Literato e político: as duas vocações de Alexis de Tocqueville
A pergunta que precisa ser respondida é como o autor explica a Revolução de 1848, se seu diagnóstico de 1840 afirmava que as revoluções serão cada vez mais raras em séculos democráticos.
- Um pensador diferente -
Augusto Comte (…) Pensador solitário, que mal saía do seu domicílio na rua Monsieur-le-Prince, criou uma religião da humanidade, de que era ao mesmo tempo Profeta e Grande Sacerdote. (…) Ao contrário de Augusto Comte, [Tocqueville] sai do seu apartamento e passeia pelas ruas; emociona-se profundamente com o que vê [as revoluções de 1848]. (…) Marx viveu o período entre 1848 e 1851 de modo bem diferente de Comte e de Tocqueville. Não se retirou na torre de marfim da rua Monsieur-le-Prince, como o primeiro, nem foi Deputado à Assembleia Constituinte ou à Assembleia Legislativa e Ministro de Odilon Barrot e de Luís Napoleão, como o segundo. Jornalista e agitador revolucionário, participou ativamente dos acontecimentos, na Alemanha. (Raymond Aron: “Os sociólogos e a Revolução de 1848”)
Não quero fazer a história da Revolução de 1848; somente procuro redescobrir o rastro de meus atos, de minhas ideias e de minhas impressões em seu transcurso. (Alexis de Tocqueville: Lembranças de 1848, p. 122)
O trecho citado de Raymond Aron é extremamente feliz, pois retrata as ações dos homens enquanto comenta suas ideias políticas. Neste, Comte e Marx parecem mais seguros de seus atos e pensamentos. Sabem onde estão e para onde querem ir. Tocqueville parece indeciso, confuso, “emocionado”. Quer entender o que está vendo, refletir, para depois agir. Os resultados de suas reflexões são atravessados por tentativas de definição e mudanças de diagnóstico. Ele “anda” pela sociedade (e história contemporânea) francesa da mesma forma que pelas barricadas de Paris em 1848: buscando uma explicação.
Seu desejo de compreender a História da Revolução Francesa não é o do historiador comum, nem o do político das décadas de 1840 e 1850. Talvez um misto dos dois. Percebe a sociedade em rápida transformação e ressalta o hiato entre o discurso dos atores políticos e os fatos (e processos) históricos. Assim, seus textos têm menos descrição que esforços de compreensão, menos comemorações que questionamentos. Julga os fatos da política a partir dos valores do humanista, julga os excessos dos escritores pelos critérios da experiência política prática. Parece querer conciliar, poderíamos dizer, as duas vocações de Max Weber. Resta saber se isto é (ou era) possível.
Tenho certeza de que novecentos camponeses ingleses ou americanos escolhidos ao acaso pareceriam muito mais com um grande corpo político. (p. 148)
O desejo, supondo que exista, de conciliação pode ter obrigado o autor a deixar estas lembranças sem publicação. O caráter inédito possibilita ao homem público não expor suas diferenças e críticas, mantendo a camaradagem com eleitores e possíveis aliados. Apesar disto, é possível estabelecer uma certa continuidade entre os textos do autor na década de 1840, estas lembranças escritas entre 1850 e 1859, e o livro L’Ancien Régime et la Révolution, de 1856. O diagnóstico de Tocqueville sobre a “Monarquia de Julho” (1830-1848), presente na publicação do segundo volume da De la Démocratie en Amérique (1840), é retomado nestas lembranças e desenvolvido à luz da ascensão do Segundo Império Napoleônico.
- Individualismo, absenteísmo e democracia -
Presente na segunda Démocratie, esta análise de Tocqueville dos séculos democráticos causou espécie. Mais uma vez cabia a pergunta se o autor apoiava ou não a democracia, ou o porquê de insistir na comparação entre os processos francês e anglo-americano. Françoise Mélonio, em Tocqueville et les Français (1993), afirma que o autor procede pelo uso de pendores ou tendências, uma típica linguagem dos grandes moralistas do XVII. Neste sentido, o autor ausculta a sociedade contemporânea, tenta compreendê-la, põe em articulação seu discurso e práticas. O diagnóstico resultante é uma taxionomia de tendências, sendo estas estudadas em seus possíveis desenvolvimentos. O pensamento adquire um caráter probabilista.
