Os fatores Ciro Gomes e Marina Silva

por Alan Souza – Até agora a eleição presidencial caminha para uma campanha polarizada, o referendo que quer Lula para as urnas: Dilma ou Serra? A falta de debate sobre os demais pré-candidatos é grande. A mídia por vezes critica essa polarização, mas deveria assumir sua parcela de culpa, ao não abordar as demais pré-candidaturas. Por isso, vamos falar um pouco dos fatores Ciro Gomes e Marina Silva. Antes de começar aviso que esta é uma análise crítica pautada pela visão deste que vos escreve. Tem o propósito apenas de lançar o debate.

Comecemos por Ciro Gomes. O deputado federal já disputou outras campanhas presidenciais anteriormente (em 1998 e em 2002). Político experiente, já foi prefeito de Fortaleza, governador do Ceará e ministro de Estado. Mas tanta militância política e tantos cargos exercidos não parecem ser garantia de maturidade política ou pessoal para Ciro. A sua fama de esquentado já é mitológica.

Ciro não se constrange em usar expressões chulas na TV, quando entrevistado. Já respondeu grosseiramente a repórteres em mais de uma ocasião. Usou uma expressão pesadíssima para referir-se ao Ministério Público. Bater boca com a imprensa, aliás, parece ser sua especialidade. Tem o péssimo hábito de atirar contra seus aliados. Em suma, Ciro só não é mais estouvado porque é um só. Ele é tão cabeça quente que em Brasília usa-se uma expressão jocosa com seu nome (“efeito Ciro Gomes”), para definir situações em que um político perde as estribeiras ou fala mais do que devia em público.

Em 2002 Ciro ameaçava a colocação de Serra, avançando para um 2º turno junto com Lula. Caiu nas intenções de voto quando Serra passou a explorar na TV o fato de Ciro ter chamado um eleitor de burro, ao vivo, num programa de rádio.

Os adversários de Ciro costumam dizer que o maior adversário dele é ele mesmo, e que até cachaça com o tempo “afina”, menos Ciro Gomes. E nessas eleições não poderia ser diferente. De tanto exercitar seu mau humor, Ciro conseguiu irritar até o presidente Lula.

Ou seja: batendo nos próprios aliados, desatando a falar bobagens e atirando em quem passa por seu caminho, é difícil que Ciro consiga passar ao eleitor uma imagem de alternativa segura a Serra/Dilma. Por isso, não apostem muitas fichas em uma eventual arrancada dele nas pesquisas eleitorais.

A senadora Marina Silva, ao contrário, é a própria imagem do zen. Doce e educada, a ex-ministra encanta a quem a conhece pessoalmente. Experiente, já foi vereadora, deputada estadual e ministra de Estado, e aborda com conhecimento técnico e segurança vários temas – e não somente meio ambiente. Marina, entretanto, padece em menor escala do mesmo mal que acomete José Serra: precisa encarnar uma diferença em relação ao governo do PT (partido que fundou e deixou para filiar-se ao PV), mas sem afrontar os 83% de popularidade de Lula.

A ideia de que é uma candidata monotemática, que só sabe falar de meio ambiente, também persegue Marina. Lembrem que Cristovam Buarque é perseguido pela mesma fama, só que em relação ao tema educação. Nos dois casos, trata-se de mito – ambos dominam muito bem várias áreas de gestão governamental. Mas mitos que tornaram-se armadilhas para os dois, passando a impressão de que são especialistas em um único assunto. Marina tem pouco tempo pra convencer o público de que seu piano não tem uma só tecla – e precisa fazer isso de modo a soar melhor aos ouvidos do eleitor do que Serra/Dilma.

Enfim, pelo menos até agora será muito difícil fugir da polarização na campanha que está se avizinhando. O eleitor mesmo parece não querer isso. Afinal, para o eleitor médio, aquele que define a eleição, é mais fácil pensar em termos de sim ou não, igual ou diferente, deixa-como-está ou muda-tudo-de-novo.


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27 comentários | Dê sua opinião

  1. Ary 25/03/2010 em 8:41 am

    Embora não seja eleitor de Marina, e reconhecendo que o seu discurso é abrangente, em relação ao “monotematismo”, tal carimbo não é colocado naqueles candidatos que só falam de economia.

