O neomoralismo como trunfo da direita nas eleições fluminenses
por Maurício Caleiro * – É lugar-comum ouvir, no Rio de Janeiro, que o estado “não dá sorte com políticos”. A afirmação condiz com a autocomiseração que se apossou do espírito de muitos fluminenses, a qual pode ser atribuída a uma série de fatores, desde o fim da Guanabara e a transferência da capital do país para Brasília, passando pelos muitos anos de crise econômica e decorrente decadência, e chegando, enfim, ao que alguns comentaristas afoitos, mais suscetíveis às manchetes da mídia do que à realidade de seu próprio cotidiano, chamam de “guerra civil”.
Com isso não se quer dizer que o Rio não seja uma cidade violenta nem que seus políticos não fiquem entre o ruim e o péssimo. O que ocorre é, em primeiro lugar, que a violência não é onipresente e ininterrupta como certas corporações midiáticas – que ignoram objeções metodológicas relevantes para a contabilidade criminal – querem fazer crer, com a evidente intenção de assegurar a manutenção de um alto poder de manipulação da opinião pública. E que tal escalada da violência urbana não se encontra dissociada de um movimento internacional de criminalização da pobreza, de inspiração neoliberal, o qual, dada a peculiar topologia urbana do Grande Rio, é em tal área metropolitana agravado.
Em segundo lugar, é altamente questionável se o nível dos políticos que atuam no estado do Rio de Janeiro efetivamente difere do da maioria dos demais políticos do país. Afinal, grandes e ilibadas figuras da política brasileira como Yeda Crusius (PSDB/RS), Jader Barbalho (PMDB/PA), José Roberto Arruda (DEM/SP), Arthur Virgílio (PSDB/AM) e Gilberto Kassab (DEM/SP) não pertencem à fauna política fluminense.
Claro está, porém, que a soma de baixa auto-estima – que, espera-se, esteja em processo de reversão devido a fatos novos como a revitalização de setores da indústria da região e a escolha do Rio de Janeiro como cidade-sede das Olimpíadas – com a longa tradição que o udenismo de Carlos Lacerda (1914-1977) e Sandra Cavalcanti desfruta no estado torna o eleitorado fluminense particularmente suscetível às manifestações de neomoralismo que infestam a política brasileira atual, algumas das quais debateremos em breve.
Há de se considerar, ainda, que muitos consultores políticos alegam que o que antigamente denominava-se “nível de formação de um quadro político” – ou seja, a soma de formação educacional, nível de conhecimento de história e de teoria políticas, grau de convicção ideológica, leque de relações com diversos setores da sociedade e com entidades internacionais, e capacidade pessoal de comunicação de um determinado político – conta cada vez menos na era do marketing político e das grandes corporações telecomunicacionais e financeiras. É uma hipótese a ser devidamente analisada, embora confesse que, a princípio e a partir de uma visão estritamente pessoal, tenho minhas dúvidas.
Um político por demais volúvel
Há, porém, exemplos que a corroboram de maneira cabal. Tomemos como objeto de análise uma figura que há tempos tem sua trajetória política – oficial ou clandestina – ligada ao Rio de Janeiro: o hoje deputado Fernando Gabeira (PV/RJ).
Trata-se de um cidadão com um alto nível de preparo intelectual, profundo conhecedor de história e de teoria políticas, dono de um texto fluente e com traços pessoais distintivos – e de uma aguda capacidade analítica -, que já ocupava uma posição de algum destaque nos meios culturais cariocas – chefe do prestigioso setor de pesquisa do Jornal do Brasil, no período áureo do jornal – quando decide largar tudo e ingressar na luta armada.
Participa do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, é ferido, preso e torturado. Deixa o país como um dos 40 prisioneiros políticos trocados pelo embaixador da então chamada Alemanha Ocidental, Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Holleben, sequestrado de forma espetacular pela VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).
