Mohamed Bouazizi, o herói de Nietzsche

-- Árabes prestam homenagem a Mohamed Bouazizi (1984-2011) --

por Diego Viana

Nem Assange, o indiscreto hacker australiano. Nem Zuckerberg, o ainda mais indiscreto empresário precoce da rede, como quis a revista Time. Nem Suárez, o goleiro fugaz dos pampas, sobre o qual ainda hei de escrever. O maior herói de 2010 foi um vendedor de frutas, ambulante e sem licença, natural de Sidi Bouzid, no interior da Tunísia. Chamava-se Mohamed Bouazizi e tinha 26 anos quando morreu.

O gesto heróico de Bouazizi foi um martírio que, em si, não tem nada de novo, mas sempre impressiona. No Vietnã de 1963, Thích Quảng Đức desceu do convento e, com toda a calma que se espera de um monge budista, imolou-se na praça mais movimentada de Saigon. Kennedy admitiu que a imagem daquele corpo se consumindo abalou o mundo. Na Tchecoslováquia de 1969, Jan Palach, estudante de filosofia, escolheu que sua existência não passaria dos 21 anos. De que valia viver sob o jugo soviético? Em 1989, a celebração de sua memória desaguaria na Revolução de Veludo, batendo um cravo no caixão da Cortina de Ferro.

É perturbador, mas parece que morrer dá resultado.

Algo na morte de Bouazizi é diferente. Talvez porque ele nem era um religioso preparado para o outro mundo, nem fez um pacto, como Palach, aliás descumprido por quase todos os colegas. Na manhã do dia em que se incendiou, Bouazizi não queria morrer, queria trabalhar. Teria preferido a dignidade de exercer sua profissão, era técnico em informática, mas se a ditadura tunisiana não lhe oferecia as condições econômicas para isso, sujeitava-se a vender frutas sem licença.

Nem isso a ditadura tunisiana lhe concederia. Tampouco a dignidade de ser abordado respeitosamente pela polícia. Bouazizi morreu porque não podia trabalhar, não podia sobreviver e não podia aceitar a humilhação de levar uma bofetada diante do confisco de sua mercadoria. O que ele tinha para pensar? Que espaço sobrava para a reflexão? Seu único recurso era o imediato. Diante da prefeitura, o fogo.

Daí por diante, a história é conhecida. Os tunisianos se sublevaram, 400 foram massacrados pela polícia, mas o ditador Ben Ali caiu. Os egípcios passaram dezoito dias ao ar livre, apanhando de capangas da tirania e suportando um discurso vacilante do poder apodrecido. Mas o ditador Mubarak caiu (vamos ver o que acontece com o regime como um todo).

Apesar dos protestos em uma dúzia de países árabes, nada indica que outros cairão. Mas quem sabe? A energia coletiva se transmite em ondas, numa vibração que se expande quase sem dar na vista. Spinoza já dizia, Tarde já dizia, Deleuze já dizia, deveria ser óbvio por agora. Talvez todos os árabes consigam sua democracia, ou então serão massacrados mais uma vez.

Aos historiadores: olho nos jornalistas.

Mas voltando a Mohamed Bouazizi: o que seu suicídio tem de único é que foi um gesto de transbordamento de vida. Coisa de quem tinha o caos dentro de si para gerar uma estrela. Ou uma revolução.

Pode parecer paradoxal, mas é o aspecto mais belo da história contada na África em 2011. Bouazizi foi quase um herói nietzschiano. Bouazizi morreu porque sua vida não cabia na lata de sardinha que a tirania lhe oferecia. Ele não sabia disso, como o sabiam ou ao menos intuíam seus antecessores vietnamita e tcheco. Sua vida vibrava de dentro para fora. Humilhação, frustração, aniquilamento, não eram para ele.

A rigor, não são para ninguém. Mas foi necessária a explosão de uma vida para incendiar centenas de milhões de outras almas, filhas, netas e bisnetas de gente que até então não conheciam muitas outras palavras a fundo. Só humilhação, frustração, aniquilamento. Bouazizi morreu e infundiu vida em quem estava amortecido. Foi o funâmbulo que caiu, mas cuja multidão, no lugar de humilhá-lo, absorveu a matéria carbonizada de seu corpo e partiu para mudar o mundo. Outros morreram, mas nada mais poderia pará-los: impossível morrer mais do que o primeiro herói.

Todo mundo se lembra de Nietzsche quando um maluco qualquer, um Raskolnikov afásico nos cafundós da América profunda, se toma por um “super-homem” com espinhas e sai metralhando por aí porque se acredita “acima” do bem e do mal. Mas a hora de lembrar de Nietzsche, na verdade, é agora. Como Zaratustra (na versão do filólogo alemão), Mohamed Bouazizi morreu abraçando a terra.