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    • Alan Souza 25/03/2010 em 1:45 pm

      Penso que a economia foi um tema mais imposto pela mídia, em defesa da eleição e reeleição de FHC. De lá para cá o tema manteve-se sempre na discussão política, e ganhou muita força na campanha atual por dois sobremotivos: o bom desempenho do Brasil dentro da crise econômica global e a agenda positiva que Lula quer passar aos eleitores.

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  2. André Egg 25/03/2010 em 12:33 pm

    Outro fator que acho muito importante para pensar Ciro e Marina são as estruturas partidárias que os sustentam. Ou melhor, a falta delas.

    Eu mesmo tentei votar no PV nas eleições municipais em Curitiba. Ótimo candidato nas majoritárias, mas muito mal votado. Péssimos candidatos eleitos com meu voto de legenda nas proporcionais. Experiência que não pretendo repetir.

    Que dizer do PSB?

    De modo que o que acaba polarizando a eleição, é a própria inexistência de estruturas partidárias que sustentem os candidatos. Isso é muito importante até mesmo no caso da candidatura Serra. O que é o PSDB como partido? O serrismo acaba substituindo, ou terceirizando a atividade político-partidária para setores da imprensa, o que é muito nocivo.

    Muito ruim para a democracia o Brasil não ter nenhum partido político que exista minimante, fora o PT.

    Aliás, considero que o pior defeito do governo Lula foi despartidarizar a política nacional, esvaziando o papel do PT e cooptando para uma mega-base aliada partidos que deveriam ter experimentado o ônus de ser oposição.

    Acho que a estrutura partidária no Brasil vai ter que ser repensada – está em colapso.

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    • Alan Souza 25/03/2010 em 1:53 pm

      Sim, esse é um ponto negativo do governo Lula, o esvaziamento dos partidos. A cultura política brasileira ainda é muito centrada em pessoas, e não em legendas. Isso termina por não permitir a fixação e a valorização de ideologias. O próprio Ciro Gomes começou sua carreira política no PDS, o partido governista do fim do regime militar. Passou pelo PMDB, pelo PSDB e pelo PPS, antes de chega ao PSB. E é inimaginável que Ciro seja realmente socialista…

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  3. Matheus Braz 25/03/2010 em 2:56 pm

    Marina encanta a todos com sua história e com seu carisma natural.

    Ela é uma verdadeira política, não pensa em seus próprios interesses e busca conscientizar o Brasil de que o desenvolvimento sustentável é o futuro do mundo sem outra opção ou o BRASIL PERDERÁ 3 TRILHÕES DE DÓLARES ATÉ 2050!!!

    Marina será a próxima presidente do Brasil!!!!

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    • Alan Souza 25/03/2010 em 5:42 pm

      Matheus, perdoe-me a ignorância: você está falando em três trilhões de dólares em 40 anos, ou 75 bilhões de dólares (135,7 bilhões de reais) por ano?

      De onde vêm esses números?

      Isso representa 50 BILHÕES a mais do que o orçamento total do PAC, em quatro anos. E nós estamos falando apenas das perdas pela não adoção de políticas de desenvolvimento sustentáveis.

      Onde podemos conferir esses números? Assim, com mais detalhes? Porque eles realmente me impressionaram…

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  4. Albino Machado 25/03/2010 em 9:58 pm

    Precisamos da candidatura de Ciro para apimentar o debate e da candidatura da Marina para nos sensibilizar com a suas utopias. Precisamos acabar com o conformismo estabelecido na população brasileira. Enfim, precisamos quebrar a polarização imposta por Lula e pela grande imprensa.
    Ciro e Marina, serão temperos para este prato insosso, que querem nos servir nesta festa chamada de eleição presidencial.

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    • Alan Souza 26/03/2010 em 10:32 am

      Albino, concordo que precisamos de vozes dissonantes para arejar o debate, e acho que a Marina representa bem essa necessidade. Mas o Ciro Gomes, da maneira como se comporta, não consegue ir além de ser um Fernando Collor piorado. E desse tipo de dissonância, creio eu, não precisamos…

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      • Albino Machado Dias 26/03/2010 em 5:46 pm

        ALAN,

        Precisamos de gente que tenha coragem de por o dedo na ferida. A discussão do agora e do ontem não nos leva a refletir sobre o futuro.A polarização, imposta pela mídia, entre o candidato da oposição e candidata do governo, só interessa aos que estão no governo e aos grupos econômicos mantenedores da grande mídia.
        Ciro é temperamental, mas tem conteúdo para enfrentar o debate.

