O que aconteceu com os direitos humanos?

Ocidentais bem de vida, que se autointitulam liberais e feministas, se tornaram os menos confiáveis defensores dos liberais e feministas do mundo pobre, que precisam de sua ajuda. E em nenhum lugar mais que no Oriente Médio.

Militantes dos direitos humanos precisam seguir abnegadamente uma certa linha, se não quiserem se tornar inimigos dos valores que defendem. Como um servidor público ou um juiz, eles devem deixar suas paixões na porta de entrada de seus escritórios e se oporem ao opressivo, quem quer que este seja e seja quais forem as consequências. É fácil para mim dizer isso, mas os históricos da Human Rights Watch e da Anistia Internacional deixam claro que é bem difícil para eles cumprirem essa meta. Para seus empregados politicamente comprometidos, imparcialidade parece ser uma doutrina fraca e sem graça. Ela faz com que eles critiquem pessoas que têm como amigas e deem inadvertido conforto a inimigos.

O esforço exigido para afirmar princípios universais é demais para eles, e isso explica por que organizações de direitos humanos andam mal das pernas. Se você precisa se convencer, dê uma olhada na introdução do Relatório Global de 2012 da Human Rights Watch, escrita por Kenneth Roth, “Diretor Executivo”. Este título grandioso já é alerta suficiente. Ele sugere que Roth vê a si mesmo mais como o líder de uma corporação do que como um militante de causas liberais. E as análises que o Diretor Executivo faz das ocorrências no Oriente Médio não dissipa essa suspeita.

A principal preocupação da HRW é se opor a governos ocidentais. É justo. Há muito para se opor aí, particularmente as políticas desses governos para o Oriente Médio. Mas o risco é que liberais comecem a acreditar que os inimigos de seus inimigos são seus amigos, e abracem o islamismo, que é tudo, menos liberal. Pode-se escrever um livro sobre por que a esquerda liberal se tornou a justificadora e perdoadora de reacionários. De fato, eu mesmo escrevi um livro sobre o tema.

O que se deve ter em mente é que ocidentais bem de vida, que se autointitulam liberais e feministas, se tornaram os menos confiáveis defensores dos liberais e feministas do mundo pobre, que precisam de sua ajuda. E em nenhum lugar mais que no Oriente Médio.

“A comunidade internacional deve entrar em acordo com o islã político quando ele representar a preferência de uma maioria”, entoa o Diretor Executivo quando aborda a Primavera Árabe. Roth lidera uma organização de direitos humanos, mas fala como se fosse um ministro das relações exteriores ou presidente estabelecendo objetivos estratégicos. Não lhe ocorre que não é de sua conta instruir a “comunidade internacional” sobre com quem ou com o que ela deve entrar em acordo. Seu dever é se manter na difícil e necessária tarefa de monitorar e condenar todos aqueles que abusam dos direitos de outros, sem medo ou favorecimento. As armadilhas da pomposidade são tão óbvias que Roth não deveria precisar de mim para lhe apontar o problema. Como a HRW pode vigiar e condenar o islã político quando seu diretor executivo está lançando manifestos direto de um gabinete para que a comunidade internacional o aceite?

Não sou o único a perceber que a organização está negando seus princípios fundadores. Gita Sahgal, do Centre for Secular Space, está recolhendo assinaturas para uma carta aberta a Roth – você pode assinar aqui, se quiser. Na carta, ela escreve:

Você diz que “É importante cultivar os elementos respeitadores de direitos no islã político, ao mesmo tempo que permanecemos firmes contra a repressão que se faz em seu nome”, mas não cita a mais básica garantia de direitos – a separação entre religião e estado. Turbas salafistas surraram mulheres em cafés tunisianos e lojas egípcias; atacaram igrejas no Egito; tomaram de assalto cidades inteiras na Tunísia; e fecharam a Universidade de Manouba por dois meses, em um esforço para fazer pressão social a favor do véu. E, se é verdade que líderes “islamistas moderados” dizem que protegerão os direitos das mulheres (se elas não forem gays), eles fizeram muito pouco para controlar essas turbas. Você, entretanto, está tão despreocupado com os direitos das mulheres, gays e minorias religiosas que os menciona apenas uma vez, no trecho seguinte: “Muitos partidos islâmicos de fato abraçaram posições perturbadoras que subjugariam os direitos das mulheres e restringiriam liberdades religiosas, pessoais e políticas. Mas muitos dos regimes autocráticos patrocinados pelo Ocidente também fizeram o mesmo.” Será que vamos colocar o nível de exigência tão baixo assim? Essa é a voz de um apologista, não de um reconhecido advogado dos direitos humanos.

