No segredo dos seus olhos desvendo a Argentina
por André Egg
Chegou às locadoras, e só agora assisti o laureado com o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010. Um grande filme, com tudo o que precisa para merecer um prêmio. Na verdade, tem muito mais do que precisa para merecer um prêmio, o que às vezes pode atrapalhar. Mas não foi o caso.
Em primeiro lugar, Juan José Campanella é um grande diretor – não hesito em colocá-lo entre os melhores da sua geração. Prova disso é sua filmografia, que já tem pelo menos 4 títulos muito relevantes: O mesmo amor a mesma chuva (1999), sobre o qual já comentei um pouco, O filho da noiva (2001), Lua de Avellaneda (2004) – preciso assistir este – e O segredo dos seus olhos (2010). Como todo bom diretor latino-americano, vive o terrível dilema de não perder a mão mesmo dirigindo tão pouco. Esse risco Campanella não corre, pois consegue como poucos equilibrar uma carreira criativa no cinema com outra em séries de TV, dirigindo vários episódios de Law and Order e House – prestigiadas séries do canal Universal.
Neste filme, como nos outros de sua maioridade filmográfica, co-escreve o roteiro, além de dirigir as filmagens. Aí entra mais um ingrediente: além da mão para dirigir a parte cinematográfica da coisa, tem o tino necessário para a construção da narrativa. E, exceto nos segmentos mais experimentais da linguagem cinematográfica, bom filme é geralmente sinônimo de boa narrativa.
Boa narrativa é coisa que se constrói tratando de relações humanas com o respeito à complexidade da vida. Saber incluir temas candentes como se fossem um mero detalhe na boa trama. Pra mim esse é o principal ingrediente da narrativa de Campanella.
Apenas para ficar num exemplo, considero que nos seus três filmes que assisti (O mesmo amor a mesma chuva, O filho da noiva e O segredo dos seu olhos) Campanella consegue passar a limpo a história recente da Argentina, especialmente as feridas abertas de seu desastrado Regime Militar e aquela horrível sensação de decadência experimentada pelo país em um longo continuum a partir da década de 1930 (mais aguda quando colocada em paralelo com o movimento inverso ocorrido no Brasil). Faz isso sem deixar a gente perceber. Como nos bastidores da redação de um jornal – e o personagem cafajeste vivido por Ricardo Darín em O mesmo amor a mesma chuva mostra o papel da imprensa que dobra-se diante do poder -, a crítica cultural que finge criticar, enquanto cobra para veicular opiniões favoráveis, os colegas de trabalho que não são capazes de ajudar um jornalista em apuros.
Ou como na trama por trás de um crime horrível, acontecido muitos anos atrás, que é o mote de O segredo dos seus olhos. O amor impossível entre Benjamin Esposito (Ricardo Darín) e Irene Menendez Hastings (Soledad Villamil) conduz a trama, capaz de incluir a paixão pelo futebol (Buenos Aires tem 6 clubes campeões mundiais), e o envolvimento até o pescoço do judiciário com a ditadura. Tema que no Brasil ninguém menciona. Aliás, passar a limpo o passado não é bem o forte da produção cultural recente no Brasil. Filmes como Lamarca, O que é isso companheiro ou mesmo Zuzu Angel prestam-se mais a um louvor pueril da guerrilha de esquerda, separando o bem e o mal de forma tão estanque que mesmo baseados em histórias reais os filmes não convencem.
Campanella segue o caminho oposto, faz da ficção a melhor maneira de contar a história do passado argentino, de acertar as contas com ele. E ninguém pode se queixar dele, afinal, o filme não é sobre isso – é sobre amores, sobre um crime, coisa de novela. A Argentina apenas está ali, sua história que não cala, suas feridas que não saram. Não há discurso político mais contundente – sendo sem sê-lo.
Além de tudo, Ricardo Darín já virou sinônimo de grandes filmes, e ainda não teve ninguém melhor para contracenar que a bela Soledad Villamil.
Por fim, mesmo sendo um filme sobre um crime hediondo e sobre um passado tenebroso, Campanella consegue a façanha de contar a história com leveza.
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Parabéns, André, pelo seu comentário, sobretudo por sua leitura em relação à obra de Juan José Campanella. “Bom filme é geralmente sinônimo de boa narrativa”. “O segredo dos seus olhos” seria o filme que exemplifica isso. “O filho da noiva” tbm é um belo filme e “O mesmo amor e a mesma chuva” um filme que todos deveríamos ver com esse olhar atento ao que vc disse no texto – tbm um filme muito bonito. E todos com o mesmo ator, e isso não incomoda nem um pouco. (rs)
Um abraço.
atribuiu-se a Hitchcock a definição que “cinema é igual a vida menos as partes chatas”…(da vida, nao do cinema)…no Brasil, como sempre, decidiram entender tudo ao contrario…devia ser proibido fazer filmes aqui de tão ruins que são…
Muito Bom. Soledad esteve aqui em Manaus ano passado pela época do festival de cinema. Eis uma mulher de talendo e simpatia. O CD dela é simplesmente demais. Canções e voz de primeira.
Bjs
Sue
Eu, que adoro cinema, mas não tenho nenhum conhecimento técnico a respeito, considero um bom filme aquele que tem um roteiro bacana e atores que parecem ter nascido pra fazer aquele personagem.
Então O segredo dos seus olhos se encaixa direitinho, ainda por cima saí do cinema pensando nas coisas que o filme conseguiu mobilizar em mim. Esse é o ponto que diferencia um filme ok de um filme bom, o que move em cada um de nós a partir do que vemos na tela. Um filme ruinzinho é de cara desmarcarado, apela, não mobiliza.