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        • Alan Souza 26/03/2010 em 6:20 pm

          Albino, continuo concordando com você quanto ao conteúdo, mas repito: da forma como se porta Ciro Gomes não se habilita a representar uma terceira via. Você imagina um presidente da República dizendo “Ministério Público é o car****!”?

          Se acusam a Lula de querer controlar a imprensa, imagina o que seria num governo do Ciro, que a cada notícia desfavorável entraria em choque verbal com a imprensa. Imagine Ciro suportando a carga de ataques que o atual governo suporta…

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  5. André Egg 26/03/2010 em 1:40 pm

    Eu concordo com o Albino.

    Acho que o Ciro e a Marina acrescentam muito ao debate. Quando digo que eles não tem base de sustentação partidária, é com pesar.

    Acho que “nunca antes na história deste país” tivemos 4 candidatos de tão alto nível político numa disputa presidencial. De certo modo eu até diria que já chegamos naquele estágio de civilização democrática em que as coisas devem funcionar, mais ou menos independente de quem ganhar a eleição.

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  6. José Ruiz 31/03/2010 em 9:55 am

    Marina Silva sofre com dois problemas crônicos: não é um líder e não tem base partidária. Marina não foi capaz sequer de garantir seu espaço dentro do PV. Quando se transferiu para lá, falou em re-fundação do partido (para abrigar seus aliados). Só que esqueceu de “amarrar” esse compromisso. O PV, que nada mais é do que um micro PMDB – talvez um pouco mais à direita, não foi refundado, não mudaram o estatuto e nem eleições internas tem (o PV tem donos). Ou seja, a Marina não conseguiu nem organizar sua candidatura, imagine administrar um país do tamanho do Brasil. Acredito que ela chegou ao senado por força do PT. Pelo PV tenho dúvidas se ela consegue se eleger vereadora…

    Quem fala que o Lula acabou com a estrutura partidária no Brasil ou está sendo injusto ou não entende nada de política partidária. Quem destruiu “os partidos” no Brasil foi a mídia, com uma pesadíssima campanha difamatória. Foi a mídia que marcou o conceito de que “todos os políticos são iguais”, “todos são ladrões”, justamente para acobertar a turma que perdeu espaço com a eleição do Lula e para impedir uma “lavada” do PT nas eleições posteriores à eleição para presidente, à exemplo do que aconteceu com o PMDB na década de 80.

    O Lula, e qualquer outro que estiver no seu lugar, faz a política do possível. Tudo que é feito nesse país é previsto na Lei Orçamentária, que é votada pelo Congresso. Presidente da República não faz nada sem o congresso. Quem o povo (a mídia!) colocou lá? Sarney? Collor? Seja quem for, o presidente é obrigado a negociar. Todos deviam dar “graças a Deus” pela maturidade do Lula em negociar com esses pulhas, ou teríamos um rompimento institucional. Pergunte para você mesmo (e seja sincero contigo) o que o Lula faria com Sarney (e todos da sua estirpe) se o PT tivesse maioria na câmara e no senado…

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    • André Egg 31/03/2010 em 10:13 am

      Acho que este debate é muito necessário.

      Primeiro: dizer que a Marina dependeu do PT pra se eleger acho que não é muito verdadeiro. Ela foi uma das que construiu o PT com as próprias mãos. No Acre o PT não existiria sem ela. Mas a visão da Amazônia que ela propunha não interessa aos paulistas (nem os do PT). A candidatura dela vai ser muito importante pro PV. Eu acho um erro terrível, mas é o que ela podia fazer para não cair num ostracismo imerecido.

      Quando digo que Lula prejudicou a estrutura partidária acho que não posso ser acusado de não entender nada do assunto.

      Ele achou (e o PT embarcou nesse barco furado) que era mais importante o “Lula lá” do que qualquer outro projeto ou ação política. A corrupção no PT não foi inventada pela mídia. Ela exsite. E foi muito aumentada pela gana de eleger Lula a qualquer preço.