Retorna do exílio com um novo feixe de preocupações políticas, que transcendem o foco exclusivo em temáticas marxistas – como luta de classes, “ditadura do proletariado” e o embate entre acumulação capitalista e exploração da força de trabalho – passando a privilegiar questões comportamentais, de gênero, ecológicas, de defesa de minorias (como prostitutas e transexuais) e de temas como a legalização da maconha. Torna-se, ao mesmo tempo, um misto de guru e celebridade da contracultura e escreve livros que venderam muito – embora tenha sido acusado de neles superdimensionar seu papel na luta contra a ditadura, diminuindo o de companheiros de luta.
Passado o impacto de sua volta à cena brasileira, aos poucos é obrigado a, num choque de realpolitik, retornar à política institucional – primeiro pelo PT, depois pelo PV, que ajudou a fundar. Torna-se, ao menos na aparência, um parlamentar algo sui generis, que vai ao Congresso pedalando uma bicicleta pelas ruas de Brasília e veste-se de forma mais inventiva do que seus pares.
Pois bem. Esse personagem que preenche praticamente todas as qualidades elencadas parágrafos acima como distintivas de um “quadro político de alto nível”, a partir de um determinado momento, por um misto de picuinhas e disputas pessoais, falta de espaço político e ambição individual, abandona os ideais de esquerda que durante uma vida defendeu e alia-se à pior direita, o que lhe abre imediatamente as portas – e as capas – da mídia corporativa acostumada a debochar de sua figura (e a ser por ele em seus livros ridicularizada). Em decorrência, vê-se elevado também à condição de ídolo de setores da classe média alta fluminense que sempre o rejeitou.
O neomoralismo como show eleitoral
O preço pago por esse “novo” Gabeira para ingressar no clube tucano-midiático foi a adesão ao neoudenismo (leia aqui a carta aberta que escrevi ao camaleônico político) . À mínima oportunidade, nosso herói, paladino da ética e dos bons costumes, ergue o dedo acusador contra os adversários. Às vezes, o resultado é, do ponto de vista midiático, fantástico, como no chilique contra o ex-presidente da Câmara Federal, Severino Cavalcanti (PP/PE) – lembram dele? –, que rendeu votos e vídeos reproduzidos à exaustão nas Globos e Vejas da vida.
Porém, da última vez deu chabu: após dias erguendo o famoso indicador inquisidor contra seus pares que torravam, sem o mínimo critério, suas cotas de passagens aéreas com familiares e quetais, Gabeira, na iminência de ser descoberto pelos sites de observação do Congresso – que vasculhavam as contas dos parlamentares, descobrindo a cada dia novos implicados no escândalo -, sobe ao palanque para, com o riso amarelo, admitir que ele não era a vestal que acostumara-se a encarnar: também tinha culpa no cartório e utilizara sua cota de passagens com viagens de parentes. Ou seja, suas diatribes e lições de moral públicas não passavam de um de falso moralismo.
Mas o paladino do neomoralismo não perdeu facilmente a pose, e ainda teve a cara de madeira de, no mesmo discurso, exaltar sua própria lisura em se auto-incriminar. Pessoa inteligente que é, Gabeira sabe que, para um eleitorado que reelege até Arruda após este derramar umas lágrimas de crocodilo, importa a performance, não o conteúdo. The show must go on.
Após concordar em silêncio com a legislação que restringiu o uso da internet nas eleições – indo contra tudo o que sempre defendeu em relação ao tema -, a última de nosso herói deu-se o mês passado: após comprometer-se com a candidatura presidencial de Marina Silva (PV/AC), resignando-se a sair como candidato ao Senado para viabilizar acordos no âmbito da eleição a governador do Rio de Janeiro, ele deu mostras de que vai voltar atrás. Deve candidatar-se ao governo numa chapa apoiada pelo DEM de Cesar Maia, o PPS do também cameleônico Roberto Freire (PE) e o PSDB de José Serra (SP), o candidato de Gabeira à Presidência. Ao menos se não mudar de ideia nos próximos dias – o que, dado seu retrospecto, não é nada difícil.
A propósito, um dado quase humorístico de tão inverossímil dessa nova decisão do candidato é a declaração de Gabeira de que apoiará “unicamente” Marina Silva – e não José Serra, que é o principal articulador e fiador da candidatura do senador verde ao governo. Acredite se quiser.
