Eu viajo, nós viajamos. E eles, viajam?
por Otávio Dias – Já quis ser piloto, muito. Acho que além do fato de meu pai ter sido um, o desejo surgiu por causa de uma das cenas mais marcantes do cinema moderno: a abertura de Guerra nas Estrelas, em que uma nave espacial despontava na tela e a cruzava por um tempo que parecia infinito – a nave simplesmente não terminava! A então trilogia de Guerra nas Estrelas (porque falo do começo da década de 1980) é inegavelmente uma saga mitológica em que os cavaleiros de outrora foram substituídos por pilotos e os campos de batalha se tornaram o espaço remoto e paisagens as mais diversas – afinal os planetas habitáveis apresentados na saga parecem indiferentes às leis da física.
Nada contra, em absoluto: a imaginação pode nos levar a qualquer tempo e lugar e, contra a intuição de uns e outros, levou muitos – muitos mesmo – moleques aos universos científicos da física e da astronomia. Guerra nas Estrelas, entretanto, não é a única inspiração existente: temos ficção científica desde muito antes, quer seja nas histórias lunares de Cyrano, quer seja nos lançamentos balísticos de Júlio Verne; isso pra não falar em Jornada nas Estrelas, a série de TV mais cultuada de todos os tempos. Adiante.
Mas onde estivemos, nesse universo pra lá de grande?
Voilà, eis uma questão pra lá de interessante. Já mandamos sondas que pousaram na Lua, em Vênus, em Marte, em Titã. Alguns de nossos exploradores artificiais, Voyager 1 e Voyager 2, já passaram da órbita de Plutão – que cresci chamando de “último planeta do sistema solar” – e se encontram nos limites do sistema solar, em pleno funcionamento e ainda nos fornecendo dados sobre as cercanias de nosso planeta, a mais de 10 bilhões de quilômetros de distância da base de lançamento (os últimos informes da missão podem ser encontradas aqui), pouco mais que algumas horas-luz. Nossos instrumentos estão por aí, espalhados pelo universo.

-- As sondas Voyager são o aparato humano que mais distantes se encontram de nós --
Apesar do estudo técnico feito por Von Braun para uma expedição tripulada com destino à Marte (aqui), há mais de 50 anos, e do que andam dizendo pessoas que se dizem versadas em ciências (que na verdade são maus céticos, daqueles que ignoram os fatos e aceitam apenas a própria filosofia), o destino mais distante que conseguimos alcançar em viagens tripuladas, até agora, é a Lua, a pouco mais de 300 mil quilômetros de casa. Nada, se comparado às distâncias percorridas pelas duas sondas Voyager. E, infelizmente, esse grande feito – porque sim, aconteceu e foi um grande feito técnico – não poderá ser alcançado no ano de 2020, como esperado, porque infelizmente o presidente Obama cancelou o programa Constellation, com boas razões. Estamos ilhados, por enquanto.
Bem, mais ou menos. Apesar da distância percorrida por nossas sondas mais distantes soarem como uma enormidade, marcamos presença noutra escala porque nossas transmissões de rádio e TV, que acontecem através de ondas eletromagnéticas, têm viajado há mais de 50 anos (é o motif usado por Carl Sagan no livro Contato – uma boa leitura). Como viajam à velocidade da luz, tais transmissões já chegaram a estrelas distantes de nós 50 anos-luz, o que é um bocado pra quem está há pouco mais de oito minutos-luz de distância da estrela mais próxima (o Sol) e há aproximadamente 4,2 anos-luz de distância da segunda estrela mais próxima (Próxima Centauri).
E, apesar de tudo…
Apesar das pequeníssimas distâncias que percorremos – na escala cósmica, navegamos nada –, gostamos de pensar que outros fizeram viagens semelhantes, que os aliens estão entre nós ou, pelo menos, fizeram uma visitinha pra mostrar a fantástica iluminação de sua nave. Ou ao menos uma parte da população gosta de fazê-lo, disseminando mitos de abduções e marcas em lavouras (de novo ele, Carl Sagan discutiu este tema em O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela no escuro).

-- “Aí, eu só vim buscar uns gatinhos, que iguaria!” --
O físico italiano Enrico Fermi já discutira esse assunto, de maneira um tanto desinteressada e, ainda assim, inteligente, quando acabou por propor a questão que viria a ser conhecida mais tarde como “o paradoxo de Fermi”. No link há uma explicação boa, mas resumo aqui: considerando a idade da galáxia em que vivemos, seu tamanho, o tempo que demoramos a nos tornarmos uma sociedade um tantinho mais desenvolvida tecnológica e cientificamente (e, nesse quesito, continuamos a evoluir cada vez mais rápido), por que ainda não encontramos boas evidências da existência de uma civilização que, a essa altura do campeonato, já poderia ter colonizado toda a galáxia?
É, eu sei, o assunto é controverso e uma porção de teóricos da conspiração aparecerá pra dizer isso ou aquilo. Mas o fato é que do ponto de vista científico, precisamos de mais que avistamentos duvidosos ou teorias que se baseiam na ausência de fatos. Verdade, o paradoxo de Fermi se baseia também na ausência de fatos, mas é uma pergunta científica razoável que levanta outra e cria uma motivação: onde estão as evidências? Vamos procurá-las!
Um professor que eu respeitava costumava dizer que viajar é a melhor maneira de se aprender alguma coisa. Pode até ser, mas enquanto não podemos viajar, tem um bocado de coisas que podemos aprender aqui de casa. Um bocado.
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Muito interessante. Aprendi muita coisa com Otávio Dias. Lembrei do meu pai que adorava pensar os mistérios do cosmos. Obrigada!
Gloria Leal
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