“Cisne Negro”

-- Natalie Portman em cena --

por Ana Al Izdihar

Este conto de fadas cinematográfico é uma homenagem a todo grande artista. Talvez pessoas que não tenham um contato mais íntimo com a arte não o entenderão profundamente. Sem querer ser elitista, posso até já dar um exemplo: a sala estava cheia e muitos riram ou ficaram indignados com as cenas “fortes” e, ao que me parece (julgando-os descaradamente), focando e reagindo ao filme como aos “sensacionalismos” televisivos. Porém, acredito que mesmo assim, passados estes momentos, o filme cumpriu seu destino de obra de arte. Vejamos.

O poeta para Sócrates, quando o explica ao rapazote Íon, é divino, lembram-se? Ah, este filme é uma homenagem ao artista que beira a divindade, mas não aquela dogmática e sim aquela que se aproxima e remete ao contato com a Mãe Natureza. Uma grande metáfora ao artista que vê sua vida como arte e a vive como a vê: sem separações.

O artista é um ser que está sempre no limite do real, do ideal, do ordinário e do fantástico. Parafraseando – e maculando – Horácio quando escreve aos pisões, o artista é um louco que transgride o sistema de amarras da vida cotidiana e nos leva a cair para dentro do vulcão, mas também ao divino, nos eleva.

A associação com os conceitos de persona e sombra difundidos por Jung é inevitável em Cisne Negro [filme em cartaz]: Nina há de des-cobrir sua persona, descobrir sua sombra e enfrentá-la e, finalmente, integrar ambas para completar seu processo de individuação. O que Nina chama de perfeição no começo toma uma outra forma rumo ao final, quando sua participação na peça de balé O lago dos cisnes se mostra mais do que um trabalho cobiçado, um ritual de iniciação para entrar no mundo das mulheres adultas.

Darren Aronofsky já tem seu perfil definido como um diretor que enxerga e nos leva a ver a fantasia pura no cinema. Bem, diferente de Steven Spielberg, Tim Burton ou Terry Gilliam, o mundo fantástico de Aronofsky é baseado na magia do cotidiano, na inexplicável simbologia da vida diária, nos confrontos com frutos do inconsciente. Um filme também extremamente bonito dele é Fonte da Vida com Hugh Jackman, caso queiram conferir. Ele capricha no visual, na fotografia, nos closes e a edição de som se apresenta como um charme a mais. A câmera muito próxima de Nina, por exemplo, nos coloca praticamente dentro de sua mente: vemos o que ela vê, ouvimos sua respiração, sentimos o gosto de suas lágrimas e angústias.

O antagonismo interior de Nina, representado pelo esforço em aliar a técnica ao desembaraço, torna-se uma metáfora para nós espectadores da constante luta do ser contemporâneo entre a rigidez social versus o “deixar ir”. Mesmo que você não entenda nada de balé, consegue claramente entender o que o diretor quer dessa bailarina: que ela deixe a máscara da hipocrisia, da repressão (moral e estética) e abrace suas máscaras do teatro: a dualidade integrada. O domínio de seu ser, revelando a meiguice racional e esmerada, mas também suas forças instintivas. Como este conflito em Nina é dilacerante, enquanto não consegue alcançar o aire que tanto almeja, vê forças atuando contra ela o tempo todo. Mas o sábio diretor diz-lhe em certo momento: a única pessoa que está no seu caminho é você mesma!

Ela precisa desesperadamente desvelar sua sombra, seu cisne negro, para viver plenamente o papel de sua vida. E como sua técnica para parecer um ser perfeito tomou conta de sua alma, ela se esfola, se consome, se martiriza. Mas a todo momento podemos ver sua inveja e raiva contida, não perdemos um segundo dos sentimentos de Nina, graças também à atuação primorosa de Natalie Portman.