Alguém poderia objetar que a terra de Zaratustra era a matéria de que somos feitos, nossa argila, nossa carne. Mas a terra que o Bouazizi moribundo abraçou também era dessa terra. Era o pó de que viemos e para o qual voltaremos. Era sua terra. Das montanhas de Atlas ao delta do Nilo, do Saara à costa do Mediterrâneo. Todo esse território de história milenar adquiriu vida como os gigantes cadmeus, depois que foi abraçado pelo rapaz a quem não deixariam viver, então de presto, desafiador, não viveu.

Mas morreu em nome da vida. Nem que fosse a vida dos outros.

31 comentários | Dê sua opinião

  1. Dandi Marques 12/02/2011 em 3:29 pm

    Primoroso, Diego. Parabéns!

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  2. Hugo Albuquerque 12/02/2011 em 9:24 pm

    Diego,

    Belíssimo texto. Recentemente, eu escrevi sobre o gesto do sacrifício de Bouazizi: Revoluções não ocorrem por conta da simples existência de opressão econômica e política, tampouco como fruto de nenhuma “conscientização”; é necessário que algo aconteça e desperte o desejo das pessoas, no caso tunisiano – que produziu essa onda pelo Mundo Árabe – nós tivemos dois fatos marcantes, um foi a atuação dos ciberativistas mostrando que as pessoas não tinham motivo para ter medo – o Rei estava nu – e, depois, a auto-imolação de Bouazizi que reforçou ainda mais isso; por que ter medo de morrer se, na situação atual, já estamos todos mortos mesmo? Já dizia Spinoza que os tiranos – assim como os sacerdotes – têm a necessidade de manter seus súditos tristes, quando eles perdem essa capacidade, perdem tudo, o sacrifício de Bouazizi foi o movimento que mostrou que o sistema já não era mais capaz de amedronta-lo e que sempre há uma saída, nem que seja morrer pelas próprias mãos. Um pequeno ato com grandes consequências, sem dúvida.

    abraço

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    • Diego Viana 13/02/2011 em 11:21 pm

      Vi os textos lá do Descurvo, que, por sinal, anda sendo “censurado” pelo meu Google Reader (entre outros blogs, por sinal. O Milton Ribeiro também não chega mais há meses, por algum motivo). São o que de melhor tenho visto sobre a (possível) revolução árabe escrito por gente que não esteve lá pessoalmente…

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  3. Bruno Cava 12/02/2011 em 11:14 pm

    Salve, Diego,

    A imagem do sacrifício e sua transfiguração em signo político me parece o oposto de uma ética afirmativa. Imolar-se por idealismo, para inspirar os outros, não pode ser abraçar a terra, mas o além dela.

    A força pictórica do crucificado estabiliza a morte e a repete interminavelmente.

    Não entendo como tal gesto, que emula o Cristo paulino, possa escapar do viés religioso. Bouazizi se mata para o futuro, para uma realidade que ainda não existe, mata pelo além. Não se trata de uma carga trágica, de um “final stand”, de uma autodestruição na luta e no estertor, mas de suicídio RITUALIZADO. A ritualização do suicídio, a instrumentalização do mesmo como veículo de protesto, contém uma lógica de crime, de assassinato premeditado. E se foi por falta de esperança, aí sequer chega a suicídio ritualizado, mas a ato de impotência e prostração.

    Não vejo aí, nem em Jan Palach nem nos monges tibetanos nem nos mártires da al-Qaeda nem nos cruzados templários, um “transbordamento de vida”. Vejo sim o estabelecimento de uma hierarquia transcendente, onde o valor do futuro sobreleva ao do presente.

    Vale também questionar: até que ponto essa imolação desencadeou os eventos. Muitos também se suicidaram no Egito e em outros países. Por que a mídia se aferrou a esse evento particular? seria pelo efeito espetacular? seria pelo reducionismo? seria por comodidade de encontrar causas fáceis onde há complexidade? seria para esconder as razões socioeconômicas e políticas?

    Por amor ao debate, e porque o tema me é apaixonante, vale este artigo na Revista Multitudes, que talvez até corrobore o argumento do artigo:

    http://multitudes.samizdat.net/Pour-que-d-autres-Bouazizi-soient

    Parabéns!

    Um abraço.

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    • Diego Viana 13/02/2011 em 3:39 pm

      Salve, Bruno;

      Acho que a sua objeção seria perfeitamente válida nos casos de Jan Palach ou do monge tibetano. (Al Qaeda e cruzados passam longe do caso.) Palach fez um pacto com os amigos mas foi praticamente o único a cumpri-lo, morrendo. Foi uma atitude política explícita e planejada e, cá entre nós, ele foi o “otário” da história… O mesmo vale para o monge, que desceu de carro para a cidade com a gasolina no porta-malas. Nos dois casos, eram martírios com vistas a uma redenção e a sua analogia com a doutrina redentora do cristianismo é forte.

