Mundos desconexos que fazem todo sentido
por Juliana Dacoregio – No realismo fantástico, monstros podem aparecer em salas de espera de consultórios médicos, engolidoras de espadas podem engolir muito mais do que espadas e espelhos podem refletir imagens distorcidas. Já no realismo, mesmo que repleto de metáforas, há escritores de best-sellers que odeiam seu próprio sucesso a ponto de viver uma vida miserável, poetas que só conseguem poetizar através de seus fluidos corporais e inspirações que custam a chegar, mas não passam de lugares-comuns. O fantástico e o real também podem se misturar, afinal é improvável, mas não impossível que uma estudiosa de lingüística leve seu ofício ao pé da letra.
Rodrigo Rosp passeia por esses dois mundos em Fora do lugar, uma coletânea de contos que narram episódios angustiantes na vida de personagens que nos causam asco muitas vezes, mas que podem ser o retrato de qualquer um de nós.
Os personagens de Rosp não são fáceis de engolir. Não causam comoção ou identificação à primeira leitura; pelo contrário, a princípio podem causar estranhamento e vontade de jogar o livro longe, como quando assistimos a um filme repleto de violência torturante e nos perguntamos “pra quê isso?”. Mas uma leitura fria nos faz mergulhar nesse universo por vezes fantasioso, por vezes cru e real até demais, e perceber a genialidade das narrativas construídas pelo autor.
Crueza e humor perverso existem de sobra nos contos de Fora do lugar, mas pretensão ou prolixidade não estão presentes em nenhum momento. Da mesma forma que as histórias são “curtas e grossas”, a literatura de Rodrigo Rosp também é. Ele não abusa de adjetivos, nem tenta dar ares parnasianos aos seus contos. É seco e vai direto ao ponto, mas não sem antes percorrer os caminhos da narrativa que nos deixam intrigados em saber para onde a história vai levar seus protagonistas.
O toque de mestre fica mesmo no conto que dá nome ao livro. Não há o que dizer sobre ele sem revelar seus segredos, mas é de longe uma das mais sucintas e diretas expressões do dia-a-dia de quem se vê diante de um vazio que faz com que tudo esteja exatamente onde Rosp diz que deve estar: completamente fora do lugar.
::: Fora do lugar ::: Rodrigo Rosp ::: Não Editora, 2009, 80 páginas :::
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Muito boa a resenha.
Eu adorei esse livro, lê-se os contos tão rápido, que dá vontade de, no final, ler tudo de novo. Simples e ao mesmo tempo genial.
Principalmente o primeiro né? Disparado, meu preferido!
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