Boaventura Santos e a ciência pós-moderna

-- Boaventura de Souza Santos --
por Kentaro Mori
Formado por ideogramas milenares, o idioma chinês possui uma riqueza digna de tal história: os ideogramas que formam o termo “crise” se constituem daqueles que significam “perigo” e “oportunidade”. Algo que o sociólogo Boaventura de Souza Santos, em seu Um discurso sobre as ciências (1987), poderia apreciar ao relativizar tanto do contexto cultural e sociológico da ciência, enquanto pretende apontar a crise do “paradigma dominante” da ciência moderna.
Depois de expor sua visão do que constituem os fundamentos do paradigma vigente até poucas décadas antes de 1980, Santos adentra na suposta crise científica:
Einstein constitui o primeiro rombo no paradigma da ciência moderna … Como é que o observador estabelece a ordem temporal de acontecimentos no espaço? … A fim de determinar a simultaneidade dos acontecimentos distantes é necessário conhecer a velocidade; mas para medir a velocidade é necessário conhecer a simultaneidade dos acontecimentos. Com um golpe de gênio, Einstein rompe com este círculo, demonstrando que a simultaneidade de acontecimentos distantes não pode ser verificada, pode tão só ser definida. É, portanto, arbitrária e daí que, como salienta Reichenbach, quando fazemos medições não pode haver contradições nos resultados uma vez que estes nos devolverão a simultaneidade que nós introduzimos por definição no sistema de medição.
Esta é uma versão peculiar para a compreensão da Teoria da Relatividade, como se fosse um simples “golpe de gênio” fundamentado em uma mudança de convenções. Como se qualquer um antes de Einstein pudesse ter dado este salto filosófico. Para minha surpresa, esta versão peculiar é mesmo tomada quase textualmente da obra citada do físico Hans Reichenbach, um celebrado divulgador científico, em especial das ideias de Einstein, de quem chegou a ouvi-las diretamente. Não há erro nela, exceto no ponto em que Boaventura Santos parece entendê-la, e expressá-la, de forma duvidosa.
Reichenbach ofereceu uma exposição e discussão muito mais longa da Relatividade, onde o mal-entendido, se é que é mal exposto, é desfeito, mas Santos parece contente com o engano subentendido. E ele pode ser resumido no fato de que Einstein tornou-se célebre pela Teoria da Relatividade, e não pela Teoria da Arbitrariedade. Ainda que Reichenbach, assim como Einstein (ou o contrário seria mais correto), tenha sim ressaltado o caráter arbitrário com que se pode definir a simultaneidade de dois eventos, nenhum deles deixou de expor claramente que esta arbitrariedade está vinculada aos quadros de referência adotados, na forma como se realiza a medição.
O “golpe de gênio” de Einstein não foi meramente filosófico. Não foi puramente arbitrário. Fundamentou-se em descobertas empíricas, ou melhor dizendo, na ausência de uma descoberta empírica em particular — a do éter luminífero — e sua rápida aceitação deveu-se à beleza com que explicava resultados empíricos, como o experimento de Michelson e Morley, um dos mais bem-sucedidos experimentos que não deram certo. Não apenas a Relatividade só faz sentido e só foi aceita amparada em um conjunto de resultados experimentais, como seu desenvolvimento mais completo, com a Teoria da Relatividade Geral, só seria alcançado incorporando um embasamento matemático que por vezes escapava ao próprio Einstein. Empirismo e matemática.
Continua Santos:
O caráter local das medições e, portanto, do rigor do conhecimento que com base nelas se obtém, vai inspirar o surgimento da segunda condição teórica da crise do paradigma dominante, a mecânica quântica.
Há vários erros aqui. Santos tenta associar a Teoria da Relatividade – que entende como limitando o rigor do conhecimento a medições locais – com o Princípio da Incerteza. Mas embora hoje os dois conceitos façam a alegria de filósofos pós-modernos, em seu desenvolvimento é célebre como um não inspirou o outro. Pelo contrário, Einstein jamais aceitou a incerteza, e sua Teoria da Relatividade, ao contrário do entendimento de Santos, ainda lidaria com a possibilidade teórica do determinismo.