A libido é parte da questão existencial de Nina, mas vemos a libido de Jung, aquela que o cientista afirma ser a energia psíquica que inclui a sexual. Para Jung, libido é apetite, agressividade, sexualidade, fome, sede e toda sorte de necessidade e vontades. A busca de Nina passa pela sexualidade sim, mas esse é só um caminho para alcançar muito mais, pois através disso e da ajuda das pessoas que vivem mais sua libido do que ela, Nina encara todos os pontos obscuros que são frutos de sua rigidez moral, sexual e estética. Rumo à transformação de seu personagem, ela transforma seu ser, num processo metamórfico surpreendente, agonizante, deslumbrante! Nina libera com literalmente sangue nos olhos seu lado sombrio, seguindo a intuição do artista divino em busca da perfeição, que nada tem a ver com técnico.

Como pode uma obra de arte e a força interpretativa do artista dar um tapa tão forte e de efeito tão rápido na cara do espectador, em comparação com a ineficiência das grandes falácias científicas e filosóficas? Um tapa que diz: somente com a integração de todas as partes do nosso ser (das mais leves às mais sombrias) seremos então seres perfeitos. A perfeição dos deuses, de como quer a Natureza, e não a dos homens.

[ TRAILER ]

  • João Antonio Guerra

    Fui assisti-lo meio que à contragosto e saí de queixo caído: não esperava por um longa tão bom; ao menos na minha opinião, não chega a ser algo grandioso, mas sim uma obra com bastante originalidade. Dentre os filmes que conheço cujos espaços abordados são os do mundo das Artes, “Cisne Negro” é, sem dúvida, um dos que mais me pareceu autêntico quanto à imagem do artista ideal.
    E é engraçado: na maioria desses filmes, nota-se uma separação entre o fulano-comum e o sicrano-artista; porém, foi justamente a não existência de tentativas de “divinizar” o artista que me deu essa sensação de autenticidade. No filme, a elevação é da personagem como ser humano.
    Muito boa a sua crítica, e muito bom o filme.

  • Ana Al Izdihar

    Olá, João!

    acho que muitos espectadores terão a mesma sensação que você. Este não é um filme comum, mesmo que aparentemente pareça mais uma super produção hollywoodiana. Está sendo ovacionado e com razão.

    Obrigada por vir aqui e compartilhar. Por favor, volte sempre e espalhe a gente por aí!

    • lara

      Eu achei mto bom, acho q é um ótimo filme,pois mostra suspense e romance, e a atriz(natalie portman) é mto boa!! eu adorei, mto bom!

  • Simone

    Ana, embora seus argumentos em defesa do filme sejam pertinentes, ele é realmente cheio de cenas risíveis que produzem indignação de tão forçadas e patéticas que são.
    Vincent Cassel tem o pior personagem da vida dele, um Diretor sem noção que arrisca um espetáculo escalando duas bailarinas incompletas, uma totalmente incapaz de encenar o cisne branco e a outra totalmente incapaz de encenar o cisne negro.Ah, sim,é que ele havia previsto que a bailarina rígida e sem expressividade trazia em si uma sombra que precisava vir á tona se bastante torturada.
    Simbolicamente, o filme é primário, tosco mesmo, com recursos já vistos ad nauseam no cinema e a tão falada preparação física da Natalie Portman foi ofuscada pelas carinhas de garotinha assustada com a prova de Matemática.
    O filme é muito barulho por nada…

    • lUCIANE

      Concordo. Acho que o tema da sexualidade não dá ao filme a complexidade possível da relação entre arte e individuaçção. Algum sabor não é alcançado embora possamos imaginar e comentar. Este é o maior problema: inferir o que seria . O filme sobre um rei gago que tem um amigo maluco que o cura, uma históira real, tem o mesmo problema. Eu imaginava muito acima e o que vi foi um filme arrastado. Como Cisne Negro a promessa inicial não se cumpre e o filme se arrasta com uma mãe dominadora, uma menina frígida, um diretor canastrão, uma concorrente “piranha”. E estes personagens não ganham outras dimensões na trama. O cotidiano do ballet é explorado mas nem de perto chega a Carlos Saura em Tango, ou outros – mostrando a relação com a dança e a psique os indivíduos

  • Ana Al Izdihar

    Olá, Simone!

    sim, entendo o que você diz, perfeitamente. E essas coisas de gosto são complexas, pois há um limite muito individual que não permite discussões, não é mesmo? Eu gostei e você não. Não há nada o que fazer sobre isso!