      Mas, e talvez isso não tenha ficado claro na redação do meu texto (que não é nenhum ensaio, convenhamos), tentei marcar uma distinção profunda no caso de Bouazizi. Procurei em diversas fontes e em nenhuma delas encontrei qualquer coisa diferente disto: o rapaz se matou sem pensar em gesto político, sem fazer qualquer referência a si próprio como um mártir, sem nenhuma menção a religião ou transcendência de qualquer ordem. O que tem de particular no caso tunisiano é que, segundo o relatado, esteve na prefeitura para reaver seu material, não para protestar, e diante da humilhação, se matou com combustível (thinner, segundo alguns; gasolina, segundo outros) comprado ali na hora. Menos e uma hora depois de ter sido espancado, cuspido e xingado pela polícia. Talvez tenha sido um suicídio mais espinozano que propriamente nietzschiano, porque é, no fundo, uma questão de afetos, e não fiquei surpreso ao ler o comentário do Hugo aí acima mencionando o velho Bento. Mas acredito que a imagem vale mesmo assim.

      O caráter político do acontecimento não passou pela cabeça do garoto, e é por isso mesmo, na minha opinião, que pôde desencadear a avalancha política que desencadeou. Talvez porque penetrou no mais fundo da existência política, isto é, o corpo, sem se ater à arena reservada para o quotidiano normalizado dos embates políticos.

      Por outro lado, Bouazizi inspirou mais de uma dezena de epígonos, na Tunísia e no resto do mundo árabe. Não tiveram a mesma sequência, na minha opinião, porque foram gestos projetados politicamente, como você sinalizou aí acima. Aliás, uma confissão. O que primeiro me motivou a escrever foi um outro caso que pensei ter sido o de Bouazizi, mas acaba que foi de um rapaz de quem não se sabe nem o nome (já vi três notícias com três nomes completamente diferentes). Depois de apanhar da polícia, como Bouazizi, ele não teve nem a presença de espírito de comprar gasolina. Simplesmente meteu a mão num transformador. Juro que, se um dia eu for roteirizar essa história (nunca vai acontecer), vou misturar as duas histórias. A narrativa ficaria mais poética…

      Obrigado pelo artigo. Alguém no e-group da Multitudes mandou uma lista de artigos sobre o caso, incluindo um do Negri. Vou procurar e posto aqui.

      Abraço
      Diego

      PS: Acho que esse caso chama mais a atenção por ter sido o primeiro de uma onda, ao passo que os outros foram só epígonos. Em todo caso, desencadear não é causar! Nada teria acontecido se um maluco simplesmente se imolasse sem que houvesse, não apenas causas históricas e sócio-econômicas, mas também um ponto de hiper-saturação.

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  4. elder silva 13/02/2011 em 2:10 pm

    Muito bom…
    Vamos onde isso tudo termina, ou melhor, se termina…

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  5. Catatau 13/02/2011 em 3:22 pm

    Muito bom o texto! E interessante a pergunta do Cava…

    Mas se entendi bem, o que há de afirmativo no suicídio de Bouazizi? Talvez seja importante perguntar ao que ele extravasa: pelo que entendi, ele extravasa uma vida insuportavelmente comprimida por constrangimentos cotidianos e encravados na carne. Bouazizi não é Cristo pregado, ele não emula um ritual de crucificação, mas sim é um condenado estourando seu próprio calvário. Ele NÃO QUER que o teatro se desenrole, ele estoura o próprio teatro. Algo que só quem vive esse tipo de coisa (no caso da tunísia, milhares) compreende. E o que é esse aí, esses constrangimentos “na carne”? Eles envolvem constrangimentos cotidianos, institucionais, sociais, midiáticos, intersubjetivos, enfim, constrangimentos que afetam o indivíduo em todas as sensações, desde o que ele tem junto à pele até o que come, ouve, vê ou sente. Pelo que pude entender o texto de Diego, é isso tudo que Bouazizi extravasa. Ele rompeu, explodiu os rituais que o enquadrariam nos termos da resignação. Foi uma medida insuportável contra uma vida insuportável. “Eles” não poderiam avançar ainda mais.

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    • Diego Viana 13/02/2011 em 7:50 pm

      Puxa, Catatau, você resumiu o argumento tão lindamente que tornou meu texto desnecessário… :-)

      A propósito, só é preciso frisar que a “vontade” em questão não é uma intenção política, consciente, determinada. É antes um conatus.

      PS: Enquanto isso, no blog, onde o texto foi publicado originalmente, nem uma linha de debate…

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  6. Bruno Cava 13/02/2011 em 5:47 pm

    Mestre Diego, eu concedo em quase tudo nessa sua réplica tão inteligente, inclusive na nota distintiva desse caso (ritualizado mais pela mídia do que pelo suicida), menos em tomá-lo como herói da revolução.