Ironicamente, um ponto que ambas ideias de fato revolucionárias teriam em comum é justamente um que, novamente, vai de encontro à visão pós-moderna: tanto a Relatividade quanto o Princípio da Incerteza questionaram o entendimento de fundamentos da física moderna através de descobertas e demonstrações empíricas, reproduzíveis e testáveis, modeladas com rigor matemático.
Longe de serem revoluções arbitrárias, longe de serem construções culturais, estas revoluções científicas são em si mesmas evidência do caráter objetivo e empírico da ciência transcendendo crenças pessoais ou coletivas. O GPS de seu carro funciona com a Relatividade, com uma precisão de metros fornecida por satélites a milhares de quilômetros por hora. Seu computador é fundamentado na mecânica quântica, efetuando bilhões de cálculos sem erro através de portas lógicas com nanômetros de tamanho.
Isso parece pouco rigor? Esses são mais frutos utilitários e, se não absoluta, ao menos efetivamente determinísticos e exploratórios da natureza, produzidos pela “crise” da ciência moderna apontada por Santos, e frutos que ele já podia ver em 1985.
Podemos não viver no Universo determinístico do demônio de Laplace, onde conhecer o presente com absoluta precisão significaria conhecer o passado e prever o futuro, mas a cosmologia perscruta a evolução do Universo há mais de 13 bilhões de anos. Esse parece um fracasso? Talvez seja mais do que Laplace poderia ter concebido, que as leis naturais podem ser ao mesmo tempo probabilísticas e rigorosas em escalas quase infinitas, algo que até hoje muitos têm dificuldade em compreender.
Como muitos, Santos parece pensar que, com Einstein, as Leis de Newton foram demolidas, ou que com o Princípio da Incerteza basta desejar uma bicicleta com suficiente afinco para obtê-la. Em verdade, aqui como em uma galáxia em Andrômeda, maçãs continuarão caindo em direção ao centro de um planeta esférico. Se existirem maçãs em Andrômeda, é claro. A Relatividade não limita a precisão de uma medida em “local” e “distante”, apenas vincula medidas a um quadro de referência, arbitrário, sim, mas obedecendo com rigor abismal a equações matemáticas descritas por Einstein. Equações, por sua vez, que só encontram seus limites preditivos no mundo da física quântica – uma que, apesar de possuir caráter probabilístico, permite predições com rigor enorme, o mesmo que fundamenta a precisão digital de seu computador.
Ao discutir os rombos da suposta “crise” na ciência moderna, Boaventura Santos discorre sobre as revoluções como se Einstein, Bohr e Heisenberg dessem seus “golpes de gênio”, como os que ele, como sociólogo, pretende fazer ao expor em 1985 o estado da ciência atual e especular sobre seu futuro. Mais de vinte anos depois, vemos como a visão de Santos do que era a ciência em 1985 era limitada, e suas previsões sobre o futuro se mostraram míopes.
É revelador que ele entenda que a:
teoria de estruturas dissipativas de Prigogine, ou a teoria sinergética de Haken, … a teoria da ‘ordem implicada’ de David Bohm, a teoria de matriz-S de Geoffrey Chew e a filosofia do ‘bootstrap’ que lhe subjaz e ainda a teoria do encontro entre a física contemporânea e o misticismo oriental de Fritjof Capra, todas elas de vocação holística e algumas especificamente orientadas para superar as inconsistências entre a mecânica quântica e a teoria da relatividade de Einstein, todas estas teorias introduzem na matéria os conceitos de historicidade e de processo, de liberdade, de auto-determinação e até de consciência que antes o homem e a mulher tinham reservado para si.
Perceba como Boaventura Santos pensa que Bohm, Chew ou mesmo Fritjof Capra conseguiriam conciliar a Quântica com Relatividade meramente com uma abordagem filosófica diferente! É novamente a ideia do “golpe de gênio”, e para quem entende que as revoluções científicas da física moderna (ou mesmo da matemática) se dão de forma meramente cultural, sociológica, para quem anuncia que “o discurso científico aproximar-se-á cada vez mais do discurso da crítica literária”, isso pode faz sentido.
