A autoridade da Bíblia na tradição protestante
por André Tadeu de Oliveira – A Bíblia é fonte de fé e base para a elaboração doutrinária de todos os ramos do cristianismo. Estudiosos bíblicos de renome são encontrados no catolicismo-romano e na ortodoxia oriental. Porém, é no protestantismo que este livro atingiu seu maior grau de autoridade. O famoso lema “Sola Scriptura” (Somente as Escrituras), denota a supremacia bíblica sobre outros elementos importantes da vivência cristã no mundo evangélico. Assim, para o protestante, a Bíblia é a máxima autoridade religiosa. Todo o resto se encontra subordinado a ela.
Por esta razão, Lutero, Calvino, Bucer, Zuínglio e todos os demais reformadores desenvolveram uma sólida teologia bíblica. Não obstante, uma questão deve ser avaliada: seria a teologia bíblica desenvolvida pelos reformadores do século 16 semelhante ao pensamento predominante no contexto evangélico brasileiro, marcadamente influenciado pelo fundamentalismo teológico?
Segundo a ideia fundamentalista, a Bíblia seria inspirada de forma verbal, isto é, todas suas palavras foram ditadas diretamente pelo Espírito Santo, cabendo ao ser humano desempenhar o mero papel de copista, sem nenhuma participação no processo de criação do texto. Grupos extremistas consideram até mesmo os supostos pontos vocálicos do original em hebraico no Antigo Testamento como divinamente inspirados. De acordo com esta visão, tudo o que se encontra no texto seria literalmente inerrante. Como aplicação prática deste princípio, a Bíblia converteu-se em um manual de ciências naturais ou em um compêndio historiográfico. A já mais que centenária polêmica envolvendo Criação x Evolução demonstra de forma clara esta situação. Para o fundamentalista, o texto do livro de Gênesis, que relata de forma simbólica a criação do universo, deve ser lido de forma literal e histórica. Tudo teria sido criado em 6 dias de 24 horas, sendo que todas as formas de vida surgiram da forma exata como descritas em Gênesis.
Após este pequeno resumo a respeito da forma como a teologia fundamentalista conservadora interpreta os escritos bíblicos, devemos confrontá-la com a maneira como os reformadores lidaram com essa questão.
Martinho Lutero tinha a Bíblia em altíssima conta. Para o reformador, ela era verdadeiramente a palavra de Deus. Contudo, tal designação não foi utilizada como que se referisse a um manual de ditos inerrantes. Para ele, a Bíblia era a palavra de Deus pelo fato de proclamar Jesus Cristo como salvador da humanidade. “A Bíblia é uma manjedoura, na qual está contido Jesus. Se não o encontramos, só temos palha”, afirmou o reformador. Coerente com esta declaração absolutamente cristocêntrica, Lutero chegou ao ponto de julgar o conteúdo bíblico usando como critério a pessoa e a obra de Jesus. Em uma de suas obras, escreveu: “Este é o verdadeiro critério para julgar todos os livros: se a gente vê, se tratam de Cristo ou não, uma vez que toda a Escritura mostra Cristo. O que não ensina Cristo, isto também não é apostólico, ainda que Pedro ou Paulo o ensinassem. Por sua vez, o que prega Cristo, isto seria apostólico, ainda que Judas, Anás, Pilatos ou Herodes o fizessem”. Vemos que Lutero submete a própria Bíblia a Cristo. Essa consciência o levou a ter a liberdade de criticar, abertamente, alguns livros da Bíblia. A Epístola de Tiago, por exemplo, foi chamada de “epístola de palha”. Já o livro de Apocalipse era visto com reservas, sendo considerado bastante obscuro.
João Calvino, reformador francês e pai do presbiterianismo, também possuía uma compreensão a respeito da Bíblia bastante divergente da concepção fundamentalista. Seguindo os passos de Lutero, Calvino afirmava a condição da Bíblia como palavra de Deus escrita. Concordando com o reformador alemão, atribuía este título às Sagradas Escrituras devido à sua capacidade de aproximar o ser humano de Jesus. Gottfried Brakemeier, teólogo e pastor luterano brasileiro, avaliza esta idéia: “A concentração cristológica da Escritura encontra notável paralelo em Calvino. Jesus Cristo é o centro da Escritura. Esta é a palavra de Deus na medida que traz Cristo consigo. Tal concepção afasta a identificação direta da letra com o evangelho e impele a busca do evangelho por trás das palavras, bem como reconhece a contextualidade do texto bíblico. Para Calvino, o sentido de muitas passagens depende de seu contexto histórico. É Cristo que valida a Bíblia, não vice-versa, sendo o Espírito Santo o autêntico intérprete. O biblicismo que atribui à Bíblia inerrância verbal é posterior tanto a Lutero como a Calvino”.
Completamente contrário ao método literalista de leitura bíblica apregoado pela escola fundamentalista-conservadora, Calvino fazia uso da chamada acomodação. De acordo com este método, Deus acomodaria sua mensagem de uma forma compreensível para o ser humano incapaz de entender suas verdades de maneira completa: “Assim, tais formas de falar não expressam com muita clareza o que Deus é, visto que acomodam o conhecimento dele à nossa frágil capacidade”. Foi isso que Calvino escreveu nas Institutas. A respeito do método hermenêutico da acomodação usado pelo reformador de Genebra, e especificamente no tocante a sua relação com as ciências naturais, Karen Armstrong declarou: “ Calvino não via contradição entre a ciência e as Escrituras. Em sua opinião a Bíblia não fornece informações literais sobre geografia ou cosmologia, mas tenta exprimir uma verdade inefável em termos que os limitados seres humanos possam entender. A linguagem bíblica é infantil – uma simplificação deliberada de uma verdade complexa demais para ser articulada de outro modo”. Portanto, fica clara a enorme distância existente entre a forma como Calvino enxergava o texto bíblico e o literalismo que defende a tese de que todas as palavras são absolutamente inerrantes e divinas, devendo ser interpretadas literalmente. Uma leitura verdadeiramente calvinista das Escrituras não combina com fundamentalismo.