    Só discordo de uma coisa: o fato de você dizer “em defesa do filme”. Eu não fiz o filme e não ganho nada por falar sobre ele, então eu não me vejo realmente “defendendo o filme”. Acontece que eu só escrevo sobre filmes que eu gostei. Percebi que este filme escolheu uma perspectiva temática com a qual me identifico e por isso os tais “argumentos pertinentes”. Quanto ao resto, tudo vai resbalar no gosto pessoal mesmo.

    De qualquer modo e justamente por isso, fico feliz que você tenha vindo aqui e colocado sua opinião, mesmo contrária ao meu gosto. Faça-o sempre!

    Obrigada

  • Cristina

    es uma sem noção, alienada!! paciência!! filme digno de osca!!!

  • http://imperiodosdeuses.blogspot.com/ Sarah Micucci

    Oi Ana,
    Gostei muito da sua visão, no foco do ‘ser artista’, e também de quando você menciona a necessidade da integração, ou seja, do equilíbrio que precisamos para sermos brilhantes. Perfeitos não, porque isso somente os deuses conseguem, realmente. A perfeição é mesmo divina, isso é indiscutível. Até a própria protagonista, quando atinge a perfeição, morre. Acaba pagando um preço altíssimo…
    Só gostaria de adicionar aqui um comentário sobre o papel insuportável da mãe de Nina, aliás, o cerne de toda a sua angústia e auto-flagelação. Ninguém merece uma mãe tão controladora, derrotista e que teima em infantilizar a filha.
    Parabéns pela sua visão. O filme é forte e cheio de metáforas que só quem vai aplaudir, é que tem olhos para vê-las, transpô-las e entendê-las na sua supremacia. Claro que o filme e Natália merecem o oscar.
    Se puder, conheça os meus deuses perfeitos rs.
    http://imperiodosdeuses.blogspot.com/
    Um beijão,
    Sarah Micucci

  • Natália

    O filme em questão me fez sentir numa montanha russa de sentimentos.Todo ele é um percurso pela mente de uma jovem sexualmente tolhida e que tentava transformar sua libido numa tentativa de perfeição.O balé é uma metáfora da transição sexual da personagem, infantilizada e podada pela terrivel mãe, ex-bailarina e que temia que a filha, como concorrente, transcendesse sua carreira. As semelhanças da mãe da personagem com Winona Rider (Beth) aparecem quando a pobre Nina sofre ilusões de que Beth, bailarina acidentada, era sua própria mãe. E a grande punição por brilhar e superar a mãe perversa é deixar-se morrer…

  • Lindi

    O filme tem cenas muito fortes. Não aconselho ninguém a assistir. É muito constragedor. Além de ser muito pornô. Poderia ser melhor se não tivesse essas cenas. Bem, é minha opinião.

  • Ana Al Izdihar

    E o filme continua me intrigando… Esta capacidade de uma obra artística de cutucar as partes incômodas do espectador… Não é fascinante?

    Há tantas opiniões contrárias e outras a favor da maneira como a estória de Nina é contada. A escolha do foco pelo diretor acertou em cheio, pelo que percebo…

    Eu vejo – como já disse no texto – o desembaraço da sexualidade de Nina somente como UM dos traços que ela precisava liberar. Mas como é interessante que algumas pessoas focam somente nisso no sexo. E libido é toda e qualquer força criativa de vida e não SOMENTE sexo.

    Na realidade, eu vejo a sexualidade dela como o caminho mais rápido para que ela alcançasse o desembaraço. Ela não tinha mais tempo, estava travada com tudo (as cenas com drogas tb dizem isso), ela já tinha adiado a vida por muito tempo!

    CRIATIVIDADE = criar + vida (?!)

    Obrigada a todos que vem participando!

