À noblesse de Noblat
25–03–2009 --- Envie para um amigo --- Tuitar
por Lelê Teles – É um cara-de-pau esse Ricardo Noblat. Espuma como um cão ao falar do rabo sujo dos outros. Mas baba como um bobo ao falar do seu. Escuta essa, minha senhora. A senhora ouve a rádio Senado? Lembra de um programa de Jazz que tem lá, Jazz & Tal?, coisa fina! A senhora sabia que aquilo é um presente do jornalista Ricardo Noblat, não ao senado, mas ao povo brasileiro? E a senhora sabia que o abnegado jornalista resolveu fazer isso para dar mais qualidade na programação da rádio? O que a senhora acha de um jornalista bancar, com dinheiro do próprio bolso, um programa de rádio para o Senadão? A senhora não consegue enxergar aí o dedo do capeta?
E ao refletir sobre as escusas apresentadas pelo sagaz blogueiro, a senhora não vê a ponta do rabo do capeta? Vamos olhar juntos pela fechadura da porta do inferno, que é a nota que Noblat soltou em seu blog para se justificar. O capeta lhe pergunta: Filho, por que criar um programa justamente para a rádio Senado? E Noblat se justifica, olhando no fundo do olho do diabo: “Completou 10 anos no último dia 19 o programa semanal Jazz & Tal que faço para a Senado FM. Durante 113 meses, entre março de 1999 e agosto de 2008, paguei do meu bolso todos os custos do programa. Foram 493 programas ao custo mensal de R$ 1.200,00. Devo ser o único brasileiro que até hoje doou dinheiro ao Senado – 135.600,00 (113 meses x R$ 1.200,00). Fi-lo porque qui-lo. Na época era medíocre a programação da Rádio senado…”
Agora eu lhe pergunto minha senhora. O que temos eu, a senhora e o senhor Noblat com isso. Se ele não gosta da programação da rádio Senado, que sintonize outra. Ou use o blog dele em O Globo para fazer as famosas enquetes: “Você acha que a programação da Rádio Senado deve ser melhorada?” Agora, achar a programação ruim e pagar do próprio bolso um programa de jazz para melhorá-la? Melhorá-la pra quem? Para quem gosta de jazz? E quem é que gosta de jazz? O senhor Noblat? Pois que ouça jazz em seu carro e em sua casa. Ou será que Noblat é um desses nefelibatas que crêem que o jazz é mais gostoso quando compartilhado? Se for este o caso, por que diabos o ilustrado escriba não se satisfez com o programa de rádio hospedado em seu blog? Ora, ali ele compartilha com os seus. Isso não é o bastante?
Mas satanás é curioso, e coçando o queixo rubro estoca uma nova pergunta: Estou confuso, o senhor promovia o jazz ou a produtora que produzia o programa? Noblat, que conhece bem a língua do capeta, pois teve aulas com o Demo Demóstenes, respondeu desenvolto e sem sotaque: “Procurei uma produtora em Brasília – a Linha Direta. Ela cuida do programa. Gosto das coisas bem feitas e topo pagar por elas. Paguei pelo capricho de ter um programa de jazz. Pude pagar e paguei.” Satã sorriu com os olhos de fogo. Lambeu os beiços com a incandescente língua bifurcada e pespegou: E por que, dez anos depois, resolver cobrar do Senado por um programa que o senhor doou de livre e espontânea vontade e amor à cultura e à arte? Não é bem assim, obtemperou o pernambucano, “… em setembro último, sugeri à direção do Senado que a rádio arcasse com os custos do programa pagando diretamente à produtora. Do contrário suspenderia o programa. Disseram-me que não era possível. Que seria possível me pagar como pessoa física para que então eu pagasse à produtora”.
Veja a senhora, Noblat faz uma chantagem com o Senadão, ou pagam ou eu me retiro do ar. Não parece Faroeste? Minhas perguntas são ingênuas, mas o Demo é impiedoso. Fala o diabo: Ricardo, ouça-me filho, a emissora sucumbiu à sua chantagem, ponto pra você. Agora me conta, como foi firmado esse contrato? Noblat vê os seus olhos dentro das labaredas dos olhos do capeta e responde animadamente: “Firmaram um contrato comigo no valor mensal de R$ 3.360,00. Descontados pela própria rádio os impostos (R$ 560,00 de INSS e mais R$ 560,00 de IR), e abatido o que eu pago à produtora (R$ 1.750,00), restam-me por mês a fortuna de R$ 490,00. Preciso de mais 23 anos a R$ 490,00 por mês para recuperar os R$ 135.600,00 que gastei do meu bolso durante 9 anos e meio. Não viverei tanto tempo. E não imagino fazer o programa por mais 23 anos.”