Um exemplo: o individualismo democrático marcado pela busca incessante do bem-estar material (trabalho, dinheiro, status) pode levar os homens a abandonar a “grande sociedade” em busca da felicidade na “pequena sociedade” (a família). O resultado é o crescente abandono da “coisa pública” – e suas oportunidades de agir em conjunto – abrindo espaço para um Estado “benfeitor”, cada vez mais responsável pela vida do conjunto. Uma sociedade medíocre, para os padrões do “moralista” Tocqueville.
A verdade, deplorável verdade, é que o gosto pelas funções públicas e o desejo de viver à custa dos impostos não são, entre nós, uma doença particular de um partido: é a grande e permanente enfermidade democrática de nossa sociedade civil e da centralização excessiva de nosso governo; é esse mal secreto que corroeu todos os antigos poderes e corroerá igualmente todos os novos. (p. 70)
No entanto, o estudo da vertente industrial inglesa e o da democracia americana possibilitam a ele a apresentação de outra tendência. Nesta, o individualismo é matizado pela busca de honra e grandeza políticas. Como um curioso seguidor de Mandeville, Tocqueville elogia as consequências benéficas na esfera pública do egoísmo privado. O “interesse bem compreendido” funciona como uma moralização do utilitarismo inglês. Afirma que os homens democráticos podem buscar a ascensão social, mas devem fazer isto em articulação com os seus semelhantes e isto só será possível, na França, quando os “remédios” descentralizadores existentes na Inglaterra e nos Estados Unidos forem colocados em prática. Em uma frase: para tornar a democracia um regime livre e igual, aos olhos de um humanismo liberal, é necessário lutar contra a centralização administrativa moderna. Esta leva a algo pior que a servidão, leva ao silêncio em torno do poder. Na servidão, os homens temem a força, no individualismo democrático acostumam-se à imobilidade e consideram-na natural. Não é que o Estado democrático, assim criado, seja necessariamente violento e repressor; a sociedade é que se torna fraca e silenciosa.
A pergunta que precisa ser respondida é como Tocqueville explica a Revolução de 1848, se seu diagnóstico de 1840 afirmava que as revoluções serão cada vez mais raras em séculos democráticos. A ideia é que a sociedade democrática francesa – desde a Revolução de 1789 – valeu-se do Estado e da centralização política para difundir valores de bem-estar e materialismo. A boa sociedade cria o Estado que satisfaz – ou deve satisfazer – seus habitantes. Todavia, a “Monarquia de Julho” buscou satisfazer apenas as classes médias – ou “as burguesias”. Os setores excluídos, notadamente os trabalhadores urbanos em um período de industrialização, passaram a pressionar em busca dos mesmos direitos. No esquema explicativo de Tocqueville, deseja-se alcançar o bem-estar que as classes médias usufruíam. Não há uma disputa por grandes princípios, como no final do XVIII, nem grandes debates políticos. Uma revolução sem líderes, nem conspiração secreta – “Aquele que se jacta de tê-las maquinado nada mais fez que delas tirar partido.” (p. 73)

- O autor -
O resultado de uma revolução assim compreendida é uma conquista. Deseja-se que a “galinha dos ovos de ouro” esteja acessível a todos e não a alguns apenas. Muito justo, para Tocqueville, em se tratando de séculos de igualdade crescente. E, ao mesmo tempo, um desastre. Ao invés de usar a política e a liberdade para melhorar os costumes públicos, difundiu-se a concepção de que o Estado faz e acontece. Que é dele a função de acabar com todas as desigualdades sociais, ou dar a todos os mesmos desfrutes.