Outras significativas distâncias separam Calvino dos modernos fundamentalistas, muitos dos quais se consideram, de forma absolutamente equivocada, fiéis intérpretes do reformador. Para estes grupos conservadores, a veracidade da Bíblia como palavra de Deus deve ser provada de todas as formas possíveis. Comprovações supostamente científicas de fatos narrados na Bíblia são fundamentais. Para Calvino, este método é completamente ineficaz: “Devemos tentar conseguir nossa convicção em um lugar mais elevado do que as razões, avaliações e conjecturas humanas, isto é, no testemunho secreto do Espírito” (Institutas 1.7.4). Ou ainda: “Aqueles que desejam provar aos incrédulos que a Escritura é a palavra de Deus estão agindo tolamente, pois isto somente pode ser sabido mediante a fé” (Institutas 1.8.13).
Após claros apontamentos, fica claro o distanciamento de Calvino de uma interpretação legalista e literalista da Bíblia. Todavia, este afastamento chega a ser tão marcante a ponto de o autor das Institutas admitir erros e falhas no próprio texto. Comentando uma falha cometida pelo apóstolo Paulo em Romanos 3.4, citando de forma equivocada o texto do Salmo 51.4, afirmou: “Ao citar as Escrituras, os apóstolos frequentemente usavam uma linguagem mais livre do que o original, visto que eles se contentavam em aplicar a citação ao seu assunto e, portanto, eles não eram exageradamente cuidadosos no uso das palavras”.
Nessa breve exposição, duas coisas ficam claras: a participação ativa dos apóstolos na criação do texto, não como simples copistas guiados pelo Espírito; e a possibilidade de pequenas imprecisões no momento da redação textual. Esta percepção de Calvino é afirmada de forma mais direta em um trecho de seu comentário enfocando Hebreus 10.6: “Os apóstolos não eram escrupulosos demais na citação das palavras, ressalvando que não faziam mau uso das Escrituras, segundo suas conveniências. Nós devemos sempre olhar para o propósito com que as citações eram feitas… mas, no que diz respeito às palavras, como em outras coisas que não são relevantes ao propósito estabelecido, eles se permitiam alguma indulgência”.
Após argumentos tão contundentes, torna-se clara a enorme diferença existente entre a idéia de autoridade e inspiração bíblica cultivada pela tradição protestante original e a posterior teoria da inspiração verbal, fruto da ortodoxia do século XVII, defendida por teólogos fundamentalistas e até mesmo conservadores. Para os reformadores, a Bíblia era uma interminável fonte de paz e liberdade, levando a pessoa ao pleno conhecimento de Deus e de sua vontade para a vida cotidiana. Para a teologia fundamentalista, a Bíblia se converteu em um livro árido, repleto de regras moralistas e castradoras, sendo utilizada até mesmo como manual de ciências naturais, extrapolando e adulterando a função primordial do livro sagrado. Tornou-se, como bem afirmou o teólogo reformado suíço Emil Brunner, uma espécie de “papa de papel”.
Para que a Bíblia seja compreendida e utilizada de forma correta, cabe uma breve reflexão sobre o que escreveu um importante pastor e teólogo presbiteriano independente, o Rev. Epaminondas Melo do Amaral: “A fim de colocar em posição legitima seu princípio, terá o protestantismo de rejeitar todo o literalismo que ele tenha impregnado. Valerá para nós a Escritura, sem imposições da inspiração literal, sem o peso indiscriminado da aceitação em bloco, porém com as insuperáveis virtudes de sua mensagem espiritual”.
Jorge Bertolaso Stella e sua concepção da formação da Bíblia
Stella é uma daquelas personalidades cujo brilhantismo foi relegado ao esquecimento. Italiano de Abadia, província de Parma, chegou ao Brasil com três anos de idade. Junto com seus familiares, estabeleceu-se no interior de São Paulo. Convertido ao protestantismo, tornou-se ministro evangélico em 1919. Destacou-se como pastor por quase trinta anos na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo.
Interessante é sua sólida formação intelectual. Teólogo formado, adquiriu um real interesse pela filologia, sendo fluente no grego e hebraico. Não obstante a importância destas duas línguas, sua grande contribuição à cultura brasileira reside no fato de ser o primeiro intelectual nacional a dominar o sânscrito, língua indiana milenar. Apaixonado pela cultura hindu, escreveu um dos melhores comentários existentes em português sobre o Bhagavad Gita, livro sagrado do hinduísmo, além de vários estudos a respeito da cultura e religião do povo indiano. Ao contrário da maioria dos evangélicos, não possuía uma relação apologética com crenças não cristãs , mas as considerava como expressões relevantes da religiosidade humana. Completamente favorável ao diálogo inter-religioso, deixou o seguinte pensamento: “ Não há, em determinado sentido, duas religiões no mundo. Há uma só religião. O que há é desenvolvimento da religião, evolução, transformação do sentimento religioso. A água é uma só… A luz é uma só… conforme o instrumento que ela atravessa, se decompõe em cores diferentes como no caso do arco-íris”.
Foi professor emérito da cadeira de história das religiões na Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente na capital paulista e membro de destaque do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
Feito este pequeno e indispensável resumo histórico, vamos nos ater em um breve texto de sua autoria a respeito do processo de formação da Bíblia. Para Stella, a Bíblia, mesmo sendo palavra de Deus, foi composta através de um longo processo cuja influência de textos de outras culturas e religiões foi determinante. Desta forma, leis contidas no Pentateuco, por exemplo, foram claramente inspiradas no babilônico Código de Hammurabi. Isto é, houve um intercâmbio entre a antiga cultura hebréia e a de seus vizinhos orientais. Esta constatação é inaceitável para grupos fundamentalistas, pois destrói a ideia de uma revelação pura e restrita ao antigo povo de Israel.
Assim, vamos ao texto, ele fala por si:
AS RAÍZES DA BÍBLIA
A Bíblia, livro humano, tem sido comparada com muitas coisas para mostrar sua utilidade. Eu assemelho-a uma árvore frondosa, cujas folhas são medicinais, cujas flores embelezam e cujos frutos nutrem e dão vida.Nem sempre, ao observarmos uma árvore, pensamos na importância de suas raízes, que são como veias do corpo humano. É interessante observar, de passagem, que na língua basca, a mais antiga da humanidade ( 25.000 anos ), a palavra raiz significa veia. Raízes cortadas, árvores mortas.
