Sérgio Bianchi e as aporias do Brasil

por Diego Viana – Os criadores, mesmo os mais presunçosos, são capazes de evoluir e, em se tratando de cinema brasileiro, Os Inquilinos serve como prova. Digo isso porque 2010 marca os dez anos de lançamento de Cronicamente Inviável, longa-metragem mais célebre de Sérgio Bianchi. Agora que chega às telas seu filme mais recente, parece interessante comparar os dois filmes e ver como se desenvolveu a obra do cineasta. Então sigo essa linha nos parágrafos abaixo.

Os Inquilinos se passa nos arrabaldes de São Paulo, onde vive a família de Valter (Marat Descartes em atuação formidável), carregador de frutas do Ceasa e estudante do supletivo noturno. É 2006 e o crime organizado impõe sua lei a São Paulo, queimando ônibus e fechando o comércio, como há de se lembrar qualquer morador da cidade. A esposa de Valter, Iara (Ana Carbatti, também ótima), é “do lar”, como se diz, e cuida das duas crianças, Fernanda (Andressa Néri) e Diogo (Lennon Campos). Tudo vai bem até que o vizinho de muro, seu Dimas (Umberto Magnani), é obrigado a dividir a casa com três novos inquilinos, jovens de aparência ameaçadora e hábitos pouco ortodoxos. A tranqüilidade da rua vai pelos ares, claro: os rapazes mexem com as meninas da rua, dão festas madrugada adentro, se metem em brigas e, resumindo, rompem o equilíbrio comunitário em que vivem as populações brasileiras que não podem contar com as leis e demais instrumentos do Estado.

Valter, como todos no entorno, conclui que algo precisa ser feito. O quê? Estamos no Brasil, ou seja, não se pode recorrer à polícia ou à lei. Os mais jovens querem brigar, mas Valter reconhece que essa é uma alternativa irracional e inviável. O pai de família exemplar se descobre impotente para proteger os seus, de sorte que a vida na casa passa a girar em torno do impasse. Enfim, como sói acontecer nos filmes, a crise se precipita; mas deixa no lugar aquilo que, na realidade, há de mais instigante na história: o comportamento alterado, provavelmente para sempre, de todos à volta do personagem de Marat Descartes. Atônito, ele entende, e o espectador também, que a honradez que lhe incumbia defender não tem mais lugar, nem mesmo entre as “pessoas de bem”. O impacto das décadas de violência sobre a sociedade brasileira é retratado no que tem de mais sutilmente pernicioso, que é a mentalidade de cada um, individual e coletivamente.

Ao contrário de Cronicamente Inviável, Os Inquilinos tem lá sua parte de qualidades cinematográficas. Elipses, cortes, momentos de suspense e de humor, um ou outro plano criativo, um bom ritmo. O desfecho altamente previsível é compensado pela nova perspectiva sobre os personagens, isto é, a mudança comportamental, que acaba sendo o grande argumento do filme, embora discreto. (Digo que o desfecho é previsível porque, logo no início, somos apresentados a um personagem a quem só falta uma placa dizendo: “simpatize comigo”. Não há surpresa alguma que essa seja a grande vítima…)

Persiste, porém, uma certa leviandade de linguagem de que o diretor tem dificuldade em se livrar. Por exemplo: no primeiro plano, somos apresentados ao enquadramento belo e simbólico de uma favela, centrado sobre a única árvore da paisagem. Mas o primeiro plano de um filme narrativo como este transmite ao espectador a idéia de ambiente, locação. Como o enredo não se passa em favela nenhuma, toda a simbologia da imagem cai por terra. Ao mesmo tempo, ouvimos o ronco perturbador da turbina de um avião que pousa. O espectador logo entende que o aeroporto está próximo. Mais tarde, porém, vemos, focada e em primeiro plano, a linha de ônibus que o protagonista toma para ir trabalhar: Valo Velho – Pinheiros. Ora, todos os aeroportos de São Paulo ficam do lado oposto da cidade. Ou seja, o avião é só um efeito de sonoplastia que pareceu chocante no estúdio. Resultado: o espectador que se dá conta disso é imediatamente atirado para fora da ilusão e, portanto, também do filme. A um cineasta que, por capricho, aliena assim seu público, logo nos planos que o situam e absorvem, certamente falta algo.

