Canalhice da boa: Entrevista com Marcelo Backes

-- Marcelo Backes (foto: Malena Bystrowicz) --
a Vanessa Souza
No final de 2010 li uma crítica de Três traidores e uns outros (Record, 2010), no caderno de literatura do jornal O Globo e pensei: “Uau! Preciso ler este livro!” (Sim, era da ordem da necessidade, para além do desejo). Postei um fragmento do livro (copiado do Prosa & Verso) no meu blog pessoal: “Eu queria muito, mas eu também queria não querer, não queria querer, e não querendo querer ou querendo não querer, não queria, embora quisesse, e portanto já não soubesse mais o que queria”.
Antes que eu fosse até uma livraria buscar o livro (ou comprar pela internet), Marcelo Backes, o escritor-gaúcho-hiperativo já estava na minha caixa de e-mails – graças ao Google, suponho. Semanas depois de já ter concluído a leitura de Três traidores…, descubro que desde 2006 Backes estava na minha biblioteca pessoal, na tradução de Os sofrimentos do jovem Werther (L&PM, 2004).
Escritor, tradutor, professor e crítico literário (mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutor em Germanística e Romanística pela Universidade de Freiburg, na Alemanha), Marcelo traduziu um livro do escritor alemão Ingo Schulze, Vidas Novas (Cosac Naify, 2009) em três meses. O assombroso é que a referida obra, no original, tem cerca de 900 páginas. Cortem os pulsos aqueles que se julgavam muito produtivos. Eu não tinha nenhum objeto pontiagudo por perto, quando obtive essa informação.
Três traidores e uns outros é para ser lido de um só fôlego. A canalhice de Matias Nimrod, personagem principal do romance, deixa aturdido e deliciado o leitor que aprecia um bom sórdido e melancólico. Tradutor e escritor, Matias, depois de umas décadas de muitos tropeços e algumas alegrias fugazes em outras paragens, volta para sua terra natal, um lugar onde os suicídios por enforcamento são uma constante.
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Amálgama: Você é jornalista, mestre e doutor em literatura, escritor, tradutor e professor. Esqueci de algo? Quando começaste a escrever ficção?
Marcelo Backes: Eu comecei a escrever ficção bem cedo, quando comecei a escrever. Registrava minhas impressões sobre o mundo e sobre as pessoas em notas de caderno que já tinham o arcabouço que só muitos anos mais tarde vim a saber que era aforístico. Eu também media e registrava em passos as distâncias da minha casa até a escola, da minha casa até o campo de futebol, da minha casa até o cemitério, fazendo comentários a respeito do trajeto. Enfim, registrava tudo que me dava na telha, que me incomodava, que me fazia querer ver o mundo por trás das montanhas que cercavam o lugarejo provinciano onde eu nasci.
Três traidores e uns outros começa com um drama edipiano de Toz, em Anharetã, cidade fictícia do interior gaúcho. Nesta primeira parte do livro são utilizados muitos termos que vou nomear como gauchês. Fiquei curiosa em saber o motivo do uso destes termos.
Isso surgiu naturalmente. Quando me fizeram a pergunta pela primeira vez, é que comecei a pensar a respeito e tentei descobrir, eu mesmo, porque era assim. E cheguei à conclusão de que era a forma procurando e encontrando seu conteúdo. Afinal de contas, meu personagem faz uma volta às origens, à terra que o viu nascer, Anharetã, que aliás significa Inferno em tupi-guarani. Ele quer voltar a beber a água da vertente e deixar de lado o mundo cosmopolita pelo qual perambulou em sua vida pregressa – e isso inclusive na linguagem. Ele quer deixar de ser tradutor, de se ocupar de outras línguas, para meter o arado na terra missioneira, plantá-la e cultivá-la, nada mais natural que esse grande retorno envolvesse também a questão da linguagem. Mas como eu disse, o processo foi natural, e eu acho que quando um escritor fala de sua obra ele age mais ou menos como um compositor que, ao ser perguntado, explica com uma sinfonia algum detalhe de sua ópera anterior.
Seu personagem principal em Três traidores… é tradutor e escritor. Você é tradutor e escritor. Soa um pouco autoficcional… Ou estou muito equivocada?
Toda a literatura é subjetiva. Alguns se escondem mais, outros menos. Alguns, ainda, se mostram pra se esconder tanto mais, e acho que esse é o meu caso. No mundo de hoje há duas possibilidades de lidar com as informações que se concede aos outros. Uma delas – que me parece bem ineficaz na época do mundo virtualizado – é esconder informações, a outra – bem mais eficaz, conforme penso – é dar informações em excesso. E, de qualquer modo, uma coisa é certa, ninguém consegue ser profundo sem ser subjetivo, mas o fato de ser subjetivo não garante a profundidade, e essa é a grande tragédia não apenas da literatura, mas também da arte contemporânea de um modo geral. Quando escrevi maisquememória (Record, 2007), por exemplo, minha pretensão objetiva foi escrever um romance umbilical contra os romances umbilicais, e fiz meu personagem sair pelo mundo a cavalo sobre si mesmo para lutar contra todos os moinhos de vento com que se deparava, protegendo seu umbigo velho, donzelo e órfão de todo o tipo de malfeitores que cruzavam seu caminho.
Matias Nimrod, personagem principal do seu romance, é definido em certa altura como “um triste”. Pareceu-me que ele tem um certo olhar desesperançado, despedaçado. Fale-me um pouco dele.