A Bíblia tem suas raízes na Suméria, Caldéia,de onde recebeu idéias da criação, de Adão e da árvore da vida. Da Babilônia tiram-se, do Código de Hammurabi, 2.500 A.C, as leis abundantes que figuram nos livros de Gênesis, Êxodo e Levítico.
Do Egito,de onde, como se crê, origina-se Moisés, que não sendo autor do Pentateuco como muita gente pensa, é, no entanto, um vulto notável da humanidade, de lá vem, ao que parece, a idéia de Deus.
Da Pérsia passam para o Velho Testamento os seres celestes: anjos e arcanjos.
Dos Cananeus, outras abundantes idéias são transplantadas para a Bíblia. Demais idéias que constituem seiva preciosa, vêm de outros solos.Como folhas são medicinais, as flores formosas e os frutos dão vida, a Bíblia é sombra de refrigério na aflição , embeleza a vida moral, o caráter, e nutre as almas nas suas aspirações.
À sombra dessa árvore tenho vivido a minha vida e na experiência de seus autores, colho o necessário para minha existência.
A Bíblia é a árvore da vida.
Conceitos religiosos – Jorge Bertolaso Stella, São Paulo, 1976
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![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)








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Permitam-me pontuar contrariando a perspectiva do autor sobre o que é o protestantismo histórico conservador em contraste com sua “amálagamada” conjugação deste com o que chamou de “fundamentalismo”.
O movimento protestante conservador crê sim na inerrância, infalibilidade e inspiração das Escrituras. Entretanto, começando desta última, conforme o próprio texto sugeriu, não é confundida dentro deste ramo do protestantismo com a teoria aventada do ditado, mas sim definida pela inspiração dinâmica, na qual o próprio Espírito de Deus guia o autor humano, tendo como ferramenta sua própria história pessoal.
A Bíblia, dentro deste movimento, não é considerada um livro de geografia, geologia, paleontologia ou qualquer outro manual científico etc. Na verdade, o protestantismo histórico compreende que a Bíblia não tinha nenhuma destas finalidades. Por isso, sua exatidão não se reporta à sua disposição de tocar nestes assuntos com pressupostos do século XX, mas, seguindo a própria fala anterior, dentro do contexto de cada um dos seus autores humanos.
Outrossim diga-se de passagem, algumas vezes, a Bíblia nos faz surpresos quando, mesmo em tempo de desconhecimento científico sobre determinados temas, ela ainda assim se refere, mesmo que não com a intenção exata de definir a questão científica, de forma correta.
Quanto ao uso das citações de Lutero e Calvino de forma espaçada, descompromissada com a própria obra dos reformadores, descupe-me o autor por minha opinião, mas creio que estás tentando construir um castelo com pedaços dos castelos alheios e estás colocando a porta do quarto como piso do dormitório.
Certamente, este veículo de informação, pela concepção que entendo do seu próprio título, terá a altivez de possibilitar que também um representante da corrente protestante histórica possibilite aos seus leitores o contraponto justo, sem vilipêndio.
Não vejo em que a opinião aqui destoa da manifestada no texto.
Não encontrei nenhum tipo de vilipêndio – o texto faz correta diferença entre portestantismo histórico e fundamentalismo, as citações de Lutero e Calvino estão corretas e bem contextualizadas, não distorcem o pensamento geral dos reformadores.
Fico curioso para saber que tipo de “contraponto justo” poderia ser.
Creio que generalizei ao associar, automaticamente, o conservadorismo protestante com o moderno fundamentalismo. Possuo vários amigos evangelicais, portanto, conservadores em sua teologia. Eu, mesmo, sou relativamente conservador no que se refere a certas doutrinas básicas do cristianismo. Desde que retornei ao aprisco cristão liberto do famigerado fundamentalismo, me situo, teologicamente, no centro. Liberais extremados me consideram relativamente conservador. Já fundamentalistas e até mesmo alguns conservadores moderados e pentecostais nutrem um certo temor referente à minha pessoa, considerando-me um perigoso liberal iconoclasta. Resumindo, levo bordoada das duas extremidades.
Como afirmei acima, a ligação entre conservadorismo e fundamentalismo não é automaticamente direta. No entanto, é inegável que o fundamentalismo, da forma como conhecemos hoje, é fruto da teologia conservadora. Esta teologia conservadora, como bem afirmou nosso amigo André Egg, nasceu logo após o falecimento dos chamados reformadores magistrais em pleno século 17.
A respeito deste período em um universo luterano, Justo González, historiador e teólogo metodista cubano, afirmou;
“ Lutero nunca havia tratado, especificamente, sobre a inspiração das escrituras. Naturalmente, estava convencido de que as escrituras foram inspiradas por Deus e que, portanto, eram à base de qualquer afirmação teológica. Mas nunca discutiu em que consistia a inspiração. Para ele, o importante não era o texto da Bíblia, mas a ação de Deus da qual esse texto dá testemunho. A palavra de Deus é Jesus Cristo, a Bíblia é a palavra de Deus porque nos leva a ele. Mas os luteranos da escolástica suscitaram a questão de em que sentido a Bíblia é inspirada.
A resposta da maioria deles foi que o Espírito Santo não só disse aos autores o que tinham de escrever, mas que, também lhe ordenou que o escrevessem. A outra pergunta que esses teólogos suscitaram com respeito à inspiração das escrituras é até que ponto a individualidade de cada autor determinou o que escreveram. A resposta mais comum foi que os autores bíblicos não foram mais do que copistas ou secretários do Espírito Santo. O que escreveram foi, letra por letra, o que o Espírito Santo lhes disse.” ( Comentário meu; Em completo desacordo com as afirmações de Calvino).
No ambiente reformado, ou calvinista, a idéia de inspiração verbal também é antiga, fruto do conservadorismo escolástico pós-Calvino. Teodoro de Beza, seu sucessor, empossava esta doutrina. Mas o campeão desta doutrina literalista no seio do protestantismo reformado foi o teólogo suíço-italiano Francisco Turretini. Sobre Turretini e sua visão bíblica, Jack Rogers, pastor presbiteriano estadunidense e professor no Seminário Teológico de São Francisco, Califórnia, deixou-nos este interessante comentário ;
“ O pensamento escolástico reformado atingiu seu pleno florescimento na teologia de Francisco Turretini, que ocupou a cadeira de teologia em Genebra um século depois da morte de Calvino. Turretini adotou o método da Summa, de Tomás de Aquino, para elaborar sua própria teologia. Ao desenvolver sua doutrina a respeito da escritura Turretini citou 175 autoridades, mas não mencionou Calvino. A escritura foi o princípio formal no qual Turretini fundamentou uma teologia sistemática científica. A autoridade da escritura era fundamentada na pretensão de que a Bíblia continha palavras inerrantes. Turretini aduziu argumentos externos e internos para provar que os escritores bíblicos não cometeram erros nem nos mais significantes pormenores”.