-- O diretor Sérgio Bianchi --

Mesmo assim, reitero que se trata de uma grande evolução em relação a Cronicamente Inviável, que era chapado, linear e panfletário – e só estou falando da linguagem. Já Os Inquilinos deixa espaço para o espectador interagir e dialogar com o filme, tentando antecipar o desenrolar da trama, interpretando as atitudes das personagens, questionando aqui e ali a representação do quotidiano brasileiro, comparando-a com suas próprias concepções, e assim por diante. É uma obra mais rica, em outras palavras.

Quanto ao discurso, Cronicamente Inviável parecia concebido para reverberar as queixas de uma certa classe média alarmada e de consciência culpada, no estilo Regina Duarte em propaganda política. O filme de 2000 faz pouco mais que elencar lugares-comuns, alguns até verdadeiros, que a pequena-burguesia brasileira adora repetir sobre o país: que os ricos são pilantras, deslumbrados com um ideal europeu; que os pobres são indolentes e arredios; que jamais seremos “civilizados”. Sobra até para os taxistas, aliás. O próprio título é um velho lamento de quem toma vinho em Ipanema, embora hoje esse tipo de ideia esteja restrito ao leitorado da Veja.

Os Inquilinos pressupõe um público bem mais qualificado. Ainda resta um certo ranço elitista, principalmente na associação um tanto confusa entre pobreza, miséria, bagunça, feiúra, vulgaridade e rancor. Mas os personagens têm uma verdadeira profundidade e agem de fato, motivados e cerceados pelas circunstâncias que os cercam, ainda que apresentadas de maneira algo estereotipada, como convém à visão sobre o subúrbio de uma burguesia que se sente acuada. Os impasses urbanos do Brasil se materializam na tela, em vez de serem apenas descritos, como em Cronicamente Inviável. Também sentimos tomar corpo, de fato, o abandono do cidadão, do indivíduo apanhado no fogo cruzado entre o Estado não raro criminoso e o crime privado. Podemos perfeitamente imaginar o desenvolvimento subseqüente das personagens, porque são bem construídas, ricas, freqüentemente ambíguas como é o ser humano.

Essas qualidades são o fruto de um roteiro bem construído. A enorme superioridade de Os Inquilinos sobre Cronicamente Inviável é justamente o ganho de polissemia proporcionado pela escrita caprichada. Graças a isso, a tal mudança de comportamento pode ter lugar e se apresentar como ponto alto do filme. Se vale a pena pagar ingresso para vê-lo (e vale, à parte as alfinetadas dos parágrafos acima), é porque esse detalhe sutil escancara algo que talvez seja o legado mais pernicioso das décadas de violência e esfacelamento social do Brasil recente. O mesmo vale para a relação de Valter com seu superior imediato no trabalho: rompido o equilíbrio, as estruturas se revelam tomadas por cupim. Preste atenção nesses detalhes.

A notar, também, a participação de Cássia Kiss como professora de português e toque de esperança. Suas aulas aparecem como uma espécie de balanço dos eventos que acontecem no mundo exterior. São momentos de bastante poesia, literal (lêem-se poemas) e figuradamente. Por outro lado, Caio Blat, em suas pequenas intervenções, atinge altos picos de canastrice, quase a ponto de comprometer as cenas de que participa. Vendo o filme, tente pensar em outra coisa. Por exemplo, no fato de que esta obra muito menos pretensiosa consegue aquilo que Cronicamente Inviável não conseguiu: resumir as aporias do Brasil.

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* O filme estreia em circuito comercial dia 26 de fevereiro. Ficha técnica + vídeos + fotos. Trailer

2 comentários | Dê sua opinião

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  2. ATEÍSTA Pedro Paulo Netto 08/03/2010 em 11:27 am

    O filme “The New Tenants”, dirigido por Joachim Back, conquistou na noite de hoje o Oscar de Melhor Curta-Metragem.
    É um outro olhar gringo e ganhou um Oscar, será que não está na hora de nossos cineastas começarem á fazer o mesmo?
    E novamente Perdemos para os Hermanos que mais uma vez ganharam o Oscar de Filme Estrangeiro.

    Responder

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