O pequeno detalhe é que esta simplesmente não é a realidade, e ao discorrer sobre as ciências, Boaventura Santos simplesmente expõe uma visão fundamentalmente falha do que a ciência foi, e é. Sem surpresa, falha ao prever como será. Seu “golpe de gênio” não o tornou duas décadas depois fundador de um novo paradigma científico, apenas o tornou um dos porta-vozes do pós-modernismo em língua portuguesa, e um que, na opinião deste autor, essencialmente se resume a repetir boa parte do pensamento de Fritjof Capra exposto anos antes.
Enquanto Santos anunciava um novo paradigma científico assentado na “sensocomunização”, a ciência de verdade seguia sendo revolucionada por descobertas empíricas que foram de encontro a crenças difundidas na academia, que se dirá no senso comum. Poucos anos antes, Santos poderia ter mesmo visto como a teoria de deriva dos continentes passou de ideia absurda a um dos principais fundamentos da geologia, graças a uma acumulação cada vez maior de evidências de múltiplas fontes. Na mesma década de 1980, Santos assistiria como a hipótese de Luis e seu filho Walter Alvarez para a extinção KT como provocada pelo impacto de um asteróide seria gradualmente aceita pela comunidade científica, outra vez devido a inúmeras linhas de evidência diferentes.
Santos deve ter assistido inclusive como as ideias de Fritjof Capra pouco afetaram a física de verdade, apenas alimentaram um mercado de vendedores de pseudociência que bebe das ideias da “ciência pós-moderna” para explorar consumidores.

A estes vendedores de pseudociência, explorar e conciliar o senso comum com a transferência de dinheiro para seus bolsos, isso sim é um paradigma de sucesso. Mas este é um paradigma muito antigo, anterior mesmo a Bacon, Descartes, ou Hume. Este é um paradigma do que não é e não deve ser a ciência.
O senso comum é instável e, ele sim, arbitrário e quase unicamente sujeito a convenções sócio-culturais. Pode ser algo como a anedota sobre os ideogramas chineses para “crise” que iniciam este texto, que é simplesmente falsa. Se você acreditou nela, talvez acredite na forma como Santos expressa suas ideias como fatos e pressupostos indiscutíveis. Devem, no entanto, ser muito discutidos. O conflito com o senso comum, quando se descobre que ele é falso, é uma questão complexa, mas não é promovendo um entendimento deficiente da ciência que se irá resolvê-lo.
Compare-se o pensamento de Santos com o do filósofo francês Edgar Morin:
Hoje, sabemos que tudo é ambivalente. Sabemos que a ciência pode produzir benefícios extraordinários e ao mesmo tempo forças de destruição, e de manipulação, que jamais existiram antes. Sabemos que a racionalidade, que é nosso instrumento de inteligibilidade mais confiável, pode bloquear-se e tornar-se racionalização, ou seja, um sistema lógico, coerente, mas que ignora as coisas concretas.
Há profunda sabedoria, e nenhum linguajar rebuscado ou pseudo-erudito, nesta breve visão de mundo, que reconhece o valor da ciência e da racionalidade e também seus perigos, sem incorrer em exercícios de manipulação de conceitos e outras técnicas que tornam o pós-modernismo um castelo tão imponente mas tão vazio e carente de fundamento. Ao ler Morin, é fascinante encontrar nas ideias de um filósofo conceituado descrições acuradas sobre a forma como se confirmou a teoria do Big Bang através da descoberta da radiação de fundo ou sobre o funcionamento do DNA e a transmissão de características hereditárias. Ao contrário de Santos, Morin não subverte seu entendimento destas ideias científicas a sua própria filosofia. E, vinte anos depois, as ideias de Morin ainda parecem muito válidas.
