John Haskell e o purgatório americano
por Diego Viana – John Haskell é um multi-artista americano, mas seu romance de estreia, Purgatório americano, revela como seu coração palpita mesmo é pelo teatro. O arco narrativo do livro é profundamente teatral, avançando através de atritos, monólogos e diálogos. As cenas se sucedem num acúmulo de tensões que desaguam em peripécias e revelações, como no palco de uma tragédia grega. O mesmo não vale para a estrutura formal do romance, mas volto a isso mais tarde.
A crítica anglo-saxã enxergou no livro um mergulho no coração da América, isto é, dos EUA. Afinal, é a história de um homem cuja mulher desaparece com seu automóvel, enquanto ele compra qualquer coisa numa loja de conveniência de Nova Jersey. A princípio atônito, ele acaba por partir atrás da mulher depois de encontrar um mapa do país com uma rota marcada. Nos capítulos que seguem, o homem vai se despojando de tudo que foi durante a vida, para descobrir o que ele é e passará a ser. (Um detalhe: ler uma descrição parecida com essa na orelha do livro bastou para tirar toda a “surpresa” do final.)
Por outro lado, para alguém que vem de outra cultura, esse coração dos EUA aparece sob outra ótica. Lembrando que se trata, afinal de contas, de um purgatório americano, é divertido constatar como o indivíduo vai purgando sua alma à medida em que se separa de suas posses, seus objetos, suas, digamos assim, amarras materiais. Trocando em miúdos, o personagem vai descobrindo sua alma, não apenas no sentido cristão do termo, bem entendido, através de um processo traumático de abdicação ao consumo e ao conforto.
Não é caso de desencarnar ou ter uma “experiência mística”, mas de desnudar o homem, romper todas as amarras que engarrafam a pessoa numa estrutura de sentido e de certezas. Eis o que se passa no purgatório americano imaginado e relatado por Haskell. O processo de purgação “tradicional”, ou tradicionalmente aceito como tal, é ladeado por esse outro, de tal maneira que o universo essencialmente secular de carros, dinheiro e cartão de crédito ganha o mesmo estatuto ontológico e moral de conceitos, em tese, mais nobres, como o lar, o amor, a sexualidade.
Com isso, Haskell apresenta o americano como nem sendo apenas aquele consumidor frio e imbecilizado, como na maioria das autocríticas americanas, nem como um espírito livre, mas como ambos, homem e consumidor, homem porém consumidor, o atrito embaraçoso do substrato e da subsunção. Ou seja, no purgatório americano as tarefas são duas: descascar a humanidade recoberta de consumo e, ao mesmo tempo, livrá-la de seus vícios mais tradicionais, como haveria de querer o Dante em que se inspira o autor.

-- John Haskell --
Isso dito, ataquemos a questão da estrutura formal, que, por sinal, também reproduz um antigo hábito americano que se vê em livros, peças, filmes, até canções, se bobear. São sete partes divididas em sete capítulos. Cada parte é intitulada em referência a um dos pecados capitais, a exemplo do purgatório da Divina comédia. Os títulos, aliás, são apresentados em latim para, segundo o próprio autor, não entregar uma referência direta ao pecado em si, mas sugerir uma postura particular, uma afecção da alma, digamos assim, que é desenvolvida no interior do capítulo.
Essa forma esquemática de apresentar a obra é interessante por ser uma espécie de vício nacional encarnado numa obra específica, mas tem o demérito de formatar também a recepção do leitor, ao velar a fluidez do processo que vive o personagem. Com isso, o que enxergamos no texto não é tanto a travessia de um homem, a luta interna e externa de um espírito, de uma consciência, mas o argumento de um autor, que chega às raias do proselitismo não pelo que está sendo dito, mas como efeito da estrutura simplesmente. É um handicap, que o leitor benevolente precisa abstrair para poder apreciar o que de melhor há no texto.
Aliás, já que estamos tratando de esquematismos: como é curiosa essa tendência contemporânea a sublinhar palavras, reiterar a importância de termos, usar itálicos e repetições! Fico me perguntando se os escritores pressupõem que somos incapazes de entender o que eles querem dizer, ou de seguir a linha de seu raciocínio. Pior ainda, será que eles temem que sigamos nossas próprias ideias a partir do que eles escreveram? Será que, supremo horror, nós, leitores, levaremos o texto por caminhos que eles não previram?
Se for esse o motivo de tanta ênfase, lamento confirmar os piores medos do autor. Sim, vamos receber a obra de maneiras inesperadas, diferentes. Muitos de nós não entenderão nada. Só que os itálicos e repetições não serão capazes de impedir esse efeito deletério. Por sinal, talvez nem seja assim tão terrível. Se até hoje se debate o sentido de trechos de Shakespeare, por que não de um romancista americano contemporâneo? Melhor seria, certamente, deixar de lado a ambição de ser perfeitamente entendido e concentrar-se em transmitir mais possibilidades, em vez de menos, através do que está escrito.
::: Purgatório americano ::: John Haskell ::: Rocco, 2009, 244 páginas :::
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