Yoani Sánchez em Feira de Santana, ou “4 pernas bom, 2 pernas mau!”

Não sei se eu seria capaz de enfrentar aquelas pessoas gritando feito loucas, mas Yoani resolveu dar as caras e finalmente sentou-se à mesa.

-- Yoani Sánchez em Feira de Santana (18/02/2013) --

— Yoani Sánchez em Feira de Santana (18/02/2013) –

Foi com alguma surpresa que recebi, ontem mesmo pela manhã, a notícia de que a famosa blogueira e dissidente cubana Yoani Sánchez iria participar de uma exibição do documentário Conexão Cuba-Honduras, do cineasta baiano Dado Galvão, com a presença de autoridades locais e também do Senador Suplicy. Fiquei bastante feliz com o fato de uma personalidade bem conhecida visitar essa terra tão fora do circuito principal que é Feira de Santana, portanto decidi conhecer de perto essa pessoa amada por uns e odiada por outros. Pessoalmente, não conheço a obra da cubana, decidi ir ouvir o que ela iria falar, ficar a par das histórias e relatos dessa mulher que causa tanto alvoroço.

Pois bem, o evento estava marcado para as 19 horas, mas cheguei às 18:30, de modo a escolher lugar. Estava até vazio no início. Ao passar da hora, mais gente ia chegando, inclusive os primeiros manifestante, umas pessoas com camisas que tinham estampadas os rostos de 5 cubanos que foram presos pelos EUA por espionagem; também haviam dizeres pedindo a liberdade deles, ou algo do tipo, não parei para observar com atenção. Deram-me dois folhetinhos com centenas de acusações à figura da blogueira cubana, tais como ela ser financiada pela CIA, uma agente infiltrada, uma traidora, que afinal em Cuba havia liberdade de expressão, sim, pois ela tinha um blog no ar e uma conta no Twitter. Não tive paciência de ler metade daquilo — impressão, aliás, feita a cores e bem editada, não era algo feito às pressas ou amadora.

O horário foi passando, era cerca de 19:30, mais e mais pessoas chegando com cartazes, camisas de partidos de esquerda, mas nada de Yoani. Não me recordo exatamente o horário, mas devia ser quase 20h quando comecei a ouvir gritos de protesto, cantigas e movimentação de gente. Alarme falso, não era a cubana ainda, não faço ideia do motivo daquela comoção. A imprensa filmava tudo. O barulho e a movimentação se intensificavam a qualquer movimento da guarda civil, responsável por fazer a segurança. Não deviam ser mais que 10 deles; os manifestantes já eram mais de 80% do auditório, que estava bastante cheio. Começaram a recolher as cadeiras. Será que afinal Yoani não viria?

Dirigi-me a um senhor muito simpático que segurava um cartaz de protesto, perguntei-lhe se haviam cancelado a exibição do filme. Ele não sabia. Perguntei se aquele pessoal fazendo barulho iria deixar que a cubana falasse, pois tinha graves receios de que não. O senho por sua vez garantiu-me que era um protesto pacífico. Outro, ao lado, disse-me que, como ela era cubana, iria deixar; se fosse americana, não. Começaram a falar do famigerado embargo dos EUA a Cuba, mas eu disse-lhes que não tinha mais que algumas semanas que eu tinha comprado um belo Romeo y Julieta, que a UE e o Canadá são os maiores parceiros comerciais de Cuba, que só os EUA mesmo que respeitavam o embargo. Uma senhora idosa havia entrado na conversa, com aquele discurso doutrinário de que eu nunca tinha ido para lá, que somente indo é que se poderia falar do local. Disse-lhe que já havia lido em vários jornais e sites sobre a situação da ilha. Com tom de voz irônico, um dos senhores perguntou: “E de onde são esses jornais?”. Devolvi-lhe a pergunta: “Então somente os jornais do governo é que são confiáveis?”. A velha paranoia de que o mundo todo está contra eles. Desconversaram e fizeram menção de seguir para outro lado, com direito a uma outra senhora dizer que eu só queria criar caso, que não levassem a sério. A senhora idosa ficava à minha beira, conversando alto, dando indiretas, dizendo que eu queria saber mais que todo mundo ali, mencionando minha provável condição social e coisas do tipo. Talvez por reparar que eu não estava dando a mínima, começou a usar de insultos, referindo que odiava gente branca, que nenhum branco presta etc. Ri-me sozinho e continuei distraído com meu telefone.

