Uma nova versão para histórias de ciúme

O narrador de "Neptuno" manobra o sentimento do leitor como se fosse um mouse se computador.

"Neptuno", de Letícia Wierzchowski

“Neptuno”, de Letícia Wierzchowski

Primeiro, pensei que a história contada em Neptuno se passava em Porto Alegre. Imaginei o advogado Key, narrador, degustando um tinto no Flat Millenium e, da janela, mirando o Parque Marinha e o Guaíba. Depois, o realoquei em Buenos Aires. O rio cinza que se encontra com o mar e os grandes letreiros típicos de metrópole citados no texto me levaram ao Palermo ou à Recoleta, na capital argentina. Com essa impressão, finalizei a leitura, já que Letícia Wierzchowski não dá nome à cidade em que se passa parte da trama. Acima de tudo, porque o cenário principal é outro. O clímax do romance é vivido por M. e June na praia. Qual praia? Neptuno.

O ciúme pode até ser considerado um assunto desgastado para ser abordado como tema central de um livro. Principalmente depois de Machado de Assis ter presenteado a língua portuguesa com o Dom Casmurro. Letícia Wierzchowski, no entanto, consegue em Neptuno tratar esse tema tão batido de forma atrativa. A começar por não entrelaçar a história a explicações de psicologia, tentativa que está se tornando vulgar em romances. A autora busca, nas páginas desse livro, simplesmente contar a história de um amor.

A narrativa em primeira pessoa do advogado Key aproxima muito o leitor da trama. Parece que está se lendo uma crônica de jornal, lembrando o estilo, perdão por evocá-lo mais uma vez, de Machado de Assis. Claro que numa linguagem menos rebuscada que a utilizada na época do Bruxo. Key se dirige diretamente ao leitor, saindo do conto, algumas vezes, para falar de si. E é muito interessante, porque, nesse momento, ele se põe no lugar de um simples expectador da história. Assim como nós, leitores, Key busca inspiração e consolo com a história que ouviu (e agora está escrevendo). Quem nunca se apaixonou ou sentiu raiva de um personagem?

Essa leveza com que o advogado escreve a história se deve quase que totalmente à habilidade narrativa que M. demonstrou ao confidenciar o assassinato que cometeu. Key elogia enfaticamente a beleza da narração de M. durante sua conversa com o leitor e sugere que apenas está seguindo o que o seu cliente contou. Cliente? Sim, pode até ser que o advogado trate M. como o filho do seu amigo ou enxergue no jovem a imagem do seu próprio filho Miguel, mas, acima de tudo, era seu cliente. E, realmente, M. contou tão bem a história do seu amor por June, que Key caiu de joelhos ante os acontecimentos e se convenceu que o guri não era um assassino e sim apenas um jovem romântico. Mais que isso. Assim como M., Key, eu, e acredito que muitos leitores também, nos apaixonamos e depois odiamos a menina June.

O narrador – e nessa altura nem sei mais se me refiro a M., Key ou a Letícia – manobra o sentimento do leitor como se fosse um mouse se computador. June é apresentada como a mais bela das criaturas existentes em Neptuno. Ah, e também Neptuno é apresentada como a mais aconchegante praia do mundo. Mas falava de June… Toda a doçura e pureza, aparente na imagem da menina saboreando um livro, vão se dissipando na medida em que acompanhamos suas peraltices. Na verdade, ela nunca passou de uma moleca. Falo por mim, mas penso que o leitor também deva ter se sentido incomodado quando, em alguma página, é destacada a idade da garota. É verdade que a maioria das gurias de quinze anos já estão com o corpo bem atraente, mas o choque é inevitável. Parece que se fala de uma criança ainda.

Embora algumas das suas atitudes parecerem imaturas, June sabia muito bem conduzir uma situação. Se, com facilidade, fugia da casa dos avós e conquistava um homem casado com o dobro da sua idade, June tinha todas as armas para levar com tranquilidade e diversão o namorico com M. Não sabia, entretanto, que o jovem encontrou nela sua motivação única de viver. Depois de dias de amor intenso, o gosto da menina pela aventura e perigo apareceu e atingiu o coração do guri como um disparo à queima roupa. Seu jeito provocante convenceu M. a dar um basta na situação. O jovem teve a frieza de sair com June como se estivesse tudo bem e, no momento que ela julgou estar dominando a situação com sua sedução, M. cravou-lhe a lâmina medieval roubada da gaveta do avô exclusivamente para o ato.

Dumas Filho, nas Memórias de Clemenceau, também conta uma história semelhante. O homem apaixonado se viu totalmente corroído, não pela traição em si, mas pela provocação promíscua da mulher. Desde que me transportei para Neptuno, tinha sempre Clemenceau ao meu ouvido alertando que já passara por situação parecida com a de M.

Aquela facada não extinguiu a dor de M., mas ele precisava dar um fim às atitudes agudas de June. E com ela se foram suas pernas longas e lisas queimadas pelo sol, tão elogiadas pelo narrador. Por esse ato frio e premeditado, mas ainda assim inocente, é que M. atrapalhou a noite de sexta que Key estava planejando com um amigo.

Além de proporcionar ao leitor um texto delicioso e um romance atrativo, Letícia instiga o leitor a ler Somerset Maughan, Grahan Greene e Jorge Luis Borges. Os consagrados escritores são todos citados de forma que a autora só falta explicitar “se você não os conhece, leia-os; se já conhece, continue os saboreando”. Ainda é possível encontrar lá pelo meio do texto um elogio que entrega sua estima pelo trabalho de Federico Fellini. Guardadas as proporções, naturalmente, Letícia se mostra nesse romance, Prêmio Açorianos de Literatura em 2012, como Fellini: Neptuno é pura arte. Mas a cidade em que M. e Key viviam não era Roma.

::: Neptuno :::
::: Letícia Wierzchowski :::
::: Record, 2012, 176 páginas :::

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