  • Ulisses

    Não vi o filme ainda mas com certeza vou ver após ter lido o seu texto!

  • http://encontreinolixo.wordpress.com/ João Antonio Guerra

    É óbvio que uma obra que toque em temas polêmicos vai chocar alguém. Pode ser a mais light cena de sexo ou o mais pesado trecho de estupro, a certeza é de que alguém não vai gostar e a quantidade varia proporcional ao critério “cenas muito fortes”.
    Mas, deixando a alteridade de lado, toda vez que eu leio comentários de gente chocada com uma ou outra obra “contrangedora”, imagino-as lendo Marquês de Sade e entrando em coma. Há muitas Ninas por aí.
    Outra coisa: acredito que não tenha sido só eu que lembrei de Macabéa quando vi o filme. Se bem que, confesso, toda vez que estou frente a frente com uma personagem patética me recordo de Macabéa (ou dos desgraçados de John Fante).

    • http://encontreinolixo.wordpress.com/ João Antonio Guerra

      E “contrangedora” foi simplesmente ótimo…

  • Pestana

    Assisti ao filme na segunda. É sensacional! Achei muito criativo a metafóra do Cisne Branco e Cisne Negro com sendo a própria vida da personagem. O que me deixou com uma ‘pulga atrás da orelha” foi o fato de o príncipe, no conto, se apaixonar pelo Cisne Negro – “Cisne errado”. Será mesmo?

  • http://Nãotenho Luciano Oliveira

    Francamente, achei o comentário de Ana muito condescendente.
    Que o filme tenha toda a pretensão que ela vislumbra, ok.
    Que Natalie Portman já tem, merecidamente (por tudo que já fez no cinema, aliás), o lugar na estante para a estatueta, tudo bem.
    Mas saí do cinema decepcionado.
    Em algum momento durante a projeção comecei a rir…
    O filme embarca num cacoete típico de Hollywood das últimas décadas: susto em cima de susto, e cada vez mais terrificantes graças aos efeitos especiais, a fim de “prender” o espectador.
    Francamente, lembrou-me “Carrie, a Estranha”, do velho Brian de Palma.
    O final, com a morte dela em nome da perfeição, é até legal…
    Eu achei que o filme foi ficando ruim, ruim… depois foi piorando, piorando… e na última cena deu um pulo e caiu fora da indigência total!
    É isso.

  • http://www.natramadanet.blogspot.com Suelen

    Como sempre vc apresenta opiniões que fazem a gente repensar as coisas. Muito bom ler quem tem opinião a dar. Afinal, opinião dá quem tem e não quem quer…

    Ana, vou ver o filme com uma perspectiva da expectativa…:) Depois te conto.

    Beijos

    Sue

  • http://vorazmentepalavra.blogspot.com Léo Kildare Louback

    Ana,
    sou ator, sou formado em língua e literatura, sou escritor, sou artista, homem, humano. e ser reproduzido, personificado numa tela como fui com Cisne Negro não é comum. Não é comum porque o ser humano é coisa demais pra duas horas de projeção, ambíguo demais pra um roteiro escrito por mãos de gente, complexo demais pra ser materializado e falho demais pra ser mostrado com perfeição. Perfeição dupla, variada, imperfeita e inalcançável no real. O que Darren provoca em simbiose com Miss Portman é qualquer coisa próxima do onírico, da loucura onírica, do homem essencial que o homem-artista já não mais alcança. é o caos, o fascínora, o fascínio, o belo sujo de sangue e por isso mais belo. a falta de limite como único percurso rumo a completude do ser incompleto que é principalmente o artista, tão fingidor, que chega a fingir que é dor…
    O que você escreveu, enfim, falou um pouco do que senti. Falou da obra, da arte. Os críticos em geral são egocêntricos demais para falar da arte dos outros. Falam de si, para si e esquecem o que viram. Ler você foi um grande alívio.
    Gracias

  • Gaby

    O filme parece ser excelente, completo e bem produzido nos mínimos detalhes. Estou louca para assisti-lo e após ler seu texto, me despertou ainda mais esta vontade!
    Em relação aos comentarios sobre o filme ser “indescente, forte”, eu acho que as pessoas não tem uma visao artistica de tudo que gira em torno disso.
    Eu particularmente nao entendo nada de cinema, mas acho interessante a abordagem em todos os assuntos e como eles transformam isto em cena! Depois que assistir, te conto! ;)

  • Ana Al Izdihar

    Estou fascinada com todos os comentários!

