Uma questão de escolha
por Daniel Lopes – No caso da garota pernambucana de 9 anos estuprada pelo padastro e que foi submetida ao aborto, o senhor José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Recife e Olinda, fez uma escolha. Sentenciou: “Esse padastro cometeu um pecado gravíssimo. Agora, mais grave do que isso, sabe o que é? O aborto, eliminar uma vida inocente.” O homem usou de seus poderes para excomungar a mãe da menina e os médicos criminosos, mas não o padastro.
Após tão grave desclassificação, não se sabe como esses médicos pegarão no sono daqui em diante, a despeito das centenas de mensagens de apoio que receberam.
Um ano após a campanha dita da fraternidade da igreja Católica louvar a Vida, o arcebispo, o Vaticano e quase todos os católicos, incluindo os que não consentiram mas calaram, porque o que importa é a unidade da “Igreja de Cristo”, fizeram uma escolha.
Como eu já disse por aqui, temos que parar de dar de bandeja a defesa da família para a igreja Católica, e acho que os bravos historiadores deste país estão nos devendo um livro, que deverá se chamar: “Contra a Família: Uma história da igreja Católica no Brasil”. É que esse vocabulário religioso colorido cheira a podre se você chegar um pouco mais perto.
Ah sim!, os gêmeos de 15 semanas frutos de um crime. Inocentes, sem dúvida, embora não se saiba em que cirscunstâncias um feto poderia ser “culpado”. A mãe da menina de 9 anos, de acordo com defensores da tradição e da família, não tinha o direito de decidir nada. Se ainda assim elas resolveram abortar, e médicos hereges levaram a cabo esse diabólico propósito, haverá sempre um José Sobrinho para excomungar, um Reinaldo Azevedo para racionalizar e uma multidão de fiéis para calar.
Ainda bem que o Brasil não é um Afeganistão (ou um Vaticano). Ainda bem que temos como ministro da Saúde alguém de hombridade como José Gomes Temporão.
Atentemos para as justificativas que o arcebispo deu para excomungar todos, menos o estuprador. Tentemos entender como funciona sua lógica perversa, sua moral enviesada. Antes de fazer este post, cuidei para não ver antes a foto do sujeito, porque concordo com Mino Carta em que geralmente as aparências não enganam (estou falando do arcebispo, não do estuprador).
“Ele [agora sim, o estuprador] cometeu um crime enorme, mas não está incluído na excomunhão”, avisou o arcebispo – ele, o estuprador, “vai responder diante de Deus”. Por que não deixar a menina ter o aborto e depois se haver com Deus? Porque o aborto é algo “mais grave” que o estupro de uma criança. De novo, para não restar dúvidas, a frase que já citei no primeiro parágrafo: “Esse padastro cometeu um pecado gravíssimo. Agora, mais grave do que isso, sabe o que é? O aborto, eliminar uma vida inocente.” Ele deve ter pensado, “nada mais justo e correto” – estou falando do estuprador, pensando em uma cela de onde provavelmente sairá daqui a uns poucos anos ou meses, porque a Lei dos Homens às vezes consegue ser tão ruim quanto a Lei de Deus, digo, do Deus dele, arcebispo.
Imagino que se o padastro tivesse violentado a menina mais uma vez (ele a violentava desde os 6 anos), e, propositalmente, a tivesse matado, e junto aos gêmeos, e a televisão tivesse noticiado o ocorrido, dificilmente o arcebispo Sobrinho perderia tempo levantando-se da cama para excomungar alguém – crime? Onde? Sim, o homem estuprou, sim, o homem matou a menina e os fetos, isso é lamentável, mas… desde quando estupro é motivo de excomunhão? Hum? Você conhece alguém que já foi excomungado por ter estuprado seja lá quem for? Até porque um pecado assim nem tão raro entre os padres não deve lá ser algo demais…
O que importa, para o pastor católico, é que se uma relação sexual, mesmo que incestuosa e criminosa, planta a “semente” da vida na mulher, ou seja, no recipiente, aí estarão todos os homens e mulheres de bem, com crucifixos na mão, para evitar que um crime passível de excomunhão seja cometido. Sim, a igreja e seus seguidores consideram o estupro e o aborto, crimes (de fato, a ladainha-mor é que “não se pode corrigir um erro com outro erro”), mas ao colocar um como digno de excomunhão e outro, não, está feita uma escolha sobre o mal menor. Na dúvida, perguntem ao senhor Sobrinho.
Há uma entrevista muito proveitosa com “dom José” no Terra Magazine, cuja declaração-título é a seguinte: “Não dei excomunhão. É a lei da Igreja”.
Vejam esse raciocínio do arcebispo: “Para salvar a vida da mãe, não é lícito matar os inocentes que estão no seio materno. Então, é um princípio fundamental da lei natural, isto é, os fins não justificam os meios. Eu tenho uma finalidade boa, salvar a vida daquela jovem que está grávida, mas para fazer isso não é lícito suprimir a vida de dois inocentes.” Ou seja: os fins (salvar a vida da jovem) não justificam os meios (suprimir a vida de dois inocentes). Conjeturemos: se a menina tivesse parido os gêmeos (fins) e tivesse morrido sua morte previsível (meios), dom Sobrinho pelo menos assim excomungaria o estuprador? Não, ele não excomungaria. Há fins e meios, e fins e meios.