Esta premissa defendida por Turretini, um conservador escolástico que viveu há quase três séculos antes do moderno fundamentalismo, é à base da famosa Teologia de Princenton no século 19. Tal teologia é raiz do posterior fundamentalismo. Portanto, o conservadorismo de linha evangelical pode ser considerado o pai do fundamentalismo
Apenas para referendar a idéia de Calvino a respeito da inspiração bíblica, uma citação de Alister MacGrath, uma das maiores autoridades no que diz respeito ao reformador francês;
“ Pelo fato de Jesus Cristo ser conhecido somente através dos registros bíblicos, assegura-se a centralidade e a indispensabilidade das escrituras tanto para teólogos como para fiéis. Calvino adiciona, contudo, que as escrituras somente podem ser lidas e compreendidas de forma adequada através da inspiração do Espírito Santo. No entanto, ele não desenvolve um entendimento mecânico ou literal sobre a inspiração das escrituras. É verdade que ele, ocasionalmente, utiliza imagens que podem sugerir uma visão mecânica a respeito da inspiração- por exemplo, quando se refere aos autores bíblicos como “ assistentes” ou “ escribas”, ou quando fala que o Espírito Santo “ dita “ as escrituras. Contudo, essas imagens certamente devem ser entendidas metaforicamente, como acomodações ou figuras visuais. O conteúdo das escrituras é, de fato, divino- porém, a forma como este é materializado é humana. As escrituras são o verbum Dei, e não o verba Dei. Eles representam o registro da palavra, e não a própria palavra”.
Agradeço sua gentil resposta, caro André.
Não o conheço pessoalmente, quem sabe, um dia, terei este privilégio. Não pense que desprezo o texto que você escreveu, pelo contrário, acho extremamente saudável que se exponham idéias sobre um cristianismo não automatizado, mas pensante.
Talvez minha reação tenha lhe parecido agressiva, como sugere um dos comentários anteriores, mas nada tem a ver com isso. Apenas pontuei o que acho ser um engano (daí o vilipendio) de rotular todos os conservadores como feras dogmáticas, insensíveis e não pensantes.
Concordo com seu resumo histórico. Tenho algumas pequenas e importantes demandas com estas assertivas históricas, tais como: isto é fruto daquilo, ou falando diretamente sobre o texto, o protestantismo histórico conservador é pai do fundamentalismo.
Caso você me permita, já compreendendo que o contraponto está autorizado, dentro de toda a civilidade, respeito humano e consideração. Não sou de escrever muito, na verdade, nem tempo tenho para tanto. Mas gostaria de pontuar pouco a pouco e quem sabe construiremos um entendimento mútuo que nos ajude a crescer em conhecimento de ambos os lados.
Voltando ao ponto.
Prefiro deixar Lutero e Calvino para mais tarde.
Quanto ao fundamentalismo (histórico não o que você chamou de “atual fundamentalismo” – não concordo com este rótulo, nem vejo nenhum grupo com esta característica a menos que sejamos históricamente incoerentes com os primeiros fundamentalistas)
The Fundamentals – a publicação que deu nome ao chamado “Fundamentalismo” foi publicada no início do século XX. Seu pai não é o Conservadorismo protestante histórico (na minha opinião), embora muitos dos seus colaboradores estejam dentro desta ala protestante.
Na verdade, vou tentar me explicar, os Fundamentals surgiram como uma reação a várias correntes teológicas, filosóficas, educacionais, políticas que surgiram no final do século XIX – o cientificismo darwinista que contrapunha a posição conservadora frontalmente, inclusive dentro do movimento educacional americano. Outro polo de controvérsia a atacar o conservadorismo protestante é o surgimento e crescimento da Alta Crítica, que passou a contextar a origem dos textos bíblicos e até mesmo outros escritos seculares. O surgimento de novas denominações “semi-cristãs” como o mormonismo, com fundamentação extra-bíblica etc.
A
reação fundamentalista fora fruto de uma conjuntura específica. Obviamente, dentro do movimento houve os seus excessos, que viriam acomodar-se durante o veemente debate durante o transcorrer do século XX.
Colegas, ainda que eu admita que este movimento conhecido como fundamentalista do início do século XX tenha nascido nos arraiais conservadores, quero pontuar que sua origem é conjuntural e não tratou apenas da questão da inspiração das Escrituras, mas tantas outras doutrinas cristãs, tais como: nascimento virginal, morte expiatória de Cristo, milagres, céu e inferno, etc.
Penso que a mais correta justiça histórica é considerar os pressupostos deste movimento dentro dos limites de sua história. Pois, a releitura destes escritos no final do século XX, início do século XXI, não pode desconsiderar sua transitoriedade, tampouco a conjuntura de suas postulações.
A questão do erro é que, passamos a usar a palavra “fundamentalismo” para definir qualquer movimento que tenha posição firmada em favor da inspiração plenária das Escrituras. Não disponho de literatura adequada à mão, mas caso alguns dos postulantes fundamentalistas do início do século XIX, tenham tratado da inspiração dentro do método (mecanicista) do ditado, essa não é a posição do protestantismo histórico, em particular, a escola calvinista.
Como disse, não estou criando nenhum tratado, mas propondo uma revisão do conceito atual de “fundamentalismo” e um modo mais contextualizado para entender aquele movimento.
Depois falamos mais sobre INSPIRAÇÃO DINÂMICA – posição conservadora tradicional protestante.
Caro José Mauricio.
Em primeiro lugar, o colega, em nenhum momento, deixou transparecer algum tipo de desdém para com meu texto. Seu comentário foi baseado, exclusivamente, em críticas referentes a idéias e posicionamentos. Não fez nenhum tipo de ataque pessoal, prática muito comum em debates religiosos pela web, além de se dirigir a minha pessoa com o máximo de educação. Parabéns.
