Um grande livro

-- "A sordidez das pequenas coisas" (contos), de Alessandro Garcia --

por Fal Azevedo

A sordidez das pequenas coisas, primeiro livro do gaúcho Alessandro Garcia, da Não Editora, é um murro no estômago. Você lê, perde o compasso. “Como ele ousa…”. A sordidez das pequenas coisas é um afago. “De alguma forma, ele entendeu”. O autor nunca me viu, nós nunca tomamos um café, mas ele sabe de mim. Sabe dos meus passos, do medo, da sombra na parede do metrô que parece uma cabeça numa estaca, entende que não tive tempo para ir comprar cigarros, ou coragem para encarar a chuva e ir ao tal aniversário.

A sordidez das pequenas coisas. A dor, o susto, a maldade, a verdade das pequenas coisas. As pequenas coisas nem tão pequenas assim. A vida, aquela, de todos os dias. Há que se falar sobre a queda dos impérios, as tomadas de cidades, os grandes gestos, as importantes descobertas. Mas alguém precisa falar dos gestos. Descrevê-los. Contar como era a paisagem. O sítio, as férias, a menina gorda, o quarto dividido com a irmã, os “doces que Delia faz”, os lençóis com cheiro de mofo, a solidão da página em branco, o velório, o tom do batom. Tudo e todos.

O narrador hábil de Alessandro me fez companhia por esses dias e, ao falar do instante da vida do outro, falou dos meus instantes também. Gosto disso. Gosto dum narrador que sabe pronde diabos essa joça vai. Quem me conhece sabe, sou uma vitrola quebrada, narrador, narrador, narrador. O narrador de Alessandro está no comando. Sutil, discreto, quase delicado, mas ele está ali. É um narrador presente por todo o livro. A história nunca corre solta, o leitor nunca é largado ao relento. O narrador de Alessandro costura os momentos e leva você pela mão de uma cena para a outra, sem desperdícios idiotas, sem falação inútil, sem demonstrações bobas de conhecimento. E isso para mim é o mais bonito, mais bonito e tocante até mesmo que os contos, os sensacionais contos do livro.

É lindo ver uma técnica dessas no meio deste mundo de lixo, de textos mal construídos, de narradores vacilantes, de contos e crônicas e romances que não sabem direito pronde vão e nem por quê. Dá uma emoçãozinha ler um bom escritor, um escritor sólido, relevante, complexo, construir uma boa história bem na sua frente. Quando um artesão como o Alessandro permite que seu narrador conte a história, cada uma das histórias do livro, sem sumir no meio delas, mas sem fazer malabarismos de estilo, é prova de maturidade. Você lê e diz baixinho para o gato, “Esse cara sabe o que está fazendo”.

Uma literatura feita de instantes que cobrem toda uma, várias vidas, vários caminhos, mais de uma trilha, mais de uma encruzilhada. Os parágrafos são longos, os dias também. A repetição das personagens, a sutileza, o ar que falta. Somos tão sórdidos, tão humanos, tão pequenos. Um grande livro.

Por vezes, é como se estivéssemos esperando coisas já acontecidas ou soubéssemos que tudo que poderia acontecer não viria a ser de outra forma.

::: A sordidez das pequenas coisas (contos) ::: Alessandro Garcia ::: Não Editora, 2010, 176 páginas :::
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3 comentários | Dê sua opinião

  1. vera 08/02/2011 em 2:17 pm

    oba! minha escritora indicando livros! beijos

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  2. fal 09/02/2011 em 7:09 pm

    beijucas, verinha! :o )

    Responder
  3. Pingback: Não Editora » Clipping de 11.05.09

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