Cabe ao eleitor fluminense decidir se elege ou não Gabeira na companhia dessa turminha braba, seja ao Congresso nacional ou ao Palácio das Laranjeiras. Só não vale depois dizer que “O Rio não dá sorte com políticos”.
* Maurício Caleiro, Rio de Janeiro-RJ. Blog: cinemaeoutrasartes.blogspot.com. [imagem na abertura: "The Portriat of Dorian Gray" (The Alcorn Studio & Gallery)]
leia mais

















Pingback: Alex Castro
Senhor Maurício Caleiro, não sou do Rio de Janeiro, e ler opinião sobre a política local sempre se esclarece e se agradece. Como creio ser a média dos brasileiros, uma visão simpática de figuras como o Suplicy, Marina Silva e Gabeira, evidentemente construída pela grande mídia.
Interessante ler o vosso, outro ponto de vista, contrário ao meu preconceito favorável ao Gabeira. Nesse sentido de formar um juízo, equilibrando as informações positivas, com as suas informações dele como exibicionista, deformador de fatos, corrupto com falso moralismo, politicamente de duas ou mais caras, uma atuação política cheia de falsidades, neoudenista (que ignoro o que seja na política local), enfim percebe-se Gabeira como a serpente da fábula que é afável no inverno e sendo aquecida na lareira pica mortalmente a família que a briga. Gabeira como vil, peçonhento, mentiroso e vulgar. Ótimo, sendo afirmativas esses caracteres, temos todos do Brasil sair correndo com pau e pedra para espantar tal serpente, e demais serpentes.
Pergunto, a mudança de alianças não se deve a todos os políticos? Que a política vive da realidade dos fatos da supremacia social? Ou seja, sobre novos dados da realidade nenhum político se apóia em pressupostos fracos e derrotáveis.
O senhor não tece para um estranho à política do Rio de Janeiro, esclarecimentos sobre o campo de poder político global, sobre as forças que se aliam ou digladiam com o Gabeira. Pergunto se o quadro político do Rio de Janeiro é um bom exemplo de retidão ilibada, pois a mídia nacional assim não o apresenta e pior, o caracteriza como um dos mais desfavoráveis do cenário nacional. Peço esclarecimentos sobre os adjetivos anti Gabeira, em relação aos aliados e especialmente aos seus adversários.
Vossa abalizada crítica ao quadro dos adversários do Gabeira me ajudaria a compreender melhor um fenômeno que está sendo enraizando em certos setores da opinião pública brasileira. Explico. Nos Estados Unidos é mal visto atualmente empregar ao meio de um debate político social, o termo “me calo, pois não discuto com nazista”. É um truque banal, diante de uma análise difícil da dialética da realidade, ganhar a discussão chingando o oponente de ser nazista. No Brasil ocorre o mesmo, quando não se tem argumentos chingar ao adversário de direitista. Para um setor da opinião pública se você vota em Sarney, você é de esquerda, querendo dizer ser honesto, não corrupto e atuante pelo bem público, acima de interesses individuais privados. Se você apóia posições de Marina Silva, Gabeira, e Serra, quer dizer apóia a direita, defendendo quem é corrupto e usurpador dos bens públicos para seu interesse privado. Atualmente, qualquer um será tachado de direitista, se criticar o senhor Luiz Inácio, por ter assinado uma legislação que tem 50 itens que chocam com os direitos constitucionais, entre elas o direito do presidente da república em censurar os jornais brasileiros. Por exemplo, Gabeira erradamente usou dinheiro público para uma viagem de sua filha, mas se apoiar ao presidente Luiz Inácio, ele será tido por esquerdista e do bem. E Sarney que há décadas espolia seu estado empobrecido para seu enriquecimento pessoal, apoiando ao atual presidente toma-se bondoso e esquerdista. Pergunto gentilmente, Senhor Maurício Caleiro, o senhor sem o querer, não estaria assumindo uma postura não crítica, em tomar rigidamente a referência de um indivíduo como o abalizamento do bem e do mal? No nordeste entendo que um eleitor pobre e não sendo blindado a tiros de jagunços, apóie ao coronel nordestino como o abalizador da verdade, mas no digno, esclarecido, e rico Rio de Janeiro me espantaria muito o apego ao coronelismo mental.