A sua avaliação histórica a respeito do fundamentalismo está correta. O mesmo surgiu no início do século 20 como contraponto a modernidade. Contudo, o que defendo em meu humilde texto, que não é inspirado verbalmente (RS), é que há uma ligação muito próxima entre o conservadorismo evangélico e o fundamentalismo. Independentemente dos outros quatro pontos defendidos na famosa série “Os Fundamentos”, a base deste movimento está na doutrina da inspiração verbal, mecânica, das escrituras. O resto é decorrência da mesma. E tal teoria foi formulada já no século 17, em claro afastamento da idéia original defendida pelos reformadores. Estes teólogos escolásticos não podem ser chamados de fundamentalistas, pois viveram séculos antes do nascimento do chamado fundamentalismo histórico. Portanto, foram, simplesmente, conservadores evangélicos. Como tal, progenitores do nefasto fundamentalismo.
Olá André!
Dando continuidade à sua tese de paternidade do fundamentalismo, ligando-o ao DNA do protestantismo conservador, fazendo-me saltar do início do século XX ao remoto século XVII, buscanso estas raízes no Escolasticismo Protestante, eu pontuaria algumas observações.
Primeiro – Qual o problema do fundamentalismo?
Dizem que os fundamentalistas se tornaram obscurantistas. De fato é a visão geral que deles se produziu em sua época, pelos mais diversos motivos e, em minha opinião, por um mais específico: o questionamento das teses darwinianas.
Eu procuro manter sempre o mesmo método: o contexto de cada um determina as suas ações e o peso de suas palavras. Como numa briga entre marido e mulher, pode ocorrer o uso de palavras exageradas com a finalidade de demarcar um ponto de vitória.
Os chamados “fundamentalistas”, reagiram ao seu tempo, como já disse em um post anterior. Isto provoca ponderações coerentes, mas também exageros e argumentos excessivos.
Mas a tendência é que os debates e os embates sejam amenizados com o tempo e o cessar do fogo mais intenso. Como nas brigas de casais, depois há espaço para uma posição mais ponderada e palavras mais amenas.
Estes exercícios de defesa-ataque deixam os seus resultados para as gerações que seguem.
Portanto, o fundamentalismo não representa nenhuma ameaça tão séria à inteligência humana, à preservação de um cristianismo bíblico sensível às necessidades humanas como se tenta impor nos dias atuais, foi apenas um momento mais intenso de controvérsias, tal qual o período escolástico protestante.
Obviamente, quando fazemos a releitura destes períodos com o olhar do século XXI, sua produção parece incoerente e, muitas vezes, demasiado agressivo.
O problema do Escolasticismo Protestante – Século XVII
Não tenho condições de trabalhar com academicismo, apenas com algumas reminiscências, afinal não estou produzindo nenhum texto para finalidade acadêmica.
Qual o panorama geral deste período. Bem, em resumo, podemos dizer que o período apaixonado da reforma protestante está acabando e os namorados precisam sentar e conversar sobre o futuro.
Este período anterior ao iluminismo filosófico deu lugar a uma importante ação por parte da igreja católica romana, a chamada, Contra-Reforma. Esta, por sua vez, tentava fazer regredir o protestantismo luterano e calvinista, em particular na Alemanha, mas em toda a Europa. Sua proposta era uma recuperação da “Escolástica Católica”, fazendo prevalecer o pensamento Aristotélico e Tomista da filosofia católica.
Outro aspecto desta área é que, algumas doutrinas basilares da Reforma precisavam ser revistas e estabelecidas sobre critérios filosóficos mais sólidos. Entre os protestantes, diferentemente dos romanistas, havia o livre exame das Escrituras, o que naturalmente geraria posicionamentos diferentes sobre determinadas doutrinas (só para lembrar, pense na questão da Santa Ceia, ainda no período dos reformadores iniciais).
Para sobreviver ao ataque contra-reformado dos católicos, um dos prinicipais trabalhos seria a elaboração de pontos fundamentais de acordo entre os protestantes, para que o reino não permanecesse tão dividido. Daí o período do chamado “Escolaticismo Protestante” ser tão intenso na produção das grandes confissões reformadas.
Veja, novamente retomo a questão histórica contextual. Não podemos dizer que havia obscurantismo por parte dos teólogos daquela época. Havia uma demanda que gerava uma reação. Mais uma vez, surge um daqueles momentos em que você deve se posicionar firmemente para se estabelecer contra os que apontam armas contra você (no caso deles, algumas vezes foi literal). Desse tempo de tensão surge posicionamentos oportunos e outros exagerados. Contudo, fazer a leitura a partir dos seus textos, com a mentalidade assentada em um contexto de século XXI, poderá nos levar a injustiças históricas.
Não sou um expert em teologia escolástica, mas não acho que este monstro tenha realmente tantos tentáculos quanto os pintores atuais propõem em seus trabalhos. Pois as grandes confissões reformadas, o grande fruto deste período (minha opinião) perduram até hoje, passando por todas as diversas épocas de embates tais como o período cientificista e fundamentalista, o período neo-ortodoxo, as guerras mundiais, o pentecostalismo, o surgimento da espiritualidade neo-pentecostal etc.
Tudo bem… aonde quero chegar?
De forma simples, desejo dizer:
- O Fundamentalismo Cristão era uma reação enérgica aos problemas de sua época;
- O Escolasticismo Protestante era uma reação enérgica aos problemas de sua época;
- Em ambos, havia gente preparada para dar estas respostas, as quais, por vezes, foram conduzidas pelo calor dos momentos à posicionamentos necessários, que vistos hoje parecem exageros;
- Por outro lado, seus legados também produziram coisas boas e precisamos fazer justiça ao seu trabalho;
- Por fim, caso você insista em questão de paternidade e fazer o protestantismo histórico continuar sendo o pai destes filhos, tudo bem. Penso que a verdadeira paternidade esteve sempre ligada às demandas destas épocas e, no caso dos escolásticos protestantes, durante a guerra dos trinta anos, as demandas giravam em torno de problemas muito sérios.
Não sei se será possível. Se você me permite continuar o debate. Mas gostaria de discordar um pouco da tese de que estes movimentos se basearam na inspiração mecânica das Escrituras, que isto foi o enfoque principal dos seus argumentos. Também, caso me seja permitido, gostaria de falar sobre a Inspiração Dinâmica ou Orgânica que marca o protestantismo histórico em todos estes momentos.
