MST x Educação
por Ângela Maieski * – No Rio Grande do Sul, 300 alunos oriundos das escolas itinerantes do MST serão remanejados para a rede pública de ensino, com garantia de vaga. O acordo, firmado entre o Palácio Piratini e o Ministério Público Estadual, suspende o funcionamento das escolas itinerantes.
Se, por um lado, essas escolas criam condições de educação para as crianças e jovens que vivem em acampamentos, por outro as deixam de certa foram alienadas da cultura escolar, na qual impera a diversidade. Manter uma criança afastada de seus pares é no mínimo preocupante, pois é nas diferenças que aprendemos a respeitar o outro.
As constantes transformações que ocorrem na sociedade foram estudadas por Marx, que não vê a natureza e a sociedade em estado de repouso, de imutabilidade, mas em movimento. Ele defende a idéia de que a consciência da realidade estimula para a ação e para a luta, possibilitando modificar o sistema social. O educador Paulo Freire também defende a necessidade de professores e alunos atingir um nível de consciência da realidade em que vivem na busca da transformação, através de uma educação crítica.
Esses teóricos defendem a mudança da sociedade, de forma a amainar as diferenças sociais e obter uma melhor distribuição da riqueza, mas não defendem o isolamento social, que está diretamente relacionado ao preconceito, seja ele racial, religioso ou de gênero. Fatos, idéias, sentimentos, atitudes e opiniões, quando compartilhadas, podem modificar as estruturas sociais. Vivenciar apenas uma realidade, ou seja, isolar o indivíduo num contexto educacional, não difere muito da aprendizagem receptiva e mecânica, que não leva em conta a realidade do aluno e não o estimula à reflexão ou à crítica construtiva. Para entender o mundo que nos cerca, é necessário não apenas criticá-lo, mas ter a capacidade de compreendê-lo, abstrair as diferenças e adequar esse conhecimento à sua realidade social.
Isolar é negar a interação. Regras e valores em comum, o respeito aos sentimentos e idéias, mesmo que diferentes, são aprendidos na convivência. Negar a necessidade de Reforma Agrária é impensável. A tensão social advinda da realidade vivenciada pelos integrantes do movimento gera um conflito real e a busca por uma solução efetiva se arrasta com a morosidade inerente à burocracia.
Entretanto, o caminho a ser trilhado pelas crianças dos acampamentos não será fácil. As escolas itinerantes acompanhavam sua jornada; agora, os alunos passarão por todo um processo de readaptação a cada novo local em que porventura acamparem. Terão matrícula sempre garantida, assim como transporte, mas, as escolas estarão aptas a lidar com a situação? Haverá vagas para 50 ou 60 alunos, no caso de deslocamento? As turmas não ficarão superlotadas? As crianças serão bem recebidas e aceitas? São muitos os questionamentos e muitas das respostas são incógnitas. Alguns problemas são previsíveis e, portanto, contornáveis de antemão. Outros serão de difícil solução. Que não se perca na burocracia a tarefa de educar essas crianças com a consciência, o afeto e o respeito que merecem.
* Ângela Maieski, Novo Hamburgo-RS, é graduada em Ciências Sociais e leciona em escola pública estadual, no ensino fundamental regular e na Educação de Jovens e Adultos.
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