Mas com o diabo, disse o diabo, que merda de matemática é essa? E Satã sacudiu as asas e se foi. Minha senhora, continuemos nós outros o trabalho que o diabo deixou de lado. Perguntemos ao senhor Noblat: E o senhor também ajuda o Senado em seu blog? O senhor Gilmar Mendes, aquele que é a cara do deputado da Praça é Nossa, interferia na programação do seu programa? O senhor também costuma dizer “deu na Veja” em seu programa, como o faz insistentemente em seu blog? O senhor doaria um programa para a rádio evangélica que toca aqui perto?, é que a programação é ruim à beça. O senhor tem alguma proposta para a CBN no horário em que aparece a senhora Lúcia Hipólito? O senhor já pensou em doar um programa de valsa para o lugar do Roda Viva? E senhor já propôs pôr trilha sonora nos podcasts da urubóloga Miriam Leitão? O senhor está de brincadeira comigo?
Em tempo, o Supremo Ministro, Gilmar Mendes, felicita o blog: “Leio porque sendo a transparência um dos pilares da democracia, nunca será demais ressaltar a importância da mídia responsável na consolidação do Estado de Direito. Assim, diante da excelência com que vem desempenhando o ofício de bem informar os cidadãos brasileiros, congratulo o Blog do Noblat pelos cinco anos de compromisso com a verdade e com a democracia no país”.
Embrulhou-me o estômago.
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3 comentários:



Sinceramente… descalabros como esses e censuras de programas pelo Gilmarzão, e mais o fato da mídia dar voz aos roedores mas não aos cabras… Creio que é hora de nos inspirarmos nos nossos hermanos argentinos e começarmos a discutir e requerer do gov. federal, do congresso e do senado que se reformulem as leis (tá, pode dizer que eu vá sonhando, mas acho que é bom pelo menos tentar, então vou dar minha carinha de tenra tez a bater)
Acredito que é hora de começarmos a discutir uma nova lei Audiovisual, assim como uma Carta de direitos na Internet que se baseie nos tratados de Direitos Humanos, como o novo projeto de lei da Argentina.
um link básico, pra quem tiver interesse:
http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/
um abraço a todos
Lelê Telles:
Li o artigo “O Ópio é a Religião do Povo”, que você enviou para o Blog do Noblat e que lá foi postado. Cheguei a fazer um comentário que copio aqui:
“Nome: maria helena rubinato rodrigues de sousa – 19/5/2009 – 15:32
Talvez o autor não seja ainda um membro da ABL, como o Magno de Souza; talvez esteja ainda aprendendo a escrever; talvez tenha argumentos simplórios; mas ele está mexendo num assunto terrível que é a epidemia de crack que vem se alastrando pelo país com rapidez fulminante.
Discordo inteiramente num ponto, Lelê: o crack não se espalha somente entre os meninos da periferia. Ele começa ali, mas corre a cidade.
Não sei mais o que dizer, sei que dói ler sobre isso. Sei que esse assunto deveria ser mais discutido. Sei que as autoridades parecem ainda mais tontas do que eu: não sabem o que dizer, nem como lidar com o problema”.
Como você há de perceber, estava, no primeiro parágrafo, defendendo você de críticas ao seu texto fraquinho e a seus argumentos realmente simplórios. Mas, como o tema é importante, e grave, achei por bem defender quem o abordava com coragem.
Mal sabia eu que você merecia críticas muito mais pesadas.
Vim, depois que um leitor do Blog do Noblat chamou a atenção de todos por lá, ao seu blog e, para meu mais profundo espanto, encontrei um artigo tendencioso, mentiroso, virulento e eivado de má fé. Você sabe, como eu sei, como todos que acompanharam essa história sabem, que isso já foi desmentido no plenário do Senado Federal. Sabe que não é verdade. Sabe, já que tem esse relacionamento estreito com o capeta, que isso é uma aleivosia de sua parte.
Mas não vim aqui fazer a defesa de Ricardo Noblat, pois ele não precisa disso, sobretudo diante de quem o acusa, você. Vim para saber quem você é e deparei-me com um fato curiosíssimo: ou bem você é dois, tipo Jekyll de dia e Hyde à noite, ou quem escreveu este texto não é a mesma pessoa que escreveu o supramencionado artigo. Tertius non datum. Ninguém pode, em 23 de março, redigir um texto que, embora pejado de perfídia, está muito bem escrito e, menos de dois meses depois, escrever aquele texto indigente que o Noblat, generoso, postou. Quem será o redator oculto deste texto aqui?
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa
Pois volte ao mesmo O Globo, onde o meu texto aparece duas vezes, veja que curioso, e veja que tem opiniões muito diferentes das suas por este mundo de meu Deus:
http://oglobo.globo.com/blogs/sobredrogas/posts/2009/05/19/ao-contrario-do-que-pensam-os-tomadores-de-scotch-187599.asp