Voltando ao ponto anterior, poderíamos dizer que haverá conflitos nos séculos democráticos, mas não com a grandeza da Revolução de 1789. Tocqueville, como muitos outros franceses do XIX, pensam na revolução “sem fim”. E o que chama a atenção é que a sucessão de revoluções na França dá ao processo um caráter de comédia ou repetição teatral, um tema aludido também por Marx. Em Tocqueville, a explicação do fenômeno se articula ao diagnóstico acima referido:
Creio que isso se deveu sobretudo ao fato de que os espíritos e os corações estavam vazios de crenças e de ardores políticos, neles só restando, depois de tantos desenganos e vãs agitações, o gosto pelo bem-estar, sentimento muito tenaz e exclusivo, mas igualmente doce, que se acomoda facilmente a todos os regimes de governo, desde que seja possível satisfazê-lo. (p. 121)
A insistência em descrever o século revolucionário a partir de uma moral algo aristocrática, que via no ideal de igualdade mais uma busca de interesses materiais do que a realização de uma sociedade justa, fez com que Tocqueville fosse visto como um conservador e um membro do “Partido da Ordem” (grupo da Assembleia contrário às manifestações socialistas).
Não nos cabe justificar o fato de que Tocqueville tinha horror à mesquinhez da sociedade burguesa e dos ideais de Estado dos socialistas. Registremos apenas a hipótese de um humanismo liberal que deseja de uma sociedade livre mais que o sistema representativo, e da participação política mais do que o voto.
- Existe atualidade em Tocqueville? -
Em uma sociedade marcada pelo presentismo, como a nossa, poderíamos nos questionar acerca da oportunidade de uma reedição da tradução das Souvenirs. Serão os mesmos motivos de Ítalo Calvino em Por que ler os clássicos? O livro deve ser lido pelos interessados na história das Revoluções de 1848?
Em 1993, quando da primeira tradução brasileira, lemos o livro na graduação de História com a atenção voltada para a França das revoluções. Com o tempo, outras coisas chamaram a atenção.
Em primeiro lugar, o mau humor do autor. Não foram poucas as risadas com as descrições dos deputados franceses menos conhecedores de política que camponeses de língua inglesa (vide acima), e, mais ainda, as seguidas comparações de Tocqueville de figuras da política francesa com animais: pela fisionomia, pelas expressões ou pelos atos. A fuinha, o gato, a matilha de cães, a serpente, a “metade macaco e metade chacal” são alguns exemplos. E, também, a descrição de como o ministério de Odilon Barrot (na presidência eleita de Luis Napoleão) estava sendo formado:
Assim foi o nascimento desse governo tão penosa e lentamente formado, e que devia durar tão pouco. Durante o longo parto que o precedeu, o homem mais atribulado da França foi, seguramente, Barrot… (…) Quando o via assim correndo de um lado e de outro para formar um gabinete, eu imaginava uma galinha que se atormenta e se agita para reunir a ninhada, sem se preocupar muito em saber se se trata de uma ninhada de patos ou de pintos. (p. 253)
Um outro ponto seria a utilização dos franceses de Tocqueville para pensar os nossos brasileiros. Algo como os “gatos são bons para pensar” de Robert Darnton, fazendo alusão a Lévi-Strauss. Não se trata de usar o diagnóstico e as tendências estudadas por Tocqueville a fim de explicar a realidade brasileira. O historicismo (ou historismo) não permite. Cumpre ver as questões que afligiam o autor e que ele buscou exorcizar ao escrever. Ver como ele respondeu ao seu contexto político e como tentou influenciá-lo. E, talvez, estudar seus sucessos e fracassos. Um pouco de Quentin Skinner, John Pocock e Reinhart Koselleck (historiadores do pensamento político).
Se o seu interesse não for os clássicos da política e a França do XIX, divirta-se com as descrições de Tocqueville.
São os moleques de Paris que costumam empreender insurreições, e em geral alegremente, como escolares que saem de férias. (p. 66)
Na verdade, toda a nação sofre um pouco disso, e o povo francês, tomado em conjunto, julga muitas vezes a política com critérios de um homem de letras. (p. 109)
Os advogados não podem escapar a um destes dois hábitos: acostumam-se a defender aquilo que não creem ou a se persuadir com muita facilidade do que querem defender. (p. 228)
…e eu pensava que convinha tratar o povo francês como a esses loucos que não se devem amarrar, por temor de que a coação os torne furiosos. (p. 237)
E escrevemos isto em tempos de aniversário do falecimento do jornalista Paulo Francis, outro autor de análises bombásticas.
::: Lembranças de 1848 ::: Alexis de Tocqueville (trad. Modesto Florenzano) :::
::: Penguin/Companhia, 2011, 392 páginas :::
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