Precisamos Falar Sobre o Kevin

Lynne Ramsay, diretora e roteirista, seguiu a perspectiva do livro, mas o foco recai em outro personagem.

Vejam se sentem a diferença entre as duas frases seguintes:

A estória de um psicopata e o sofrimento que seus atos causam em sua mãe.

A estória de uma mãe que sofre as consequências dos atos de um filho psicopata.

Quando se fala em estórias de psicopatas no cinema, sabemos que o tema está batido, a argumentação é previsível, se bem que sempre interessante. Quando você considera a primeira frase como uma sinopse do enredo, a narrativa inclusive soa muito simples. Mas já a segunda… Concorda que você para e pensa um pouco mais? De qualquer modo, é possível prever alguns lances.

Hitchcock já dizia que um filme de suspense não precisa de uma boa estória e sim de um excelente narrador. Se você pegar os enredos do mestre do suspense vai ver que eles são extremamente simples, mas a maneira como ele os contava – com todos os pingos de genialidade de que foi capaz – era fascinante.

Em sua incursão no mundo dos longa-metragens a escocesa Lynne Ramsay consegue, com Precisamos falar sobre o Kevin, congelar os corações, com uma narração não-linear, nenhuma carga piegas, tensa e com pitadas irônicas embaladas por música country quase cômica.

Adaptado do livro de mesmo nome de Lionel Shriver, este filme é mais um exemplo da liberdade inerente ao cineasta na hora de fazer uma obra baseada em literatura. Aliás, eu prefiro usar o termo traduzido do inglês, quando discutimos crítica de cinema “versão cinematográfica” (filmic version), por ser mais adequado e fugir da maldição da fidelidade imposta por alguns críticos e muitos espectadores. Sim, pois mesmo com toda intenção em ser fiel ao livro, é impossível para o cineasta tal façanha por vários motivos, mas podemos resumir em dois: 1) os veículos livro e filme são diferentes, havendo coisas num livro incapazes de serem transformadas em imagens, e 2) a leitura do livro feita pelo roteirista é uma, e a do diretor é outra — a partir daí as duas leituras se aproximam e se chocam, sofrendo adaptações para que se transformem em filme e seja lançado no mercado de forma adequada.

E ao que parece Lynne Ramsay, diretora e também roteirista deste filme, seguiu a perspectiva do livro, mas o foco para ela recai em outro personagem. No livro o foco é Kevin, no filme é Eva, sua mãe. E aí entram os recursos para se ganhar leitor e espectador.

No livro a autora usa o recurso das cartas de Eva escritas ao marido falando sobre o filho numa retrospectiva histórica, na tentativa de achar um porquê ou culpado para a psicopatia de Kevin. Este recurso é a ferramenta do suspense. No filme Ramsay usa o conhecido flashback sem avisos de corte misturado com o presente, em que o espectador vai descobrindo os segredos ponto a ponto. E, para isso, a diretora abusa das técnicas que domina bem, já que foi operadora de câmera: closes fechados, pontos de vista dramáticos, cortes rápidos aliados a takes agonicamente lentos em outros momentos.

Em ambas narrativas a história de Kevin é contada através da perspectiva da mãe. Porém, no livro o foco é Kevin e sua psicopatia, enquanto Eva questiona em alguns poucos momentos se algumas de suas próprias atitudes contribuíram para o caráter e/ou comportamento do filho. Ali não é dada a Kevin uma voz direta, portanto dependendo da leitura há uma abertura para se questionar ou não Eva. Eva é escritora e maneja muito bem as palavras, deixando margem inclusive para se questionar sua própria sanidade e uma dose de frieza para contar os fatos.

Já no filme Eva é bastante clara a respeito da sua recusa à maternidade e mesmo que o filme não afirme categoricamente que ela seria a culpada pelo distúrbio de Kevin, suas atitudes jamais passam despercebidas, sequer são inquestionáveis. A Eva do filme se isenta claramente de Kevin e mesmo com remorso ou se sentindo culpada, não consegue interagir com ele. Kevin tem voz e ação claras no filme, mesmo que dentro das memórias de Eva, mas que para nós são mostradas como os fatos em si, montando o quebra cabeças. E muito embora o espectador possa comprar facilmente que a culpa é de Eva, há vários elementos que não permitem o veredicto, incluindo uma cena rápida, mas muito pertinente: na noite de concepção de Kevin, células aparecem se juntando de um modo estranho sugerido pela trilha sonora, já indicando que há algo errado e inato em Kevin.

A narrativa cinematográfica deste argumento faz referência indireta e cuidadosa nas causas da psicopatia dita por profissionais: mais provavelmente uma soma de aspectos genéticos, neurológicos e sociais. No mais, Precisamos falar sobre o Kevin pode também levantar muitos debates interessantes sobre família, maternidade, males da sociedade moderna, entre outros.

Lynne Ramsay conseguiu sim fazer de um argumento simples e batido um bom suspense, ainda se dando ao luxo para o sarcasmo. E confie que tudo o que eu disse não estragou as surpresas e você pode ver para crer. Bom filme, bom entretenimento, mas… por enquanto, Hitchcock só existiu um mesmo.

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Ana Al Izdihar

Mestre em Letras pela UFSC, na área de crítica literária e cinema.


  • Orquidea

    Quem esta pensando em ter um filho, assista esse filme… rsrs

  • Ana Al Izdihar

    Orquidea!

    Acho que podemos dizer também o contrário: quem está pensando em não ter filhos, assista o filme e passe a ter certeza! (rs).

  • Orquidea

    Terminei de ler o livro então voltei 😉
    Você colocou bem tudo, já tinha visto o filme e p/ filme tá bom.
    Mas, um assunto tão importante como você mesma disse no seu post, é assunto pertinente a discussões sobre tantas coisas inclusive sociedade.

    Por isso, se faz mister a leitura também do livro.
    Afinal não é uma adaptação de fantasia aventura é a vida real.

    Tenho para acrescentar, que na minha opinião existe crianças difíceis assim como pais difíceis, filhos não é brinquedo é trabalho e dedicação, portanto precisamos saber de verdade se os queremos…
    A escritora escreve muito bem, suas comparações são geniais excelentes mesmo para fazer refletir!!

    abç

    PS: Filme ficou bom, mas mesmo sendo filme poderia ficar realmente bom na mão de outro roteirista/Diretor. Senti falta de uns diálogos, mesmo sendo por dedução que gosto muito…