    Cisne Negro ainda vai dar o que falar, pelo que parece… Será que vai mesmo virar um clássico?

    Um dia ainda vou fazer um texto sobre o estilo de crítica que eu adotei pra mim, como bem percebeu o Léo.

    Eu tento não focar no lado negativo das coisas e por isso escolho só falar de filmes que gostei. Por isso, talvez, o Luciano tenha dito que sou condescendente. Eu sou mesmo, bastante condescendente e não me arrependo nenhum pouco, pois eu não devo nada pra ninguém: nem pra diretores, ou atores, produtores ou espectadores. Eu compartilho minha leitura, como eu pesquiso sobre o que vi, dou atribuições.

    A crítica de arte em geral no Brasil é sempre pessoal; “crítica” no Brasil é sinônimo de “bombardeio”. Se você se diz crítico e não detonar com uma obra, as pessoas não te acham um crítico de verdade! Na minha opinião isso nem é profissionalismo… Mas é papo pra outro dia. E como eu não me prendo a rótulos (mesmo sendo formada em crítica de verdade) me sinto livre pra expressar minha paixão pela arte – aqui no Amálgama, por filmes – da maneira que eu bem entendo. E tem dado certo, a maioria das pessoas entende minha postura.

    Nada mais a dizer, a não ser agradecer a participação. Ainda espero ver mais comentários e ficar mais intrigada!

  • http://www.natramadanet.blogspot.com Suelen

    Gosto é igual aquilo mesmo. Assisti Cisne Negro hoje com minha amiga Andreza. AMEI!! Lembrou as primeiras leituras que fiz de Kafka, na metamorfose, depois de Jung, Lacan… Angústia, indignação, sensão de ‘que doido isso’, arquétipos, … a intrigante perseguição psicológica do eu… subjetividade. AMEI!
    Escreveste bem, Ana.
    bjs

  • http://Nãotenho Luciano Oliveira

    Oi, Ana!
    De fato, me desculpe se o “condescendente” de alguma forma a incomodou, mas também dei minha opinião sobre o filme e, como o seu comentário faz parte do “trabalho de obra” (C. Lefort) do próprio filme, abangi-a no meu julgamento que, no geral, foi realmente negativo.
    Partilhamos uma coisa comum: não acho que crítico que é critico de verdade tem de bombardear alguma coisa para se impor. Adianto, aliás, que detesto o tipo de crítica arrogante de uma publicação como a Veja – que não acho séria.
    Há coisas no filme que achei gratuitas e feitas para chocar. Aquele “cunnilingus” em Natalie, por exemplo. Por mais boa vontade que tenha, não vejo sua necessidade na estrutura da obra. Não o fato de sua tentativa (de Natalie) de se rebelar contra a mãe tirância (outra similitude com “Carrie”…) através de uma balada onde sai com a intenção de “dar” – para revidar… Que, aliás, desculpe mais uma vez, achei também um clichê – tanto a tirania da mãe, a bailarina fracassada que quer se realizar por intermédio da filha, quanto a rebeldia da filha caindo na orgia.
    Enfim, globalmente considerado, gostei não.
    Mas vamos pra frente!
    Natalie vai ganhar o Oscar e ficaremos (pelo menos com isso eu também ficarei) satisfeitos.
    Abração,
    Luciano

  • Ana Al Izdihar

    Suellen e Luciano,

    aprendi com Christopher Hauke e Ian Alister uma coisa que jamais me saiu da cabeça: enquanto Freud gostava das narrativas entituladas “clássicas”, Jung gostava mesmo era de “pulp fiction”. Ora, nada mais coerente já que Jung via que as imagens arquetípicas dos arquétipos se manifestavam nos “contos de fadas, sonhos e mitos”, e foram se transformando ao longo do tempo em diferente estilos narrativos e sempre se mostrando muito mais nas “narrativas populares”.