Caso não seja este o fórum para uma discussão desta natureza, talvez possamos combinar um encontro para uma discussão amigável, de preferência tomando um café.
Grande abraço a todos!
um método de avaliação
Tomando por base sua proposta da paternidade do fundamen
INSPIRAÇÃO DINÂMICA (OU ORGÂNICA)
Olá José Maurício, tudo bem? Espero que sim.
Vamos ao debate. Considero este o espaço pertinente para tal, o que não impede uma conversa pessoal a respeito deste fascinante tema. Se desejar, pode me procurar em meu e-mail.
O amigo afirma que o fundamentalismo deve ser lido de acordo com seu contexto histórico. Concordo piamente! A intenção inicial deste humilde texto foi apenas demonstrar que o conceito de inspiração verbal, predominante em ampla maioria do universo evangélico brasileiro, seja histórico, pentecostal e neo-pentecostal, não tem sua base no pensamento original dos reformadores. Uso como exemplo sempre Calvino, pois a respeito de Lutero pode-se alegar que o mesmo, no afã da batalha, não teve condição de sistematizar sua doutrina. Com Calvino a situação é claramente diferente. A clássica obra “Instituição da Religião Cristã” não pode ser considerada uma grande sistemática, haja vista a intenção clara de Calvino: escrever de maneira retórica, sendo claro e compreensível para o leitor mediano. Não obstante, é inegável que as Institutas organizaram temas doutrinários em um formato de suma. Se você analisar todas as edições deste livro, onde o pensamento de Calvino evolui ao ponto de a edição de 1559 possuir um número bem superior de capítulos e temas abordados, não verá nada próximo ao conceito de inspiração verbal. É esta a temática básica de meu artigo.
A respeito do fundamentalismo, propriamente dito, ainda irei escrever sobre o mesmo. Mas, em respeito ao amigo, vou tecer alguns comentários em cima de seu último post. É relativamente “ compreensível “ ( e coloco várias aspas neste compreensível ) a reação dos evangélicos estadunidenses conservadores no tocante aos desafios da modernidade. Assim, os chamados cinco pontos ( Inspiração da Bíblia, Nascimento Virginal de Cristo, Sacrifício Vicário de Cristo, Historicidade dos Milagres e Ressurreição Corpórea ) são completamente aceitáveis para um cristão mediano. Acreditar nestes dogmas não o torna um fundamentalista obscurantista. O problema é que o movimento não parou nestes tópicos, mas em sua paranóia diante de assuntos como: evolucionismo, socialismo, catolicismo-romano, liberalismo teológico e etc, criou um verdadeiro “Silabo de Erros” protestante, bastante semelhante ao famoso documento promulgado pelo Papa Pio IX, grande expoente do conservadorismo ultramontano católico-romano. Vários fascículos da série “ Os Fundamentos “ fogem claramente dos chamados cinco pontos, praticamente sacralizando o modo de vida da classe média estadunidense. Será que foi uma coincidência o fato destes fascículos terem sido bancados por magnatas do segmento do Petróleo? Acredito que não!
No tocante ao darwinismo, grande tara dos fundamentalistas, até “compreendo” (e dá-lhe mais aspas) sua reação de repúdio no início do século 20, deixando sempre claro que muitos cristãos na época não viram nenhuma incompatibilidade entre a teoria evolucionista e o cristianismo. Afinal, era uma teoria que estava sendo construída.
Mas agora, em pleno século 21, após o desenvolvimento da genética, da enormidade de registros fósseis encontrados, não há como negar que a idéia darwinista é a mais adequada para explicar o surgimento da vida através de um prisma científico. Resumindo, a evolução é um fato científico! Mas como se comportam os fundamentalistas modernos? Insistem em um criacionismo tosco completamente desmantelado pela ciência ou utilizam a máscara sutil do design inteligente! De acordo com sua idéia, meu amigo, os próprios fundamentalistas é que perderam o bonde da história. Mas, infelizmente, não tomaram conhecimento disso.
A respeito da chamada escolástica protestante, o companheiro não deixa de ter certa razão. Não podemos julgá-la com nossos olhos pós-iluminismo. Realmente era necessário o estabelecimento de certos pilares. Agora, analisando os frutos desta escolástica dentro do próprio protestantismo, a história mostra que foram amargos. A verdadeira guerra travada entre reformados (calvinistas) e luteranos por causa de temas absolutamente secundários, como: santa ceia, forma de culto, forma da predestinação e etc, foi responsável pela perda de importantes territórios. Ao invés de uma união entre todos os grupos evangélicos, desejo, este, manifestado por parcela significativa dos reformadores, o que surgiu foi um verdadeiro ódio generalizado entre os diferentes grupos. Resultado? Os jesuítas reconquistaram todo o território sul da Alemanha, Polônia e Hungria! Até mesmo o debate salutar com teólogos católico-romanos dispostos a um entendimento visando sanar a dolorosa divisão na igreja ocidental foi abortado.
Bom dia, caro André!
Foi uma semana bem interessante neste debate. Não creio que prolongá-lo seja benéfico, pois pode tornar-se cansativo e entediante. Mas foi boa a experiência, em particular de conhecer mais um estudante disposto a defender um ponto de vista.
Por enquanto, estamos na mesma direção. Deixe-me descrever o que percebo:
a) protestantismo conservador não é definido pela palavra fundamentalismo;
b) exageros do fundamentalismo ambos pontuam (você mais que eu) como erros;
c) escolasticismo protestante segue o anterior;
d) primordialmente: inspiração verbal/teoria do ditado: NÃO!
e) cremos na inspiração das Escrituras (tenho a impressão que ambos cremos, mas percebo que existem algumas diferenças em nosso pensamento a este respeito).
Acho que estes pontos resumem onde chegamos e devo dizer que há uma boa concordância entre nós. O que explicaria porque os liberais também têm algumas resistências à você, como você disse em uma das suas respostas.
Divergiremos em um ponto (há um grande indício de…): O que é e qual a abrangência da Inspiração divina das Escrituras?
