Um manto pesado

por Vanessa Souza – Gosto e não gosto de Marcia Tiburi. Mais uma polêmica sobre obra e autor. Assisto-a no Saia Justa, no GNT, uma vez por semana. Até mais, quando vejo a reprise. Adoro-a quando: fala de psicanálise, cita Lacan, traz-me uma nova lição de filosofia, diz que odeia falar ao telefone e não gosta de responder e-mails de gente chata (pura projeção aqui). Não gosto dela quando: declara sua falta de vaidade tão descaradamente, afirma que deixaria os cabelos brancos se o Fernando (marido?) não pedisse para ela pintar… Só me ocorre estes dois pontos no quesito não gosto neste momento.

Pequena digressão sobre a autora para falar de sua obra. O manto é, literalmente, um livro pesado – são 624 páginas. Não tenho problema algum com livros grandes, pesados, cheios de páginas em letras miúdas, acaso sua leitura seja fluída. Contudo, o último livro da Marcia (e a única obra dela que eu li), além de extenso, transcorre pesado aos meus olhos – e ideias.

Evandro Affonso Ferreira, que descubro no Google que é escritor também, escreve na orelha do livro que O manto seria Fellini, se fosse filme, e Bosch, se fosse um quadro. Gosto de Fellini e Bosch, vou gostar de Tiburi, pensei, inocente, quando o livro chegou-me em mãos. Mas… É, há sempre um mas.

Tudo começa em um prólogo de 212 páginas, o mais longo da minha história de leitora. E eu leio muito, sempre li à exaustão. Exaustão, ocorreu-me agora, deu-me um prólogo de mais de 200 páginas, em 100 – ou sem – parágrafos. No prólogo, uma mulher explica os motivos de ter escrito o livro. Escrito não, transcrito. Esta mulher, uma contadora ou matemática ou alguém que trabalhava com números – não soube ao certo – decide, após perder o emprego e perspectivas, contar a história da mãe esquizofrênica. Mãe ausente, que a filha só soube que existia após sua morte, já que foi criada pela avó. A herança deixada por esta mãe, desligada daquilo que chamamos de realidade: uma velha casa de madeira, alguns objetos sem valor e nove fitas cassete. O teor das fitas trouxe a loucura de Berenice, mãe que a filha conheceu através da voz, objeto parcial, pulsão invocante, em fitas antigas – gravadas dentro de um guarda-roupa.

Adverte a moça dos números no prólogo:

O que temos aqui, embora seja um livro, não é exatamente um livro, mas algo parecido. (…) o que virá pela frente serve para todos como o são todas as histórias de mães. Mães que não passam de fantasias. (…) Tampouco tentarei entender minha mãe. Apesar de tudo o que envolve o imaginário relativo a mães e filhas, filhas e avós, avós e netas, netas e tias, não quero fazer um livro dramático, muito menos farei de minha mãe um livro histérico em que se fale de mulheres e suas relações. Já basta o que minha mãe contou em suas narrativas.

O restante dos livros traz a transcrição das fitas. E aí vem a parte mais densa: muitas notas de rodapé da filha – divagando sobre o que a mãe, talvez, quisesse dizer –, laudos psiquiátricos, muitos personagens, alucinações, peças que não se encaixam nesse quebra-cabeças sem solução que é a loucura. “(…) nem sei o que eu sou hoje, eu-eu e os outros, é gente demais para compreender de um golpe só, atribuo-lhe só o meu medo dos homens… (…) Araquine deve ter limpado e lançado fora, só o passado é que não se pode jogar fora, sua cola nos persegue, a qualquer um, mesmo eu-eu e os outros, e o conjunto inteiro de nós, até mesmo você está incluso, não pense que escapará…”, fala Berenice, em uma das fitas.

Loucura escrita com pinceladas de realidade? Psicose com certo rigor literário? Não me atreverei a encontrar uma frase que defina o discurso de Berenice, personagem ausente, mãe inexistente, revelada através de fitas gravadas dentro de um roupeiro, em voz abafada, sussurros, gritos – que se alternavam. Também não me atrevo a definir a obra. Apenas me ocorre uma palavra que usei no terceiro parágrafo: exaustão. O manto enrolou-se no meu pescoço em pleno fevereiro no Hell de Janeiro. E assim fui lendo, até a última linha. O resultado? Fiquei cansada.

::: O manto ::: Marcia Tiburi ::: Record, 2009, 624 páginas :::
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24 comentários | Dê sua opinião

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  2. Carlos Peixoto 24/02/2010 em 8:54 am

    Gostaria de entender porque Marcia Tiburi chegou nesta fase da vida assim descaradamente sem vaidade..Sera falta de amor ou vontade de viver? Ou esta zanzada com a vida?
    Um forte abraço e parabens pelas postagens.
    Bjo.