    James F. Iaccino quando analisa os filmes de terror sob a ótica dos arquétipos mostra justamente a diferença entre clichê e arquétipo: o primeiro é estático e acaba ficando sem vida. Já os arquétipos vestem “roupas” diferentes através dos séculos e aparecem em vários outros meios narrativos, como o cinema. De acordo com ele, e eu concordo, os filmes de apelo bem popular conseguem um fenômeno raro, que filmes “cult demais” não conseguem: atingir o público de uma maneira rápida e fácil, mas indubitavelmente mexe também com as idéias! Nada tem de “vazio” ou “fútil”. É só ver o quanto as pessoas se manifestam quando um filme mesmo sendo padrão convencional, realmente as faz pensar. Isso é um fato observável…

    É um erro achar que o público de cinema seja bobo e não saiba a diferença entre os estilos narrativos ou que não saibam “tirar a mensagem da estória” quer seja um filme mais pop ou tachado de “complexo”, “intelectualizado”, “profundo” – não gosto dessa idéia de “mensagem do filme”, mas vamos lá…

    E eu não sei exatamente o porquê das pessoas rejeitarem tanto o estilo narrativo que se convencionou chamar, segundo David Bordwell, “classical hollywood cinema”, ou seja, o estilo clássico hollywoodiano. Será ainda um vontade de expressar um contrariedade política? Será uma maneira de comparar através de padrões diferentes simplesmente incompatíveis? Será que é por que é um meio de se ganhar dinheiro? E qual é o problema em “ganhar dinheiro” com uma narrativa que tenha elementos convecionais? É um estilo popular que conquistou o mundo todo e muitos imitam, mesmo os cineastas considerados menos industrializados e gostam de ser chamados de “profundos”.

    Por isso eu gosto muito de cinema popular com narrativas em que alguns elementos se repetem – como convencionais sustos, cenas previsíveis, a música de fundo que sobe na hora certa, etc – não vejo nada de “mal” nisso, é um estilo e muito cheio de detalhes que aparecem também em filmes que são considerados “não-clichês”. Gostar e não gostar é outra história (desculpa o trocadilho sem graça). Eu gosto de tudo: classical hollywood cinema e cinema obscuro alemão da década de 80!

    E Luciano, se você ler direito minha resposta anterior, eu não me incomodei nenhum pouco em ser chamada de condescendente, pelo contrário, abracei a alcunha. Eu quis dizer que você acertou em cheio! Não diga o que eu não disse. Somente aproveitei seu comentário pra esclarecer melhor a todos o estilo que resolvi abraçar pra mim.

    Melhor do ano de acordo com o chato do Oscar: O discurso do Rei! Merecidíssimo, né? Iria achar uma palhaçada se fosse “Rede Social”.

    Bola pra frente mesmo!

  • http://Nãotenho Luciano Oliveira

    Oi, Ana!

    Na verdade talvez a surpreenda se lhe confessar que também gosto muito do cinemão americano. O bom! Aliás, acho que se a pintura é francesa, o balé é russo e a música erudita é alemã, o cinema é uma arte especialmente americana. Talvez por ser também uma indústria, uma indústria cara? Pode ser. Que outra cinematografia teria as condições técnicas inclusive de produzir uma obra absolutamente única (porque não tem nada nem antes nem depois que lhe pareça) como “2001”… Mas sobretudo porque Hollywood soube importar os grandes gênios europeus que constituíram o impressionante acervo de obras, gente como Chaplin, Hitchcock, Billy Wilder, e tantos e tantos outros.
    Enfim, eu acho que no fim das contas o que me desagradou no “Cisne” foram os tais efeitos especiais pontuados por sustos e sangue que se tornaram o que o cinema de massas tem hoje em dia de mais corriqueiro. Achei o “clima” do filme estrategicamente “dark”… E no entanto, nada mais sombrio e apavorante do que um filme como “O Bebê de Rosemary”, onde, para decepção da platéia, nem se vê o filho do diabo! Ou seja: nao é preciso explorar o surround das salas criar tensão…
    Acho que foi sobretudo isso que me chateou.
    Devo confessar que criei nos últimos tempo uma ojeriza aos chamados “efeitos especiais”, responsáveis por bobagens enormes como Avatar e Cia…
    Mas vamos em frente: como diria habermas, é conversando que a gente se entende?
    Quem sabe se um dia não considerari O Cisne um clássico?
    Bom trocar idéias com você.
    Abração,
    Luciano