Finalmente os convidados haviam chegado. O primeiro foi o Senador Eduardo Suplicy, que também teve sua cota de cartazes com insultos, de traidor para baixo. Quando a cubana chegou, a horda furiosa avançou com gritos de “traíra”, “vendida”, dentre outros adjetivos pouco encantadores, e cantinhos que mais pareciam de torcida organizada. Pelo menos não partiram para a agressão. Foi preciso fazer um desvio por uma sala ao lado a fim de que os ânimos se acalmassem e fosse possível que a cubana se pronunciasse. É, nada de filme para ninguém, mas pelo menos ali estavam Yoani e Supla.

O senador veio à mesa, já cercada e ocupada pelos manifestantes, que, tais como as famosas ovelhas de A revolução dos bichos, não deixavam ninguém se pronunciar, mas, ao invés de “4 pernas bom, 2 pernas mau!”, entoavam cânticos de “viva Fidel”, “viva Cuba”. Sem pulinhos, mas alguns ensaiaram coreografias de dança. Finalmente, um que parecia ser dos líder de alguma organização pediu à horda que se controlasse, que deixassem que a blogueira fosse à mesa falar, pois ela deveria ser ouvida e debatida com respeito.

Não sei se eu seria capaz de enfrentar aquelas pessoas gritando feito loucas, mas Yoani resolveu dar as caras e finalmente sentou-se à mesa, obviamente sob vaia enorme e uma enxurrada de insultos. Trouxeram as cadeiras de volta. Começou o senador a fazer seu discurso, que durou por cerca de 15 minutos, onde estabeleceu, juntamente com um auto-proclamado moderador, o tal líder de uma organização, que poderiam fazer 3 perguntas de 3 minutos cada, e Yoani poderia responder cada uma em 10 minutos. O senador falou sobre sua carreira, que, como defensor do socialismo, apoiava a revolução cubana, e rejeitou as acusações de traição; depois alongou-se o possível, para mencionar que deplorava o embargo e que torcia pelo sucesso da revolução, assim como criticou a falta de respeito dos manifestantes que não deixavam que a cubana se expressasse.

Eis que a estrela da noite começou a falar, debaixo inicialmente de muitas vaias. Pena eu não ter conseguido absorver muito do que ela falou, o barulho era intenso e a acústica do prédio muito precária. Mas, em linhas gerais, ela falou da repressão do Estado, da importância das remessas do estrangeiro e mercado do negro para os cubanos conseguirem alimentos básicos, como leite e café.

As perguntas, se é que se pode chamar de perguntas, eram sempre sobre se ela era agente ou se foi financiada pela CIA, como era possível um país com elevados índices de educação e saúde ser assim tão criticado por ela. Confesso que fiquei irritado com o barulho em vários momentos e pedi às pessoas ao meu lado que me deixassem ouvir o que a mulher tinha a dizer. Numa dessas ocasiões, dirigi-me a um senhor que não parava de mandar que ela se calasse, e disse-lhe: “O senhor é um grande democrata. As pessoas aqui podem falar e ela não pode falar?”. Ele respondeu algo como: “Não, ela já falou muita mentira, já chega!”. Repliquei: “É, pelo senhor ela já devia estar numa prisão, recebendo uma bala na nuca, não é?”. O senhor, gesticulando com as mãos: “Isso mesmo, devia levar um tiro de AK47 na cabeça.” Não duvido que realmente ele quisesse isso. Já cansei de ver por aí maníacos planejando assassinatos numa revolução socialista no Brasil. Seria mais um.

O cineasta Dado Galvão falou menos de 5 minutos sobre o documentário que iria exibir; o resto do tempo, usou para responder uma pergunta sobre o financiamento da viagem de Yoani — foram quatro doações de cubanos que moravam no Brasil, nenhuma de qualquer governo ou instituição.

Infelizmente, não pude tirar uma foto com a blogueira, como havia planejado. A horda a circundava e a seu acompanhante, e os guardas faziam muito bem seu papel de afastá-los sem violência. No entanto, pude ter uma breve conversa com o Dado, que me falou do filme e que estava cansado desse disco arranhado dos comunistas, a mesma ladainha desde a década de 70.

Balanço do evento: considero positivo. Yoani respondia serena, sempre com um sorriso no rosto e com a maior desenvoltura, as perguntas e insinuações. Pude também ver ao vivo essa chusma dos radicais de esquerda, que parecem ter vindo diretamente de um livro de Orwell ou Rand.

