanto o rigidamente racional quanto o mais delirantemente poético, e sempre estaremos longe de qualquer arremedo de verdade quando decepamos uma das vertentes. Pois bem, Marco Lucchesi o vê, e suas ficções o atestam.

-- O autor --

Talvez seja por ter se tornado essa visão tão minoritária que o tom do livro tenda tanto ao melancólico. É nostalgia, creio, ou deslocamento. Cada parágrafo parece embebido em um desespero indisfarçado, a tristeza do erudito que se vê atolado num mundo em que a erudição é rejeitada como um todo. De que adianta gritar e espernear, se o erudito segue sendo, para todos os efeitos, o único a entender como a supressão da cultura suprime consigo a abertura aos possíveis, ao outro, à dimensão corrosiva, mas trágica, do tempo?

Mas o erudito esperneia e, munido de suas armas conceituais, fabrica para si uma esperança: um interlocutor, um leitor imaginário, desejado, formatado na mesma fantasia poética que compõe as obras de uma vida. Esse interlocutor é postulado como pertencente ao futuro, a um futuro milagrosamente mais culto. Lá, lá longe, quando a humanidade compreenderá tudo que está mencionado nos dois parágrafos acima. É o que se lê na entrevista que o poeta concedeu a Floriano Martins, da revista Agulha (extinta, aliás). Com quem ele dialoga ao escrever e estudar? Com essa figura imaginária, inexistente, e nesse solilóquio se sente aquecido. O intelectual que um dia foi marxista, a julgar por suas declarações, abdicou à dimensão agonística e política do pensar e cultivar-se – aspecto, por sinal, intrínseco à prática artística.

Seria essa a condição necessária do intelectual contemporâneo (não estou falando, por favor, dos “intelectuais” midiáticos)? Talvez estejamos todos condenados a essa postura que balança entre desespero e despeito… Mas não implica ela em validar os argumentos do anti-intelectualismo vigente? Estou certo de que aqueles que continuam a produzir, a pensar, a cultivar-se, a escrever, enxergam na própria insistência uma forma de luta. Claro, não deixa de ser uma atuação e toda atuação é válida, se autêntica. Nesse caso, o que não se explica é a amargura. Não pode ser amargo aquele que se coloca voluntariamente do lado oposto aos vitoriosos: caso contrário, o que se põe em dúvida é sua própria motivação.

::: Ficções de um gabinete ocidental: Ensaios de história e literatura ::: Marco Lucchesi :::
::: Civilização Brasileira, 2009, 288 páginas ::: compre na Livraria Cultura :::

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

----- Consulte os arquivos do Amálgama ||| Publique ||| Contato ||| Para reproduzir nossos textos -----