Como a ciência pode determinar o que é moral

-- "The moral landscape: How science can determine human values", de Sam Harris --

por André Cancian

Em seu último livro, The Moral Landscape, Sam Harris toca numa questão bem antiga: como determinar o que é certo ou errado? Ele poderia, como tantos fizeram, partir para uma abordagem ideológica da moral, promovendo certos conjuntos de valores que considera bons, e oferecendo os motivos xis e ípsilon para os aceitarmos. Porem, em vez disso, ele nos convida a lançar um olhar funcional à moral, não um olhar meramente conceitual.

A linha de raciocínio de Sam Harris baseia-se na premissa de que a ciência pode determinar nossos valores morais. Naturalmente, fica a pergunta: como? De que maneira a ciência poderia determinar o que é certo ou errado? A princípio, parece impossível. Sabemos que a ciência tenta permanecer neutra nessa questão, mas em geral supomos que ela tem ótimos motivos para isso, permanecendo neutra exatamente porque não há como fazer esse tipo de coisa. Harris argumentará o contrário, que ela pode determinar nossos valores, e uma parte significante do livro consistirá justamente na tentativa de “quebrar o encanto” segundo o qual a ciência nada pode dizer sobre nossos valores morais.

A solução de Harris para tornar a moral abordável pela ciência é a seguinte: em vez de encararmos a moral em termos conceituais — certo e errado —, lançamos a ela um olhar funcional, em termos de bem-estar. Assim, em vez de perguntarmos o que é “certo” ou “errado”, perguntamos: o que maximiza o bem-estar? O que causa sofrimento?

Se, aos nossos olhos, não fica imediatamente claro o que essa mudança de ótica soluciona, façamos a seguinte pergunta: o assassinato é certo ou errado? Em geral, temos a opinião de que ele é errado. Tudo bem, podemos ser contra o assassinato. O problema é que, se outro indivíduo tivesse a opinião de que ele é certo, tudo o que teríamos contra ele seria nossa opinião. Opinião contra opinião, ambas imersas num relativismo para o qual não parece haver saída. Essa é a dificuldade em que somos colocados ao encarar o assassinato em termos de certo ou errado: nossa resposta, seja qual for, será somente nossa opinião. Teríamos assim de “respeitar” a opinião desse outro sujeito, por mais absurda que nos parecesse sua postura de ser “a favor” do assassinato.

Nessa ótica, se o assassinato é certo, ou se é errado, dependeria somente de nossa opinião. Harris, insatisfeito com essa postura — que ele chama de “cegueira moral” —, pedirá que consideremos o seguinte: o assassinato ser errado depende de nossa opinião, mas o sofrimento causado por um assassinato depende de nossa opinião? Não. Ou seja, podemos matar, mas não podemos ter a opinião de que matar não causa sofrimento, pois causa. Esse é o pulo do gato. Basta então este pequeno ajuste: em vez de pensarmos no assassinato em si mesmo, pensemos nas razões pelas quais ele é proibido, na função desse valor moral. Essa abordagem, dirá Harris, coloca nossos valores ao alcance da ciência, permitindo-nos determinar de forma objetiva que valores são melhores ou piores que outros, não em função de serem “certos” ou “errados”, mas em função de promoverem ou não nosso bem-estar.

Essa é a linha de argumentação central do livro. No entender de Harris, uma vez percebamos que o único objetivo plausível para nossos valores morais é a promoção de nosso bem-estar, os conceitos de “certo” e “errado” tornam-se imediatamente atenuados, pois passam a subordinar-se a tal fim. Deixar de ver valores como “absolutos pessoais” diminui o efeito hipnotizante do relativismo, que nos conduz facilmente à já mencionada “cegueira moral”. Claro que, para Harris, tolerância é importante, mas basear nossa moral toda no fato de que “cada qual tem a sua opinião” seria algo tão despropositado quanto basear nossa medicina no fato de que cada qual tem a sua saúde. Assim como nem todos entendem o que é melhor para sua própria saúde, nem todos têm noções respeitáveis de certo e errado. Baseado nisso, Harris tentará tocar num dos assuntos mais delicados da ética: a possibilidade de julgarmos valores de outras culturas. Se o leitor consegue sentir toda a tensão que existe nessa proposta, e não consegue evitar a curiosidade de explorar mais o tema, então não pode deixar de conferir os argumentos do autor.

::: The moral landscape: How science can determine human values ::: Sam Harris :::
::: Free Press, 2010, 320 páginas ::: Compre na Livraria Cultura (também disponível em paperback) :::
::: A edição brasileira do livro está programada para sair em maio de 2012, pela Cia. das Letras :::


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14 comentários | Dê sua opinião

  1. Diego Viana 16/02/2011 em 3:36 pm

    Interessante. Utilitarismo em pleno século XXI. Plus ça change…

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  2. Sudário de Jesus 16/02/2011 em 4:12 pm

    A moral não é baseada na opinião objetiva do certo e errado,mas no senso comum.O assassinato provoca sofrimento? Depende.Há assassinos que sentem imenso prazer em matar e tiram disso proveito material: o latrocida,por exemplo.Os corruptos dilapidam os cofres públicos com a maior desfaçatez e sem nenhum remorso.Ir por este caminho é liberar geral.