Compare-se, por fim, o pensamento de Santos com a visão mais reveladora do que as revoluções em diversas áreas representam no contexto do conhecimento científico, em um curto e belo ensaio de Isaac Asimov – escrito na mesma época que o livro de Santos. É “A relatividade do errado“. Claro que não deve ser o início e o fim da reflexão sobre o tema, mas se Asimov pode ser um começo, Santos a este autor seguramente não é nem isso. Tanto que, para uma visão muito mais presciente e bela sobre o futuro do processo científico e da popularização do conhecimento, assista-se a esta entrevista com o mesmo Asimov, feita também na mesma época em que Santos parecia ignorar completamente a revolução das tecnologias de informação.
Asimov, longe de ser um sociólogo, era um bioquímico por formação e um celebrado autor de… ficção científica. Ao final deste século, é bem provável que Asimov ainda seja lembrado pelos que pensem em ciência. Se não por seres humanos, talvez por robôs. A cena, imagino, seria o horror de um pós-modernista, mas, ironia das ironias, é provável que ao final deste século o pós-modernismo tenha passado como a moda que advoga o que a ciência é. O que o substituirá, bem, só os designers de moda podem dizer.
Fato é que as maçãs continuarão caindo, se ainda existirem maçãs.
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Primeiramente, não li nada de Boaventura de Souza Santos.
Mas lendo os trechos que vc cita e seus comentários não consigo compreender certas acusações que vc faz ao texto do sociólogo. Em um ponto vc diz que ele trata a Teoria da Relatividade “como se qualquer um antes de Einstein pudesse ter dado este salto filosófico”. Não vejo claramente onde isto está no texto citado. Poderia muito bem ser pensado que existe um “salto filosófico” na Teoria da Relatividade, mas que a impressão de que este salto é simples é decorrente do fato dele já ter sido internalizado pela nossa cultura. Algo que parece simples e óbvio para nós não necessariamente o era antes de se tornar simples e óbvio.
Em outro momento vc cita um texto que diz que a relatividade “inspirou” o surgimento da mecânica quântica. Vc critica isto dizendo que “é célebre como um não inspirou o outro”. Entretanto, não é dado ao leitor a oportunidade de descobrir o que significa exatamente “inspirar” no livro de Boaventura de Souza Santos. Isto porque eu consigo pensar que inspirar possa significar que, uma vez que a teoria da relatividade representa um “salto filosófico” – como dito antes, a primeira teoria tenha inspirado todo o desenvolvimento da ciência posterior que mantém as características filosóficas (paradigmáticas) daquele movimento.
Vc também lança mão de uma oposição entre revoluções culturais (que seriam arbitrárias) e revoluções científicas. Não visualizo duas coisas: a necessidade de uma oposição (uma mesma revolução poderia ser científica e cultural); e a identificação de cultura com arbítrio.
Em outro momento vc pergunta, sobre uma realização da cosmologia contemporânea, se aquilo parece um fracasso. Não consigo entender em que ponto isto se opõe ao que disse Boaventura de Souza Santos. Nos textos citados, ou no significado do vocábulo “crise”, não parece existir nada que diga que a ciência estaria fracassando ou que isso seja significativo para o argumento do autor.
Por último, me parece que certa parcela dos autores que divulgam, defendem, ou advogam a causa da ciência (daquilo que estes autores entendem por ciência) aqui no Brasil padece de alguns lugares comuns, como certa condenação de um pensamento, que qualificam como um movimento ou uma corrente, chamado pós-modernismo, pós-estruturalismo, construcionismo, ou desconstrução (que seria representado por autores tão diversos quanto Deleuze, Foucault, parte do feminismo radical, e Frijot Capra). Não vejo a alegada unidade no pensamento destes autores que permita tal identificação. Acredito que estes expedientes não ajudam em nada o texto, já que o melhor, acredito eu, seria analisar e confrontar idéias, trechos concretos de texto e não “o que seja aquilo que chamam de pós-modernismo”.
Abraço
Olá Hugo,
Você diz não conseguir compreender as acusações que fiz, mas seu comentário revela que sim as entendeu, apenas prefere conceder o benefício da dúvida a Boaventura Santos, ao mesmo tempo em que diz que não leu o livro.