  • Nina

    E de Rambo IIIIIXX, o que vocês acharam? Ou não é cult o suficiente? Ah, como é bom dizer que algo é ruim demais para mim porque eu sou especial, não? Tanta cultura “ingerida”…e…que quadro deprimente esse concurso de egos dessa página (Oh, citei Freud!). Que tal lerem Reich? Cinema é en-tre-te-ni-men-to! Relaxem e usufruam, se forem capazes.
    Aviso: o objetivo deste meu post é promover a saúde.

  • Ana

    Filme instigante e de muitas leituras. Para a psicanálise, vários elementos: o diretor do balé que ´funciona como um analista, tentando fazer com que ela vença seus limites. Aliás, faz o papel do péssimo analista, não percebendo que aquele mundo construído por ela é o suportável. Ele não percebe que ela não suporta romper aquele limite. A mãe completamente adoecida percebe que ela não suportará se apresentar, quando liga para o teatro avisando que ela não vai dançar porque está doente. As alucinações, a necessidade de ferir-se, o jogo com a imagem oposta (as cenas com os espelhos), fazem referência a uma possível esquizofrenia da personagem, ou outro tipo de sofrimento psíquico que, finalmente, “explode” quando ela é levada a romper seus limites.
    Filme para pensar muito.

  • http://www.lituraterre.com Pedro Gabriel

    Prezada Ana, com a liberdade que a escrita do seu texto sugere eu espresso a minha opinião de que o Cisne Negro é um filme ruim. Uma das piores coisas que me lembro de ter assistino no cinema. Você afirma no início do seu texto que a falta de um contato profundo com a arte pode levar o expectador a não gostar do filme quando, na verdade, qualquer contato mais próximo com a arte fará o filme parecer tacanha. Além do arremedo que faz do ballet (trazendo não mais que uma caricatura grosseira desta expressão maiúscula) é composto em cima de clichês previsíveis e lugares revisitados. Um crime contra a dança e contra o cinema. Isso sem falar nos cacoetes que Luciano comenta. Francamente, uma das piores coisas que já vi.

  • Bianca

    Concordo com o Pedro, Sinceramente sou apaixonada por ballet…Assisti ao filme achando que retrataria mais a beleza desta arte tão maravilhosa (que apesar de todo o sofrimento gera grande prazer tambem), mas o que consegui foram momentos de agonia, terror e indgnação, o trailler deixa claro que seria uma busca do “outro lado” da personagem (esta sendo totalmente reprimida, delicada e prefeccionista); porem esse “outro lado” é literalmente sua destruição, senti muita pena de Nina devido a mesma nao ter em quem se apoiar, a mente de Nina esta tão confusa e doente que o telespectador nao sabe o que realmente esta acontecendo, oque realmente ela esta vivendo…

    Por outro lado é um “ótimo” material de ensino para os futuros artistas, pois mostra que o mundo da arte (especialmente a dança) se for apenas para engrandecer o ego, pode levar literalmente a destruição. (para finalizar, a cena em que Nina quebra o espelho quando esta no camarim é interessante pois concretiza a destruição de sua mente, pois o espelho é interpretado como alma (ao menos sempre foi assim em vários teatros..), Ou seja ela perde sua alma a fim de conseguir a tão exigida e sonhada “perfeição”, de fato conseguiu, porém sempre que o mal comandar, futuramnete cobrará algo maior que ofereceu, e o filme retrata perfeitamente esta verdade, pois a personagem paga com sua própria vida.