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    • Bruno 17/02/2011 em 4:53 pm

      A resposta de Harris seria que isto não seria um pico… não seria de longe o melhor dos mundos. O que significa viver em um sociedade em que a qualquer momento você pode ser assassinado? O seu segundo exemplo não faz sentido. O fato do político roubar dinheiro público tem um conseqüência no bem estar na vida das pessoas, pouco importa se ele faz com desfaçatez ou não.

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  3. Felipe de Campos Lopes 16/02/2011 em 4:29 pm

    Acho complicado esta noçao de bem-estar pelo fato de que diversas condutas produzem bem-estar para uma pesoa e mal-estar para outras, como quantifica-lo? Acho que a ciência não consegue responder isto ainda, e esta resposta pode ser ainda mais relativa do que a própria opinião pessoal.

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    • Bruno 17/02/2011 em 4:57 pm

      Eu particularmente não acho que faz sentido falar de moral se o objetivo é simplesmente maximizar seu próprio bem estar. Faz sentido falar em moral se você vive em uma ilha deserta? Se suas ações não levam o sofrimento ou ao bem estar de terceiros?

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  4. Lucas Jerzy Portela 17/02/2011 em 7:01 am

    toda vez que a ciência se apropria de um problema originalmente da filosofia (e isso acontece sempre: é assim que a ciência se desenvolve), ela muda o eixo.

    Exemplo: o que em Aristóteles era “por que as coisas caem?” (filosofia) em Newton se torna: “de que forma as coisas caem e os corpos celestes giram?” (ciência). O problema filosofico é sempre antropomorfizante, o científico é mecanizante; o filosofico é mentalista e subjetivista, oda ciência é externalista e objetivista (mesmo na ciência da Psicologia: não estudamos a alma, mas o comportamento, o inconsciente, etc etc.)

    Assim, uma ciência só é se ela abdica de tratar de moral. A explicação aristotélica para a gravidade era moral: “a pedra se regozija ao voltar para casa”. A explicação, por exemplo, Skinneriana para o comportamento moral não é, ela mesma, moral. Skinner não quer saber se um dado comportamento (furto, por exemplo) é certo ou errado, mas sim que mecanismos o levam a se estabelecer e de que forma pode-se extingui-lo.

    Há uma Ciência da Ética, então? Há, mas ela não se interessa pelo certo e errado, e chama-se Psicanálise. O que antes era colocado como Bem X Mal, com Freud passa a ser colocado em termos de desejo e gozo, pulsão de vida e pulsão de morte – objetivista, portanto.

    O mesmo vale para a Estética. Há uma ciência da estética a partir de Marx (mormente o Formalismo Russo), mas que não se interessa em definir Belo X Feio, e sim em que forças sociais e econômicas levam a determinadas escolhas formais e temáticas, e que efeitos socio-psíquicos estas escolhas formais e temáticas podem gerar.

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    • Bruno 17/02/2011 em 5:00 pm

      Nunca hoje uma clara distinção entre filosofia e ciência. As duas estão no ramo de responder perguntas pelo viés racional. É claro que neste processo pode haver má filosofia e boa filosofia.

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      • Lucas Jerzy Portela 18/02/2011 em 1:34 am

        Há uma distinçnao cristalinamente lúcida na obra do único epistemólogo experimental até hoje: Jean Piaget.

        Leia o pcoketizinho de 80 paginas, Epistemologia Genética, dele já no fim da vida, uma espécie de resuminho da obra dele.

        Além disso, Freud distingue bem filosofia de ciência em A Questão Do Weltenschaung.

        Quem não difere bem filosofia de ciência é a Filosofia – porque, claro, a ela não interessa senão mistificar: se diferir, ela perde.

        Dou aqui um resumo da distinção que Freud faz, e é idêntica a de Piaget e Marx (e mais tarde de Skinner): a ciencia parte dos fatos, dele retira leis com as quais pode operar sobre os fatos, modificando-os; a filosofia não parte dos fatos, mas da especulação sobre estes, não formula leis e não pode operar na realidade ou altera-la.

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    • Flávio Rissäs 23/02/2011 em 1:17 am

      Olá Pessoal!
      Portela, você sabe dizer a quantas anda a, digamos assim, ciência da estética???

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  6. Gilberto 07/04/2011 em 11:52 am

    Somos apenas animais da espécie humana. Tudo o que sentimos (amor, ódio, alegria, tristeza, depressão,euforia, livre arbítrio, reciocínio), são apenas configurações químico-elétricas do nosso corpo/cérebro. Não existe uma alma, um espírito, nem deus. Ficamos diferentes de outros animais através da evolução/mutação. Sem nenhum plano divino, apenas seleção/pressão natural. Para entendermos como agimos ou porque agimos desta ou daquela forma é preciso começar deste princípio, somos apenas animais da espécie humana. Leiam o livro “A Ilusão da Mente” do Eduardo Gianetti” , um bom começo para entender o ser humano.

