Inconsciente a céu aberto

-- "A psicose", de Andréa M. C. Guerra --

por Vanessa Souza

A editora Zahar tem uma coleção de livros pequenos, leves e que vão direto ao ponto: Psicanálise – Passo-a-passo. Tenho alguns – e recomendaria todos. Acabo de ler A Psicose, da Andréa Máris Campos Guerra, psicanalista, pesquisadora, professora na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutora em teoria psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A loucura (leia-se a psicose) sempre despertou fascínio, medo e curiosidade. Seja para artistas, leigos ou estudiosos da mente humana. O pintor Hieronymus Bosch retratou-a belamente em “Nau dos loucos”. O cinema traz personagens ímpares para ilustrar a psicose. A psicanálise também dedicou-se ao tema, começando por Freud e tendo Lacan aprofundado em demasia.

Na teoria freudiana, aprendemos que na esquizofrenia (um tipo clínico da psicose), as palavras são tomadas como coisas. Pois há um investimento exacerbado nas representações destas palavras, que não são inscritas de forma representada no inconsciente do paciente.

É essa a diferença determinante na psicose. O que é vivido como traumático, como afetivamente intenso pelo psicótico, não ganha uma representação capaz de favorecer o escoamento energético ou a vinculação desse excesso a uma ideia, a uma representação. As palavras são reais. (p. 14)

A autora explica de forma clara a diferença entre a neurose (lembrando que neuróticos somos todos nós, disse Freud, em maior ou menor grau) e a psicose. Enquanto na neurose o conteúdo traumático é recalcado (ou enviado ao inconsciente), e o recalque retorna, sob a forma de sintoma (no corpo) ou como pensamentos (angústia). Já na psicose, um fragmento ruim da realidade concreta é rejeitado e substituído por um delírio. A diferença se daria não no rompimento com a realidade, mas na forma de restaurá-la.

Para Freud, em resumo, os psicóticos eram inanalisáveis, pela sua incapacidade de estabelecer a transferência entre analista e analisante. Lacan discorda e cria sua clínica da psicose, dedicando um seminário (1955-1956) para o tema, embora já o tivesse trabalhado em sua tese de doutoramente, em 1932 e retomado em 1975-1976, no seminário 23 “O sinthoma”, em que discorre sobre James Joyce.

Na psicose, em especial, não se dá a extração do objeto a e, por conseguinte, a castração não opera com seus efeitos de organização simbólica. Além disso, não se constituiu a tela da fantasia projetivamente a partir do ponto de ausência do simbólico. Esse ponto foge à perspectiva da linguagem e, na neurose, seria ocupado pela significação do falo, o significante da ausência, como testemunha da inscrição da castração. No lugar dessa tela protetora da neurose, encontramos na psicose o sujeito diante do real da castração sem mediações. (p. 44)

O parágrafo acima pode ser de difícil compreensão para os não psis. Falta ao psicótico o filtro que nos insere na sociedade, esta rede da linguagem (nosso laço social). Alguns conseguem sublimar, como James Joyce, que, segundo Lacan, a grosso modo, tinha um pé na psicose. Lacan ainda acreditava que a psicose é uma posição do sujeito, uma escolha subjetiva. Segundo Andréa, o psicótico não está fora da linguagem, mas se relaciona com ela de maneira particular, pois ela lhe é exterior. Creio que há tantos neuróticos por aí com linguagens tão incompreensíveis quanto os próprios psicóticos.

::: A psicose ::: Andréa M. C. Guerra ::: Zahar, 2010, 88 páginas :::
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3 comentários | Dê sua opinião

  1. Viviane 16/02/2011 em 1:51 pm

    Legal, Vanessa. Parabéns pelo fecho.
    Um abraço.

    Responder
  2. ana 16/02/2011 em 9:04 pm

    Doce forma de dizer de um assunto pesado e difícil,que é a loucura.
    Porque nem todos os psicóticos são loucos. Mas muitos neuróticos somos…rs

    Responder
  3. Pedro Gabriel 24/01/2012 em 4:24 pm

    Cara Vanessa, grato pelo seu texto. Dele sublinho sua referência a James Joyce e a diferença entre psicose e loucura, acho que seu texto, excelente resenha, ganharia se explorasse mais tal ponto. A despeito do que se perde na querela do estabelecimento dos textos e das truncadas traduções, me parece que faz sentido refletir sobre essa distinção. Lacan diz, em certo ponto de sua obra, que “todos somos loucos” o que certamente não significa dizer que todos somos psicóticos. O que ele diz possivelmente faz sentido à luz de um certo isolamento constitucional (solipsista num certo sentido) que fada ao fracasso toda tentativa de comunicação. Todos somos loucos porque, num determinado nível, estamos isolados em um mundo próprio similar ao do delírio. Cabe a nós então, discutir, se quando disse Lacan que James Joyce é louco ele se referia ou não à Psicose, discussão que nos tomará por mais duzentos anos (como previu o próprio Joyce). Um abraço. Pedro Gabriel.

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