  • Rafael

    foi pra tão desinterresada que sabia ate os principais parceiros comercias de Cuba e foi bater boca com os manifestantes a da um tempo vai

    • Alexandre

      Rafael, você está criticando o autor por ser bem informado sobre o assunto? tsc tsc… atitudes típicas de quem não quer entender o mundo, apenas defender o próprio universo particular que, por sinal, é particular a todos os desinformados.

  • Rodrigo

    Obrigado, gostei do relato.

  • http://www.mateusribeiro.com.br Mateus Ribeiro

    Povinho medíocre, acha bonito criticar o que nao conhece e nao entende. Metade (todos?) desses manifestamtes nunca leram um Livro do Carl Marxs nem foram a Cuba e se acham comunistas. A cortina de ferro ja caiu faz MUITO tempo. É fácil criticar os dissidentes do Fidel quando nao é você que nao tem papel higienico p/ limpar a bunda e tem o seu visto p viajar NEGADO VINTE VEZES. Eu odeio os EUA acho que eles sao mesmo o cancer do mundo, como ja dizia Hugo Chaves, mas dai a achar que ela é uma agente da CIA é muita ingenuidade, muita paranoia, ou uma vontade enorme de aparecer na tv…

  • Raul Gomes

    Os ptbostas são isso mas essa não cola são pau mandados pelos aloprados superiores que obedecem uma cartilha nogenta que é criar caso criar situações escatológicas como essa, mas não vingarão isso vai acabar os dinossáuros Castros e o cancerígino Lula loguinho vão para os quinto dos inferno!

    • André

      Comentário brilhante. Ilustra bem o post.

  • Alexandre

    Estou acompanhando tudo pelos jornais. Esta ladainha é velha mesmo, meu amigo. O pior de tudo é saber que ela é repetida por pessoas que são ávidas por conhecimento, mas quando estão de frente pra ele não sabem o que fazer. Acabam virando vítimas destas verborragias esquerdistas até mesmo por terem uma “lógica” mais compreensível que a complexa realidade.

  • Paulo de Almeida

    Os nazistas fizeram algo parecido aos vandalos de Vitoria da Conquista, e muitos acreditavam que era pelo bem da humanidade. Este dogmatismo é um perigo. gera um preconceito e não vêem mais nada: fé cega faca amolada…

    • André

      Bingo! Nazistas! Alguém marcou o tempo?

  • Gustavo

    “Carl Marxs” foi daora demais

    “Não tive paciência de ler metade daquilo” – se nem lendo teve paciência pro contraditório, por que fingir que queria conversar?

    “Já cansei de ver por aí maníacos planejando assassinatos numa revolução socialista no Brasil” – onde eu ouvi esse delírio antes? Ah sim, na gloriosa Revolução (não a dos Bichos, a de 64 mesmo)

  • Julia

    Essa sua reportagem cheia de ironias deixa claro sua posição , reaças saiam do armário, é mais bonito para vocês do que ficar nesse lenga-lenga que não é partidário mas só ataca um lado.

  • http://www.facebook.com/florisgo Florisvaldo

    Disse tudo. O mesmo disco arranhado desde a década de 70. Quem aguenta? A UJS, União da Juvelhice Stalinista, entre outros, tá promovendo isto em todo passo que Yoaní der aqui.

  • http://@ezequiasrocha Ezequias Rodrigues da Rocha

    Bela análise. Parabéns. Os cães ladram mas a caravana passa.

  • Gino

    Ser a favor de Fidel morando no Brasil é fácil, quero ver essa cambada de idiotas ir para Cuba e viver como o povo de lá, deixar para traz o iPhone, iPad, iBook, iPod, Toddynho, Sucrilhos, Mc Donalds, internet banda larga, TV a cabo, carro com ar condicionado, plano de saúde (SUS só pro povão que vota no PT), fartura de comida, liberdade de expressão, etc…
    Vão lá seus babacas, vão ver de verdade como é a vida do povo lá em Cuba ou Coréia do Norte!!!
    Vão lá passar fome e ter que se prostituir pra compra comida!!!!

    • Jóice

      Gino, eu até concordo com você em várias das coisas que citou. Mas não poderia deixar de comentar que se tem uma coisa que qualquer brasileiro trocaria é seu plano de saúde pelo sistema de saúde público de Cuba.

      • Rafael

        Não querendo estragar a sua utopia, mas não cometa a loucura de indicar tratamento médico em Cuba para ninguém.

  • http://www.facebook.com/florisgo Florisvaldo Guedes de Oliveira

    Como bem ilustrado num comentário que li no Facebook…

    ” é fácil protestar tendo internet rápida, morando nos jardins, tendo família rica, fumar maconha o dia inteiro e ficar vomitando comunismo a todo momento.”