      O PT tinha alternativa: continuar se construindo como uma força partidária modernizadora do espaço político brasileiro, com base parlamentar forte, governos municipais e estaduais, coerência programática e de ação.

      Lula rifou tudo isso em nome de sua carreira política pessoal. Faz um bom governo? Se comparar com outros sim. Se comparar com o que devia ter feito está uma merda.

      O maior sintoma disso tudo, pra mim, é o processo de escolha da candidatura presidencial. Dilma não foi uma decisão de partido. Foi uma escolha pessoal de Lula, que o partido aceito. Lula joga com as disputas internas, sabe contruir consensos.

      Mas política não se faz de eternos consensos. Democracia é embate, disputa. Um dia vamos ter que encarar isso, e perceberemos que nesse aspecto a passagem de Lula foi catastrófica para o PT e para o sistema político nacional.

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      • José Ruiz 31/03/2010 em 2:52 pm

        A Marina foi uma das que construíram o PT, verdade, uma das milhões de mãos que construíram o Partido. Não é o PT que não existia sem ela, ela é que não existia sem o PT. Por uma simples e básica razão: o partido é a estrutura, o partido é a casa que abriga tuas idéias. Pensar o contrário, é um caso grave de megalomania. Basta dizer que se não fosse o PT não haveria Marina como você a conhece hoje. Ou você acha que ela fundaria um outro partido? Se é assim, porque não faz isso agora?

        O Lula e o PT “jogam o jogo” há 50 anos. Essa de fortalecer base parlamentar, governos municipais e etc., em detrimento de alcançar o topo, é papo (desculpe se não for o caso) de elite escorraçada do poder. Lula presidente sempre foi um sonho de todo petista, talvez menos do próprio Lula e essa conquista representou a mudança mais profunda que esse país passou nos últimos 500 anos.

        Não gosta do que ele está fazendo? Você queria que ele mudasse o país, alterasse tudo o que foi construído e consolidado desde que o Brasil foi colonizado? Oras, tenha a santa paciência… (e vai precisar de muita mesmo, porque as coisas não acontecem dessa forma…)…

        E corrupção, meu amigo, existe em qualquer lugar. Você vive no país da corrupção. Desde quando os portugueses chegaram por estas bandas, tudo o que se vê por aqui é roubo, corrupção, desvio, privilégios e mais um monte de outras mazelas. Supor que o PT inventou a corrupção ou que dentro do PT não existam corruptos fica entre a infantilidade, a ignorância ou a má fé. E digo mais, todos os corruptos têm mais é que ir para a cadeia, bom mesmo se fossem fuzilados em praça pública. Mas é importante ressaltar, propaganda à parte, que se isso fosse levado à sério talvez pegassem meia dúzia de idiotas dentro do PT, mas milhares de prefeitos, deputados, governadores e senadores do PSDB, DEM, PPS, entre vários outros. Sabe porque? Porque o PT ainda é um partido transparente, um partido que tem eleição interna, apesar dos seus milhares de filiados (e que, por incrível que pareça, não é o meu caso), um partido com base em movimentos sociais.

        Dilma foi eleita por todos os petistas como a candidata para 2010 (acho que você deveria procurar saber mais como funciona esse processo – não se limite às informações da mídia tradicional – pesquise PED PT no Google). Qualquer cidadão pode se filiar ao PT e qualquer filiado pode se candidatar a candidato a qualquer coisa dentro do partido. O duro é enfrentar o cacife do Lula: ele tem um enorme prestígio dentro do PT e ele escolheu a Dilma, e daí? Esse é o legado dele.

        Lula catastrófico para o PT? Duvido que os petistas concordem com essa informação.

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        • André Egg 31/03/2010 em 9:42 pm

          José,

          consegue imaginar que minha opinião seja contrária à sua não por ignorância?

          Eu sei o que é o PED do PT. Concordo com a comparação que você faz do PT em relação a outros partidos. Quase sempre voto no PT – mas posso votar em outras candidaturas do campo da esquerda.

          Não acho que o Lula seja a mudança mais profunda nos 500 anos. Se você olhar bem, não causou nenhuma mudança muito profunda em relação ao governo FHC. As mudanças são pontuais.

