José Mindlin

por Michelle Horovits - Existe uma classe de pessoas que prefere garimpar sebos e folhas empoeiradas a qualquer outra coisa no mundo. Essa classe de pessoas arde quando vê uma capa bonita e bem feita, uma boa diagramação e um cheiro de novo ou pode ser de velho também. São pessoas que choram ao ver o tamanho da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, que quando viajam colocam no roteiro grandes bibliotecas e os melhores sebos do mundo. Que choram horrores ao assistir Fahrenheit 451, enquanto todos aqueles livros são queimados em fogueiras imensas.

Essas pessoas entendem que livros devem ter peso, folhas, capa dura ou não (eu pessoalmente adoro aquelas capas de ficção científica antiga), cheiro, ocupar espaço na prateleira. Entram em casas alheias e são atraídas automaticamente por prateleiras cheias, entendem que livros carregam a essência de algo maior, por isso devem ser vistos como parte da obra, não só como meio. Como é possível voar sem algo que te leve? Eles tão obras de arte (pena nem todas as editoras perceberam isso). Essas mesmas pessoas alisam folhas, apertam livros contra o peito, cuidam, respeitam.

Conheci um senhor há cinco anos que fazia parte dessa classe de pessoas. Seu nome era José Mindlin, minha entrevista se deu por telefone, quando eu era só um foca em um jornal da capital. A matéria era sobre o maior bibliófilo do Brasil. Sua voz, depois de tantos anos, me foge a memória, mas devia ser uma boa voz, pois ele foi muito gentil e a entrevista se desenrolou de forma encantadora. Durou cerca de uma hora a conversa e pairou sobre assuntos como amor, profissão, coleção… livros, claro!, objetivos de vida, sonhos. Mas o que nunca esqueci foi seu conselho para mim: “Leia os russos, leia Guerra e paz, tudo que você precisa saber sobre a vida está lá.” Ele estava certo, depois dos russos fica difícil escolher um favorito, a vida pode não ter ficado mais fácil, mas ficou bem mais clara.

Mindlin faleceu no último domingo (28), aos 95 anos. Formado em direito, era empresário e chegou a ser secretário de Cultura. Tinha tudo para ser somente mais um empresário, mas o senhor encantador e calmo com quem falei construiu uma coleção de mais de 40 mil livros. Começou aos 13 e só parou aos 95, por força maior. Quando começou a andar pelo Brasil e pelo exterior, Mindlin estabeleceu um método para a garimpagem de novos títulos e raridades: ao chegar a um destino, abria a lista telefônica e se programava para visitas a sebos e livrarias. Certa vez, aproveitou um convite da Air France para um voo inaugural do trecho Buenos Aires-Paris e foi tentar pôr fim a uma busca que tirava seu sono: encontrar um exemplar raríssimo de O guarani, de José de Alencar. Pagou US$ 4 mil. Andou agarrado à obra-prima até retornar e, no avião, dormiu com o livro no colo. Ao acordar… Cadê? Chegou em casa e anunciou, faceiro: “Guita, sabe o que eu encontrei em Paris?” “O quê?” “O guarani!” “Ah, mas que coisa formidável!” “É, mas já perdi!”.

Ainda que o humor de Mindlin estivesse a salvo, a companhia aérea conseguiu localizar e devolver o livro. Minha maior curiosidade ele nunca respondeu: qual era seu preferido? Para ele não havia preferido, “livros são ciumentos”. Batizada de Brasiliana, sua coleção é de dar inveja (de verdade!). Em suas prateleiras é possível achar obras raras como a primeira edição de Os lusíadas, de 1572, e os originais de Sagarana, de Guimarães Rosa, corrigidos a mão pelo autor. Quem quiser conferir, parte da coleção já pode ser consultada pela internet, digitalizada pela USP.

Foi casado por 68 anos com a mesma mulher e acreditava que amor e casamento são construções diárias, e que ser feliz é uma questão de querer. “Brigar é fácil. Não brigar exige parar e pensar”.


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4 comentários | Dê sua opinião

  1. Vera L. Silva 04/03/2010 em 7:16 am

    Abri meu e-mail, como faço todos os dias cedinho e, no Amálgama, encontrei seu texto…. e que coisa linda ele é! Me remeteu à infância, quando conheci um senhor que era, decerto, da mesma casta desse José Mindlin… a mesma delicadeza, o mesmo humor elevado, a mesma estante, os Irmãos Karamazov, Bernardo Guimarães, Cora coralina… esse cheiro inesquecível de livros velhos, a sapiência adquirida e os sinais que apontavam para quem também a respeitasse e a quisesse, afinal não era um dom, mas um “bem” posssível de ser adquirido.
    Seu nome é Cornélio Ramos e presidiu a Academia de Letras da minha pequena e bonita cidade, Catalão, em Goiás. Faleceu, como Midlim. Ou não. Esses seres são imortais- dizem. Acho que são sim.
    Enfim… obrigada pelo seu artigo. Quanta doçura, quanta leveza, Michelle Horovits!

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  3. André Tadeu 04/03/2010 em 8:54 am

    Parabéns pelo texto. Perfeito.

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  4. Achel Tinoco 13/03/2010 em 9:33 pm

    José Mindlin, hein, quem foi?
    Um livro ou um homem?
    Ou teria sido um homem vestido de livro?
    Um livro com capa de homem, sem prefácio, sem palavras, sem epílogo.
    Muito mais: uma biblioteca de raro exemplar;
    Ele próprio passeando por entre os seus 40, 50 mil títulos;
    Um olhar sobre o conhecimento;
    O guardião apaixonado de uma galáxia literária;
    Um homem que não se precisa exemplificar;
    Um livro que não se acaba de ler.
    Ele é um livro, José!
    Uma biblioteca, Mindlin.

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