    O herói desafia a hybris mas não se mata: é morto. Afirma uma desmedida, e é engolido por ela implacavelmente. Existe diferença, existe um limite entre a coragem heróica e o suicídio. Mas, talvez, de fato confira uma espessura dramática que chame às pessoas ao conflito, que lhes dê a dimensão de concretudo e pulsação de uma revolução dessas. Aquilo terminou em festa, mas se construiu com sangue e pedras, com quem lutou na frente das multidões, levando porrada, gás, ducha e mesmo tiro de fuzil.

    Abração,

    Bruno.

    PS. O texto do Negri está traduzido em http://www.outraspalavras.net/2011/02/10/carta-a-um-amigo-tunisiano-por-antonio-negri/

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    • Diego Viana 13/02/2011 em 7:48 pm

      Bruno, você tem razão, herói não é a melhor palavra. Vamos considerar seu uso aqui como uma concessão ao lirismo… Em todo caso, não narrei isso (na verdade, cheguei a redigir, mas cortei porque era um nariz-de-cera ridículo), mas o nome de Bouazizi surgiu como “maior herói de 2010″ numa competição anual que realizo com um amigo dos tempos de França. Os concorrentes maiores eram Julian Assange e Suárez, ele mesmo, o uruguaio. Acabamos elegendo Bouazizi, mais pela força simbólica do que por uma definição rigorosa do termo “herói”.

      Em todo caso, acabei me lembrando de mais um contra-exemplo: a greve de fome. Quer coisa menos nietzschiana e mais paulina que uma greve de fome? Seu eu fosse um ditador e fizessem greve de fome contra mim, só de sacanagem eu ofereceria o soro fisiológico…

      Obrigado pelo Negri!

      Aquele abraço,
      Diego

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      • Diego Viana 13/02/2011 em 11:16 pm

        E agora finalmente achei os links dos textos…

        >> Chères et chers ami e s,
        >>
        >> Vous pouvez consulter en accès libre sur Multitudes Web trois articles
        >> consacrés à la Tunisie :
        >>
        >> – de Kmar BENDANA
        >> http://multitudes.samizdat.net/Pour-que-d-autres-Bouazizi-soient
        >>
        >> – de Frédéric BRUN http://multitudes.samizdat.net/La-revolution-en-Tunisie
        >>
        >> – de Toni NEGRI http://multitudes.samizdat.net/Lettre-a-un-ami-tunisien

        Responder
      • Bruno Cava 14/02/2011 em 11:24 am

        Salve, Diego,

        Apenas para não perder a prática, — e para robustecer ainda mais este tópico tão rico, — segue link para texto do filósofo Rodrigo Guerón ao Le Monde Diplomatique, criticando, em termos de uma ética afirmativa da vida, a greve de fome de Dom Cappio quando do debate da transposição do Rio São Francisco, em 2007. No link, tem também a opinião contrária, escrita por Frei Betto.

        http://diplo.org.br/2007-12,a2126

        Abraços.

        Responder
        • Diego Viana 14/02/2011 em 8:56 pm

          Belíssimo texto o do Guerón. Do ponto de vista puramente técnico, não sei o que pensar sobre a transposição do São Francisco, então deixo de lado a questão “a favor” ou “contra”. Mas a análise que ele faz da greve de fome é brilhante, em que pese talvez ser uma certa forçação (adoro essa palavra) de barra associar tão diretamente a greve de fome à fome per se. Talvez seja o caso de iniciar, também, uma reflexão sobre a greve de fome como gesto político na mesma proporção em que qualquer outro gesto messiânico ou, de maneira geral, religioso é sempre um gesto político. Na medida em que o cristianismo é uma religião essencialmente arraigada sobre o corpo (seu aniquilamento, sobretudo), o alcance político de uma greve de fome espelha ao alcance político da religião como um todo. Não é um alcance pequeno, como bem sabemos… Ou seja, da perspectiva da gramática cristã, a greve de fome é um correspondente político da penitência, mais precisamente dos jejuns; se estes últimos aniquilam brevemente o corpo em nome de um descentramento que se hipostasia numa transcendência individual, os primeiros o aniquilam en nome de um descentramento de transcendência coletiva, fundadora de comunidade (ecclesia, diria Paulo de Tarso) nos moldes dessa gramática específica. Não deixa de ser uma reflexão interessante a se fazer… qualquer dia desses.

          PS: O argumento contrário é do Leonardo Boff.

          PS2: Já o Garotinho fazendo greve de fome é só piada, mesmo.

          Responder
  7. Felipe 13/02/2011 em 9:19 pm

    Mas Bruno, esse herói que desafia a hybris também, em certa medida, está cometendo um suicidio, ou não? Até porque sabe ele, que em determinado momento será engolido implacavelmente, como vc disse.

    É um suicidio também. Acho que esse limite é muito tenue.