          Se comparar o conjunto de 16 anos FHC-Lula, em relação à tradição política do século XX, realmente tivemos mudanças significativas em termos de estabilidade institucional e economico-financeira. Em outros fatores não sei se é tão bom assim.

          Não defendo prisão para corruptos, muito menos fuzilamento. Prefiro que se ajuste o sistema eleitoral e a gestão da coisa pública. Devolver os montantes surrupiados e tornar-se inelegível é pena suficiente.

          Talvez dizer que a passagem de Lula tenha sido “catstrófica” pode ser um pouco exagerado. Mas o PT de hoje tá bem distante daquele ideal que me empolgava nos anos 90.

          Responder
  7. José Ruiz 01/04/2010 em 12:44 pm

    Vamos por partes, como dizia Jack, o Estripador. Eu não afirmei que a sua opinião contrária seja por ignorância. Na verdade não tratei a questão de forma pessoal em nenhum momento (e continuo não tratando). Eu disse que atribuir os problemas de corrupção do Brasil ao PT ou esperar que o partido resolva esse problema é uma posição que fica entre a infantilidade (política), a ignorância (política) e a má-fé (política). Pelos motivos já expostos. É um tripé. Eu não sei o que influencia mais uma determinada pessoa. E volto a afirmar: nós somos um povo corrupto. Nós elegemos bandidos, tarados, estupradores, traficantes, bicheiros e, claro, corruptos. Imaginar que o Lula possa se comportar como a Virgem Maria neste antro de malfeitores fica, na minha opinião, entre a infantilidade, a ignorância e a má-fé. Existem milhares de exemplos de pessoas que usam isso de má-fé. É só rever os discursos do Arthur Virgílio ou do Álvaro Dias, entre vários outros. Eles sabem muito bem o que estão fazendo. Outros, incautos, desavisados, acreditam…

    Eu também gostaria de votar em outras candidaturas do campo da esquerda, e esse ponto é muito importante. Só que isso não é possível, porque o conservadorismo do nosso povo permitiu (e ainda permitirá por bom tempo) a sobrevivência de todas essas forças retrógadas, que deveriam ter sido sepultadas há muito tempo, e não abrem espaço para novas ideologias, para o surgimento de novos partidos. É uma transição extremamente lenta. Hoje o partido da esquerda é o PT. Não existem outros (suficientemente competitivos). A crítica ao PT representa, diretamente, o fortalecimento da direita. Quem fala mal do PT engrossa o coro do PSDB/DEM/PPS e não permite o surgimento de siglas à esquerda do PT. Criticam um suposto continuísmo (o que é uma piada), mas não contribuem para o surgimento de partidos que vão além do PT. Esse é o problema.

    Você não acha que o Lula representou grande coisa para esse país porque você é membro da classe média ou alta (agora estou sendo pessoal) e muito provavelmente mora na região sul ou sudeste (provavelmente em São Paulo). Tudo o que você enxerga (pelo menos deveria) é a significativa melhora das condições econômicas do Brasil e o reposicionamento do país no tabuleiro mundial, agora como player de 1ª linha. Claro, visto por este ângulo, o Lula não passa de um (tão somente) excelente administrador.

    Mas para a imensa maioria da população deste país, o Lula representa uma ruptura na estrutura de poder, sempre ocupada pelos mesmos membros da elite. Dê uma repassada na história do Brasil: de pai para filho desde a época que os portugueses invadiram estas terras. A única mudança, o inesperado, a “zebra” foi o Lula.

    E isso tem um profundo significado para muita gente. Eu vou dar um único exemplo: qualquer cidadão hoje olha para o seu próprio filho como alguém que pode chegar à presidência da república. Básico, né? Básico para você, mas impossível para muita gente antes de Lula. O Lula acabou com a sina de pobre. O Lula acabou com a versão do “direito adquirido”, de que só os ricos podem mandar neste país.

    Em pouquíssimo tempo (relativamente falando), só por existir, o Lula quebrou a “espinha dorsal” do coronelismo no nordeste. Quem tem medo de coronel? Hoje tem peão que é mais do que ele (coronel), que tá lá em Brasília “mandando” em todos.

    Bem, insisto, esse é só um exemplo. Existem centenas de outros, mas aí é melhor esperar os livros sobre a era Lula que vão surgir no mercado.

