O trágico espetáculo da vida em O Anticristo de Lars von Trier
“A Igreja falsificou até a história da humanidade
para transformá-la em uma pré-história do
cristianismo…”
Nietzsche
por Maria Ivonilda * – Enquanto alguns lêem a obra como um elogio à misoginia, argumentando que a mulher (Ela) descrita por Lars von Trier tem uma natureza má, perversa e que precisa ser curada, outros buscam entender os motivos que levaram o cineasta a construir uma narrativa tão insultuosa, que tem sido alvo das críticas mais variadas, desde sua primeira exposição no tradicional festival de Cannes. A resposta não é imediata, mas as perguntas não devem ser simplesmente abandonadas, pois um cineasta com um histórico tão rico, que realizou obras como Europa (1991), Ondas do destino (1996) e Dogville (2003), merece o mínimo de atenção.
Seguindo essa linha de raciocínio, podemos reconhecer uma sofisticação presente em O Anticristo, que parece ter mais afinidade com as sentenças encontradas em obras cáusticas e imortais, como a obra homônima de Nietzsche, do que com a ideia comumente divulgada de que o cineasta idealizou a obra em momentos sombrios, marcados por pesadelos e depressão, errando assim na condução desta obra em especial.
Analogicamente falando, a profundidade requer um “mergulho” dentro das mais pesadas críticas ao comportamento de uma sociedade doentia, que se torna mais perniciosa na medida em que alimenta a crença em modelos de padrão e excelência humanos.
Em O Anticristo, von Trier explora a fraqueza humana enquanto debilidade ocasionada por uma imposição cruel de um padrão de vida e ideal de homem, típica de doutrinas por nós conhecidas. Se Ele e Ela não têm nome é para que possamos nos distanciar de avaliações psicológicas, fisiológicas, enfim, do charlatanismo identificado em métodos que se dizem infalíveis. O sofrimento do casal corresponde ao envenenamento dos nossos impulsos mais primitivos, à negação da nossa natureza; apesar de o objeto ser tomado de forma mais abrangente e menos maniqueísta – no sentido de não contrapor simplesmente a cultura à natureza do bom selvagem. O perigo, a maldade e a perversão neste filme são reais, fazem referência à vida, à cultura, à história. Trier usa os estigmas mais caros à sociedade para mostrar que eles existem e se multiplicam na medida em que os instintos vão sendo reprimidos de forma violenta. É nesse sentido que há o resgate de um “referencial” que serve para situar o contexto.
Avaliando o histórico do diretor, encontramos Bess, personagem representado por Emily Watson em Ondas do destino. Neste filme a ideia de culpa é mais explícita. Bess, que possui uma personalidade forte e parece desconhecer limites, trava uma luta contra todos aqueles que insistem em personificar o mal através dos instintos, impulsos e desejos. Mas, como é de se esperar, o nível de corrupção corporal e mental é grande, o que impede a personagem de perceber a causa de sua dor: a culpa por não conseguir renunciar aos seus instintos em busca de ideais caducos e “sentimentos elevados”.
Moral e religião têm destaque porque merecem destaque, seus valores decadentes são o verdadeiro mal – e um mal contagioso! Suas ideias de homem, mulher, casamento e sociedade perfeitos são apenas sintomas da doença que iguala o homem ao animal indefeso, ao rebanho.
O vestígio que o cineasta nos deixa logo no início do filme, o prólogo encantador, é uma denúncia da ilusão e também representa o “fio” condutor da narrativa. A criança e tudo que vem antes da sua queda é o melhor mundo possível, o mundo das instituições tradicionais que ensinam, difundem práticas e pregam valores. Já o sexo é um dos elementos corruptores desses ensinamentos, enquanto a queda representa o pecado, a violação de ideais de Bondade e Beleza.
Por que Eles se refugiam na natureza? As doutrinas descrevem a natureza como irracional, algumas vezes até como má. Talvez porque ela possua tudo aquilo que subsiste, seja a fonte inesgotável de vida (bios), ou mesmo represente os instintos, a indiferença quase que total à padronização. A natureza tem uma organização própria e não se sujeita ao transcendente; é primitiva, não cultivada. É neste espaço que Eles buscam encontrar a força da qual necessitam para resistir à tortura a que foram submetidos. É na natureza que Eles tentam buscar o equilíbrio, tentam recuperar – alcançando aquele estágio primitivo apontado anteriormente – as forças.
Para concluir a linha de raciocínio, perguntamo-nos a respeito do final trágico: devemos pensá-lo em sentido alegórico ou literal? Ambos. Alegoricamente Trier recorreu à imagem de Eva, aquela mesma da criação, que foi seduzida pela maldade. Mas também recorreu às personificações medievais, as mulheres bruxas, perturbadas por algum espírito maligno. Ainda imaginou as modernas, a mulher sempre em situação inferior por não ser capaz de administrar a posição racional devido a sua tendência à maldade. Neste sentido, a leitura clássica acerca da condição da mulher se cruza com as atuais condições em que nos encontramos. Num possível mundo melhor, Ela assumiria a sua posição vital de ser humano forte, recuperaria a consciência e não seria degradada, fracassada. Toda a condição moral na qual ela se encontrava quando culpada seria superada, pois a luta contra a decadência seria vencida. Se assim podemos entender, Ela superou, de fato, duas das três etapas desta luta: ela sobreviveu e juntou forças, mas não atingiu o poder. Ou ainda, foi exterminada: na hora em que iria se apropriar do seu poder – de direito –, sofreu uma sabotagem.
Se o filme é uma obra-prima? Provavelmente alguma falha no roteiro ou mesmo o distanciamento dos personagens provoca a sensação de que a mensagem poderia ser mais bem conduzida. Mas, sem dúvida alguma, esta obra cinematográfica é importante por nos fazer recuperar a consciência, principalmente do que parecemos ignorar.
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![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)

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Muito bom.
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Ta’ , todos comentários validos e ampliadores , mas , voltando ao mundo Patriarcal , e o joguete na mao d`Ela?
Gostaria de analises nesse ponto…
E depois de Lilith ter criado seu monstrinho de pes tortos , conseguiu tirar Ele da sanidade , e tocar o caos…
Ele virou o Senhor do caos…
E sem Ela , nao viraria?
Se Ela O Criou , então Ela , nao seria Lilith , mas Ela seria Zeus , digo Deus..
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O anticristo já chegou e está entre nós.É um paladino,ecumênico,ambientalista,prega a paz seu nome significa oceano de sabedoria.Todos o conhece como Dalai Lama foi renomeado Jetsun na gematria do Hebraico e do Inglês seu nome soma 666.Ele chegará ao dominio global através da “o.n.u”a besta de 10 chifres do apocalipse.Mas sua manifestação só acontecerá depois do arrebatamento.Jesus está voltando.Maranata!
Gostei muito do comentário deste maravilhoso filme. Parabéns!
Olá! Gostei da sua leitura do filme. Acabei de vê-lo e sou obrigado a dizer que senti o mesmo desconforto que senti ao ver Dançando no escuro, Manderlay e Melancholia – e esse desconforto não é apenas o positivo, o de pensar e parir algum modo novo e mais rico de pensamento. A obra do von Trier à luz das declarações dele em Cannes infelizmente se tornam outra coisa… Mas se matamos o autor como sugere Barthes, a perspectiva muda de novo… embora ainda sobrem alguns equívocos ou provocações perversas da parte do autor… Principalmente sobre as mulheres…
Há muito o que discutir sobre este sr, sem dúvida. Como todo gênio, ele é meio louco – só que a loucura dele é destrutiva (e novamente, não no “bom” sentido).