    Entendo a diferença do lutar e do se suicidar, mas talvez nós ocidentais fiquemos perplexos com essas formas de luta, como o caso dos japoneses que se suicidavam antes de se entregarem ao inimigo, apenas por honra, ja que estar nas mãos do inimigo era pior que a morte. A “paz” vem antes da vida!! Para nós ocidentais é dificil entender essa lógica. Porque colocamos a vida acima de tudo, só aceitamos perde-la numa guerra, num confronto!! Alias, temos uma tendencia a enxergar o suicidio mais como uma ato de covardia do que como um ato de revolta e porque não, de luta também!

    Não sei, em parte considero o rapaz um herói. Entendo a sua colocação, mas existem formas de lutas variadas e nós ocidentais achamos que lutar é ir para o embate sempre, é confrontar. E quando vemos uma ação dessa ficamos pasmos, a tendencia é sensacionalizar ou minimizar.

    Como disse o existencialista Sartre – “não importa o que fizeram com vc, importa o que vc faz com aquilo que fizeram com vc”……analisando essa frase, penso que o rapaz deve ter ficado chocado com o que fizeram com ele e pensou “agora que fizeram isso comigo eu vou chocar eles mais ainda”…..querendo ou não, isso é um ato político e revolucionário muito forte……e sua intenção, na minha opinião, não era o alem coisa nenhuma, era chocar a vida mesmo, a terra, o real, a existencia, o mundo vivo!!! Pura revolta!!!! Pra poucos!!

    Se o mundo é chocante com as suas injustiças eu vou chocar o mundo mais ainda, vou desprezar a minha própria existência!!! É um questionamento forte, intenso e na minha opinião extremamente político, porque cutuca a raiz do sistema vigente!!

    abs

    Felipe

    Responder
    • Bruno Cava 14/02/2011 em 11:31 am

      Salve, Felipe,

      Concedi ao autor quando ele trouxe a distinção camuseana entre crime de lógica e de paixão. Camus sempre considerou o suicídio como um assassinato, tão mais terrível quanto maior a lógica que conduziu ao ato. O crime de paixão, para o escritor francês, não gera o mesmo repúdio. Daí sua completa repulsa pela pena de morte ou por qualquer forma de assassinato/suicídio ritualizado.

      Mas não objetava por causa da autopreservação, e tampouco consigo pensar nessa clivagem ocidente/oriente. Vida implica também sofrimento e luta e risco, e a autopreservação captura somente o seu lado reativo, como proteção.

      Mas ainda que seja tênue, é preciso insistir na diferença entre expor-se temerariamente à morte e o suicídio. Por quê? O suicídio é uma ação de nossa consciência que destrói algo que a excede, que a ultrapassa, a uma vontade que a consciência é tão-somente expressão.

      Daí a argumentação do autor (dissociar o suicídio de Bouazizi de um ato planejado e consciente) tenha sido tão inteligente e, em certa dimensão, neutralizou a minha primeira contestação. Se foi, como escreveu Catatau, uma revolta descontrolada, um grito de raiva, uma vontade além do consciente, resta pouco de lógica aí e muito menos de ato deliberado de destruição do corpo.

      Mas, ainda assim, há diferença entre lutar até a morte, ou lutar sabendo que o resultado final é a morte, e o suicídio.

      Abraço!

      Responder
      • Bruno Cava 14/02/2011 em 8:34 pm

        Errata: Camus da literatura francesa, mas nasceu na Argélia! :-)

        Responder
      • Diego Viana 14/02/2011 em 9:11 pm

        Estou aprendendo pacas com esse debate. É por essas e outras que a internet é uma cachaça.

        Não sei se trazer Camus para a questão vai ajudar muito. Afinal de contas, não se trata de estabelecer uma “escala” da morte, muito menos um julgamento moral a respeito do suicídio, coisa que Camus, aliás, deveria ter evitado, resguardando pelo menos um pouco de sua, por assim dizer, “herança” existencialista. Aproveitando o gancho do Felipe, mais a resposta do Bruno: não precisamos nem ir tão longe quanto a Ásia; em diversas configurações sociais o suicídio é parte constituinte da gramática da vida, a começar por Roma, onde Brutos e Sêneca, por exemplo, se mataram por motivos completamente diferentes. Como pensar isso sem impor categorias estranhas a um meio que tinha seu próprio funcionamento e sem julgar todo um universo social que nos é estranho e que, vamos colocar assim, “não está mais aí pra se defender”? Se o suicídio se encaixa numa gramática como a romana, por exemplo, onde a vida remetia à ligação com os ancestrais e podia reencontrar seu valor perdido pela morte ritual, em nome de uma linha mantida válida na figura dos herdeiros: o que se pode dizer a respeito? Isso é antes um problema para o pensamento do que um parâmetro de comparação, e é por isso que eu acho que tanto o Felipe quanto o Bruno pisam num terreno minado. E sem necessidade.