INSPIRAÇÃO DINÂMICA (ORGÂNICA) DAS ESCRITURAS
Em palavras simples, segundo o meu entendimento, sem eloquentes citações de autores, reformadores, ou quaisquer outras autoridades, apenas a convicção pessoal e de muitos outros colegas pastores, cristãos do convício, para o leitor “mediano” também poder compreender, pois o autor é “menos que mediano”.
A inspiração das Escrituras
Esta tem haver principalmente com o “registro” do texto sagrado. Ou seja, Deus, por uma ação divina operada pelo seu espírito, conduziu homens, como a Bíblia diz “santos” (com um uso bastante técnico e não moral da palavra) com a finalidade de fazer conhecida sua doutrina, inspirando-os a registrar o que Ele quis, não eliminando a auto-consciência do autor humano, mas usando seu conhecimento pessoal, recursos intelectuais e outros elementos que os envolviam, CONTUDO (eis o ponto que creio divergiremos) preservando do registro que tais autores incluíssem no texto final (os autógrafos originais, diga-se de passagem) impressões, opiniões, doutrinas pessoais que Deus não quisesse que fizesse parte do mesmo. Isto implica em que, além de conter os vestígios claros da mente humana nos escritos bíblicos, podemos notar o seu DNA divino.
Você citou e não eu, mas vou usar assim mesmo, a fala de Calvino sobre o fato de que a inspiração das Escrituras não pode ser provada cientificamente, mas pertence ao campo da fé: ainda: “Aqueles que desejam provar aos incrédulos que a Escritura é a palavra de Deus estão agindo tolamente, pois isto somente pode ser sabido mediante a fé” (Institutas 1.8).
Estes dias, ponderei sobre este assunto com um colega que é um grande estudioso do texto bíblico (Rev. Wilson de Angelo Cunha) e ele me levou a uma conclusão, com a qual concordei em absoluto: a crença na inspiração das Escrituras é um ato de fé, pois a mesma não pode ser provada pelos métodos científicos de observação, assim como a própria existência de Deus.
Este é a posição típica da maioria absoluta dos cristãos que eu conheço. Como sou do círculo presbiteriano, posso dizer dentro deste reduto que você (creio eu) postula encontrar boa parte dos “fundamentalistas” literalistas.
Na parte final do seu texto, na verdade, já dentro do texto do teólogo
“Bertolaso”, há um bom número de afirmações sobre os paralelos entre os registros escriturísticos bíblicos e outras escrituras antigas de outros povos. Particularmente, não tenho dificuldade alguma para aceitar que a “inspiração das Escrituas” tenha tomado por empréstimo através do conhecimento do autor humano, ou então, tenha chegado às mesmas conclusões que outras tradições religiosas antigas. Afinal, se creio que existe um Deus Criador e que a história dos homens deriva-se da mesma fonte, afinal, Deus não teria criado várias humanidades, mas apenas uma, não é de se estranhar que em várias regiões, muitos homens ainda soubessem algo sobre a história deste Deus e seu mundo (mesmo que compreensivamente, encontremos aproximações e distâncias em tais relatos).
O que a inspiração faz com os autores bíblicos é que eles registrem estas histórias, segundo seu conhecimento e, em alguns textos, revelação especialíssima de Deus (ex: apocalipse), sendo tal registro preservados da inclusão de material fora dos limites da vontade de Deus.
Creio que isto dá uma direção sobre a opinião do protestantismo conservador sobre o assunto inspiração dinâmica da Palavra de Deus. Certamente, algumas arestas do entendimento de alguns textos irão aparecer sobre nossa compreensão do texto bíblico, entretanto, temos alguns pontos de partida em comum.
Estou grato pela chance de posicionar-me, agradeço sua compreensão, parabenizo pela honestidade de suas respostas. POdemos sim nos encontrar para um boa conversa sobre o modo como abordamos o texto da Escritura praa a exposição da verdade ali presente, falar de futebol, história em quadrinhos e outros temas…
Na morte vicária de Cristo, Deus o abençoe!
José Maurício Passos Nepomuceno
Caro José Maurício, boa tarde.
Amigo, também acredito que deixamos nossas opiniões claras. Agora, vamos aguardar as prováveis contribuições de outros (as) leitores (as) a respeito deste assunto realmente fascinante. Realmente você acertou em cheio; pelo que notei, nossa grande divergência se encontra na teoria da inerrância nos ditos originais. Não creio nesta inspiração verbal nem nos escritos originais, pois da mesma forma, Deus estaria transformando os escritores em meros copistas, sem vontade própria.
Sobre a ratificação da autoridade bíblica pelo testemunho interno do Espírito Santo e não em argumentos racionais e científicos, ela não me parece tão predominante em círculos evangélicos brasileiros, amigo José Maurício! Cansei de ouvir palestras, pregações e etc de pessoas que querem provar a historicidade de tudo o que se encontra na Bíblia. Gente que confunde o mito, que é uma forma de verdade simbólica, com a razão. Quando você escuta, por exemplo, um Adauto Lourenço explicando que o monstro marinho citado no AT é, na verdade, um dinossauro, torna-se clara esta atitude de se querer provar a bíblia por um viés “científico”.
No mais, agradeço sua paciência em ler minhas intermináveis e chatas respostas, assim como a paciência em refutá-las sempre com educação. Não bastando, apesar de nossas posições divergentes, somos cristãos, e integrantes da mesma família reformada que, apesar do que é ensinado por determinados grupos, é vasta e não se enquadra em uma fórmula de ser ‘ reformado”. De Hodge até Moltmann, todos somos devedores a Calvino .
Podemos marcar, sim, uma conversa sobre vários temas, inclusive sobre futebol, ainda mais agora, quando o glorioso São Paulo Futebol Clube ruma em direção ao tetra da libertadores(RS). Você tem meu e-mail.
A respeito de meu perfil espiritual, você pode conhecê-lo um pouco mais aqui mesmo no Amálgama
Abraços
André
http://www.amalgama.blog.br/02/2010/confissoes-de-um-evangelico-progressista/
Que belo texto, André.
Boa parte de nossos problemas como evangélicos deriva de nossa ignorância. Faria muito bem estudar a Bíblia de forma honesta – você propõe questões indispensáveis para se pensar.
Parece que as origens desse forma estreita de ver as Escrituras estiveram na escolástica protestante do século XVII, tanto entre os luteranos como no surgimento do calvinismo (Calvino não era calvinista). Isso levou ao que chamamos de “biblicismo”, ou, de forma irônica, “bibliolatria” – pior doença do protestantismo evangélico.