Matias Nimrod é o sujeito que jamais se satisfaz com o que tem, que vê na satisfação de um desejo apenas o degrau que leva ao próximo desejo, um idealista que acha que as coisas alcançadas ficam banalizadas tão-somente pelo fato de terem sido alcançadas, porque aquilo que é verdadeiramente grande jamais se alcança, no que aliás há também um profundo ceticismo em relação a si mesmo. Além disso, ele é um fracassado, um amargurado, que nem sequer vingou naquilo que mais queria – sua arte – e volta suas armas contra o mundo e contra os outros por causa disso. Nimrod é, aliás, o nome do construtor da Torre de Babel – Nembrotto, em italiano, está lá, na Divina Comédia, entre outras fontes – e portanto não é um nome surgido ao acaso, na medida em que se trata de um tradutor.
Seu livro traz um pouco do que vem a ser o trabalho de um tradutor. Gostei especialmente desta parte, de conhecer esse processo/trabalho. Podes falar um pouco disso?
Esta é a parte, certamente, em que o narrador-personagem mais se aproxima do autor – nessa confusão babélica que já é tão antiga -, em que a simetria entre ambos é bastante grande. Acho que, ao ler Três traidores, se pode esboçar, em largas pinceladas, uma espécie de teoria Marcelo Backes da tradução, que não deixa de ser polêmica, às vezes.
Também gostei muito do trecho em que Matias traduz sessões de uma análise lacaniana. Projeção minha, claro. Qual é a sua ligação com a psicanálise?
Eu nunca fiz análise, mas sempre circulei muito com psicanalistas e sempre estive bem próximo de pessoas que tinham diretamente a ver com a questão. Além disso, li muito de Freud, muito mesmo, e também alguma coisa de Lacan, mas também li Cioran, que não poupa a psicanálise – afinal de contas, ela tem a pretensão de ajudar, seja como for, o ser humano -, e também Karl Kraus, que diz que a psicologia de um modo geral é um ônibus que tenta acompanhar uma aeronave; e foi isso que eu pensei todas as vezes em que vagamente cogitei me ver sobre um divã – e te juro que não há nenhuma pretensão nisso! A velocidade da queda de uma aeronave é vertiginosa…
Como funciona a sua rotina para escrever um livro? Se é que existe uma…
Existe um processo básico que é o seguinte: eu escrevo e faço anotações ao longo de vários anos, e num momento de culminância, reúno tudo aquilo que anotei e escrevo o livro – em três ou quatro meses. Esse momento de culminância, às vezes é até detonado por uma questão pessoal, de ordem subjetiva. E, naturalmente, você tem uma rede muito básica, alguns elementos de ordem aforística, um princípio, meio e fim – que podem mudar. Muita coisa pode acontecer nesse processo final, nada é rígido. Até agora todos funcionaram assim e eu acredito que todos que escreverei, serão assim.
Que escritores te influenciaram, ontem e hoje?
Vou falar dos de ontem, que são os mais importantes pra mim e os que realmente mais leio. Cronologicamente, o Montaigne dos Ensaios, o Laurence Sterne do Tristram Shandy e o Heinrich Heine da obra inteira. No século XX, acho o Doutor Fausto de Thomas Mann um monumento, nunca deixo de palmilhar Proust, que pra mim melhor viu o mundo de dentro para fora, e Musil, que melhor viu o mundo de fora pra dentro. Esquisito, isso, mas é assim mesmo. No Brasil, dois autores bem diferentes: Machado de Assis e Guimarães Rosa, sem os quais não se consegue compreender aquilo que verdadeiramente significa o Brasil e suas possibilidades.
Quais livros estão na tua cabeceira nos últimos tempos?
Todo Proust, todo Musil, que nunca saem de lá, todo Schnitzler, mas andei lendo de novo por exemplo Lolita, de Nabokov, que é um romance estupendo.
A editora Record acabou de lançar dois volumes do Arthur Schnitzler (1862-1931), traduzidos por você – que foram capa do Sabático, no final de janeiro. Conte-me um pouco deste trabalho com este amigo do Freud.
Schnitzler é um grande narrador que sempre escreve em alto nível. Há muito me ocupo dele e o parentesco com Freud, me parece, o ajuda a ter sucesso inclusive comercial no Brasil. Ele é um escritor que sabe como poucos abordar a alma humana e isso em histórias narradas com primor – suas novelas e seus romances me parecem oficinas literárias absolutamente perfeitas – assim se escreve um romance (O caminho para a liberdade), assim se escreve uma novela (“O médico das termas”). Logo, tive a ideia de coordenar e traduzir “As Grandes Obras de Arthur Schnitzler”, apresentei a ideia à minha querida amiga Luciana Villas Boas, ela topou e, assim, vamos publicar toda a ficção – boa parte dela inédita – de um dos maiores autores de todos os tempos, mais sua autobiografia – aliás grandiosa -, um volume com suas peças etc.
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::: Três traidores e uns outros ::: Marcelo Backes ::: Record, 2010, 176 páginas :::
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Ótimo papo para terminar o domingo. Penso que está fazendo falta nos nossos jornais o Backes crítico literário.
Proust, que pra mim melhor viu o mundo de dentro para fora II
Van,
maravilhoso!!!
Adorei a entrevista.
Agora mais do que nunca preciso começar minha leitura
Beijão!
Tuas entrevistas tem muito diferencial em relação ao que se vê por aí – sobretudo na grande mídia. Tens consciência disso, não?
E o Marcelo para ser um cara intelectualmente fenomenal…
Também gostei muito da entrevista, principalmente das referências que ele mencionou e da rotina que ele afirma ter ao escrever um livro.
Parabéns e obrigada por compartilhar conosco, Vanessa!