Precisamente pelo risco de morte da menina ser alto, era preciso fazer uma escolha. Dom José, com base na lei da Igreja e guiado por Deus, fez a sua. A mãe da menina e os médicos, com base na lei do Estado e guiados por princípios morais básicos, fizeram a sua.
Mais dom José Sobrinho: “A Igreja relembra um caso muito importante que aconteceu há alguns anos na Itália. É uma senhora médica, que também estava grávida e sabia que corria risco de vida. Os amigos médicos aconselharam a fazer o aborto, pra salvar a própria vida. Ela disse: ‘Eu sou católica, não vou fazer isto, não’. Isso aconteceu, no parto ela faleceu; a menina que nasceu, sobreviveu. Pois bem. Esta senhora foi canonizada, foi declarada santa pelo papa João Paulo II. O nome dela é Santa Gianna Beretta Molla. Está colocada nos altares como uma santa. Preferiu sacrificar a própria vida, e não a vida da filha.”
Não é que eu não defenda o direito de uma mulher adulta, cristã, escolher ter o filho de um estuprador. Acho também que se ela quiser passar 40 anos sendo espancada pelo marido com uma Bíblia debaixo do braço, tudo para não recorrer ao “pecado” do divórcio, ninguém deve intervir. Mas esse deve ser o padrão para a sociedade? E quer dizer que a filha de um estuprador italiano virou santa? Que questão mais central! Acredito que com isso dom José quis dizer que também os filhos da menina brasileira, mesmo se ela morresse, um dia poderiam, quem sabe, se dar bem na vida.
Há ainda na entrevista pérolas sobre a liberdade: “Todo mundo tem liberdade, mas nunca podemos decidir algo contra a lei de Deus” é muito boa, mas não supera “A nossa liberdade é optar pela lei de Deus, de acordo com Deus”.
Esses raciocínios imorais não é qualquer um que consegue adotar. Segundo dom José, “é pra quem tem fé, pra quem acredita em Jesus Cristo e na Igreja Católica”. Graças à separação entre Igreja e Estado, herança que os excomungados de séculos passados nos legaram, você tem direito a fazer a sua escolha.
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![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)








A mídia deveria parar de dar atenção a tudo que esse senhor diz.
Costumo visitar a página de notícias G1, e sempre aparece em destaque mais uma declaração desse senhor.
Daniel,
Não seria o contrário? Quem virou santa não foi a mãe?
“[...] Está colocada nos altares como uma santa. Preferiu sacrificar a própria vida, e não a vida da filha.[...]”
E aparentemente a médica não foi estuprada, mas citada pelo padre em outro caso de gravidez de risco.
Nada que diminua a estupidez do velho e a qualidade de sua opinião.
Abraços. Paz
Você está perfeitamente correto, Vieira. Já risquei a parte no post. Desculpa o erro de leitura.
Esse velho não sai da mídia tão cedo.
Mais uma declaração hoje (07/03/09 – 13h01):
http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL1033052-5598,00-ARCEBISPO+DO+RECIFE+DIZ+QUE+LULA+DEVE+PROCURAR+TEOLOGO.html
“Arcebispo do Recife diz que Lula deve procurar teólogo”
Data Máxima Vênia, o assunto deveria ser tratado como uma questão ética onde a vida consciente deve ficar acima daquilo que ainda é um projeto natural de ser humano.
Tecer elogios ou maldades como se o todo fosse errado é confirmar que estão todos também obscuramente enganados com a fé que pregam, frutos da conversão forçada desde os tempos de Constantino e depois da Inquisição.
Deveriam pregar a tolerância entre as culturas religiosas pois o Ser Supremo, com sua inteligência acima de todos os humanos, ouve e entende todos, por qualquer meio sejam elas através do livro, das imagens, dos tótens,das árvores e das pedras.
Essa é a minha opinião.
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É engraçado como a maioria dos que defendem a criminalização do aborto são homens. E, mais ainda, dessa maioria, há uma grande parte de religiosos fanáticos.
Queria saber – e perdoe-me a forma grosseira – se José Cardos teria as mesmas convicções se estivesse por parir gêmeos após ser estuprado.
É muito simples: a Santa Madre Igreja é defensora irredutível da vida. E a vida, segundo a mesma Santa Madre, começa na concepção, ou até um pouco antes no preciosíssimo e sagrado esperma masculino que não deve ser derramado em vão, e termina no nascimento. A vida de uma menina de 9 anos estuprada não é mais vida, só serve para produzir outro sagradíssimo feto, que perderá sua sacralidade quando nascer. Alguém aí já viu a Igreja se levantar tão furiosamente pelo direito à vida de algo mais que não seja um feto? Não, só ladainhas e vagos pareceres por assuntos de menor importância como os milhões de crianças que morrem de fome, os espancados, os torturados, os bombardeados, os perdidos em ignorância e medo. Gente como esse senhor Bispo é a pior propaganda que Deus poderia ter, se ele existisse.