    Responder
    • Vanessa Souza 24/02/2010 em 10:30 am

      Carlos,
      Não posso responder. Eu apenas assisto algumas das observações dela, diante daquilo que ela deseja – ou não – passar como apresentadora de um programa. No caso desta resenha, vale mais o que foi dito sobre o livro, não minhas impressões da autora :)
      Por outro lado, muitas vezes não consigo distanciar tanto autor e obra.
      Abraço!

      Responder
  3. Cassionei Niches Petry 24/02/2010 em 10:31 am

    “Evandro Affonso Ferreira, que descubro no Google que é escritor também,”
    Escrever sobre um livro de literarura num espaço tão importante como o Amálgama e não saber quem é Evandro Affonso Ferreira?

    Responder
    • Vanessa Souza 24/02/2010 em 1:30 pm

      Cassionei,
      No dia em que eu souber tudo sobre tudo, posso preparar-me para a morte. A vida são terá mais sentido.
      O Amálgama de fato é muito importante e eu fico super feliz de estar nele. É, de fato, um imenso privilégio.

      Responder
      • Cassionei Niches Petry 24/02/2010 em 1:37 pm

        Desculpe, mas é que soou estranho o “descubro no Google”. Nunca li uma obra dele, mas como gosto de literartura, procuro ler cadernos literários dos grandes jornais e ele é sempre citado. De qualquer forma, gostei muito da tua resenha. Parabéns!

        Responder
        • Vanessa Souza 24/02/2010 em 5:05 pm

          Bem, se eu li sobre o Ferreira antes, não foi nada que fez-me lembrar dele quando escrevi a resenha, rs.

          E o tio Google é um cara bem legal.

          Obrigada!
          Abraço.

          Responder
  4. PAULO TAMBURRO 24/02/2010 em 1:11 pm

    É adversamente curioso e contraditório que Marcia Tiburi ao escrever um livro com 624 páginas, ocupando 212 daquelas, só para o seu prólogo, cite Lacan, que dos intelectuais e mestres do continuismo Freudiano – o Pai de tudo que se conhece na psicanálise – foi o que mais usou a forma de ensinamento oral para a divulgação dos seus corretos e impecáveis conjuntos teóricos sobre a mente humana.

    Prova disto é que Lacan, só em 1936, publicou seu livro: Escrits, baseado exclusivamente, nas suas conferências e curtíssimos artigos.

    Em 1973, Lacan que primava pela oralidade, enquanto instrumento pedagógico para difundir-se, publicou outro livro: Le Séminaire, mas uma vez auto-abeberando-se no conteúdo de seus , anteriores, 26 seminários .

    Não vejo estes canais da tv, fechada e desculpem a razão, mas constatei – neste e em outros programas do mesmo gênero- que as convidas ou com cadeira cativa, apesar de inteligentes, absolutamente pernósticas,ensaiando as melhores caras e bocas, e principalmente, querendo tornar-se ícones atrvés de inautênticas “personas”, máscaras dos gregos.

    E a Marcia até que é bonita, muitíssimo inteligente ,se expressa com vigor intectual admirável, mais neste livro, que não lerei, contraria a própria essência do seu autor preferido: Lacan.

    Este como já vimos era extamente, o oposto desta tendência enfadonha de alguns em escreverem livros tão prolixos, como se estivessem num mundo, no qual o meio ambiente, tivesse árvoves de sobras para servi-lhes o papel.

    E quase sempre de conteúdo literário, pífio!

    Responder
  5. Rafael Carneiro 25/02/2010 em 1:31 am

    Ao me deparar com a presente resenha me vi diante do pensamento de Lacan em relação ao “psicótico” no sentido da representação da “falta imaginária” e da “falta real”. Entretanto não partindo do pressuposto que a mãe seria tal pscicótica e sim a filha!

    Responder
  6. marina mott 25/02/2010 em 7:15 am

    Vanessa, folheei esse livro e não me entusiasmei em comprá-lo: exatamente o prólogo. Achei que tinha me enganado, que não era aquilo, mas era. Você, que gosta tanto de ler, deve entender minha relação com os livros … gosto até, e muito, do cheiro. Mas, tenho por vezes um sexto sentido e, desta vez, pelo visto, não me enganei. Normalmente, coisas belas vêm de quem gosta do belo…
    Ótima resenha.

    Responder
    • Vanessa Souza 25/02/2010 em 8:51 am

      Marina,
      O belo, assim como o superflúo, é fundamental!
      Obrigada e abraço.