    • lUCIANE

      Concordo. Mesmo que após David Linch em Cidade dos Sonhos você não saiba o que pensar, isto abre sua imaginação. No Caso de Cisne Negro, perder pontos de referência que parecem essenciais, ao contrário, compromete a trama. O Lutador do mesmo diretor, é ótimo filme, quase etnográfico.

  • Bia

    Ana,
    adorei sua avaliação sobre o filme. Foi a única com a qual me identifiquei. Sem dúvida foi um dos melhores filmes que já vi. Tenho visto muitas críticas e penso que todas elas mostram uma visão muito negativa e também confusa. Para mim, o irônico é que grande parte dos comentários é baseada na visão da própria Nina (visto dessa forma, o filme seria realmente mais um filme sensacionalista e fatalista). Na forma como ela percebe o mundo, que durante a maior parte do filme é completamente deturpada. O sentimento de perseguição, onde todos tentam roubar seu papel, o seu amor, os seus sonhos…quando na verdade, a única pessoa contra a qual ela estava lutando era ela mesma…a cena onde ela percebe que não feriu a amiga mostra para mim claramente isso …não existia ninguém no caminho dela, a não ser ela mesma…e é nesse momento que ela se reconhece e reconhece a sua beleza, força e também toda a dor de sua transformação…que é também necessária para que se alcance a perfeição…não a técnica…mas a arte do encontro…
    Fico com Ferreira Gullar em seu poema Traduzir-se:”Traduzir uma parte, na outra parte, que é uma questão de vida e morte…será arte?”
    Sem dúvida, essa é a grande arte que todos buscam…
    Abçs.

  • Ana Al Izdihar

    Aos nossos leitores acima, sugiro que leiam o meu comentário de 28/02 (para Suellen e Luciano) outra vez. Ali eu me coloco nas questões levantadas recentemente por Ana, Pedro e Bianca.

    Porém, o comentário acima de BIA acrescenta um ponto a mais na minha leitura, com o qual concordo plenamente: muitos espectadores (incluindo alguns críticos por aí) estão analisando o filme como se fosse a própria Nina! Na minha opinião, isso só prova como o filme conseguiu o que queria: trazer o espectador para o mundo de Nina e sua perspectiva das coisas. Ponto.

    Eu consegui enxergar que este não é um filme sobre ballet e sim sobre uma moça tentando amadurecer e que vê o mundo ao seu redor de maneira confusa. Por acaso ela é uma bailarina. E como tudo o que ela está vivendo a afeta, inclusive sua profissão.

    O resto é gosto mesmo. Eu gostei, alguns sim, outros não. Não tenho argumentos para isso, desculpe.

    Obrigada a todos por participarem. Por favor, voltem sempre!

  • http://raysetii Emanoely

    muito chattto ja vi filmes melhore

  • Sent

    Esse filme é um tanto exacerbado mesmo a ponto de alguém achar “risivel”…Cisne Negro é feito a partir da otica da perturbação , seria impossivel nao usar metaforas visuais pra alcançar este estado…Lindo trabalho, tem de ter muita vontade pra conseguir ir tão fundo …

  • tatiane

    NA BOA, que filme bem ruim, alem de ser meio porno, é mt confuso pqp, nao entendi bulhufas e fiquei tonta com tanta trocas de humores da personagem, mt ruim mt ruim mesmo

  • Didi

    Pedro Gabriel definiu muito bem. Filme fraco e interpretações idem. Talvez eu realmente “tenha pouco contato com a arte”, mas francamente, esse filme não foi encorajador, nem como discussão.

  • http://msn julia

    ana vc esta de parabens,gostei muito do seu texo sobre o filme.
    e acho ele muito bom esse povo que nao intende nada sobre ballet,cultura.É tanto e que eu sou baillaria e danço a 9anos e meio e dançei cisney negro ano passado,foi um espetaculo.Mas em fim adorei ana.bjus

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