Stephen Hawking, Deus e realidades paralelas

por Carlos Orsi

-- "The grand design", de Stephen Hawking e Leonard Mlodinow --

-- "The hidden reality: Parallel universes and the deep laws of the cosmos", de Brian Greene --

Terminei de ler há pouco tempo The Grand Design, de Leonard Mlodinow e Stephen Hawking, e estou mais ou menos no meio de The Hidden Reality, de Brian Greene (o defensor e popularizador da Teoria das Cordas, que ficou famoso no Brasil por O Universo Elegante).

O livro da dupla Hawking-Mlodinow causou furor ao ser lançado no ano passado, por conta do alto perfil de mídia atingido pelas declarações de Hawking sobre a não-necessidade de um criador divino para o Universo.

Confesso que, na época, a repercussão me surpreendeu: a ideia de que a ciência física “não requer essa hipótese” (i.e., um criador consciente) para dar conta do Universo está por aí desde os tempos de Napoleão Bonaparte, e nunca chegou a ser seriamente desafiada pelas teorias físicas que se seguiram desde então.

O que ocorreu, durante o século XX, foi um acúmulo de insinuações de que talvez, quem sabe, a hipótese não fosse tão desnecessária assim.

(Parêntese: muitos cientistas e filósofos da ciência costumam dizer que o mandato da ciência é definido pela busca de causas naturais para os fenômenos naturais e que, portanto, quer Deus exista ou não, ele está, por definição, fora do escopo do método científico. Não concordo muito com isso: suponha, por exemplo, que a ciência tivesse sido definida como a busca de causas terrestres para fenômenos terrestres. Cedo ou tarde os cientistas — confrontados com coisas como a luz do Sol ou meteoritos — seriam forçados a rever essa definição, e ampliá-la, reconhecendo causas celestes para fenômenos terrestres. O fato de que nenhuma revisão do esquema “causas naturais para fenômenos naturais” ter sido necessária até hoje me parece significativo. Fecha parêntese.)

Tentativas indiretas de contrabandear uma intencionalidade divina para o seio da física começaram com a teoria do Big Bang (proposta, incidentalmente, por um padre jesuíta, Georges Lemaître) e tiveram continuidade com questionamentos sobre o estado do Universo em sua origem (Roger Penrose já escreveu que o estado altamente ordenado do Big Bang parece ter sido cuidadosamente selecionado) e, finalmente, pelo chamado Princípio Antrópico Forte (PAF), segundo o qual é apenas graças a um finíssimo ajuste nas leis da natureza que a vida humana é possível.

(Pessoalmente, sempre que ouço um físico invocar o PAF, tenho ganas de gritar: Não é o Universo que é ajustado para nós, nós é que somos ajustados para ele, estúpido!)

Menos do que uma afronta às religiões, o livro de Hawking é uma resposta ao misticismo difuso de alguns de seus colegas físicos — não consigo deixar de imaginar, de fato, que seja uma resposta direta a Penrose, com quem Hawking já colaborou no passado para desenvolver uma teoria de buracos negros.

A solução de Hawking é tratar o Universo inteiro como um sistema quântico, no qual todas as histórias possíveis são realizadas — o exemplo dado é o do experimento da fenda dupla, no qual uma única partícula parece percorrer várias trajetórias diferentes ao mesmo tempo. Se o Universo vive todas as histórias possíveis — ou, se existem infinitos Universos, cada um com sua história peculiar –, então o que antes parecia altamente improvável (a ocorrência de um Big Bang, a forma exata das leis da natureza, etc.) torna-se comezinho.

O que nos traz ao livro de Greene que é sobre, exatamente, Universos paralelos. Este eu ainda não terminei, mas o argumento geral, até agora, é o de que a existência de realidades alternativas e outros Universos é uma consequência lógica natural dos melhores modelos cosmológicos disponíveis, como a Teoria Inflacionária (que descreve o que ocorreu logo após o Big Bang) e a expansão acelerada do cosmos.

Livro por livro, o de Greene está me parecendo melhor. O de Hawking é muito superficial (se bem que sou suspeito para falar, já que sou o tipo de cara que gosta de equações em livros de divulgação científica), com tentativas de humor um tanto quanto atrozes (“A Lua não é feita de queijo Roquefort. Má notícia para os ratos”). Greene vai mais a fundo e é mais estimulante. Mas minha sugestão é de que se leiam os dois.

::: The grand design ::: Stephen Hawking e Leonard Mlodinow ::: Bantam Books, 2010, 208 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::

::: The hidden reality: Parallel universes and the deep laws of the cosmos ::: Brian Greene :::
::: Penguin UK, 2011, 384 páginas ::: compre na Livraria Cultura :::

7 comentários | Dê sua opinião

  1. Krishna 03/02/2011 em 2:20 pm

    Taí, eu não conhecia esses livros, e deu vontade de lê-los.

    Custam menos de US$16,00 cada um na Amazon.com, mais o frete, que não é muito caro.

