Memória, passado e descobrimento em novo romance de Adriana Lunardi
A história é sobre a porosidade e, ao mesmo tempo, intensidade dos laços familiares.
Quando eu era pequena, conheci a história da vendedora de fósforos porque uma vizinha me emprestou uma das muitas versões do conto do Hans Christian Andersen: uma edição bizarra cujas ilustrações eram constituídas por bonecos de panos com olhos grandes, sem pupilas. Além disso, a capa do livro assustava ao mesmo tempo em que atraía as crianças: toda preta e, no centro, um holograma coloridíssimo com os mesmos bonecos sem pupilas. Uma edição dessas traumatiza uma infância, não sei se pelo kitsch da edição da década de 1970 ou se pelo desfecho trágico da narrativa.
Diferentemente da protagonista de Andersen, que mora nas ruas geladas de alguma cidade dinamarquesa, a vendedora de fósforos da Adriana Lunardi vive no aconchego de sua casa no Rio de Janeiro, com seus livros e seu marido. Um dia, enquanto a personagem arruma e tira o pó de seus livros e avalia sua vida profissional, recebe um telefonema, de um lugar distante e feito por uma pessoa desconhecida, informando que sua irmã mais velha está internada em um hospital psiquiátrico após uma tentativa de suicídio. O fato, por si só dramático, desencadeia a quebra na rotina da personagem e funciona como leitmotiv para que a narradora desenterre um passado há muito sedimentado.
Caracterizado como um romance de formação, A vendedora de fósforos está articulado em três grandes eixos que se entrecruzam: a história das origens e da derrocada da família dos Anjos, a formação da personalidade da personagem principal e, concomitantemente, sua formação como escritora. As cenas do momento presente da narrativa, quando a narradora recebe o telefonema e parte ao encontro de sua irmã, alternam-se com cenas em flashback da família e da vida pessoal da narradora.
A narrativa das origens dessa família começa em uma época distante de festas e celebrações que vão se dissipando e perdendo o brilho até chegar ao ramo da árvore genealógica da narradora e de seus irmãos. Uma família errante, cujos pais, autoritários, se empenham em manter o isolamento dos demais parentes. Os filhos, por sua vez, encenam uma espécie de geração beat, entrando em conflito e, por vezes, fugindo de casa em represália à dominação patriarcal. O último laço que une essa família está representado na mãe, que se empenha em assegurar a tradição familiar. No entanto, a loucura, que parece perpassar por todos os personagens, atinge em cheio a matriarca, que vê seus valores ruírem com as sucessivas mudanças de cidade, com o isolamento dos demais parentes, com fuga do primogênito, com as crises da filha mais velha e com a rebeldia da caçula.

- A autora -
O romance de formação está caracterizado por uma espécie de “busca por autoconhecimento” ao olhar para trás, empreendida pela narradora. O que inicialmente parece ser uma busca pelos motivos que levaram sua irmã a cometer suicídio, mostra-se, na realidade, uma avaliação e um levantamento de sua vida e de suas experiências para, então, poder admitir não apenas as suas próprias fraquezas e ingenuidades, mas também as dos demais integrantes da sua família.
A relação entre as duas irmãs teve influencia fundamental na escolha profissional da narradora, afinal, desde cedo, a irmã mais velha demonstrava maior sensibilidade para interpretar, seja dos aspectos pessoais e circundantes à família, seja histórias infantis transmitidas por ela durante a infância. É a irmã quem transforma a visão lógica da irmã em uma rede de possibilidades que culmina no ofício de escritora. E é a literatura o único laço que mantivera as duas unidas durante a infância. Com o passar dos anos, as duas vão se distanciando, juntamente com o resto da família, porém, o amor pelas Letras permaneceu como único elo que inicia e encerra o romance.
Por fim, A vendedora de fósforos é uma narrativa magnífica sobre a porosidade e, ao mesmo tempo, intensidade dos laços familiares, de maturidade e de autoconhecimento. Afinal, a narradora adquire a consciência de que, mesmo que mal sucedida, esta é a última visita à sua irmã. Seu, até então, único vínculo com o passado que acaba de reencontrar.
::: A vendedora de fósforos ::: Adriana Lunardi :::
::: Rocco, 2011, 192 páginas :::
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