Os adjetivos que o senhor cobra ao Gabeira, de corrupto, politicamente dúbio, demagógico estrelista, gostaria de interrogar sobre como o quadro político local adversário ao Gabeira e que apóia ao presidente Luiz Inácio/ Dilma Rouseff, e se enquadraria nele.
Agradeço o alerta crítico do seu bem escrito texto, pois a grande mídia não nos mostra políticos do Rio de Janeiro, devolvendo numerários adquiridos do interesse público e pedindo desculpas por seu ato como o Gabeira o fez, que agora levo em conta vossas suspeitas de que o fez de má fé, como mais um jogo de cena, tal qual quando ele usava sunga de tricô na praia de Ipanema. Eu carreguei durante décadas as bandeiras do PT e espantado espero meas culpas e devolução do montante de milhões roubados do meu/nosso erário público, para analisar se perdoarei esses políticos situacionistas, em que votei durante décadas, e que são atualmente inimigos de Gabeira.
Enfim gostaria de contar com a mesma adjetivação crítica que o senhor aplica ao Gabeira, que a aplique aos situacionistas da política do Rio de Janeiro, estendendo ao senhor Luiz Inácio e a senhora Dilma Roussef, que esses políticos apóiam à presidência da república.
Eu sou eleitor de Lula desde a primeira campanha. Sempre fui eleitor de esquerda. E votei no Gabeira sempre, também. Já transitei por vários canais da esquerda. Isto posto, posso afirmar: no prostíbulo da vida política e/ou partidária não se aponta com o dedo nú.
Se o que você escreve fosse originado de um pensamento realmente independente, distante da vantagem financeira ou do interesse pessoal, eu o apoiaria, com ressalvas. Mas apoiaria. Desde que em nome da vida honesta e ilibida. Porém, estando você a soldo governamental, nãoposso endossar o que diz. E mais: com seu texto você só revela sua invídia.
Essa estratégia – sim, há um planejamento partidário e uma intenção em cada palavra e ponto colocados – que as ditas forças de esquerda tentam empreender no debate político, supondo que o fazem com a melhor das intenções, contra todo aquele que manifestar independência de pensamento, é de uma tacanhez assustadora.
Político de “boa cêpa” ainda está pra nascer. E em nosso Brasil varonil só ocorrerá quanto mais distantes da Belíndia estivermos. Ou seja, quanto melhor for a nossa sociedade.
Para não atacar ou elogiar Marina Silva diretamente, afinal é ex-companheira há pouco tempo, tenta desqualificar seus apoiadores.
Mas como o tema não é Marina, mas um político carioca, preciso dizer que há mais honestidade e coerência na trajetória de Gabeira, do que na questão moral levantada pelo Sr. Mauricio Caleiro.
Essa nova geraçãode trolls é realmente muito divertida. O mais hilário é que sempre começam tentando disfarçar a baboseira direitista que vem a seguir. Acusar os outros de estarem “a soldo” então, é de gargalhar. Melhoram meu humor!
Uaí? Porque eu discordo do que dizes me convertes num troll?
E quando disse “a soldo”, o fiz baseado neste informe:
http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=3118
Desconhecia que tu tinhas um homônimo no MEC. E ainda por cima, jornalista como tu. Desculpe.
Não é homônimo, sou eu, mas a nota do MEC que você cita é de 2004, tempo em que trabalhei lá alguns meses, por ter passado em concurso para temporário promovido pelo governo FHC. Desliguei-me do cargo em julho do mesmo ano.
Mas mesmo se fosse o caso – e eu fosse funcionário público – isso não tiraria o meu direito de expressar a minha opinião sem ser acusado de “estar a soldo” de governo, pois funcionários públicos concursados servem ao Estado, não ao poder de turno.
Se você não é troll, desculpe. Mas fosse se expressa e faz acusações levianas idênticas a deles.