    Você teve um ideal nos anos 90? Ótimo, eu também. Gostaria que as coisas acontecessem do jeito que eu sonhei. Mas não é assim. O jogo é muito mais complexo e as mudanças são extremamente lentas e tem muita gente jogando contra. Nós não fizemos uma revolução. Nós apenas elegemos um presidente, que responde por 1/9 da estrutura de poder desse país (executivo, legislativo, judiciário, nas esferas federal, estadual e municipal – o Lula é apenas o chefe do executivo na esfera federal). Tem muita coisa pela frente e a única maneira de continuarmos essa caminhada é aproveitando o trabalho que foi feito anteriormente. Criticar as conquistas atuais é, da forma como você está apresentando, jogar fora o bebê junto com a água suja.

    Aproveito sua crítica ao PT para dizer algo parecido: deixa o PT lá. Vamos apostar no fortalecimento dos movimentos sociais, eleger vereadores, prefeitos e governadores com um ideal à esquerda do PT.

    Só não tente fazer isso através do PV (o início de toda essa conversa) porque ali você não conseguirá grande coisa. Vou resumir o PV para você: existe PV em todo o mundo. A sigla é boa (PV – Partido Verde). Todo mundo gosta. Alguns espertinhos aqui no Brasil, notando esse movimento em todo o mundo, correram e criaram o PV por aqui. É muito fácil. Foram e registraram a sigla. O PV não tem ambientalistas. O PV não tem nada de verde. É um grupo de pessoas que vive de carguinhos, são, entre vários outros exemplos, aliados do Blairo Maggi (Mato Grosso), que ganhou o prêmio “Moto Serra de Ouro” do Greenpeace. Faziam parte do governo Arruda (esse que foi preso). São aliados do Serra (esse que recentemente ampliou as marginais nos rios Tietê e Pinheiros). Prá acabar de vez: o PV não tem nem eleições internas. Por muito pouco não foi extinto nas últimas eleições (não atingiu o mínimo de votos). Aí conseguiram a Marina (que deve estar arrependida até hoje da besteira que ela fez).

    Responder
    • André Egg 02/04/2010 em 8:18 am

      Eu dei uma opinião você afirmou e reafirmou que uma opinião assim só pode ser por ignorância. Você tratou a questão de forma pessoal: você tem a resposta correta, a minha está errada por ignorância.

      Acrescentou ainda a possibilidade de não ignorância, mas má-fé, ou infantilidade. E a explicação de que minha ignorância política deve vir do fato que sou de classe média ou alta das regiões sul ou sudeste.

      Moro em Curitiba, não sei como me classifico em termos de classe social – provavelmente média-baixa. Não acho que isso invalida minha análise.

      O discurso que você assume aqui, pode usar em campanha, ou numa discussão com um orelha-seca. Não pra cima de moi.

      Não embarco nas críticas do DEM ou da revista Veja. Quem tem que fazer a crítica ao PT são os petistas.

      Também não acho que precisa de um partido à esquerda do PT. Basta um governo com um presidente do PT onde o PT tenha voz, seu programa seja aplicado, suas lideranças sejam valorizadas.

      Dizer que o PT não é culpado pelos problemas do nosso sistema político não serve como justificativa para o partido não fazer o que se propõe. O PT surgiu como agente transformador do sistema político viciado, do mesmo modo que o PSDB. O PT como um partido de bases, sustentado pelos movimentos sociais. O PSDB como um partido de quadros.

      Ambos tiveram a oportunidade de fazer uma aliança de centro-esquerda para varrer a velha política. Preferiram vender a alma, ao DEM e ao PMDB. De modo que os grandes setores conservadores da nossa política não precisam de partido ou candidatos. Basta que continuem vivendo como parasitas dos partidos de centro-esquerda.

      O PV tem mesmo muito problema com oportunistas no partido. Mas o partido não é só isso. Eu nem sei se vou votar na Marina. Não estou aqui fazendo discurso de campanha, estou fazendo análise política.

      Aliás, tô achando que já aluguei demais a caixa de comentários do Alan Souza, de modo que concedo a você que seu próximo comentário seja o fim da discussão: fica você com sua certeza – eu fico como o ignorante.

