31–03–2009

Perversão opaca

por Vanessa SouzaRaiva nos raios de sol, do gaúcho Fernando Mantelli, não é um daqueles livros de ler de um fôlego só – e olha que são apenas pouco mais de 80 páginas de texto. Os contos, curtos e ásperos, tem em comum o mesmo tema: violência. Mas um tipo de violência – há diferentes tipos de violência? – de difícil absorção.

Eu o li ao mesmo tempo em que devorava o último livro da psicanalista e historiadora Elisabeth Roudinesco, A parte obscura de nós mesmos (Jorge Zahar, 2008). Sade, Barba Azul, nazismo, personagens perversos são analisados e dissecados sob a ótica histórica, psiquiátrica e psicanalítica.

Mas, qual o motivo do link entre as duas obras? Os personagens de Mantelli são de uma perversão sem requinte algum. Pedófilos, sociopatas, homicidas, infanticidas, cães que comem pessoas… Tudo isso misturado a urina, sêmen, fezes, suor, sangue… Uma pequena amostra:

Cordão ela cortou com os dentes. Olhou o nenê: menino. Nojo tomou conta, o impulso de jogar pela privada. Pensou um instante, enrolou o filho em pano de chão e largou ao lado do vaso.

O corredor emporcalhado de sangue e fezes. Movida pela fúria, Gina esfregou chão e paredes.

Saiu do prédio sem olhar para trás, o menino enrolado embaixo do braço parecia mortinho de tão quieto.

Até dá para ter uma certa simpatia por um serial killer como Hannibal Lecter. Mas pelos personagens de Raiva nos raios de sol… Não é o tipo de livro que puxa o leitor pela gola da blusa – como diz o cubano Pedro Juan Gutierrez. Se a intenção do autor era deixar os leitores com náusea, ele conseguiu.

 
::: Raiva nos raios de sol, de Fernando Mantelli ::: Não Editora, 2008, 96 págs. ::: compare preços :::

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| 2 comentários | Dê sua opinião ↓ |

  1. Não Editora » Clipping de 11.05.09 (18–10–2009 6:03 pm)

    [...] Perversão opacaVanessa Souza, Amálgama – 31.03.2009 [...]

  2. José Expedito dos Santos (24–01–2010 8:08 pm)

    Ainda não li o livro, depois deste texto, ficou muito interessante conhecer tal perversão sem delongas ou requintes eruditos. Se aquelas são passíveis de crueldade, porque é uma atitude sem meios entre o desejo e a satisfação, nada difere na gestão da Náusea(Sartre), o confronto com o limite do intolerável, então, estas, delongas requintadas ou não, que se atracam para mudar os meios, para resultados satisfatórios, mesmo sabendo estupidamente que ‘matematicamente’ que não importa os meios.
    Ignomínia dos extremos? Óbvio! Lembrando: o meio não é ambos extremos em atividade por baixos dos panos!
    Então prefiro as fotografias, antes das pinturas, assim como da Realidade antes dos Nomes e também da dialógica antes da lógica elaborada.
    Vanessa, valeu.

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