        No caso particular de Bouazizi, acho que a questão está menos numa leitura do ato em si do que em enxergá-lo dentro de um quadro de afetos. Talvez a morte propriamente dita tenha sido apenas a constatação, a decorrência singular, mas longe de absurda, do fato de que os (para usar a expressão de Spinoza) afetos inadequados abafavam e aniquilavam inteiramente a potência do cidadão singular tunisiano, no caso, um jovem técnico em informática transformado em feirante ilegal. É a tristeza, como diz aí em cima o Hugo, lembrando que “tristeza”, em Spinoza, tem um sentido muito forte.

        O fato de que o resto da população se rebelou parece corroborar essa leitura: a partir dessa explosão, dissipa-se nos outros tunisianos e árabes justamente essa tristeza, tornam-se ativos, positivos, potentes.

        Responder
        • Bruno Cava 15/02/2011 em 8:34 am

          Salve, Diego,

          Camus escreveu ‘O Homem Revoltado’ em 1951, quando todos ainda tentavam entender como o nazismo fora possível, e boa parte da esquerda fechava os olhos ao estalinismo, mantendo as armas da crítica afiadas somente no colonialismo. Mas Camus, como Orwell, incluía no saco os regimes do socialismo real (capitalismo de estado). A distinção crime de lógica x paixão é mais do que mera hierarquia de morte — um livro de 350 páginas considerado por alguns o melhor do século 20 e que fundamentou o Nobel do autor temos de conceder seja mais do que isso.

          A distinção crime de lógica x crime de paixão está inserida numa longa genealogia da revolta. Como ela nasceu das lutas dos escravos e da recusa da finitude, ancoradas na generosidade e na sensualidade dos corpos, até chegar ao niilismo nas grandes ideologias do século 20, que cultuam o nada das abstrações e com isso justificam homens-bomba, matança em massa, campos de concentração. A trajetória da revolta perpassa a racionalização do crime, a ritualização da morte, a repetição interminável (estabilizada pictoriamente) do assassinato.

          Embora Camus critique Nietzsche, junto das “idéias alemãs” (romantismo, Sturm und Drang, poesia maldita etc), ele na verdade está bem próximo do menos germânico dos filósofos germânicos. Ambos os pensadores negam validade a utopias assassinas e idéias desapegadas do sentido da terra.

          O homem consciente não se suicida, ele se assassina. Porque não é a consciência aniquilando-se. É a consciência aniquilando um corpo que é mais do que ela. Um corpo que não só biológico, mas se constitui nas relações, nos afetos, nas trocas. Um corpo político que resiste e afirma, e que não por acaso o poder tente a todo momento disciplinar e docilizar no corpo do estado, no leviatã, no povo. O argumento de Camus, que não refoge a Nietzsche,m está em que o suicídio será sempre assassinato, — ainda que não seja crime de lógica, mas de paixão. Assassina o corpo, do qual a consciência é somente uma dimensão, uma expressão limitada e, em termos nietzchianos, reativa. A consciência do homem é o que ele recalca pra dentro, o que o condiciona e esmaga, o que produz culpa, ressentimento, vingança, o que se arrepende. Por outro lado, o que afirma no homem, o que vem e pega e arrasta-o à revolução, não pode ser a consciência (a reflexão não gera a ação, mas tenta pautá-la de fora), isso que é destruído no suicídio. O que afirma no homem tampouco é o inconsciente. É uma força que es´ta dentro e fora, é uma vontade que confere sentidos e valoriza os valores e, para não ficar muito teórico, é o que vem e nos leva junto, nos arrebata.

          Então Bouazize não afirma, mas é afirmado, e nisso se enquadra o suicídio dele, se o suicídio tiver sido causado precisamente por essa convulsão do corpo, pelo extravasamento de afetos que o atravessa e o força a cometer o “remédio derradeiro”, por essa coisa que afirma no homem (e não que a consciência afirma). Ou seja, a menos que a vontade de potência produza um ato que, exteriormente, seja entendido como suicídio, e assim explode o corpo político-social, como escreveu de modo sintético o Catatau, — e junto disso explodem os diques da revolução.

          Concordo que a análise ética do ato esteja atrelada à análise política da revolução, mas é relevante ver por ambos os lados e como os lados se articulam.

          Ainda no tema, saiu hoje o relato do escritor Eduardo Labarca sobre o “suicídio” de Allende:

          http://www.elmostrador.cl/noticias/pais/2011/02/15/la-nebulosa-muerte-de-allende/

          Abraços!

          Bruno.