      Abraço,

      Responder
      • José Ruiz 02/04/2010 em 8:35 pm

        Eu não posso interferir nos seus sentimentos. Eu estou aqui para discutir política, percepções pessoais não me interessam. Apresentei aspectos políticos e sinto muito se você só consegue enxergar o próprio umbigo, como se estivéssemos numa “batalha pessoal” (não é o caso). Também não posso fazer nada se você não consegue colocar para fora o conservadorismo enrustido que aparece nas entrelinhas do que escreve…

        PSDB partido de centro esquerda? Partido de quadros? Qual é?

        O PSDB é um partido de direita e seus “quadros” afundaram o país durante a “monarquia” FHC. É o partido da exclusão social. Apesar de estarem firmes em vários estados, inclusive aí no glorioso Paraná, espero que sejam riscados do mapa o mais rápido possível. A diferença entre os coronéis do DEM e os neoliberais do PSDB é que os últimos “falam mais bonito”. Os dois são uma praga neste país… existem porque são sustentados pela mídia golpista… mas a banda larga está vindo aí, e é para o povão.. muita coisa vai mudar (aliás, já está mudando)…

        E só para reforçar o que o Lula representa para este país, que você considera como “quase nada”, apenas “mudanças pontuais”, tente entender sob o ponto de vista dos mais de 30 milhões de brasileiros que saíram da miséria e entraram para a classe C durante esse governo.

        Responder
  8. Marcelino Boraschi 02/04/2010 em 6:39 pm

    Olá
    Temos que urgentemente fazer campanha para o presidente LULA ser governador de SP, porque como nas ultimas pesquisas mostram não podemos agüentar mais um mandato dos tucanos, e nosso presidente é o único que pode ganhar destes caras, SP merece o melhor, merece um governador que converse com os professores, não que mande a policia bater
    De Marcelino Boraschi

    Responder
    • Alan Souza 03/04/2010 em 7:50 am

      Marcelino, Lula nunca disputou outro mandato que não fosse o de presidente, à exceção da Constituinte, em 1986, quando elegeu-se deputado federal por São Paulo (à época o mais votado do país). Foi uma estratégia, na época, para dar visibilidade ao PT e ajudar a eleger outros deputados federais, puxando voto pra legenda. Depois disso nunca manifestou interesse em outra eleição, que não fosse para presidente.

      E ele não é do tipo que se sensibiliza com apelos polulares por candidatura…

      Responder
      • André Egg 04/04/2010 em 8:17 am

        Ele foi candidato a governador de São Paulo em 1982, quando o PT ainda não era nada.

        Responder
        • Alan Souza 04/04/2010 em 4:17 pm

          Bem lembrado. Minha memória começa a falhar quando chega em 1/4 de século…

          Penso que o paulista/paulistano cai muito na esparrela da mídia. Aceita muito passivamente como verdade o que os jornalões como Folha e Estadão propagam. O caso da Marta Suplicy é emblemático. O paulistano odeia as ruas lotadas de camelôs, por exemplo. Mas quando a Marta resolveu colocar a fiscalização nas ruas foi duramente criticada, tanto pelos ricos da elite (que circulam de helicóptero por SP) como pelos populares que andam nas ruas…

          Quando Marta comprou palmeiras imperiais para plantar em canteiros de ruas e rodovias, foi duramente criticada. A Folha de S. Paulo chegou a publicar que ela teria pago cinco vezes mais que o valor de mercado em cada árvore – e na semana seguinte o jornal admitiu que mentira, inclusive ressaltando que Marta obteve uma economia de 40% em cada palmeira sobre o preço de mercado.

          E no caso da taxa de lixo, criada por Marta, os Tucanos e Demos colaram nela, através da mídia, o apelido de “Martaxa” – ela cria uma única taxa, inventam o apelido como se ela tivesse sido uma geradora de taxas sem limites, e o povo comprou a ideia como se fosse verdade incontestável.

