Um mundo de Zeligs

por Juliana DacoregioZelig (1983) é um filme sobre todos que anseiam tanto ser amados que incorporam diversas pseudo-personalidades, de acordo com o que, aparentemente, espera-se deles.

Zelig (vivido por Woody Allen, que também escreveu o roteiro e dirigiu o filme) é chamado de camaleão humano porque toma a forma, as vestes, a aparência, as opiniões e até o idioma de quem está ao seu redor. Entre gregos ele é grego, entre rabinos é um rabino e, ao adentrar um bar de jazz, transforma-se em um músico negro! É o supra-sumo do desejo de se adaptar às circunstâncias.

Tudo começou quando, na infância, entre colegas que conversavam sobre Moby Dick, Zelig mentiu que já havia lido o livro. Quem nunca fez algo parecido? Quem nunca procurou se enquadrar passando por cima do que realmente é? A vida exige isso inúmeras vezes, é verdade. Mas muitos tomam como uma obrigação em tempo integral.

Quando, enfim, começa a se curar, depara-se com o vazio do próprio ser, com a falta de referências em relação a si mesmo. De tanto imitar, copiar, se adequar, ele já não sabe mais quem é.

Paradoxalmente, aquilo que Zelig mais se empenhava em obter foi o que ele menos conseguiu. Queria ser amado por ser igual. Mas ao tentar passar despercebido, acaba por se destacar. Um homem que se transforma de acordo com cada ambiente que freqüenta – como poderia deixar de chamar a atenção? Virou prato cheio para a mídia, tornou-se produto da cultura popular: algo a ser visto, admirado, analisado; como um bicho no zoológico. Passou, assim, a sofrer o isolamento tão comum entre as celebridades. Quis ser amado e compreendido, mas o método utilizado para tal fim fez dele um objeto de curiosidade e entretenimento para as massas.

É uma comédia, com o humor característico das melhores fases de Woody Allen. Mas, como sempre acontece nos filmes mais brilhantes de Woody, é uma história que nos coloca frente a frente com nossos próprios temores e idiossincrasias.

A fábula sobre o “camaleão humano” nos obriga a encarar o quanto o mundo é repleto de Zeligs e o quanto nós temos muito de Zelig em maior ou menor grau. Desesperados por aceitação, viramos aberrações que se camuflam e se metamorfoseiam, deixando morrer o que há de mais autêntico e vivo. Olhamos ao redor e vemos milhares de clones. Identidades anuladas, personalidades apagadas, tudo morno, tudo parecido demais, todos com medo de chamarem a atenção da forma errada.

Para muitos de nós, tão acostumados à diplomacia e ao desejo de ser aceito, talvez nunca haverá uma resposta verdadeira à pergunta que a Dra. Fletcher faz a Zelig:

– Quem é você? Não quem você imagina que eu quero que você seja. Quem você é?


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9 comentários | Dê sua opinião

  1. Pingback: Juliana Dacoregio

  2. Suelen de Andrade Viana 29/03/2009 em 2:08 am

    Wow! The best ever written about a film in here.

    Parabéns, menina.

    Sue

    Responder
  3. Biajoni 29/03/2009 em 2:09 am

    isso tudo tem a ver com o conceito de sociedade líquida de Zygmunt Bauman que, não por acaso, estudou… Zelig Harris – um dos mentores de Noam Chomsky.
    (cheque as informações no google para ver que não estou mentindo)
    :>)
    tenho certeza que o nome foi tirado do acadêmico.
    ;>)

    Responder
  4. Adriana 29/03/2009 em 2:09 am

    Não vi o filme, mas gostei muito de sua resenha. Dá vontade de ver. Parabéns.

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  5. Sabrina 29/03/2009 em 2:10 am

    hahahahahahaha, é muito cômico o filme! E como há Zeligs por ai!!!!!

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  6. Cristina 29/03/2009 em 2:10 am

    Excelente lembrança! O filme é genial e pelo jeito atemporal …

    Responder
  7. Vinícius Valcanaia 29/03/2009 em 2:11 am

    Alguns de nós acabam tornando-se Zelig, por força das circunstâncias…

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  8. Raquel Vicente 02/07/2009 em 5:45 pm

    Ola Juliana gostou muitíssimo do seu texto, é trágico além de cômico. Infelizmente esta é nossa realidade estamos mergulhados num mar de aparência, buscamos um ideal e entramos na realidade Virtual, que caracteriza como “sentida como a realidade sem o ser, a experiência de vivermos cada vez mais num universo artificialmente construído, gera a necessidade urgente de retornar ao Real, que por vezes é tão duro que o preferimos transformá-lo em ficção”.

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  9. Barbara Brosch. 03/07/2009 em 1:10 am

    Oi Jú, gostei muito deste seu texto sobre o filme de Wood Allen, agora estou curiosa e pretendo vê-lo. Realmente desejamos ser aceitos e amados, mais do que qquer. coisa na vida e por isso não se poupa esforços e criatividade p/ q. tal aconteça. Mas, o q. ninguém deve esquecer é da sua própria personalidade, nada de se anular p/ agradar o outro. Pode-se sim, abrir algumas excessões, às vezes ser flexível…mas se a gente não se posiciona, como a outra pessoa vai saber quem é aquele (a) q. está ali na sua frente p/ poder gostar dela e amá-la? Não é mesmo?
    Tá certo q. tudo q. acontece neste tempo, acontece c/ extrema rapidez, como comenta o Biajoni se referindo a S. Bauman e sua “Modernidade Líquida”, agora se comenta até em ‘gasosa’, tal modo q. estão as ‘coisas’, ouvi dizer até em ‘amor líquido’, é só ver as relações entre as pessoas, nada dura… Qdo. viu…já acabou! Falando em ficção e em rapidez, lembro de um filme, onde tudo estava acontecendo num futuro ‘logo ali’ um futurinho, estavam apenas há 15 minutos na frente do presente. Na lanchonete, as comidas ainda estavam quentinhas, o refrigerante ainda tinha gás, mas…as pessoas e animais estavam lá na ‘frente’ … 15 minutos depois daquele grupo q. vinha do presente, q. na verdade então era ‘passado’ recente. Havia um portal q. se abria de vez em qdo. e se poderia ir se juntar c/ os demais e tb. umas ‘coisas’ q. tb. apareciam inesperadamente e quem não se cuidasse, era engolido e sumia sei lá pra onde, talvez um passado remoto. Bem…neste caso, tem haver mais com o tempo, rapidez e não tanto qto. ao desejo de ser aceito pela sociedade, a não ser no q. diz respeito a esta mesma sociedade agora acostumada a aceitar com + facilidade o ‘novo’, o ‘extra-novo’, aquilo q. ainda é só ficção de tão novo q. é. por isso o amor não encontra a estabilidade necessária p/ sobreviver, afinal o amor precisa tb. de um ‘tempo’ p/ fixar residência dentro de um coração.
    Jú, seu texto me fez lembrar da professora de filosofia da educação, ela havia pedido q. fizessemos uma redação: “Quem sou eu”, como poderia responder, quem sou eu, se eu nada sei, hehehe. Mas, acho q. gostou da minha redação, pq. me pediu p/ deixar c/ ela. bjos.

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