A atualidade do ceticismo

por Maria Ivonilda * – O Ceticismo é uma teoria filosófica que, ao longo da tradição, foi adquirindo os mais variados significados, deixando margem, inclusive, para podermos considerá-la como possuindo diferentes graus, desde o ceticismo clássico, que é aquele caracterizado por um aspecto negativo, no sentido de defender uma incerteza a respeito da constituição do nosso conhecimento, até o ceticismo radical, que categoricamente afirma a nossa incapacidade de apreender a verdade.

Apesar de seu caráter polissêmico, somos capazes de reconhecer certa unicidade no ceticismo enquanto postura filosófica. A experiência é, fundamentalmente, um referencial na postura daquele que duvida. Ela é o meio ou lugar no qual o conhecimento se faz, ou seja, ela é a mediação entre o que é conhecido e aquele que conhece. Nesse sentido, cabe afirmar que o conhecimento é, para os céticos, mediado e não imediato, isto é, não há para nós, apesar de seres racionais, um cartão de acesso diferenciado à verdade, tampouco há um telefone para o além, que nos diz com certeza como atingirmos o conhecimento acerca das verdades mundanas.

Já na Antigüidade, os céticos perguntavam em quê consistia fundamentalmente as doutrinas filosóficas, além disto, criticavam a pretensão das ciências e das teorias de seu tempo em apreender a verdade acerca das coisas mesmas. Não há como negar que os céticos inauguraram uma nova forma de reflexão filosófica. Podemos até afirmar que eles foram um dos primeiros pensadores a identificar uma limitação na razão – apesar de comumente serem interpretados de forma errônea como aqueles que se posicionam como contrários à razão.

Razão, outro conceito-chave. O ceticismo, enquanto tomado nesse sentido originário – ou seja, se deixarmos um pouco de lado as diferentes apropriações que, apesar de serem legítimas, não são aqui objeto de consideração –, não é simplesmente um empirismo, tampouco é sinônimo de racionalismo. Isto porque os partidários da dúvida examinam, inspecionam, refletem acerca dos objetos, e, para tanto, elegem critérios de acordo com cada campo investigativo. Um desses critérios é a suspensão de juízo, é ela a ferramenta que auxilia os céticos a defenderem-se contra a acusação de que sua posição é apenas outra forma de dogmatismo.

Autores como Vittorio Hösle detectam um aspecto importante da história da Filosofia: salvaguardadas as diferenças, as posturas parecem se repetir ao longo dos tempos. Metafísica dogmática, empirismo, ceticismo, crítica do ceticismo e idealismo objetivo parecem surgir como necessárias para superar umas as outras. Não precisamos nem comungar da ideia de um progresso histórico para entender a necessidade de posicionar-se criticamente – mesmo porque o espírito contestador não é privilégio da filosofia, está na política, nas artes, nas ciências. Se somos capazes de entender isso, somos capazes de evidenciar também a grandeza intelectual de representantes da dúvida, como Pirro, Montaigne, Hume, Cioran, entre outros. Esses pensadores, inclusive, são conhecidos por despertar outros importantes monumentos da história da Filosofia de seu sono dogmático.¹

Graças àqueles que colocaram e ainda colocam em dúvida as nossas certezas, é que ampliamos o nosso horizonte de acesso à verdade. Senão vejamos: teriam os filósofos antigos deixado de lado as questões da natureza, as belas almas medievais haveriam de renunciar à sua excelentíssima dedicação a Deus em prol do homem? E os modernos, teriam eles deixado de pensar por um momento na consciência, na subjetividade humana, se a contemporaneidade, representada sobretudo pelos filósofos da linguagem e da ação, não houvesse colocado outros questionamentos em pauta? O Ceticismo, enquanto postura diante dos fatos do mundo, tem a sua parcela de importância na realidade, e sua atualidade é merecidamente reconhecida por alguns como verdadeira.

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¹ Kant afirma na obra Prolegômenos a toda a Metafísica Futura que Hume o despertou de seu sono dogmático.

  • http://www.opatriarcacontemporaneo.wordpress.com opatriarca

    Engraçado.

    Sempre achei que os céticos eram os verdadeiros defensores da Razão. Daí, vc diz que eles limitaram a Razão. O quê eles propõe no lugar ?? A intuição?

    Abs!

  • Ivonilda

    O Patriarca,

    na verdade, quando eu falo que os céticos foram um dos primeiros filósofos a identificarem uma limitação na Razão, me refiro ao fato de que a Razão não é mais aquela instância doadora de sentido, a qual a tradição sempre recorria no que diz respeito à obtenção de conhecimento. Os céticos, nesse sentido, identificaram que a Razão (assim, escrita em maiúscula) não é mais universalizante, absoluta, ou seja, incondicionada. Ela não está em um patamar mais elevado, digamos assim, ou pelo menos, não com a tradição filosófica acreditava. Há outras esferas de sentido, como você bem lembrou, a intuição, o sentimento, etc.

    Agora é importante não confundir ceticismo com relativismo. O cético não afirma que a verdade é “isso”, independente de qualquer situação (incondicionada) ou dependente de qualquer situação (relativismo). Ele elege critérios de acordo com cada campo examinado. Por isso defendo que o Ceticismo não é uma condição no sentido “forte” do termo, mas apenas uma postura que deve ser utilizada quando alguém se propõe a examinar um objeto (seja esse objeto fora do corpo, seja esse objeto a razão mesma).

    abraços e obrigada pelo comentário! :)

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