A vida toda enfim

João Anzanello Carrascoza demonstra ter atingido sua maturidade enquanto escritor.

"Amores mínimos", de João Anzanello Carrascoza

João Anzanello Carrascoza é um dos melhores contistas brasileiros em atividade. Inclusive, não me parece exagero afirmar que, no gênero, ele já se consagra entre os melhores que a nossa literatura produziu. Sem falar na versatilidade – Carrascoza acumula as funções de redator publicitário e professor universitário, além de escrever livros infantis e infanto-juvenis –, descontando, também, as obras-primas que escrevera nesses quase 20 anos (estreou em 1994 com Hotel Solidão), é digna de nota sua safra mais recente – pródiga.

Em 2010, o escritor lança Espinhos e alfinetes, um excelente volume de contos; um ano mais tarde, sai A vida naquela hora, cujas histórias delicadas, menos espinhentas que as do livro anterior, rendem ao autor o terceiro lugar no Prêmio Clarice Lispector da Fundação Biblioteca Nacional. E não é que, imediatamente em seguida, publica estes deliciosos Amores mínimos?

O volume é composto por 25 narrativas, todas elas – como o título dá a ver – curtas; umas menos (as maiores não ultrapassam 5 páginas), outras mais (uma única linha). Temáticas caras ao autor – morte, infância, terra, amor – marcam presença por meio das metáforas sensíveis transbordantes de afeto. Já estaria de bom tamanho, muito embora talvez não se justificasse a publicação imediata de mais um livro.

Ocorre que João Anzanello Carrascoza demonstra ter atingido sua maturidade enquanto escritor porque, agora, leva a efeito a plenitude poética enredada – e enredando-nos – em uma prosa concisa ao extremo e extraindo dos contos seu melhor sumo.

O que dizer de passagens como estas (do conto que abre o conjunto, “Cerâmica”)?

Deitei na cama e a esperei e, se ela entrou logo em seguida, pela primeira e única vez, sei que nela me entrei para sempre. [...] E quando me deitei sobre ele, saí de mim, totalmente, como quem sai de dentro da pele, e atirei-me de lado feito uma roupa, para nunca mais deixar de ser a outra em que me transformei.

E assim, ao longo da coletânea, o leitor que gosta de grifar passagens marcantes, irá rabiscar todo o livro.

Há, na constatação acima, um dado importante: Amores mínimos valem pelo recheio. Não se trata, por exemplo, de encontrar finais muito surpreendentes. Como em “Corrida paulista”, cujo desfecho chega a ser previsível, mesmo porque literalmente antecipado no próprio conto – “todos os caminhos levam ao fim” –, importante aqui é o corpo do texto, seus “Traços” – título de outra narrativa:

Eu prefiro traços fortes. Traços, não. Sulcos. Gosto daquele ali, tá vendo? Não, o de tatuagem, não, tatuagem é coisa de garoto. Aquele, o da cicatriz no rosto. Faca ou caco de vidro, o que você acha?

Não por acaso, o corpo – sulco que irrompe de nossa própria semente – é explorado em vários contos.

E os traços (próprios, é bom que se diga) de Carrascoza irrompem de pelo menos três grandes sementes – Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Raduan Nassar. O próprio já declarou que os três são referências importantes. Em Amores mínimos, a balança talvez penda para Nassar. O belíssimo “Árvore” estabelece, do meu ponto de vista, um claro diálogo com a cena do encontro incestuoso dos irmãos em Lavoura arcaica, a obra-prima de Nassar. Curiosamente, o texto que vem na sequência intitula-se “Amor arcaico”, conto que trabalha com uma escrita virulenta, colérica (não custa lembrar da novela Um copo de cólera, também de Raduan), e ainda, imediatamente após “Amor arcaico”, surge “Lei”, cuja temática do embate corporal lembra, e muito, a poética nassariana.

Como todo corpo – que nasce, vive e morre – chama a atenção a recorrência da temática do envelhecer: “e eu ocuparia a cabeceira e abriria um sorriso que dizia, Tudo termina. E era justamente por estar lá com eles, vivendo mais um encontro finito, que eu sorriria”, diz, por fim, a matriarca em “Domingo”. Já em “Tarde”, há a narração do (último?) encontro entre avó e neto – vale mencionar o conto “O vaso azul”, clássico da primeira leva de Carrascoza, que retrata o encontro entre mãe e filho. Agora, a linguagem se expande a mais uma geração.

Os amores todos, mesmo os mínimos, envelhecem. Morrem. “Terra e água”, que fecha o livro, é uma espécie de continuação do primeiro conto. Diz o personagem Ele: “No fundo, caminhamos para onde estamos”. Metáfora para a existência, para o amor, para este livro. E, no entanto, ou por isso mesmo, a empreitada vale a pena: “era bom estar ali, na flor do instante”. Emblemático, nessa direção, é o microconto “Vigília”, que transcrevo na íntegra: “Pronto nos olhos, o pranto só aguarda a notícia”. Uma única frase e a iminência de tudo dar errado, ou dar certo; um limiar, o por um triz, a vida toda enfim.

::: Amores mínimos ::: João Anzanello Carrascoza :::
::: Record, 2011, 144 páginas :::
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