Felizmente, o século XIX e XX nos deram uma infinidade de estudos muito profundos sobre a história e as interpretações dos textos sagrados. De modo que a abordagem fundamentalista soa infantil e tola. Quando se lê os panfletos intitulados “Os fundamentos”, percebe-se que a única lógica possível de encontrar ali é a do interesse de seus financiadores.
Todas aquelas diatribes pelas comprovações de autoria e pela necessidade de interpretações autorizadas dos textos não tem qualquer sustentação. E é isso que estamos fazendo todos os dias, construindo uma fé sobre a areia, nossos “fundamentos” são deslavadas mentiras.
Por isso a igreja evangélica está tão mal. Tem que ser muito míope para não perceber que estamos em crise, que o cristianismo precisa continuar se reformando.
Discordo sobre as colocações sobre fundamentalismo. Para mim o maior problema do fundamentalismo não o conceito de inspiração, mas ignorar o contexto do texto e também o contexto histórico. Usam um literalismo que acaba distorcendo o sentido do texto. Também a visão crítica a livros da Bíblia se deve pelo fato dos apócrifos fazer parte da Vulgata e tidos como inspirados.
Elmer Teodoro Jagnow
Com exceção de algumas das chamadas cartas paulinas todos os livros da Bíblia são apócrifos (autoria indeterminada, data de redação imprecisa).
De modo que o problema não está com a Vulgata. A tradição latina foi demonstrada como mal-feita por gente como Erasmo, que lançou um Novo Testamento Grego (também mal-feito, mas em todo caso jogou lenha na fogueira).
Irmão, seu texto está um primor. Ao começar a ler, já meus preconceitos vieram (ih, por que esses cristãos escrevendo no amálgama?), já esperava os clichês de sempre, e eis que ao contrário, você nos surpreende com uma visão culta e inclusiva. Gostei. Tomei a liberdade de citar o texto do Stella e referi a este artigo no meu blog (que não é cristão mas gira em torno de espiritualidade tb). Ok?
Gracias!
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Gostei muito do texto.
Realmente, o fundamentalismo é o conservadorismo levado às suas últimas consequências. Este foi seu surgimento nos EUA em princípios do século XX, esta tem sido sua história.
Porém, nas últimas décadas temos visto muitos fundamentalistas se esquivando desse rótulo devido ao mau uso que a imprensa de massas faz do termo, aplicando-o ao islamismo extremista, sem os devidos recortes históricos e sociológicos.
Assim sendo, muitos cristãos defensores das mesmas teologias e ideologias que historicamente originaram e alimentaram o movimento fundamentalista norte-americano, tentam evitar esse termo e se autodenominar simplesmente “conservadores”.
Conseguem fazer isso, visto que o termo “conservador” é equívoco, sem contornos teológicos e ideológicos bem definidos.
Como bem se sabe, teólogos neo-ortodoxos como Barth e Brunner, que no Norte dos EUA e na Europa são considerados conservadores, são, por outro lado, tidos como “liberais” no Sul dos EUA (Bible Belt), “quartel general” do fundamentalismo estadunidense, que é justamente onde os teólogos evangélicos “conservadores” brasileiros costumam ir estudar.
Porém, o grande equívoco da maioria desses conservadores atuais a que me refiro, é o fato de, em princípios do século XXI, continuar querendo confundir mitos religiosos com eventos históricos.
Em nossos dias é impossível fazer uma exegese bíblica intelectualmente honesta sem levar realmente a sério as contribuições da História, Arqueologia, Antropologia, Sociologia, Paleontologia, Crítica Literária etc,
Muito embora os conservadores costumem negar que sua concepção de inspiração divina inclua a idéia do ditado divino, e afirmem levar em conta os contextos histórico-sociais dos autores bíblicos, bem como as metodologias de pesquisa acadêmica; o que eles fazem na verdade, é tentar tornar a “teologia”, entendida como sua dogmática pré-definida, a norma da pesquisa, já falseando previamente o resultado da mesma.
Podemos ver isso no exemplo que o André deu nesse texto, sobre a centenária celeuma “Criação X Evolução”.
Basta que o exegeta se mostre aberto à contribuição da biologia evolucionista, que prova de forma não só lógica argumentativa, mas também materialmente a evolução humana, para se ver contra-argumentado com base em jargões teológicos enlatados e desgastados tais como: “se a Queda de Adão não é histórica (leia-se, um evento factual), a redenção por Cristo também não será por causa de Romanos 4.” Ou seja: as ciências humanas e biológicas são, na concepção conservadora (leia-se, fundamentalista), meras ferramentas discursivas que visam tornar academicamente apresentável um discurso religioso baseado na aceitação acrítica de determindas doutrinas impostas de forma autoritária.
O conservadorismo, via de regra, subordina a própria salvação individual do crente à adesão total a um corpus doutrinário considerado inquestionável.
É uma tentativa de reeditar a escolástica medieval, quando a teologia era a “rainha das ciências”, quando o conhecimento produzido pelo ser humanos somente seria aceito se, e tão somente se, estivesse de acordo com a dogmática pré-aprovada.
A luta dos criacionistas evangélicos contra Darwin é uma reedição da luta da Inquisição do século XVII contra Galileu.
Por isso que, quando alguém mostra que nem mesmo os Reformadores, que viveram cinco séculos atrás, foram inerrantistas e literalistas como os fundamentalistas de hoje, argumenta-se de forma ingênua que suas citações estariam fora de contexto.
Há a necessidade de se afirmar a inerrância não só do texto bíblico, mas até mesmo dos dogmas cristãos, uma vez que o evangélico médio é ensinado a crer que eles seriam auto-evidentes a partir da Bíblia.
Com isso, se nega completamente a historicidade do discurso religioso.
Qual o evangélico que nunca ouviu em sua igreja que “devemos orar por fulano que passou no vestibular, para que ele não perca a fé”?
A própria fé é tornada sinônimo da aceitação de conceitos pré-científicos do cosmos.
Queira Deus que não nos tornemos uma filial do Bible Belt norte-americano…
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Texto maravilhoso.Parabéns pela exposição de seu conhecimento.
Me foi muito ultíl.Desde já agradeço a vossa preciosa dedicação ao
ensino da verdade das escrituras.