Eu poderia ter pinçado outros trechos, ou trechos mais longos. Poderia ter escrito um outro livro criticando em mais detalhe todos os trechos. Não foi o que fiz, mas é curioso que você conceda o benefício da dúvida ao acusado, mas não ao acusador.
Como está, penso que os trechos que pincei me parecem suficientemente claros, tanto que, repito, você entendeu a crítica e os erros que apontei. Contudo, como também repito, se está disposto a imaginar que Boaventura Santos quis dizer praticamente o oposto do que se entende pelos trechos que pincei, ou que qualquer resquício de verossimilhança nos trechos — como uma “inspiração” vaga no sentido de que uma revolução científica poderia motivar outra — então é evidente que discordará do texto. Mas a discordância deriva de pressupostos, não do texto.
Eu não afirmei que revoluções culturais se opõem completamente às científicas, ou que as primeiras seriam puramente arbitrárias enquanto as últimos inteiramente objetivas. Releia o texto com atenção e me conceda o benefício da flexibilidade de interpretação que concede a priori a Santos. Apenas, como critiquei o relativismo de Santos, enfatizei o contraponto. Isso não significa que revoluções culturais não tenham relação com a realidade ou que as científicas não possuam aspectos culturais.
Nos textos citados Boaventura fala de “rombos”, de “crise”. Ao ler o livro, ficará claro como ele retrata o suposto paradigma científico como fracassado. O livro se divide em três partes, o que seria o paradigma então vigente, sua crise, e então aquilo que o substituiria.
Por fim, Boaventura Santos cita Capra repetidamente, e como expressei, a meu julgamento um quarto ou até metade do livro se constitui daquilo que se lê em Capra. A outra metade podem ser ideias originais de Boaventura, no entanto eu não leio autores pós-modernistas. Jamais aleguei que todos autores pós-modernistas possuem um pensamento monolítico. Apenas notei que na convergência relevante ao texto, eles estariam errados, e em conjunto.
Peço, novamente, que me conceda a generosidade de interpretação e a presunção de que meu pensamento também possui nuances, sendo mesmo tolerante e maleável, que concedeu a Boaventura mesmo sem lê-lo. Porque você leu meu texto, e entendeu por vezes muito do que eu não expressei, nem expressaria.
Este benefício, esta generosidade, eu aparentemente não concedi a Boaventura. Mas eu li seu livro. Li mesmo que posteriormente ele desdisse muito do que está no livro, e de fato, o próprio livro possui muita ambiguidade e mesmo incoerência. Se fosse abordar estas questões, de novo, talvez escrevesse um outro livro de crítica, não um texto.
Recomendo a leitura da análise mais concisa e clara do amigo Bessa:
http://scienceblogs.com.br/bessa/2011/02/no_temam_no_h_crise_nenhuma_um.php
Cordialmente,
Kentaro
Olá,
Acredito que concedi mais ao Boaventura de Souza Santos devido ao fato de ele não poder responder aqui e também de, como eu disse, eu não ter lido o que ele disse. Acabei aplicando um pouco de “In dubio pro reo” e presunção de inocência (pra continuar nas metáforas de réu e acusador) em favor de Boaventura. Isto se deve muito ao fato de apenas trechos bem curtos serem citados e de eu não ter lido a obra dele, bem como à clareza da sua exposição. Tudo isto me fez pensar que, embora eu lhe conceda o benefício da dúvida, o texto de Boaventura de Souza Santos merecia uma suspensão de juízo maior de minha parte (não da sua, já que vc o leu).
Talvez tenha parecido a vc que eu fui muito duro com o seu texto. Neste caso a culpa é minha. Eu gostei do seu texto, ainda que não concorde com algumas leituras que eu acredito implícitas nele. Com certeza concordo que não existe uma crise das ciências no sentido que vc critica e atribui ao texto do sociólogo (no sentido de uma falta de resultado ou de rigor das ciências exigindo uma superação, um novo paradigma).