          Responder
          • Bruno Cava 15/02/2011 em 8:39 am

            Pra não perder a viagem: minha resenha de “O Homem Revoltado”: http://bulevoador.haaan.com/2010/12/10/a-revolta-de-albert-camus/

            Responder
          • Diego Viana 15/02/2011 em 9:06 pm

            Acho que me expressei mal, mais uma vez; jamais faltaria com o respeito a Camus. O que acho é que não é o caso de trazê-lo para a questão, e ao fazê-lo arriscamos hierarquizar as mortes. E isso é um risco, na minha opinião, primeiro pelos motivos que o Catatau já adiantou, mais uma vez, aí abaixo, e depois por duas palavras que estão no seu comentário e que acho problemáticas neste contexto: paixão e consciência.

            Camus fala justamente para o homem consciente, e revoltado enquanto consciente da revolta. Mas o caso desse rapaz nem chega a isso. Primeiro precisamos enfatizar uma noção muito mais primária de consciência, o descentramento imediato de quem está vivo e se individuando constantemente. Nesse estágio, ainda é problemático o processo de constituição das “consciências de…” (aquilo que Simondon vai chamar de transindividual) e não vejo muito como julgar atitudes a um nível em que as referências estão em aberto. É por isso que, ao meu ver, mais vale recuar e tomar o termo “paixão” em seu sentido estrito de afetos recebidos. Observe, por exemplo, que na crítica de Spinoza a Descartes consta esse detalhe imprescindível: o “celebérrimo” (como diz Spinoza) Descartes se esqueceu de que abstrair-se das sensações para concentrar-se na consciência é um ato profundamente afetivo. E ele faz isso para poder estabelecer um quadro de referências inteiramente fundado sobre a consciência pensante (o que, diz Spinoza, só demonstra o enorme poder de sua mente). Extrapolando, no gancho de Camus, esse quadro seria paralelo a outros, fundados sobre “consciências crentes”, “consciências lucrantes”, “consciências combatentes”, “consciências trabalhadoras”, “consciências revoltadas”… Enfim, éticas; sistemáticas, herméticas, homeostáticas. No limite, niilistas.

            Lembremos de que, no caso de Bouazizi, o quadro em que ele estava inserido, a configuração social da ditadura tunisiana, reservava ao seu corpo um papel de massa amorfa, mas produtiva, e à sua consciência o papel de consciência auto-devoradora, porque o silêncio absoluto é auto-devorador. E a questão passa a ser: dentro de um quadro de referências em que todo afeto possível é paixão e paixão inadequada (pra ficar no termo de Spinoza), triste, devoradora, o que faz Bouazizi? Na minha leitura, ele simplesmente implode, para mim esse suicídio é uma implosão, e é por isso que é diferente do de Jan Palach, por exemplo.

            O que me fascina é que foi essa implosão que forneceu às consciências dos demais árabes um quadro de referências. Foi ali, naquele desaparecimento súbito e puramente afetivo, que eles puderam se revoltar, tomar “consciência de”. De quê? Do poder político inerente a seus corpos, começando pelo poder de resistir, passando pelo poder de enfrentar a aniquilação em nome da justiça e da liberdade. Foi aí que eles puderam se arriscar, levar porrada, tomar tiro, acampar na praça. O descentramento pôde vislumbrar uma configuração que até então estava velada, e pôde ambicionar configurá-la também.

            Aproveitando: belíssima resenha!

            Aquele abraço,
            Diego

            Responder
        • Catatau 15/02/2011 em 9:52 am

          Enfim, parece interessante colocar que o caso do Bouazizi de repente não tem a ver com a discussão sobre “o” suicídio (no sentido de que não caberia cogitá-lo em uma sociedade como a nossa, ou como a deles), mas sim sobre modos possíveis de luta.

          O Cava diz: não seria melhor lutar até a morte? Aí vem algo muito interessante: ele já não lutava – invertendo o termo – até o limite pela vida? Os tunisianos e, enfim, qualquer pessoa que vive nas condições de Bouazizi – garanto-lhes que no Brasil há muita, mas muita gente vivendo ainda assim, embora graças aos Céus o rumo do barco tenha mudado – não empreendem uma luta todos os dias, luta privada ao mesmo tempo circulando nos códigos estabelecidos mas tentando quebrá-los em nome, sei lá, uma “vida melhor” por exemplo? Vejamos que essa luta é viciada, a própria “vida melhor” já é codificada, ritualizada. Mas e então, como se passa da luta privada para a luta “pública”, essa estourada de todos os tunisianos? Aí que está a sacada do Diego que pareceu muito boa: pelo que entendi, ele não pensa “o” suicídio, mas “aquele” suicídio particular e seus efeitos, diante de condições tornadas insuportáveis. Em termos “nietzscheanos” não vale muito falar “do” sucídio, mas daquelas composições específicas de forças e dos devires agenciados por elas. Como Diego disse, em outras circunstâncias seria só mais um morto (como de fato há tantos por aí e nem sabemos). Mas ali, daquele jeito, não foi apenas um suicídio, mas um sacrifício, e um sacrifício não ritualizado, um sacrifício a quebrar o próprio ritual de sacrifício.