Quando o assunto é a lei da sharia, a Human Rights Watch acoberta, murmura e se recusa a condenar preconceitos iliberais em linguagem clara.

Como diz Sahgal:

Simplesmente não é suficiente dizer que, se uma lei islâmica for adotada, não sabemos de que tipo será, porque já é bastante claro que liberdade de expressão e liberdade de religião – para não falar da liberdade de não usar o véu – estão ameaçadas. E, se é verdade que a Irmandade Muçulmana há muito não exerce o poder, podemos ter alguma ideia do que esperar ao observar seu histórico. No Reino Unido, onde seus membros estão em exílio há décadas, livres de perseguição política, das exigências do governo ou de demandas de pressão popular, a Irmandade Muçulmana promoveu sistematicamente o apartheid de gênero e sistemas de justiça paralelos que consagram a versão mais retrógrada da lei da sharia. Yusef al-Qaradawi, um conhecido acadêmico associado com a Irmandade, defende publicamente que a homossexualidade deveria ser punida com a morte. Eles apoiaram negadores do holocausto e o genocídio de 1971 em Bangladesh, e compartilharam plataformas com salafistas-jihadistas, propagando seus chamados por uma jihad militante. Mas, ao invés de examinar o histórico de fundamentalistas muçulmanos no Ocidente, você continuamente pede que governos ocidentais “se engajem” com eles.

Vale a pena ler a carta na íntegra. Eu particularmente gostei da seção onde Sahgal expõe a perfídia de liberais ocidentais ao dizer para Roth, “Você parece ouvir apenas as vozes da direita – os políticos islamistas – e não as vozes das pessoas que iniciaram e mantiveram essas revoluções: os desempregados e pobres da Tunísia, batalhando para sobreviver; as milhares de mulheres egípcias que se mobilizaram contra as forças de segurança que se empregavam em rasgar suas roupas e atacá-las sexualmente por meio dos chamados ‘testes de virgindade’. Esses ataques são uma forma de tortura estatal, geralmente motivo de preocupação para organizações de direitos humanos, e no entanto você os negligencia, porque ocorrem apenas a mulheres.”

Também é digno de nota que Gita Sahgal foi até recentemente chefe da divisão de gênero da Anistia Internacional. Quando ela disse que a Anistia devia parar de endossar os defensores da misoginia islamista, a “organização de direitos humanos” reagiu a sua defesa dos direitos de metade da raça humana forçando sua saída da equipe.

Se você tem dinheiro sobrando, considere remetê-lo para Sahgal no Centre for Secular Space. Ao contrário dos tipos pomposos e politiqueiros, ela é uma defensora dos direitos humanos que faz jus ao título.

* original no Spectator

  • Eunice

    Não consegui compreender com exatidão, hummm o autor está revoltado com defensores de direitos humanos que “apoiam” líderes da Irmandade Muçulmana, levando em conta que, é provavel que no futuro esssa venha impor “leis islamicas”. Realmente, não consegui compreender. O autor refere sobre as brutalidades ocorridas na dita primavera árabe cometida por islâmicos? O autor esquece que a primavera árabe foi fomentada pela Irmandade Muçulmana no Egito, e quando os egípcios pusserem votar estão inclinados a votar na Irmandade Muçulmana.
    Mas, espere. O autor, não sei como, crê que os populares egípicios, que são da religião islâmica, não querem ser islâmicos? Não sei, as idéias são tão confusas, o que realmente seria a solução para o autor? Terminar com o islamismo? Sério? Estranho. Qual é a real idéia do texto? Não faz sentido.
    Outra coisa que me parece tão estranha: esquerda liberal. O que é esquerda liberal. Por favor o conceito de liberal nesse contexto? Sério? E o conceito dessa autor do que é esquerda? Conceituação de um e de outro, qual é para o autor? Sério, falta muita conceituação aqui. E, talvez seja a idéia do autor não ser claro em sua intenções, o que realmente acho que acontece.

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