          E aí estão sofrendo com o resultado das gestões Serra/Kassab…

          Responder
  9. Pedro Luiz Moreira Lima 02/04/2010 em 6:40 pm

    ‘Hoje é fácil falar sobre abusos na luta contra a subversão’
    Chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército manda mais um duro recado para a ala esquerda do governo
    De Leonel Rocha, da Revista Época:
    O general Augusto Heleno, chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército, tem o hábito de fazer declarações duras e, muitas vezes, contrárias às orientações do governo. Por diversas vezes ele já criticou, por exemplo, a demarcação de terras indígenas em terras contínuas nas fronteiras, que considera arriscadas para a segurança nacional. Na terça-feira (30), Heleno voltou a fazer declarações polêmicas.
    Durante uma solenidade em Brasília para a troca de dois comandantes do Exército, o oficial mandou um duro recado para a ala esquerda do governo: “Hoje, fora do contexto, é fácil falar sobre abusos na luta contra a subversão. Como deveriam ter agido as forças legais? Saibam os que nos condenam, muitos deles ex-terroristas e ex-guerrilheiros, hoje ocupando altos postos da República, e que jamais defenderam ideais democráticos, que nossa paz teve um preço. Ela é um legado daqueles que cumpriram sua missão e não fugiram ao dever, nem à luta”.
    No discurso feito de improviso na solenidade realizada no quartel general do Exército para empossar o general João Vilela, no Comando Militar do Sudeste, e o novo vice-chefe do departamento de Ciência e Tecnologia, general João Mário Facioli, Heleno fez uma homenagem aos colegas que combateram os grupos guerrilheiros:
    “Gostaria de aproveitar o momento e a data para reverenciar os companheiros que ajudaram a derrotar a luta armada e impediram que o Brasil seguisse o exemplo de Cuba, da Coreia do Norte, de Angola, da Albânia e da União Soviética”. A data a que Heleno se referia é 31 de março, aniversário de 46 anos do golpe militar que instituiu em 1964 a ditadura que durou 21 anos.
    Leia mais em: General Heleno: “Hoje é fácil falar sobre abusos na luta contra a subversão”
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    Por favor coloca este texto para conhecimento – é o fascismo aberto

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    • Paulo Guedes 11/04/2010 em 6:50 pm

      Um erro histórico na avaliação do Golpe de 31 de Março é não reconhecer sua ilegalidade. Nasceu de pressupostos errados. Viveu uma realidade ilacionada q não se consumou nem teria como se consumar. Usou de uma truculência nascida da incultura de nossos militares q compraram uma versão inoculada por tio Sam e apropriada com avidez por todos aqueles q viram na ignorância das armas a possibilidade de locupletarem-se.

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  10. Alan Souza 03/04/2010 em 7:54 am

    Pedro, o general Heleno não merece destaque. Ele fala pra um público restrito, aqueles saudosistas do Golpe de 64, uma turma que cheira a naftalina e mofo, a maioria frequentando a clínica geriátrica. Não representa o menor perigo, o público dele não dá um Maracanã cheio. É um caso perdido, patológico, direitopata esquerdofóbico. É a terceira pessoa depois de ninguém.

    A Veja e a Folha de São Paulo, hoje, são ameaças muito maiores à democracia do que ele…

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    • Amâncio Siqueira 14/04/2010 em 10:47 am

      De fato, instituições que se dizem defensoras da democracia são mais perigosas para a democracia do que aqueles que são declaradamente contrários à mesma. Basta lembrarmos que a própria ditadura assumiu a defesa da democracia, enquanto abolia garantias constitucionais e cerceava os mais essenciais direitos. Quando alguém se arrola o título de defensor da liberdade de expressão, o povo tende a apoiá-lo, ao passo que quem diz abertamente: sou contra a democracia, afasta seus apoiadores.
      Sobre a subversão que o general combate, alguém deveria lembrar-lhe que uma ditadura fomenta a dissidência armada, tendo em vista a impossibilidade da oposição pacífica. Logo, os grupos guerrilheiros foram consequência lógica da violência patrocinada pelo Estado ditatorial que ele tanto defende.

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  11. carlos anselmo-fort-ce 06/04/2010 em 1:35 pm

    é por isso que me amarro no amálgama. uma surpresa atrás de outra.
    a discussão foi interessante, mas, politicamente, me aproximo muito mais do josé ruiz do que do andré egg.

    aviso aos navegantes: política se faz também com emoção. se fosse só racionalismo seria um saco.
    parabéns aos comentaristas e ao autor do post, alan souza.

    ps: marina – a traíra verde, eheheheheheheh

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