          Agora, invertendo tudo: é curioso como hoje há sim um certo sentido no suicídio em geral. Até menino bomba começa a aparecer (embora isso não seria propriamente um suicídio…). Não seria o suicídio “político” uma espécie de correlato, irmão siamês, das sociedades de controle? Não representariam todas essas mortes o exato extravasamento do poder sobre a vida? Claro, é bem diferente o suicídio político do terrorista, o de Bouazizi ou o de tristes ocidentais anônimos. Também não é certo que a composição de poderes nessas sociedades se coloque rigorosamente sob o termo “controle”. Mas não é curioso o suicídio ter alçado primeiro plano? Suicídios inauguraram nosso milênio, por exemplo. E agora outro suicídio desencadeou vários levantes. Certamente matar-se não diz respeito a uma medida recomendável, mas não é curioso seu emprego recorrente?

          Responder
          • Diego Viana 15/02/2011 em 9:12 pm

            Catatau, obrigado pela tradução, foi isso mesmo que eu quis dizer.

            Mas eu teria que parar para pensar nessa hipótese de correlação com as sociedades de controle… Não sei se é tanta novidade assim o suicídio como instrumento de guerra e de política. Mas talvez seja um efeito colateral de um sistema biopolítico plenamente desenvolvido. Não estou afirmando, só tentando seguir o caminho que você abriu. Boa lembrança: um imenso suicídio coletivo abriu nosso século, mas foi um suicídio que jamais se tomou por aniquilação, mas pela promessa de uma redenção transcendente. Aliás, transcendente, mas ainda assim afetivo: nada mal, aquelas dezenas de virgens, hein?

            Aliás, se eu fosse fazer uma jihad, sinceramente dispensava a virgindade…

            Responder
  8. Felipe 14/02/2011 em 2:11 pm

    Valeu Bruno pelo esclarecimento e pela inteligência.

    abs

    Felipe

    Responder
  9. Sarah Micucci 20/02/2011 em 1:51 pm

    Diego, está absolutamente de parabéns!
    Gosto muito dos fatos também, e claro, da crítica. Só que não dispenso a mitologai grega. Ela, antes de tudo. É um caso de paixão.
    Conheça meu site:
    http://imperiodosdeuses.blogspot.com/
    Adorarei ter a honra da sua visita. E crítica, se possível.
    Um abraço,
    Sarah Micucci (escritora)

    Responder
  10. Diego Viana 07/03/2011 em 1:01 am

    Porra, esse Robert Fisk andou lendo o Amálgama e nem deu crédito:

    And we will, I feel sure, have to redefine the nature of the act which lit the proverbial – and the real – match: the immolation by fire of Mohamed Bouazizi who, crushed by both the state and its corruption and then slapped by a policewoman, chose death to the continuation of qahr – which in English might be translated as “total powerlessness”. He preferred, as Tunisian psychoanalyst Fethi Benslama has remarked, “annihilation over a life of nothingness”. Bouazizi, however, will not join the list of al-Qa’ida’s favourite martyrs. He took no enemy lives with him; his jihad was one of despair, which is certainly not encouraged by the Koran. He provided proof that a suicider can unwittingly produce a revolution and become a martyr for an oppressed people rather than for God. His death – though I know I will be told that this decision is up to a Higher Authority – gave him no assurance of paradise; thus his act must be regarded as politically more important than that of the suicide bomber. He was, in fact, an “anti-kamikaze”.

    Tirado daqui: http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/robert-fisk-the-tunisian-whose-ijihadi-was-for-the-people-not-god-2232981.html

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  11. Pingback: Fotografia: o rosto da multidão na Tunísia | Quadrado dos Loucos - Prosa, crítica, crueldade e desejo.

  12. Vinícius Garcia 21/12/2011 em 11:54 pm

    Penso que o ato de Bouazizi pode ser interpretado à luz da filosofia de Nietzsche se o compreendermos como um ato que constitui um elo em uma cadeia de eventos. Nietzsche foi um dos mais contundentes críticos da noção de livre-arbítrio. O comportamento de um animal humano, assim como o comportamento de animais não-humanos, é determinado por uma história de relações entre o organismo que se comporta e o mundo, ou seja, eventos anteriores determinam nosso agir.

    Bouazizi, em sua mensagem derradeira no Face Book, atribui a motivação de seu ato “às circusntâncias”. Em suas próprias palavras, aqui reproduzidas: “Culpe a era em que vivemos, não a mim.”

    Paul Rée escreveu um livro muito bom em que questiona a noção de livre-arbítrio e antecipa muitas e muitas noções posteriormente mais bem investigadas e abordadas por B. F. Skinner. Traduzi a primeira parte e postei em meu blog, Novas Contingências:

    http://novascontingencias.blogspot.com/2011/07/determinismo-e-ilusao-da.html

    Responder

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