A aliança profana do Papa com o ditador

-- Polícia reprime manifestantes em Minsk, Bielorrússia (dez/10) --
Escândalo é um termo leve demais para descrever o abuso de crianças nas mãos de padres da Igreja Católica. Mas seja qual for a palavra que você utilize – “atrocidade”, “obscenidade”, não consigo encontrar a correta –, não se pode negar que o estupro sempre foi uma questão de poder, como disseram as feministas dos anos 70. O poder do adulto para domar e forçar-se para cima do mais jovem foi complementado pelo poder do Vaticano para proteger os estupradores da justiça e acobertar seus crimes.
Se a igreja acreditasse em sua própria doutrina, podia-se esperar que o papado tivesse mostrado um naco de contrição e pesar. Entretanto, após presidir como cardeal Ratzinger a um sistema paralelo de justiça em que havia uma lei para sua igreja e outra para o resto das pessoas, o Papa Bento XVI está mostrando que perdoará seus próprios pecados, mas sem tirar qualquer lição.
Não é hiperbólico dizer que a ditadura de Alexander Lukashenko está estuprando a Bielorrússia. A partir do momento que massas aglomeraram-se em Minsk para protestar contra as eleições fraudadas de dezembro, agentes da polícia secreta têm se forçado para cima de suas vítimas. Eles já prenderam e agrediram centenas, encarceraram sete dos nove candidatos à presidência e espancaram um deles, Vladimir Neklayaev, até ficar inconsciente, após arrastarem-no de um hospital onde poderia ter encontrado refúgio.
Em um tributo às táticas dos comunistas, Lukashenko está ameaçando enviar os filhos de dissidentes para orfanatos – sua própria forma de abuso infantil. Após as autoridades tentarem apanhar Danil Sannikov, filho de três anos do líder oposicionista preso Andrei Sannikov, um analista político local explicou que “ao usar crianças, as autoridades podem conseguir que seus oponentes confessem, capitulem politicamente, apareçam na televisão estatal e façam um discurso de arrependimento.”
Ou como a avó do garoto explicou enquanto se agarrava à criança: “Os terríveis tempos stalinistas estão voltando à Bielorrússia. Não acredito que isso esteja acontecendo.”
Naturalmente, os membros da oposição bielorrussa ainda em liberdade apelaram a estrangeiros para que condenem o regime. Essa é sua última carta. A Rússia mantem a tirania economicamente segura porque Putin quer que a Bielorrússia funcione como um pára-choque, e não se importa com o sofrimento de seu povo mais do que a China se preocupa com o sofrimento do povo norte-coreano.
A Europa é tudo que eles têm, e embora seja fácil criticar a baronesa Ashton, a política britânica que quase ninguém sabia que existia até que um jogo de dança das cadeiras em Bruxelas acabou com ela no assento do Alto Representante da União Europeia para Assuntos Externos, devo dizer que ela está se portando honrosamente. Encontrou-se com a família de Sannikov e prometeu fazer o que estivesse a seu alcance para conseguir a soltura de prisioneiros políticos.
A oposição tem seus inimigos na Europa. O correspondente da New Statesman, revista que desculpou os assassinatos em massa na União Soviética nos anos 30, foi além de seus antecessores stalinistas quando elencou como uma razão para os leitores darem à ditadura o benefício da dúvida sua visita a “uma das pérolas industriais do país – a enorme fábrica de automóveis BelAZ… [que] emprega 12 mil pessoas e é a maior fabricante de caminhões de mineração do mundo”. Além da esquerda tiranófila com sua eterna reverência a quotas de produção de caminhões, entretanto, o principal problema dos dissidentes é a indiferença da Europa, ao invés de sua inimizade.
Então foi com um pouco de esperança que líderes da oposição pediram para se encontrar com o arcebispo Martin Vidovic, o núncio papal na Bielorrússia. Eles levavam uma carta endereçada ao Papa, que dizia: “Hoje a Bielorrússia está imersa na escuridão. As prisões de ativistas, buscas em apartamentos e batidas e pogrons em websites e jornais independentes continuam. As autoridades estão chantageando os presos políticos utilizando seus filhos pequenos. Desejamos sua ajuda.” O núncio se recusou a recebê-los. Depois ele amoleceu, mas Ratzinger não protestou contra a opressão ou prometeu romper laços diplomáticos com o estado fora-da-lei.
O Vaticano que ainda alega ser uma força para o bem no mundo permanece em silêncio porque deseja uma concordata com o estado que ainda tem uma KGB e estátuas de Lenin por suas ruas, da mesma forma que buscou acomodação com a Alemanha nazista nos anos 30.
As vantagens para o papado são difíceis de julgar, porque os termos da concordata são secretos, mas podemos assumir que ele quer o que sempre quis: dinheiro público e controle da educação infantil. As vantagens para Lukashenko são mais fáceis de compreender.
É um erro supor que ditadores não precisam se preocupar com a opinião pública. No mínimo, eles querem assegurar a concordância passiva da população subjugada e a desmoralização de seus oponentes. Em troca de concordar entrar em acordo com Roma, Lukashenko ouviu o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de estado do Vaticano, fazer as duas coisas.
O absurdo cardeal elogiou a Bielorrússia por permitir a “liberdade religiosa” e denunciou as sanções contra o regime como “inaceitáveis”. A Bielorrússia tem uma considerável minoria católica e o Papa tem tentado com sangue frio legitimar o ditador a seus olhos, não apenas através de suas intervenções políticas, mas também convidando Lukashenko para uma audiência no Vaticano.
Ano passado, me encontrei com Natalia Koliada, fundadora do Teatro Livre da Bielorrússia, um centro da dissidência intelectual a Lukashenko. Na ocasião ela estava vibrante, cheia de esperança de que talvez agora a vida em seu país fosse melhorar. Quando lhe telefonei no mês passado, a mulher antes dinâmica estava deprimida demais para conversar.
Quando esteve em Londres, o Teatro Livre exibiu um vídeo de Números, uma brilhante peça absurda que você pode encontrar no site Index on Censorship. Os atores mimicam rotinas surreais enquanto uma câmera projeta em uma parede ao fundo estatísticas que enumeram a escala da prostituição, pobreza e doença na Bielorrússia. No final, uma lista de nomes famosos enchem a tela – Marc Chagall, Isaac Asimov, Kirk Douglas… gente que conhecemos ou deveríamos conhecer, nascidas na Bielorrússia ou entre famílias exiladas.
Por um momento fiquei confuso, até perceber que os atores estavam tentando dizer que a Bielorrússia é parte do mundo ocidental e que deveríamos lutar por ela. O espetáculo do Papa, o último soberano da Europa, fazendo acordos com Lukashenko, o último ditador da Europa, mostra que a luta deve ser travada também no front doméstico.

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Lamentável. Essa aliança enoja como todas que têm como objetivo o poder. Pena que poucos saibam disso.