O que eu acredito que era o sentido da minha primeira critica ao seu texto é o fato dos textos que vc cita do livro de Souza Santos apenas tocarem marginalmente a interpretação e a crítica realizada. Talvez outros trechos pudessem ter sido citados para embasar melhor a crítica. Talvez, realmente, o texto seja muito curto para a crítica que vc pretendia. Ainda assim, não ache que eu não lhe dou o benefício da dúvida e da flexibilidade de interpretação. Apenas, como eu disse, vc poderia contra-argumentar, ao contrário do outro pensador.
A segunda crítica não é que vc alega, declaradamente, um pensamento monolítico a vários autores. Mas vc os coloca todos sobre um mesmo nome (pós-modernistas) e os critica em conjunto, mesmo admitindo que não os lê. Não sei se Boaventura se denomina pós-modernista (acredito que não), mas a categoria esconde um pouco de preguiça mental por parte de certos setores (não estou dizendo que seja o seu caso). Acho que é fácil dizer: “todos estes pós-modernistas falam isso”. Ainda que um dos ditos autores falasse, isto não nos permite afirmar sobre os outros.
Eu sou leitor de Foucault (em menor medida) e Deleuze – dois ditos pós-modernistas. Entretanto meu mestrado foi em Hume e Deleuze tem um excelente livro (e um artigo posterior) sobre ele. Boa parte das acusações de abuso da ciência (pseudociência) feitas principalmente a partir do livro do Sokal e do Bricmont (Imposturas Intelectuais) e das resenhas deste livro são ilusórias, na minha opinião. Confira a resenha do Dawkins (em inglês: http://richarddawkins.net/articles/824-postmodernism-disrobed, não achei em português) sobre o livro, por exemplo. Ele cita um trecho de um livro do Deleuze e diz que não faz sentido. E, no entanto, faz. Este tipo de procedimento (denuncismo – “nada disto faz sentido”, colocar autores diferentes no mesmo saco, não ler honestamente um texto, etc) apenas cria uma posição radical e cega que prefere desqualificar do que debater.
Não estou dizendo que vc faça isto, novamente (mesmo pq vc leu o livro e criticou aquilo que leu). Mas dizer que isto é comum entre “os autores pós-modernistas” é preconceito e não crítica. Apenas acredito que o texto não ganha em nada com esta afirmação sobre autores pós-modernistas porque acredito que não existe isso que se convencionou chamar de “autores pós-modernistas”. Mesmo a hipótese de “se concordassem com isto estariam todos errados” não me parece boa.
Espero que tenha ficado mais claro.
Saudações,
Hugo.
Lamento dizer, mas os ideogramas “crise” e “oportunidade”, são um erro de tradução que virou lugar comum depois de uso corrente em neurolinguística e new age
http://pinyin.info/chinese/crisis.html
E isto está dito no texto, um pouco abaixo da figura.
Em se tratando de paradigmas seria bom lembrar que a proprio pensamento (filosofia) encerra um paradigma linguistico apenas, nada mais. O que o pensamento pode saber eh cada mais sobre o proprio pensamento, nada mais… Eh um jogo linguistico meus amigos!… A filosofia se presta a responder a apenas duas perguntas: “O que eh realidade?” e “O que eh ser?” ou o que somos?… o que vc eh? e falha nas duas… Nao alcança, com a linguagem (conceitos e ideias) a resposta a tal pergunta, pois a linguagem eh o proprio sujeito que pergunta. Tem um ilustre brasileiro (nao me lembro o nome agora…) que disse: Xadrez eh um jogo que ensina a cada vez mais jogar xadrez, nada mais… E assim eh com a linguagem, com a logica com a razao…O importante entao eh perceber o “ser” por traz do paradigma linguistico… Essa eh a grande sacada. Einsten, Born, Heisenberg sim nos proporcionaram um salto filosofico. Nos deram um vislumbre direto do que eh realidade e do que somos nos,… sim, observadores por tras da propria linguagem, da razao e da logica. O espirito dentro da maquina… Nao existe realidade sem o observador…=) O principio da incerteza tem sim relevancia filosofica e diria mais da um golpe fatal na filosofia e sua finada metafisica.