      Responder
  7. Fabi 25/02/2010 em 8:13 am

    Mães e filhas são extremamente próximas. Por isso, acabam enxergando falhas e defeitos que ninguém mais detecta. E se dão o direito de mencioná-los. Acredito que filhas somente entenderão mães quando assumirem esse papel. Desejo que em breve possas passar tambem por essa experiência, mas você esta muito certa em não ter pressa, afinal, é uma decisão sem volta e para toda essa existencia terrena. Obrigada por mais uma resenha. : )

    Responder
    • Vanessa Souza 25/02/2010 em 8:49 am

      Lindinha,
      Mães suficientemente boas são próximas de suas filhas. Tivemos uma. E você é uma para sua pequena Capitu.
      Rsss, a maternidade é um caminho sem volta. Há que se ponderar…
      Disponha!

      Responder
  8. Ana Cecília Moura 01/03/2010 em 4:53 pm

    Vanessa, é sempre um prazer deparar-me com sua escrita fluida e espirituosa, diferente, suponho, do conteúdo encontrado em “O Manto”. Gostei em particular das metáforas utilizadas por ti no último parágrafo, ri bastante com a imagem de sufocamento sob calor de 40 graus…
    Em relação à autora, não posso dizer se gosto ou desgosto. Já presenciei colocações bastante interessantes da mesma no programa, mas sua posição de feminista radical por vezes beira à falta de compreensão do humano. Talvez ela própria devesse vestir um manto de humildade para dar um tempo no pedantismo. É implicância minha ou ela por vezes passa um certo ar de superioridade?
    Preciso admitir, no entanto, que do grupo é a mais inteligente, e a que melhor defende seus argumentos. Colocando na balança, bem, penso como vc, é 50%. Graças à sua resenha enfrentarei o verão que nos resta com algo menos denso e pesado que um ‘manto’…
    Beijos.

    Responder
    • Vanessa Souza 01/03/2010 em 6:09 pm

      Ciça,
      Carnaval não combina com livro pesado. Embora, minha impressão seria a mesma até no inverno rigoroso do sul.
      A Tiburi tem mesmo boas sacadas, mas nem sempre ela coloca-as de forma agradável.
      Eu gosto muito da frivolidade da Beth Lago – que também é inteligente.
      Lembro-me de um programa, em especial, que a Marcia veio com umas frases feministas meio pesadas e a Lago disparou:
      - Semana que vem você vem para o programa vestida de terno e gravata. Rsssssssssss.
      Uma mulher pode ser inteligente, vestir-se bem e ter um pouquinho de doçura. Ou não pode?
      Leitura boa de fim de verão é a portuguesa Inês Pedrosa – acabei de comprar a obra dela todinha.
      Beijos.

      Responder
  9. Ju Dacoregio 07/03/2010 em 6:18 am

    Também gosto e desgosto de Marcia Tiburi, assim como de Fernanda Young. Mas nunca li um livro da Marcia para poder dar um parecer a respeito e acho que não será esse que lerei. Livros cheios de notas de rodapé são mesmo cansativos, principalmente se não forem didáticos ou acadêmicos (e mesmo assim as notas são cansativas, mas nesse caso somos obrigadas a lê-las). Talvez ela tenha gostado tanto de tudo que escreveu, ou achou tudo tão essencial para a obra, que preferiu não cortar nada. E cortar também faz parte do ato de escrever.

    Responder
    • Vanessa Souza 07/03/2010 em 12:11 pm

      Juliana,
      Não há como saber. Só perguntando para a Tiburi…

      Responder
  10. Fabio Rocha 12/03/2010 em 7:21 pm

    Parece um porre esse livro. :)

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  11. Glória 09/07/2010 em 7:14 am

    Não li o livro, portanto não posso tecer comentários a seu respeito. Porém, conheço a autora e como a admiro! Para mim era um prazer ligar a tv e ver que no meio daquelas quatro mulheres do “Saia Justa” uma se destacava. Não pela beleza clicheizada (eu a acho bela), não pela frivolidade como colocaram acima sobre Bete Lago, mas pela inteligência. Se tem ar de superioridade, paciência, fazer o quê? Mesmo assim, nunca a vi ofendendo, agredindo, dirigindo-se de forma exaltada para nenhuma das outras que por várias vezes mereciam mesmo um “deixe-me falar”. Aprendi a admirá-la por seus conhecimentos que tanto enriqueceram os meus, por suas citações de livros algumas vezes bons, outras nem tanto. É verdade, o belo sai de quem admira o belo, pois Márcia Tiburi é para mim a supremacia da beleza no seu sentido mais sublime: beleza, inteligência e bondade. Como sei que ela é bondosa? Só alguém com essa qualidade poderia (re)citar o poema de Fernando Pessoa, “Passagem das Horas”. Enfim, só gostaria de deixar registrada a minha opinião sobre ela para que não se confunda com o livro. E, mesmo que o livro seja ruim, será igual ao sexo: ainda é bom.

    Responder
  12. Glória 12/07/2010 em 1:04 am

    Vanessa,
    só quis dizer que, mesmo ruim, algum sexo é melhor que nenhum. A metáfora vale para o livro que agora vou ler.
    Um abraço!
    Glória

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