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  7. Cesar Reis 07/06/2011 em 3:14 pm

    A questão está diametralmente mal colocada.

    O correto seria dizer-se: “Como pode a ciência querer determinar o que é moral?”.

    Isto é um blá-blá-blá sem nexo, um espremer de seixos de onde nada sai. A ciência não transforma as pessoas, pois moral, bem-estar íntimo, insatisfação, instinto assassino, visão humanitária, etc., quase nada tem a ver com a construção material de uma civilização. A moral está intimamente ligada a valores humanos e abstratos construídos sob a ação da alma – o que não quer dizer somente das tradicionais religiões. Há que separar-se crenças religiosas e sabedoria. E o conhecimento da alma de onde vem? Da ciência moderna, da psicologia freudiana ou junguiana? De resvalo sim, mas na profundidade que as neuroses necessitam para curar-se, positivamente não.

    O passado não foi de forma alguma tolerado em todos os seus ângulos pelos “descobridores” da psicologia. Freud e Jung pesquisaram profundamente as religiões do passado e a sabedoria esotérica oriental e ocidental em seus aspectos iniciáticos. E da tão ridiculazada mitologia retiraram seus mais importantes elementos para tentar edificar o ser interno do homem, sua psique ou alma. Porém, omitiram citações importantes por medo ou interesse e não por ortodoxia científica. E que tem isso a ver com moral? Basicamente tudo, pois é a ciência tentando ensinar o que ainda desconhece do homem, acertando pouco e errando nas mais cruciais situações.

    A ciência já avançou nas prospeções do reino mineral e vegetal, mas pouquíssimo no reino animal e insuficientemente no hominal. A prova é que bilhões de pessoas carnívoras ainda comem nossos irmãos menores, e o homem aniquila o semelhante com um simples apertar de botão. Em nome de quê? Por que? Para que?

    Se puxarem aquele argumento batido que as religiões são responsáveis pela maior mortandade de seres humanos na história, digo, com toda a certeza, que é a mais deslavada mentira. Houve sim motivos hipócritas de religiões, mas os assassinatos por conquistas de terras alheias superam infinitamente aquela marca.

    É só lembrar das guerras de gregos e romanos, das grandes guerras mundiais, e das conquistas das Américas pelos portugueses e espanhóis, onde o número assombroso de ameríndios assassinados chegou a quase 100 milhões em somente 45 anos, além do extermínio de incontável número de africanos e índios brasileiros,

    Não houve nada de religioso nisto, está bem claro, mas sim mera ambição e outros motivos bem torpes. Ah, não esquecendo da bendita tecnologia das bombas atômicas sobre Hiroxima e Nagasaki! Ah, e também do municiamento de poderosas armas modernas aos extremistas religiosos para que combatam sempre, se matem com controle e comprem mais equipamentos bélicos cada vez mais sutis e eficientes na arte de assassinar milhares de uma só vez! A ciência bélica sempre se aperfeiçoa na arte de matar, e como isso rende ($$$)!!!

    A ciência não pode de forma alguma se meter a conselheira. Ela não conhece a alma humana como finge conhecer, pois alma não é matéria e a ciência é materialista. Como sempre os intelectuais céticos com seus sofismas e silogismos manjados, desejando passar-nos diplomas de burros!

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  8. Caio 30/08/2011 em 11:43 am

    Tem gente que realmente não entendeu a idéia central do livro, explicada nitidamente pelo André. A questão não é se o sujeito concorda ou não com a linha de pensamento do livro, a questão é que o cara nem mesmo entendeu a proposta do autor, mas, mesmo assim, escreve 3 ou 4 linhas para criticar algo do qual ele não tem conhecimento. São os males da internet. Triste.

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  9. Marco Aurélio Cidadão 23/02/2012 em 3:01 pm

    Atualmente as religiões rumam para um sincretismo, no brasil principalmente, os protestantes realizam rituais umbandistas dentre tantas outras adaptações e todas as religiões criticam a ciência, porque? é muito simples – MEDO, cada nova descoberta, cada avanço um mistério é desvendado, e o que são religiões e deuses, são lacunas de saber, a medida que as lacunas desaparecem as religiões encolhem, seus mitos desaparecem. O sol não gira em torno da terra, a terra não é plana, deuses não habitam os céus, nós e macacos primatas descendemos de um mesmo ser, o arco da aliança é um arco-iris decomposição prismática da luz, podemos criar outros seres através de manipulação genética, nós fomos ao espaço e deus só aos céus, e por ai vai e os mistérios de deus/es ficam cada vez menores, macacos que não acreditam em deus tem comportamentos morais e deus aonde fica, não fica se esvai lentamente, um dia esse deus se juntará a zeus, odin, apolo, e a todos os outros enterrados em um passado “tragicômico”, descrito em alguns livros de mitologia arcaica.

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