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  2. Felipe 04/02/2011 em 1:58 pm

    Eu já tinha lido um livro do Greene, O Universo Elegante, e achei maravilhoso. A leveza e clareza com que ele trata assunto pesados como a Teoria das Cordas e Relatividade é estimulante.

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  3. Bruno Cava 04/02/2011 em 7:43 pm

    Salve, Carlos,

    Sou aficcionado por teorias cosmológicas e astrofísicas. O que empre me incomodou, em Big Bang e ciências em geral, é o princípio de que o universo já está dado. Digo: como se ele estivesse aí, pronto, com uma dinâmica definida. Por que o universo não pode estar constituindo-se? falo ao nível de sua racionalidade mesma, de suas fundações? essa é uma limitação de boa parte da física, ou pelo menos da vulgata que chega aos leigos: o universo como constituído (natureza naturada), mas não como constituinte (natureza naturante). O verdadeiro incriacionismo não é aquele que prescinde da causa última, mas cuja causalidade imanente jamais se esgota.

    Abraço.

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  4. Otávio 08/02/2011 em 8:22 am

    Carlos, seu parêntese sobre Deus e o escopo da ciência depende diretamente da definição de ciência utilizada. Isso porque pode-se considerar impossível verificar ou descartar a existência de um criador e esse é um dos critérios que definem o que é ciência (ao menos de acordo com Popper). Ou seja, não se trata de aumentar o escopo da busca, mas sim do quão científico é esse aumento. Uma coisa é considerar a hipóteses de objetos que vêm do espaço exterior e entram em nossa atmosfera, algo que é possível verificar; outra, bem diferente, é dizer que os objetos só aparecem em nossa atmosfera quando ninguém está olhando.
    (mas, claro, como eu disse antes, isso depende da definição de ciência que você usar. Raramente alguém aponta e diz “estou usando esta, esta aqui, ó!”)
    Tanto que Hawking não dizia que não existe Deus, mas sim que ele não seria necessário para o Universo. Demonstrar a não necessidade e demonstrar a não existência são caminhos diferentes, muito diferentes.

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  5. Paulo 19/05/2011 em 11:11 am

    Texto interessante, cara.

    Eu conhecia os dois autores. Na realidade, estou à espera do lançamento da versão em português do livro de Hawking, porque, apesar de ler em inglês, fiquei com receio de que tivesse muito vocabulário técnico, o que atrapalharia a fluidez do livro.

    Você sabe alguma informação sobre o lançamento no Brasil? Na realidade, não sei nem onde procurar e o google n tem me ajudado muito nisso.

    Quanto ao de Greene, eu fiquei com um pouco de preconceito depois do que vi Sheldon falando no Big Bang Theory! haha
    Mas agora que você falou… fiquei interessado.

    abraço!

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  6. Asdrubal Filismirno 18/09/2011 em 10:50 pm

    Se uma coisa não pode ser percebida por nossos sentidos, não quer dizer que não exista. Um exemplo clássico é a distorção espaço temporal percebidada por Einstein,
    provocada pela massa de grandes corpos. O multiverso é perfeitamente cabível em modelos matemáticos atuais. Ainda não foi descoberto pela ciência humana nem 1% dos
    mistérios da criação. Ainda patinamos na superficialidade do conhecimento acerca de temas que necessitamos conhecer, mas nem temos noção que existam.

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  7. Neutrino Quântico da Silva 19/10/2011 em 2:49 pm

    Adorei essa matéria, principalmente essa parte: “(Pessoalmente, sempre que ouço um físico invocar o PAF, tenho ganas de gritar: Não é o Universo que é ajustado para nós, nós é que somos ajustados para ele, estúpido!)”!! Realmente isto seria como duas girafas comentando que, apenas por um ajuste fino das leis da natureza em favor de seu comportamento alimentar, as folhas de que elas se alimentam brotam na altura que elas podem alcançar, e não o contrário, de que o tamanho de seus pescoços e sua preferência por folhas que brotam mais alto é que são adaptações da sua espécie a um meio que já existia e era regido por leis específicas antes do aparecimento delas. Resumindo, elas são produtos do meio em que vivem, e elas é que são como são por que o meio é como é, e não que o meio foi propositamente preparado para o aparecimento delas, milhões de anos antes de elas sequer surgirem. Assim é o homem, que do alto de sua auto-proclamada importância cósmica, berra aos quatro cantos do mundo a existência de um deus para explicar por que todas as leis da Física “parecem” ajustadas para o seu aparecimento, evitando o pensamento contrário (que logicamente diminui sua importância perante o universo), de que é apenas um produto de tais leis, de que ele apenas existe porque as leis da Física são como são, e de que ninguém “preparou” sua chegada. Não estou afirmando que deus não existe, apenas não posso afirmar também sua existência, muito menos por razões egoístas e egocêntricas como essas, e vivo tranquilamente com a possibilidade de ele não existir, pois como o Hawking falou dele (deus) em relação ao universo, ele não faz nenhuma falta na minha vida.

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