    • André

      Não se esqueça da grana para poder sair dos Jardins e ir até Feira de Santana.

  • Caio Peixoto Aguiar

    Muito bom!

  • Dona

    Eu concordo que miniestações de socialistas hoje estão mais para pseudo política, contudo também não dá para ter um posicionamento puramente “Folha de São Paulo”, também é preciso ver o outro lado para formar uma opinião mais concisa.

    E apenas um adendo, apesar de falarem que os manifestantes são um bando de playboy do Jardins, na verdade a maior parte das pessoas que vi se envolvendo neste tipo de protesto eram de classe média, curiosamente a mesma classe que defende a todo custo visões reacionárias. Contudo, diga-se de passagem, no fundo nenhum dos lados compreende o que realmente é a pobreza.

  • Ima

    Só corrigindo… A “vaquinha” foi feita por Feirenses!
    Quem critica a Yaoni não sabe o que ela e o povo de Cuba passa! Você vê as pessoas passando privações de todas as formas, itens de higiene pessoal que para nós são básicos é artigo de luxo, o salário que se paga é vergonhoso, e praticamente é o mesmo pra todas as profissões! Procurem saber e conversar com pessoas que já foram lá e se surpreendam com os relatos. É muito triste, muita humilhação.

    http://www.tribunafeirense.com.br/noticias/1411/grupo-baiano-entrega-passagens-para-blogueira-cubana-vir-ao-brasil

  • helena

    Cada um tem a sua cruz,os protestantes,só fezem isto pq.não estão na pele de Yoani Sánchez,vão mascer em Cuba e viver lá para vcs saberem o que é o poder comunista, o Senhor Fidel Castro.A dor só doi em quem sente,vai fundo Yoani Sánchez e parabéns.

  • Bruno

    Um amigo meu foi para Cuba, não Havana turística, a Cuba real, e me contou coisas escabrosas.
    Conheceu um engenheiro que trabalha carregando malas no aeroporto, pois carregando malas ele ganha “gorgeta” dos visitantes… Conheceu médicas que de dia são médicas e de noite são prostitutas “para completar renda”.
    Essa estória de que a saúde em Cuba é espetacular, que todo mundo tem de tudo é BALELA. O SUS deles lá não é melhor que o nosso (e tem que se esforçar para não ser melhor que o nosso hein!), e esta de que existe igualdade lá também é mentira.
    Há uma hierarquia montada, membros do partido comunista vivem bem em Havana, a alta cúpula de funcionários públicos, militares e polícia vive bem, o resto da população está igualmente na merda.

    É um país tão maravilhoso que as pessoas lá não tem a opção de sair, tão maravilhoso que milhares de cubanos arriscaram e arriscam a vida atravessando o mar com tubarões e tudo a NADO para chegar em Miami.

    Esta moça está de parabéns pela coragem. Tivesse sido pega antes de se tornar mundialmente popular, teria enfrentado o “paredón”

    • Antonio Garcia

      Não sou nenhum entusiasta da ilha de Fidel mas o que você escreve não faz sentido. Engenheiro carregando mala? Pois no Brasil já vi advogado dirigindo taxi. Médicas se prostituindo? E as nossas fazem o que durante o dia? Se não for médica pode? O SUS deles não é melhor que o nosso? Veja os índices de saúde e verá que é beem melhor.

  • Vivaldo

    Parabéns Rafael, pelo seu relato. Felizmente no Brasil a Democracia foi implantada, mas existem aqueles radicais que não admitem o progresso que esta esta nação ainda pode alavancar. O Brasil precisa de liberdade, fora o Socialismo, Democracia sempre.

  • Rebeca Ribeiro

    Os erros da revolução cubana são Insignificante diante dos avanços sociais que o país conquistou.

    • Rodrigo Biguá

      Os avanços sociais de Cuba é que acabam parecendo insignificantes diante do fascismo daqueles que não deixam quem pensa diferente se expressar

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  • Antonio Garcia

    Achar que um grupelho radical e mal-educado representa o pensamento de esquerda no Brasil é de dar dó. O post é totalmente desnecessário porque desfila a mesma lenga-lenga de sempre sobre Cuba acerca de seus simpatizantes e de seus detratores, posições cegas que não veem as coisas eventualmente boas e as eventualmente ruins da ilha de Fidel dentro de um contexto histórico. Ou seja, uma discussão que não leva a lugar nenhum.

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